Investimento em climate tech volta a crescer com força em 2025
O investimento em climate tech voltou a crescer — e dessa vez com força total.
Depois de dois anos seguidos de queda, o mercado global de venture e crescimento climático subiu 8% em 2025, chegando a impressionantes US$ 40,5 bilhões, segundo dados da Sightline Climate. Esse número por si só já seria motivo de comemoração, mas o que torna esse momento ainda mais especial é a qualidade e a direção dos investimentos — não é dinheiro sendo jogado em qualquer direção, é capital sendo alocado de forma cada vez mais estratégica, com foco em tecnologias que realmente têm potencial de escalar e gerar impacto real no planeta.
E não para por aí. Foi também um ano recorde para fundos climáticos: 179 fundos captaram juntos US$ 92 bilhões em novo capital. Para quem acompanha o setor há algum tempo, esse número representa uma mudança profunda na mentalidade dos investidores institucionais, que estão olhando para o clima não mais como um tema de responsabilidade social, mas como uma das maiores oportunidades econômicas do século. Quando o dinheiro se move nessa escala, o ecossistema inteiro acelera junto.
Uma parte importante desse desbloqueio de capital aconteceu nos Estados Unidos, onde a aprovação da chamada One Big Beautiful Bill Act pelo governo federal ajudou a dar clareza sobre quais políticas seriam mantidas e incentivadas. Essa definição política funcionou como uma espécie de liberação para fundos que estavam em modo de espera, observando o cenário antes de comprometer recursos. Com as regras do jogo mais claras, os investidores passaram a agir com mais confiança, e isso impulsionou diretamente os números recordes de captação que vimos ao longo do ano.
Mas o que realmente mudou o jogo foi a inteligência artificial. Quase 28 centavos de cada dólar investido em equity climático foram direto para soluções habilitadas por IA — com data centers sozinhos puxando quase US$ 2 bilhões desse total. Isso não é coincidência. É uma virada de chave no setor 🔄, onde algoritmos de otimização, modelos preditivos e sistemas de automação estão deixando de ser diferenciais e passando a ser requisito básico para qualquer startup que queira competir nesse espaço.
Outro movimento que ganhou corpo foi a corrida para garantir materiais domésticos e minerais críticos. Cobre e lítio, por exemplo, enfrentam déficits projetados de 30 a 40% até 2035, e essa escassez deixou de ser apenas uma questão climática para se tornar também um assunto de segurança nacional. Países e empresas estão correndo para diversificar suas fontes de suprimento e reduzir a dependência de cadeias de fornecimento concentradas em poucas regiões do mundo.
Enquanto isso, a adaptação climática finalmente entrou no território de classe de ativos de verdade, com o financiamento para essa categoria subindo 64%. Investidores e compradores estão reconhecendo que um planeta mais quente representa um risco operacional concreto — e que ferramentas para lidar com esse risco são produtos com demanda real e crescente.
Três grandes frentes estão dominando essa nova onda de inovação:
- Data centers — com foco em eficiência energética e infraestrutura mais limpa
- Inovação em materiais — minerais críticos, resíduos industriais e novas soluções para baterias e insumos
- Adaptação climática — sensores, plataformas de resposta a desastres e resiliência real para empresas e agricultores
Para mapear o que há de mais promissor nesse cenário, o site Trellis selecionou 15 startups de early-stage distribuídas por essas três categorias. Uma equipe de analistas avaliou 105 candidatas com base em quatro critérios — inovação da solução, tração comercial, potencial de impacto e força do time — para chegar às cinco finalistas por categoria. Vamos conhecer cada uma delas. 👇
Data centers: a busca por infraestrutura mais inteligente e sustentável
O crescimento explosivo da inteligência artificial trouxe consigo um problema que poucos anteciparam na velocidade com que ele chegou: o consumo de energia dos data centers está batendo recordes históricos, e a pressão por soluções mais eficientes e sustentáveis nunca foi tão alta. É nesse contexto que um grupo de startups de climate tech está construindo a próxima geração de infraestrutura computacional — mais inteligente, mais eficiente e com uma pegada de carbono muito menor do que os modelos tradicionais.
A WAVR Technologies é provavelmente a mais chamativa do grupo. A empresa desenvolveu um sistema que gera água diretamente da atmosfera usando o calor residual de data centers de IA. Em vez de desperdiçar essa energia térmica, a WAVR a redireciona para um processo de captura de umidade do ar, produzindo água limpa como subproduto. É o tipo de solução que resolve dois problemas de uma vez — o desperdício de calor e a demanda crescente de água para resfriamento — e que já chamou bastante atenção dentro do ecossistema. O CEO Rich Sloan lidera a operação.
Já a Airloom Energy aposta em uma abordagem diferente para levar energia limpa aos data centers: sistemas eólicos modulares. Diferente das turbinas eólicas tradicionais, que são estruturas gigantescas e caras, a tecnologia da Airloom utiliza um formato mais compacto e escalável que pode ser implantado diretamente nas proximidades de data centers, utilidades e até instalações de defesa. O CEO Neal Rickner está à frente desse projeto.
A etalytics ataca o problema por outro ângulo: software de IA voltado para otimizar o resfriamento dos data centers. O sistema identifica desperdícios de energia no processo de refrigeração e reduz operações manuais, algo que impacta diretamente os custos operacionais dessas instalações. Considerando que o resfriamento historicamente representa uma fatia enorme da conta de energia de um data center, a economia potencial é significativa. Niklas Panten, cofundador e CEO, está na liderança.
Completando a categoria, temos a Aikido Technologies, que está construindo data centers flutuantes offshore. A ideia de tirar os servidores da terra firme e colocá-los no mar pode parecer radical, mas faz sentido quando se considera que o oceano oferece resfriamento natural abundante e pode reduzir drasticamente a necessidade de sistemas de refrigeração artificiais. O CEO Sam Kanner comanda o projeto.
Por fim, a Magnefy usa IA combinada com sensoriamento magnético para detectar falhas elétricas em transformadores e inversores — componentes essenciais da infraestrutura que alimenta data centers e redes de energia renovável. Identificar problemas antes que eles causem falhas catastróficas pode economizar milhões em reparos e downtime. Joseph Kao, cofundador e CEO, lidera o time. 🚀
Novos materiais para um mundo em transição
A transição energética precisa de materiais. Muitos materiais. Lítio, cobalto, níquel, cobre, terras raras — a lista de minerais críticos que alimentam baterias, painéis solares e turbinas eólicas é longa, e a cadeia de suprimentos atual está longe de ser suficiente para suportar o ritmo de crescimento que o mercado demanda. Com déficits projetados de 30 a 40% para cobre e lítio até 2035, essa se tornou uma questão de segurança nacional tanto quanto uma questão climática.
É aqui que entra uma nova geração de startups que está atacando o problema por diferentes ângulos: algumas buscam alternativas aos minerais escassos, outras tentam extraí-los de fontes não convencionais como resíduos industriais, e outras ainda estão reinventando os próprios processos de fabricação para torná-los mais limpos e eficientes.
A Aepnus Technology é um dos destaques. A empresa desenvolveu um método para converter resíduos industriais em produtos químicos úteis para setores como mineração, baterias, têxteis e papel. Em vez de depender de rotas químicas convencionais que são caras e poluentes, a Aepnus usa processos eletroquímicos que reduzem drasticamente tanto o custo quanto o impacto ambiental da produção. O CEO e cofundador Lukas Hackl está no comando.
A REEgen segue uma lógica parecida, mas com uma abordagem biológica: a empresa usa micróbios engenheirados para recuperar minerais críticos de resíduos industriais. Ao usar a biologia como ferramenta de mineração, a REEgen consegue acessar concentrações de materiais valiosos que seriam economicamente inviáveis de extrair pelos métodos tradicionais. Alexa Schmitz, cofundadora e CEO, lidera a operação.
Já a Elementium Materials está focada em melhorar o desempenho das baterias com eletrólitos de substituição direta que podem ser integrados aos processos de fabricação existentes. A ideia é aumentar a performance sem exigir mudanças radicais nas linhas de produção já instaladas — o que facilita muito a adoção em larga escala. O CTO Gustavo Hobold apresenta a tecnologia.
A Smart Plastic Technologies ataca outro problema enorme: o plástico. A empresa criou aditivos que mantêm o desempenho mecânico do plástico durante sua vida útil, mas que permitem a bioassimilação ao final do ciclo de uso. Basicamente, o plástico funciona normalmente enquanto precisa funcionar, e depois é absorvido pelo ambiente em vez de se acumular como resíduo por centenas de anos. A CSO Sumathi Pakki lidera a ciência por trás da solução. ♻️
Adaptação climática: resiliência como produto
Se as duas categorias anteriores focam em reduzir emissões e transformar a base industrial da economia, a adaptação climática parte de uma premissa diferente e igualmente urgente: o clima já mudou, os eventos extremos já estão acontecendo com mais frequência e intensidade, e empresas, governos e comunidades precisam de ferramentas para sobreviver e se adaptar a essa nova realidade.
Esse segmento costumava ser tratado como coadjuvante no debate de clima, mas está ganhando atenção crescente dos investidores — o financiamento para adaptação subiu 64% — justamente porque a demanda é imediata, mensurável e não depende de mudanças de comportamento em escala global. Ela responde a um mercado que já sente o problema na pele todos os anos.
A Beehive é uma das startups mais populares dessa lista. Trata-se de uma plataforma de IA que ajuda empresas a se prepararem e responderem a desastres naturais, além de automatizar relatórios de risco climático. Em um cenário onde seguradoras estão abandonando mercados inteiros por não conseguirem precificar riscos adequadamente, ter uma ferramenta que organiza dados e entrega inteligência acionável vale ouro. O CEO Adriel Lubarsky lidera o projeto.
A Nucleic Sensing Systems opera em uma frente igualmente crítica: a empresa implanta biossensores autônomos que monitoram água e sinais biológicos nocivos em tempo real. Isso tem aplicações que vão desde a detecção precoce de contaminação em reservatórios de água até o monitoramento de riscos biológicos em áreas urbanas e rurais.
A EnKoat ataca o problema por um ângulo mais tangível: revestimentos de barreira térmica avançados que estendem a vida útil de telhados comerciais e reduzem a demanda energética de edifícios. Em um mundo onde ondas de calor estão se tornando mais longas e mais severas, reduzir a necessidade de ar-condicionado não é apenas uma economia financeira — é uma questão de habitabilidade. O cofundador e CEO Matthew Aguayo lidera a empresa.
A Helix Earth trabalha de forma complementar, removendo umidade antes que ela entre no processo de resfriamento, o que corta o consumo de energia do ar-condicionado e melhora a qualidade do ar interior. O cofundador e CEO Rawand Rasheed apresenta a tecnologia.
No campo da agricultura, a Sensegrass fornece sensores de inteligência do solo e ferramentas de agronomia com IA para ajudar agricultores a otimizar suas safras e construir resiliência climática. Em um cenário onde uma seca inesperada em uma região produtora pode mover os preços globais de commodities em questão de dias, ter esse tipo de inteligência antecipada vale muito. O CEO Lalit Gautam está à frente.
E finalizando a lista, a California Cultured traz uma proposta bastante ousada: produzir café e chocolate em escala industrial por meio de biomanufatura de células vegetais. Considerando que ambas as culturas são extremamente vulneráveis a mudanças climáticas — e que a demanda global só cresce —, criar uma alternativa que não dependa de condições climáticas específicas pode ser um game changer para a segurança alimentar. O CEO Alan Perlstein lidera o projeto. 🌾
O que essas 15 startups têm em comum
Olhando para as 15 empresas mapeadas nesse levantamento, fica claro que não existe uma fórmula única para construir uma startup de climate tech de sucesso — mas existe um conjunto de características que aparece com consistência entre as que estão avançando mais rápido.
A primeira delas é a combinação de ciência profunda com estratégia de go-to-market pragmática: todas essas empresas têm tecnologia de ponta no núcleo do negócio, mas nenhuma delas está esperando a perfeição para ir ao mercado. Elas constroem, testam, iteram e aprendem com clientes reais, o que acelera o ciclo de desenvolvimento e aumenta as chances de encontrar o fit certo antes de esgotar o capital.
A segunda característica marcante é o uso estratégico de inteligência artificial não como ferramenta de marketing, mas como alavanca real de vantagem competitiva. Seja para acelerar a descoberta de novos materiais, para otimizar o consumo de energia em tempo real ou para modelar riscos climáticos com precisão cirúrgica, a IA está no centro da proposta de valor dessas empresas de uma forma que seria impossível de replicar sem ela. Isso cria barreiras de entrada relevantes e explica por que os investidores estão dispostos a colocar capital nelas em estágios tão iniciais — o potencial de escala é genuinamente enorme quando a tecnologia funciona como prometido.
Por fim, o timing dessas empresas é outro elemento que não pode ser ignorado. A convergência entre urgência climática, maturidade da inteligência artificial e disponibilidade de capital para inovação criou uma janela de oportunidade que raramente aparece dessa forma na história da tecnologia. As startups que estão posicionadas nessa interseção agora — com produto funcionando, time experiente e modelo de negócio testado — têm uma vantagem de timing que vale tanto quanto qualquer patente ou tecnologia proprietária.
As competições de pitch organizadas pelo Trellis, realizadas em semanas consecutivas ao longo de maio e junho de 2026, oferecem uma oportunidade de ver esses fundadores apresentando suas soluções ao vivo e respondendo a perguntas de investidores. A categoria de data centers foi apresentada em 20 de maio, materiais em 27 de maio e adaptação climática em 3 de junho.
O ecossistema de climate tech está em ebulição, e acompanhar de perto quem está surgindo nele é acompanhar o futuro da economia global sendo construído em tempo real. 🌍
