O que está por trás do crescimento das ações de inteligência artificial
As ações de inteligência artificial se tornaram um fenômeno difícil de ignorar no mercado financeiro global. Nos últimos três anos, o ETF Global X de Inteligência Artificial e Tecnologia, que funciona como um termômetro das empresas envolvidas no desenvolvimento e na aplicação de IA, registrou uma alta acumulada de 118%. Para efeito de comparação, o S&P 500, principal índice da bolsa americana e referência para investidores do mundo todo, subiu 76% no mesmo período. Essa diferença expressiva mostra que o setor de tecnologia voltada para inteligência artificial não está apenas acompanhando o mercado — está correndo bem à frente dele.
O apetite por empresas que constroem a infraestrutura da inteligência artificial tem crescido de forma consistente, e os resultados financeiros dessas companhias ajudam a sustentar esse otimismo trimestre após trimestre. Dentro desse cenário, duas empresas chamam atenção por estarem sendo negociadas abaixo do que muitos analistas consideram seu valor justo: a Nvidia e a Micron Technology. Ambas ocupam posições estratégicas na cadeia de valor da IA e apresentam fundamentos que justificam um olhar mais atento por parte de quem acompanha o setor.
Nvidia: a protagonista absoluta do hardware de IA
A Nvidia não chegou ao topo por acaso. A empresa investiu pesado em pesquisa e desenvolvimento durante anos em que o mercado de GPUs para inteligência artificial ainda era considerado um nicho. Enquanto concorrentes focavam em outros segmentos, a companhia liderada por Jensen Huang apostou na computação acelerada como o futuro da tecnologia. Essa visão de longo prazo se mostrou certeira quando a explosão dos modelos de linguagem de grande porte trouxe a IA para o centro do debate público e corporativo.
De repente, toda grande empresa de tecnologia precisava de GPUs de alto desempenho para treinar e rodar seus modelos, e a Nvidia era — e ainda é — a fornecedora dominante. Suas unidades de processamento gráfico foram usadas para treinar os modelos de IA mais populares do mundo e agora também são amplamente utilizadas para rodar aplicações de inferência, que é a etapa em que os modelos já treinados efetivamente geram respostas e resultados para os usuários finais.
Com uma valorização de impressionantes 654% em três anos e um domínio de 81% do mercado global de chips voltados para IA, a fabricante de GPUs consolidou sua posição como peça central da revolução da inteligência artificial. Não se trata apenas de vender hardware. A Nvidia construiu um ecossistema completo que inclui software, plataformas de computação acelerada e parcerias estratégicas com praticamente todas as grandes empresas de tecnologia do planeta. Além dos chips em si, a plataforma CUDA, que permite aos desenvolvedores programar GPUs para tarefas de IA, criou uma barreira de entrada significativa para competidores. Migrar de CUDA para outra solução exigiria reescrever milhões de linhas de código, o que torna a fidelização dos clientes quase orgânica.
Os números que sustentam a tese de investimento
O mais curioso é que, mesmo depois de toda essa escalada no preço das ações, muitos analistas de Wall Street ainda consideram que a Nvidia está sendo negociada abaixo do seu valor justo. A empresa pode ser comprada atualmente por apenas 22 vezes seus lucros futuros estimados, um múltiplo que está praticamente em linha com o do próprio S&P 500. A grande diferença está na velocidade de crescimento.
No ano fiscal de 2026, encerrado em 25 de janeiro de 2026, os lucros da Nvidia dispararam 60%. E a previsão para o ano fiscal de 2027 é ainda mais animadora: analistas projetam um crescimento de 73% nos lucros. Para colocar em perspectiva, o crescimento médio dos lucros das empresas do S&P 500 neste ano está estimado em cerca de 15%. Ou seja, a Nvidia deve crescer quase cinco vezes mais rápido do que a média do principal índice da bolsa americana, mas está sendo negociada pelo mesmo múltiplo. É como se o mercado estivesse precificando a empresa como se ela fosse apenas mais uma companhia do índice, ignorando completamente a discrepância no ritmo de expansão.
Quando uma companhia entrega resultados acima do previsto de forma recorrente, o preço do papel tende a parecer barato mesmo depois de uma grande alta. É como se o bolo crescesse mais rápido do que as fatias estão sendo cortadas. Essa dinâmica tem mantido a Nvidia no radar de fundos de investimento, gestores institucionais e investidores de varejo que buscam exposição ao setor de inteligência artificial.
O futuro dos investimentos em data centers favorece a Nvidia
Outro fator que reforça a tese de longo prazo é o cenário de investimentos em infraestrutura de data centers. As projeções indicam que esses investimentos devem crescer a uma taxa anual de 40% até 2030, alcançando algo entre 3 trilhões e 4 trilhões de dólares até o final da década. Cada novo data center construído por hiperescaladores como Microsoft, Google, Amazon e Meta significa mais pedidos de chips da Nvidia. E a tendência não mostra sinais de desaceleração, já que a corrida por IA generativa, agentes autônomos e modelos cada vez maiores continua ganhando velocidade.
A estratégia de lançamento de novos produtos também merece destaque. A Nvidia opera em ciclos de inovação acelerados, com novas arquiteturas de chips sendo apresentadas em intervalos cada vez menores. A transição da arquitetura Hopper para a Blackwell, por exemplo, trouxe ganhos significativos de desempenho e eficiência energética, dois pontos críticos para operadores de data centers que lidam com custos crescentes de energia. Essa capacidade de se reinventar constantemente mantém a empresa à frente da concorrência e reforça a confiança dos investidores no potencial futuro da companhia.
Micron Technology: a outra peça essencial do quebra-cabeça da IA
Se a Nvidia é o cérebro da inteligência artificial, a Micron Technology é a memória — literalmente. A empresa é uma das maiores fabricantes de chips de memória do mundo, produzindo componentes DRAM e NAND que são absolutamente essenciais para o funcionamento de servidores de IA, data centers e dispositivos de computação de alto desempenho. Sem memória de alta velocidade e alta capacidade, os poderosos GPUs da Nvidia não conseguem operar em seu potencial máximo. É uma relação de interdependência que coloca a Micron em uma posição estratégica extremamente relevante dentro do ecossistema de inteligência artificial.
O mercado de memória de alta largura de banda, conhecido como HBM (High Bandwidth Memory), tem se tornado um dos segmentos de maior crescimento dentro da indústria de semicondutores. Essa tecnologia é usada diretamente nos aceleradores de IA, permitindo que os chips processem volumes massivos de dados com a rapidez que as cargas de trabalho de inteligência artificial exigem. A Micron tem investido de forma agressiva para expandir sua capacidade de produção de HBM, posicionando-se como uma fornecedora de primeira linha para os principais fabricantes de hardware de IA.
Por que a Micron pode estar subvalorizada
Assim como a Nvidia, a Micron Technology também apresenta sinais de estar sendo negociada abaixo do seu valor real. A empresa opera em um setor que historicamente é cíclico, ou seja, passa por fases de alta e baixa demanda que afetam diretamente os preços dos chips de memória. No entanto, a chegada da inteligência artificial como um motor estrutural de demanda tem o potencial de suavizar esses ciclos, criando uma base de consumo mais estável e previsível para os produtos da companhia.
Os investimentos globais em infraestrutura de IA estão gerando uma demanda sem precedentes por memória de alto desempenho. Cada servidor equipado com GPUs avançados precisa de uma quantidade significativa de memória para processar as enormes quantidades de dados envolvidas no treinamento e na inferência de modelos de inteligência artificial. Essa dinâmica beneficia diretamente a Micron, que está bem posicionada para capturar uma fatia relevante desse mercado em expansão.
Para investidores que buscam diversificar sua exposição ao universo das ações de IA além dos fabricantes de GPUs, a Micron representa uma alternativa interessante. A empresa não está apenas vendendo um componente commoditizado — está fornecendo tecnologia de memória de ponta que é indispensável para o funcionamento de toda a cadeia de valor da inteligência artificial.
Riscos que merecem atenção
Apesar de todo o otimismo, é importante manter os pés no chão. O mercado de ações de inteligência artificial é dinâmico e envolve riscos que não podem ser ignorados. A concorrência, por exemplo, está se organizando. Empresas como AMD, Intel e até mesmo startups especializadas estão trabalhando para capturar uma fatia maior do mercado de chips para IA. Além disso, grandes clientes da Nvidia, como Google e Amazon, já desenvolvem seus próprios processadores customizados para cargas de trabalho de inteligência artificial, o que pode reduzir a dependência desses hiperescaladores em relação às GPUs da empresa no longo prazo.
Questões geopolíticas também entram na equação, especialmente as restrições de exportação de chips avançados para determinados países, que podem impactar a receita internacional tanto da Nvidia quanto da Micron. Para investidores atentos, acompanhar esses movimentos é tão importante quanto observar os balanços trimestrais. Alguns pontos de atenção incluem:
- Regulação governamental: novas regras sobre exportação de semicondutores podem limitar o acesso a mercados importantes
- Competição crescente: concorrentes tradicionais e novos entrantes estão investindo pesado para desafiar a dominância atual
- Desenvolvimento de chips próprios: grandes empresas de tecnologia estão criando seus próprios aceleradores de IA, o que pode reduzir a demanda por soluções de terceiros
- Ciclos de mercado: o setor de semicondutores historicamente passa por períodos de excesso de oferta que pressionam margens e preços
O cenário macro ainda favorece as ações de IA
Ainda assim, o consenso entre boa parte dos analistas é de que tanto a Nvidia quanto a Micron Technology continuam sendo formas atrativas de ter exposição ao crescimento da inteligência artificial. A valorização passada não garante retornos futuros, claro, mas os fundamentos das duas empresas — receita crescente, posições estratégicas na cadeia de valor e mercados endereçáveis em franca expansão — formam uma base sólida.
O mercado de tecnologia já passou por ciclos de euforia antes, como a bolha das pontocom nos anos 2000, e é natural que existam comparações. A diferença, segundo muitos especialistas, é que desta vez a alta é sustentada por resultados reais e por uma transformação estrutural na forma como empresas e governos utilizam a computação. A inteligência artificial não é uma promessa distante — ela já está gerando receita, cortando custos e criando novos mercados em velocidade impressionante.
Novos casos de uso surgem praticamente toda semana, desde diagnósticos médicos assistidos por IA até robôs autônomos em fábricas e veículos, e cada um deles representa mais demanda por infraestrutura de computação acelerada e, consequentemente, mais chips e mais memória. Essa expansão contínua do mercado endereçável é o que sustenta a tese de que empresas como Nvidia e Micron ainda têm espaço considerável para crescer.
O que tudo isso significa para quem acompanha o setor
Para quem acompanha o setor de tecnologia e está de olho nas ações ligadas à inteligência artificial, o momento pede atenção redobrada, mas também reconhecimento de que estamos diante de uma mudança estrutural no mercado. A Nvidia se posicionou como a espinha dorsal dessa transformação, enquanto a Micron ocupa o papel igualmente crítico de fornecer a memória que alimenta toda essa revolução computacional.
Enquanto a demanda por computação de IA continuar crescendo — e todas as projeções apontam nessa direção pelo menos até o final da década —, essas duas empresas tendem a permanecer no centro das conversas sobre oportunidades no universo da inteligência artificial. O mais interessante é que a história da IA aplicada ao mercado corporativo ainda está nos primeiros capítulos. A cada trimestre, novas aplicações e novos modelos de negócio surgem, expandindo ainda mais o potencial de receita para as empresas que fornecem a infraestrutura fundamental dessa tecnologia.
Para investidores que pensam no longo prazo, entender essa dinâmica e acompanhar de perto os fundamentos dessas companhias pode fazer toda a diferença na hora de tomar decisões 🚀
