Três anos de ChatGPT e o mundo dividido entre adeptos e céticos da IA
Três anos depois do lançamento do ChatGPT, o mundo se dividiu em dois grupos bem distintos: quem usa ferramentas de IA no dia a dia e quem ainda prefere ficar longe delas. E essa divisão está crescendo mais rápido do que parece.
Uma pesquisa do Pew Research Center, publicada em 2025, revelou que um terço dos adultos americanos já utiliza o ChatGPT regularmente. Entre os jovens com menos de 30 anos, esse número chega a 58% — praticamente o dobro do que era dois anos atrás.
Com esse crescimento todo, especialistas alertam que é hora de ter uma conversa mais aberta sobre como usar essas ferramentas de um jeito que realmente faça sentido — e com responsabilidade. 🤖 Afinal, não basta só usar. É preciso saber quando, como e, principalmente, para quê.
Pensando nisso, consultamos especialistas para entender os melhores caminhos para aproveitar a IA em áreas como criatividade, pesquisa, aprendizado e organização — sem abrir mão do julgamento humano no processo.
O que especialistas dizem sobre o uso responsável da IA
A conversa sobre uso responsável das ferramentas de IA vai muito além de simplesmente evitar erros ou não compartilhar dados sensíveis. Segundo especialistas em tecnologia e comportamento digital, o ponto central é entender que a IA funciona melhor quando ela complementa o raciocínio humano, e não quando tenta substituí-lo completamente. Isso significa que, antes de entregar qualquer tarefa para uma ferramenta como o ChatGPT, o Claude ou o Perplexity, vale a pena ter clareza sobre o que você quer alcançar com aquela resposta, porque a qualidade do que você recebe depende diretamente da qualidade do que você pergunta.
Outro ponto que costuma aparecer nas discussões sobre responsabilidade é o da verificação. Ferramentas de IA podem gerar informações incorretas com uma confiança impressionante — o que os especialistas chamam de alucinação —, e isso é um risco real, principalmente quando o assunto envolve dados, datas, nomes ou qualquer informação que precise ser precisa. Catherine Goetze, criadora de conteúdo e educadora de IA conhecida como @askcatgpt no TikTok, reforça esse ponto de forma direta: cheque suas fontes, cheque os links e cheque as datas das fontes. O consenso entre pesquisadores da área é que o usuário precisa manter o hábito de verificar tudo, especialmente quando o conteúdo gerado vai ser compartilhado publicamente ou usado em contextos profissionais e acadêmicos.
Há também a questão do impacto a longo prazo no desenvolvimento de habilidades. Professores e educadores têm levantado um alerta importante: quando as pessoas delegam tarefas cognitivas com muita frequência para a IA — como resumir textos, formular argumentos ou resolver problemas —, elas podem acabar perdendo a prática de fazer essas coisas por conta própria. A própria Goetze ilustra bem essa armadilha: ela usa o ChatGPT para ajudá-la a ter ideias de conteúdo, mas se pedisse para a ferramenta escrever roteiros que ela simplesmente lesse ao pé da letra, estaria usando a IA como uma muleta que prejudica sua capacidade criativa. Isso não significa que usar IA seja ruim, mas sim que existe um equilíbrio a ser encontrado.
Brainstorming: a IA como parceira de ideias
Se você ainda não sabe por onde começar, os especialistas são unânimes: use a IA para gerar ideias. Timothy B. Lee, autor da newsletter Understanding AI, recomenda usar ferramentas de IA para fazer brainstorming e dividir tarefas ou projetos em etapas realizáveis. Segundo ele, sempre que você estiver tentando criar ideias, a IA é um bom ponto de partida.
Goetze vai um pouco além e sugere pensar na ferramenta como um parceiro de pensamento. A ideia é usá-la para trocar ideias, superar bloqueios criativos e refinar seu raciocínio. Mas tem um detalhe fundamental aqui: ao analisar os resultados, você precisa continuar confiando no seu próprio julgamento, na sua experiência e no seu gosto pessoal, em vez de deixar a IA ter a palavra final. As melhores tarefas para a IA, segundo ela, são aquelas em que você já sabe como deve ser a resposta certa. 🎯
Essa abordagem tira a pressão de quem acha que precisa dominar alguma técnica sofisticada para começar a usar a ferramenta. Na prática, trata-se de uma conversa onde você apresenta um problema e a IA ajuda a explorar possibilidades que talvez você não considerasse sozinho.
IA como aliada da pesquisa e do aprendizado
Uma das aplicações mais promissoras das ferramentas de IA está justamente na área de pesquisa. Para projetos mais complexos ou intensivos, uma ferramenta de IA pode oferecer um panorama do que já foi publicado sobre determinado assunto. Lee faz uma comparação bem útil: pense na IA de forma semelhante à Wikipédia. Sabemos que ela é falível e sabemos como verificar as citações.
Ferramentas como Claude, ChatGPT e Perplexity oferecem alguma variação de um recurso chamado pesquisa profunda. Essa funcionalidade vasculha documentos sobre o seu tema e os resume em um relatório de alguns milhares de palavras. O bot chega a fazer perguntas de esclarecimento para montar os resultados mais relevantes possíveis para o que você precisa.
Lee descreve o recurso como incrivelmente bom. As respostas trazem fontes primárias e links, permitindo que você mesmo consulte os materiais originais. Segundo ele, a função de pesquisa profunda é excelente para ter uma visão geral do terreno — identificar artigos-chave para ler, perguntas a responder e próximos passos para o seu projeto.
O ponto essencial, no qual todos os especialistas concordam, é que depois de usar uma ferramenta de IA para essa orientação preliminar, você ainda precisa fazer o trabalho real por conta própria. A IA acelera o mapeamento inicial, mas o aprofundamento, a análise crítica e as conclusões continuam sendo responsabilidade de quem está conduzindo a pesquisa.
O papel da IA na pesquisa também está mudando a forma como as pessoas aprendem novos temas. Em vez de depender de um único livro ou curso para entender um assunto complexo, hoje é possível usar uma ferramenta de IA para ter um panorama geral, identificar os pontos que merecem aprofundamento e criar um caminho de aprendizado personalizado. Isso é especialmente útil para profissionais que precisam se atualizar constantemente em áreas como tecnologia, medicina, direito e finanças, onde o volume de novas informações é enorme e o tempo disponível para consumir tudo é sempre menor do que o necessário.
Aprendendo novas habilidades e hobbies com IA
Você também pode usar a IA quando ela permite expandir o seu mundo, diz Ella Hafermalz, professora associada na Vrije Universiteit Amsterdam, que estuda o impacto da IA generativa no trabalho.
Hafermalz tem usado a IA para obter ajuda no cultivo de uma mini flor de lótus, para aprender o básico sobre investimentos em ações e até para ter ideias do que preparar no jantar. Segundo ela, o benefício está em tirar você do zero com um novo interesse, atividade, hobby ou habilidade, especialmente aqueles que têm uma barreira de entrada alta.
Para muitas pessoas, o obstáculo para experimentar algo novo é o constrangimento, o medo, a falta de tempo, o desconforto ou simplesmente não saber nem por onde começar. A troca de mensagens com a IA pode derrubar essas barreiras e levar você ao próximo passo, como Hafermalz explica. Mas, mais uma vez, o melhor é tratá-la como um ponto de partida para tarefas de menor risco, onde você continua sendo a autoridade final. 🌱
Organização de informações: onde a IA realmente brilha
Se tem uma área onde as ferramentas de IA mostram um valor inegável, essa área é a organização. Uma vez que você iniciou seu projeto de pesquisa, a IA pode ajudar a estruturar suas descobertas — identificando temas, respondendo perguntas ou gerando linhas do tempo e resumos.
Se pesquisa é sua prioridade, Hafermalz recomenda usar o NotebookLM do Google, um aplicativo gratuito que trabalha apenas com documentos, anotações e materiais que você mesmo enviou, em vez de puxar informações de toda a internet. Historiadores já estão usando o NotebookLM como assistente de pesquisa, segundo ela. A ferramenta funciona como um organizador: se você está tentando organizar informações e sintetizar conteúdos sem querer que a IA saia do roteiro e traga coisas aleatórias do Reddit, o NotebookLM oferece um espaço mais controlado.
Para uso pessoal, a IA pode funcionar como um assistente doméstico ou executivo, ajudando a planejar refeições ou treinos, criar um orçamento ou organizar sua tarde priorizando tarefas de alta a baixa prioridade.
Ferramentas integradas a plataformas como Notion, Microsoft 365 e Google Workspace já permitem que a IA resuma reuniões, categorize documentos, priorize tarefas e até sugira cronogramas com base nas suas prioridades. Para equipes que trabalham de forma distribuída ou para profissionais autônomos com múltiplos projetos em andamento, esse tipo de suporte pode representar uma economia significativa de tempo e energia mental — liberando espaço para o que realmente importa no trabalho.
Como obter melhores resultados da IA
Cerca de um ano atrás, elaborar o prompt perfeito era considerado fundamental para extrair o melhor de uma ferramenta de IA, mas isso está ficando cada vez menos importante com o tempo, segundo Lee. Os modelos estão evoluindo e respondendo de forma mais intuitiva, inclusive a linguagens mais casuais e informais — embora fornecer contexto ainda ajude bastante. Quanto mais informação você dá, mais provável é que obtenha um bom resultado, ele acrescenta.
Goetze encoraja as pessoas a abandonarem totalmente a ideia de prompting como uma técnica rígida. Na visão dela, o ideal é pensar nisso como uma conversa. A mágica, na verdade, vem da troca de mensagens, do vai e volta. Essa é a vantagem do ChatGPT sobre a busca do Google, ela complementa: entre na ferramenta e simplesmente fale o que vem à cabeça.
Desde que você tome cuidado para não compartilhar informações sensíveis, também é possível enviar links de sites, PDFs e outros materiais para que a IA os considere na resposta. Por exemplo, você pode compartilhar o contrato do seu novo celular e pedir que a IA sinalize cláusulas importantes ou oportunidades de economia.
A técnica do prompt reverso
Se você travar em algum ponto, existe uma técnica chamada prompt reverso. Quando Goetze recentemente teve um bloqueio mental com um documento em que estava trabalhando, ela pediu ao ChatGPT que criasse cinco perguntas que a ajudariam a superar o obstáculo. As perguntas a levaram a refletir de formas ligeiramente diferentes, ela conta. É uma abordagem criativa que inverte a lógica tradicional de uso da ferramenta e pode destravar processos que parecem estagnados.
Os riscos de depender demais da IA
É essencial verificar todas as respostas geradas por IA. Embora estejam melhorando a cada dia, elas ainda precisam ser checadas contra fontes primárias e confiáveis, como os especialistas concordam. O modelo não apenas pode repetir informações falsas e desinformação — ele pode inventar coisas ativamente, o que é conhecido como alucinação.
Também é possível usar a IA de formas que encolham nosso mundo, minem nossas capacidades e até nossa humanidade. Muitas vezes, esses problemas surgem quando tratamos a ferramenta como um atalho ou como a etapa final de um processo, em vez de um primeiro passo.
Os três especialistas consultados concordam que vai ficar cada vez mais difícil distinguir quais partes — ou qual proporção — de um texto foram escritas por humanos e quais foram geradas por IA. Por enquanto, Goetze recomenda ser transparente sobre o uso e tomar cuidado para evitar plágio e violações de direitos autorais.
Outro perigo potencial é investir demais nas respostas da IA e até se tornar dependente delas. Hafermalz é bem direta nesse ponto: você não quer ficar preso em um loop de feedback com a IA — você vai acabar em lugares sombrios.
A recomendação dela é definir um objetivo ou intenção claros toda vez que usar o ChatGPT, e ir aumentando gradualmente o nível de complexidade do seu uso para garantir que você sempre permaneça no controle. A IA não deveria ser uma prisão que te mantém preso. Ela deveria ser um degrau — um caminho para sair e fazer outras coisas, como Hafermalz resume. Use onde você possa verificar por conta própria, no mundo real.
Como dar os primeiros passos de forma consciente
Para quem ainda está começando a explorar as ferramentas de IA, o melhor conselho que os especialistas têm dado é começar pelos problemas reais do cotidiano. Em vez de testar a ferramenta com perguntas genéricas, vale identificar uma tarefa específica que consome tempo ou energia desnecessária — seja organizar anotações de uma reunião, criar um rascunho de e-mail, resumir um documento longo ou pesquisar um tema para uma apresentação — e experimentar como a IA pode ajudar naquele ponto específico. Essa abordagem prática e focada tende a gerar resultados mais concretos do que uma exploração sem direção.
Ao longo do processo, é fundamental manter uma postura crítica em relação ao que é gerado. Isso não significa desconfiar de tudo, mas sim desenvolver o hábito de revisar, questionar e adaptar as respostas da IA antes de colocá-las em uso. Quanto mais você interage com uma ferramenta, mais aprende a formular perguntas melhores — e perguntas melhores levam a resultados mais úteis e precisos. Esse ciclo de aprendizado é o que transforma um usuário iniciante em alguém que realmente sabe aproveitar o potencial dessas tecnologias.
Por fim, vale lembrar que o cenário das ferramentas de IA está em constante evolução. Novas versões, novos modelos e novas funcionalidades surgem com uma frequência que pode ser difícil de acompanhar. Manter-se minimamente atualizado sobre o que está disponível — sem a pressão de testar tudo ao mesmo tempo — é uma forma inteligente de garantir que você está usando o melhor que a tecnologia tem a oferecer, de forma consciente, segura e alinhada com os seus objetivos. 🚀
