A Anthropic lançou o Fable 5 como seu modelo mais avançado e caro até hoje, mas os números contam uma história bem diferente da esperada. E olha, essa história começa a preocupar a empresa às vésperas do que pode ser um dos maiores IPOs de todos os tempos.
Dados coletados pela Ramp, empresa de pagamentos que monitora os gastos de 70 mil companhias, mostram que o Fable 5 representa apenas cerca de 11% do total investido nas ferramentas da Anthropic, mesmo depois de mais de dois meses no mercado. É um número que estagnou e não decolou como muita gente esperava.
O motivo? Os usuários corporativos estão optando por alternativas mais baratas, e esse movimento já começa a levantar questões sérias sobre o futuro do modelo de negócios da empresa. 🤔
O que está acontecendo aqui vai muito além de uma simples preferência de preço. É uma mudança de comportamento real no mercado de inteligência artificial, onde eficiência e custo-benefício estão começando a falar mais alto do que o poder bruto de processamento. E isso muda bastante o jogo para todas as empresas que apostam pesado no desenvolvimento de modelos de ponta.
Por que as empresas estão ignorando o Fable 5?
A resposta curta é: dinheiro. Mas a resposta completa é bem mais interessante do que isso. O Fable 5 da Anthropic chegou ao mercado no começo de junho com a proposta clara de ser o modelo mais capaz da empresa. O problema é que essas melhorias têm um preço, literalmente. O custo do Fable 5 é consideravelmente mais alto do que o dos modelos anteriores, que continuam dando conta do recado na maioria das tarefas empresariais.
Como resumiu Miles Clements, sócio da Accel, que já investiu perto de 1 bilhão de dólares na Anthropic: a maioria das pessoas não precisa operar na fronteira da tecnologia. Segundo ele, o período em que os clientes escolhiam apenas os modelos mais avançados não era uma era durável. E os dados da Ramp confirmam essa leitura de forma bem direta.
Os usuários corporativos estão fazendo uma escolha racional. Para a maioria das tarefas do dia a dia, como resumir documentos, responder e-mails, gerar rascunhos e automatizar fluxos simples, modelos mais antigos e baratos funcionam muito bem. Pagar várias vezes mais por um modelo que oferece ganhos marginais em casos bem específicos simplesmente não faz sentido para a maior parte das operações. 💡
Clements ainda faz uma observação importante: os avanços em inteligência continuam essenciais para cumprir as promessas mais ambiciosas dessas empresas, como curar doenças e atrair os melhores pesquisadores. Mas, cada vez mais, esses avanços vão funcionar como vitrines, e não necessariamente como os produtos mais vendidos no dia a dia.
O lançamento conturbado que atrapalhou a decolagem
O Fable 5 não teve vida fácil desde o início. Seu lançamento, no começo de junho, foi interrompido pela administração Trump, que forçou a Anthropic a retirar o modelo do mercado citando preocupações de segurança nacional. O modelo só recebeu sinal verde para voltar em 1 de julho.
Desde então, as preocupações com limitações de acesso ao Fable diminuíram bastante. A incerteza política virou um fator secundário quando comparada a preço e desempenho na hora de os clientes escolherem qual modelo usar. Ou seja, mesmo com a poeira política assentada, a adoção não engrenou como esperado.
Ara Kharazian, economista-chefe da Ramp, aponta que regras de retenção de dados impostas pela administração Trump também atrapalharam a adoção do Fable. Foram vários fatores empilhados que criaram um cenário desfavorável logo na largada do produto.
O mercado de IA está mudando de forma silenciosa
O que os dados da Ramp revelam sobre o Fable 5 não é um problema exclusivo da Anthropic. É um sinal de algo muito maior acontecendo no ecossistema de inteligência artificial como um todo. Durante muito tempo, a corrida do setor foi definida por uma lógica simples: quem tem o modelo mais poderoso, vence. Mas o mercado corporativo está começando a questionar essa lógica de forma bastante prática.
A proliferação de alternativas competentes e baratas está criando um novo cenário. A disponibilidade de modelos de peso aberto, vindos da China e de outros lugares, deu aos clientes muito mais opções fora dos grandes laboratórios americanos. Isso força empresas como a Anthropic a repensarem a estratégia de precificação, porque o argumento de que o modelo mais caro é sempre o melhor simplesmente não se sustenta mais.
Tem também a questão da especialização. O mercado está caminhando para um modelo onde diferentes ferramentas são usadas para diferentes tarefas. Empresas estão construindo arquiteturas onde modelos mais baratos fazem o trabalho pesado do volume, enquanto modelos mais capazes ficam reservados para os casos mais críticos. Nesse cenário, ter o modelo mais poderoso do portfólio não garante participação de mercado se ele não estiver posicionado corretamente dentro dessa lógica de uso combinado.
Curiosamente, a própria Anthropic tem um exemplo disso dentro de casa. O Opus 5, um modelo menor mas ainda assim potente e com preço mais baixo, já superou o Fable em gastos empresariais desde seu lançamento no fim de julho, segundo a Ramp. Ou seja, os próprios clientes da empresa estão migrando para a opção mais econômica dentro do catálogo dela.
O IPO da Anthropic e o peso dos números reais
A Anthropic está se preparando para um dos IPOs mais aguardados do setor de tecnologia, com investidores antecipando uma avaliação de 2 trilhões de dólares ou mais, que pode acontecer já no próximo mês. Os dados sobre a adoção do Fable 5 chegam num momento bem delicado.
A receita da Anthropic em julho ficou abaixo das expectativas mais otimistas dos investidores, que projetavam vendas anualizadas ultrapassando 80 bilhões de dólares. Na semana passada, a empresa informou aos acionistas que a receita do mês bateu 65 bilhões de dólares em base anualizada, subindo dos 47 bilhões registrados em maio. Um crescimento forte, sem dúvida, mas ainda assim aquém do sonho dos mais bullish.
E aqui vale destacar: a startup comandada pelo CEO Dario Amodei continua crescendo num ritmo impressionante, com a receita aumentando quase sete vezes desde o início do ano. A empresa registrou seu primeiro lucro operacional ajustado no segundo trimestre e sinalizou aos investidores que deve ser lucrativa novamente no terceiro trimestre. Ela também informou ter 6 mil clientes que gastam 100 mil dólares ou mais por ano. A Anthropic preferiu não comentar o assunto.
A questão mais estratégica é: como a Anthropic vai equilibrar o investimento massivo em pesquisa com a realidade de um mercado que está votando com o cartão de crédito nas alternativas mais acessíveis? Essa tensão não tem resposta fácil, mas vai definir muito do caminho da empresa nos próximos anos. 📊
E a concorrência? A OpenAI está reagindo
Enquanto o Fable 5 patina, a OpenAI de Sam Altman parece estar recuperando terreno depois de amargar boa parte de 2026 em desvantagem. A receita anualizada da criadora do ChatGPT saltou 35% no trimestre até agora e já ultrapassa 40 bilhões de dólares.
Boa parte desse fôlego veio com o lançamento do GPT 5.6 em julho, que reanimou o desempenho da empresa depois de um início de ano meio arrastado. E tem um detalhe importante: o GPT 5.6 tem preço significativamente mais baixo que o Fable 5. Ou seja, mais uma vez, o fator custo aparece no centro da disputa.
Kharazian, da Ramp, admite que prever a trajetória da Anthropic mesmo para os próximos meses é uma tarefa praticamente impossível. Segundo ele, se você seguir as tendências anteriores, esperaria que a Anthropic dominasse o mercado. Mas como o modelo mais novo da OpenAI foi muito bom e o Fable teve desempenho abaixo do esperado, aconteceu justamente o contrário.
O que isso significa para quem usa IA no dia a dia
Para as empresas e profissionais que usam ferramentas de inteligência artificial, esse cenário traz uma mensagem bastante prática. A ideia de que você precisa sempre do modelo mais poderoso disponível para ter bons resultados é, na maioria dos casos, um mito caro. Entender o perfil de cada tarefa e escolher o modelo certo para cada situação é uma habilidade que está se tornando cada vez mais valiosa.
O movimento que os dados da Ramp capturam, com usuários corporativos preferindo alternativas mais baratas ao Fable 5, reflete uma maturidade crescente no uso de IA nas empresas. A fase da experimentação e do encantamento com o mais novo e poderoso está dando lugar a uma fase mais pragmática, onde retorno sobre investimento, custo por tarefa e previsibilidade de gastos importam tanto quanto capacidade técnica.
Para a Anthropic e para o setor como um todo, o recado é claro: inovação técnica precisa caminhar junto com uma proposta de valor que faça sentido para o bolso e para a operação real das empresas. Modelos incríveis que ficam subutilizados porque são caros demais para uso em escala não são um sucesso de produto, independente de quantos benchmarks eles vencem. O futuro do mercado de IA vai ser construído por quem conseguir equilibrar essas duas dimensões de forma inteligente. 🚀
