Os investimentos em inteligência artificial nunca foram tão altos — e nunca geraram tanto barulho fora dos relatórios financeiros.
Mais de 120 bilhões de dólares em gastos com datacenters de IA foram deslocados para fora dos balanços contábeis das grandes empresas de tecnologia, segundo reportagem do Financial Times publicada em dezembro de 2025.
O número assusta.
E não é à toa que alguns especialistas começaram a usar termos como bomba-relógio da dívida e a traçar paralelos com um dos maiores escândalos corporativos da história americana.
Mas será que essa comparação faz sentido de verdade?
A resposta curta é: não.
A resposta longa envolve entender como esse modelo de financiamento funciona, por que ele existe e o que a história nos ensina sobre momentos parecidos com esse — porque esse filme já passou antes, em outro setor, e o final foi bem diferente do que os pessimistas esperavam. 🎬
O que está acontecendo com os gastos em datacenters de IA
Quando uma grande empresa de tecnologia decide construir ou expandir um datacenter, ela nem sempre coloca esse gasto direto no balanço como uma dívida tradicional. Em vez disso, esse financiamento costuma ser estruturado por meio de veículos de propósito específico — os famosos SPVs — ou parcerias com fundos de infraestrutura.
Funciona mais ou menos assim: a Meta, por exemplo, quer erguer um datacenter para dar conta da sua demanda crescente por IA e computação em nuvem. Ela cria uma entidade separada, que não entra na consolidação dos seus números financeiros, e é essa entidade que constrói o datacenter. Para bancar a obra, a entidade capta dinheiro com investidores, bancos e outras instituições financeiras — inclusive parte vinda da própria Meta, que fica com a maioria da entidade.
Existe um contrato garantindo que a Meta terá uso exclusivo e total do datacenter assim que ele ficar pronto. Dessa forma, a empresa consegue sua infraestrutura, mas boa parte da dívida usada para construí-la não aparece como um passivo nos seus livros contábeis. É exatamente esse ponto que deixa alguns analistas com a pulga atrás da orelha.
Nomes como Oracle, xAI e CoreWeave também aparecem na lista de gigantes que estão captando bilhões por meio dessas estruturas. E os valores em jogo são realmente colossais: o Goldman Sachs estima que os grandes players de nuvem, os chamados hyperscalers, podem gastar até 5,3 trilhões de dólares em IA e datacenters até 2030 — com o mercado privado desempenhando um papel cada vez mais central nesse financiamento.
O que realmente acontece é que as empresas estão usando estruturas de financiamento sofisticadas para distribuir o custo dessa infraestrutura de IA ao longo do tempo e entre vários investidores. É uma lógica parecida com a de uma companhia aérea que, em vez de comprar aviões, os arrenda por longos períodos. O avião está lá, o custo está comprometido, mas o impacto no balanço aparece de outra forma. O ponto que causa desconforto não é a estrutura em si — é a escala sem precedentes que esses investimentos atingiram em tão pouco tempo. 📊
Por que a comparação com a Enron não cola
Os céticos apontam o dedo para a Enron, a empresa de energia que quebrou de forma espetacular em 2001, causando dezenas de bilhões de dólares em prejuízos aos acionistas e contribuindo para um colapso histórico do mercado. A ideia é que os gigantes da tecnologia estariam, mais uma vez, enganando o público ao não revelar de forma adequada o impacto de longo prazo de toda essa dívida.
Só que a Enron usou entidades fora do balanço para esconder perdas reais, criar a ilusão de lucros que não existiam e enganar investidores, reguladores e o mercado em geral. Era fraude. Ponto final. O que está acontecendo com os datacenters de IA hoje é estruturalmente diferente: as empresas estão financiando ativos reais, com valor real, que geram receita real. Os servidores existem, os prédios existem, a infraestrutura elétrica existe, e a demanda por capacidade de processamento de IA existe e cresce em ritmo acelerado.
Tudo bem cobrar transparência. Vale a pena ler as notas de rodapé dos relatórios, debater as regras de consolidação e questionar as escolhas contábeis. Mas chamar essas empresas de nova Enron é um exagero. A Enron provocou o crash da Enron por conta de uma fraude de proporções absurdas — e é altamente improvável que algo desse nível esteja sendo perpetrado agora por essas companhias.
Vale lembrar de uma experiência pessoal que ilustra bem esse ponto. Lá no meio dos anos 1980, quando eu ainda estava começando na área de contabilidade, meu maior cliente era uma empresa de biotecnologia de capital aberto chamada Centocor, que na época desenvolvia medicamentos baseados em anticorpos monoclonais para tratar de várias condições, incluindo sepse.
Para levantar dinheiro, a Centocor também fazia financiamento fora do balanço. A empresa formava parcerias limitadas nas quais mantinha uma participação minoritária, mas a entidade emitia dívida e recebia aportes dos sócios investidores para bancar o desenvolvimento dos remédios — que a Centocor depois tinha o direito exclusivo de usar. Nos anos 1980 e início dos 1990, centenas de milhões de dólares foram despejados nessas parcerias. Era prática comum na biotecnologia da época.
O que a história da biotecnologia nos ensina
Alguns desses medicamentos falharam nos testes clínicos? Sim, falharam. Mas isso provocou um pânico no mercado de ações? Não. Assim como acontece com os datacenters de hoje, os riscos estavam distribuídos entre vários participantes. E, naquela época — antes da internet, antes das divulgações modernas da SEC e antes da fiscalização da mídia 24 horas por dia — o público mal sabia da existência desses veículos financeiros.
A boa notícia é que a contabilidade evoluiu bastante desde então, mesmo que a ideia econômica por trás disso tenha permanecido a mesma: nenhuma dívida aparecia no balanço da Centocor. Com o tempo, esse tipo de financiamento acabou ficando mais caro e menos popular, simplesmente porque surgiram maneiras mais fáceis e baratas de captar recursos.
As estratégias de financiamento fora do balanço usadas hoje pelas grandes empresas de tecnologia carregam riscos bem diferentes daqueles das companhias de biotecnologia da minha juventude. Atualmente, as divulgações exigidas de quem faz esse tipo de operação são significativas. O escrutínio é intenso. O público investidor é mais preparado. Os riscos de hoje são de outra natureza — e, pode-se argumentar, mais recuperáveis. 💡
Nos anos 1990, empresas como Centocor, Genentech, Amgen e Biogen captavam milhões em parcerias que desenvolviam produtos com altíssima probabilidade de falhar nos testes clínicos. Hoje, os investidores estão financiando terrenos, prédios, infraestrutura elétrica e equipamentos de computação. Um datacenter pode decepcionar do ponto de vista financeiro, mas ele não desaparece porque um ensaio clínico deu errado.
O que os números revelam sobre a força desse modelo
Não é por acaso que Jeff Bezos chama a IA de bolha industrial. Bolhas industriais deixam coisas para trás. Ferrovias. Cabos de fibra ótica. Fábricas. E, desta vez, datacenters. O paralelo mais útil aqui não é com fraudes corporativas, mas com a expansão da infraestrutura de telecomunicações, quando redes de fibra ótica consideradas excessivas na época acabaram se tornando a espinha dorsal da internet moderna.
E se isso fosse mesmo um excesso de oferta, seria um excesso bem estranho. Os desenvolvedores aumentaram a capacidade de datacenters na América do Norte em 36% no último ano, e mesmo assim a taxa de vacância caiu para um recorde de apenas 1,4%. Segundo o relatório North America Data Center Trends H2 2025, da CBRE, a demanda está superando a oferta em praticamente todos os grandes mercados.
Diferente das empresas farmacêuticas que apenas torciam pelo sucesso de seus remédios, existe uma necessidade legítima e presente de datacenters hoje. A IA não vai desaparecer. A Microsoft estima que apenas 17,8% da população em idade ativa do mundo usa atualmente IA generativa. Se esse número estiver minimamente correto, ainda estamos muito mais perto do começo da adoção do que do fim dela. 🚀
O que esse momento significa para quem acompanha a evolução da IA
Para quem está de olho no avanço da inteligência artificial — seja como profissional de tecnologia, entusiasta ou simplesmente alguém que percebe o quanto essa tecnologia já mudou o dia a dia — entender o contexto financeiro por trás do crescimento dos datacenters de IA é fundamental. A infraestrutura que está sendo construída agora vai determinar quais modelos de IA serão possíveis nos próximos anos. Capacidade de processamento não é um detalhe técnico — é o recurso escasso que define quem lidera a corrida pelo desenvolvimento de sistemas cada vez mais poderosos e eficientes.
É claro que nem tudo vai dar certo. Alguns desses investimentos vão fracassar. Alguns credores vão perder dinheiro. Alguns datacenters vão valer menos do que seus donos pagaram por eles. Mas é exatamente por isso que essas estruturas de financiamento existem: para distribuir requisitos enormes de capital e risco entre investidores dispostos a assumi-los. As obrigações são divulgadas, os ativos são reais e a demanda por capacidade de computação continua forte.
O que vale acompanhar nos próximos meses é como a demanda real por serviços de IA vai evoluir, especialmente no segmento corporativo, onde os contratos de longo prazo com grandes clientes funcionam como o principal termômetro de saúde financeira para os operadores de datacenters. Se essa demanda continuar firme — e os sinais até agora apontam nessa direção — a história contada sobre esse período não será a de uma bolha que estourou, mas a de uma das maiores e mais rápidas expansões de infraestrutura tecnológica que o mundo já viu.
No fim das contas, dá para enxergar aqui, sim, muita engenharia financeira sofisticada. O que não dá para enxergar é uma bomba-relógio prestes a explodir. 📈
