A Amazon confirmou que vai deixar um dos seus principais escritórios em San Francisco, liberando cerca de 130 mil pés quadrados, o equivalente a mais de 12 mil metros quadrados, no coração do distrito financeiro da cidade.
O espaço, que internamente é chamado de SFO13, ocupa mais da metade da torre de 12 andares na 188 Spear St. O contrato, firmado originalmente em 2012, vence no início do próximo ano, e a Amazon já disponibilizou o local para locação direta desde a última sexta-feira, cerca de dez meses antes do término oficial do acordo.
Em comunicado ao jornal San Francisco Chronicle, o porta-voz Steve Kelly explicou que a empresa avalia regularmente seus espaços corporativos para garantir que atendam às necessidades do negócio, dos funcionários e dos clientes. Segundo ele, a prioridade agora é aproximar as equipes e facilitar a colaboração entre diferentes áreas da companhia.
Mas a história tem dois lados bem diferentes.
A apenas três quarteirões dali, a torre 181 Fremont está vivendo um momento completamente oposto, com startups de inteligência artificial disputando cada metro disponível no prédio que a Meta abandonou há pouco tempo. Hoje, restam pouquíssimos andares livres no edifício, uma reviravolta impressionante para um prédio cujo espaço comercial inteiro estava no mercado de sublocação menos de três anos atrás.
Esse contraste resume bem o que está acontecendo com o mercado imobiliário comercial de San Francisco hoje, uma cidade que convive ao mesmo tempo com prédios quase vazios e outros onde mal sobra espaço para novos inquilinos. 🏙️
O que está por trás da saída da Amazon
A decisão da Amazon de não renovar o contrato na 188 Spear St. não veio do nada. Nos últimos anos, a empresa passou por uma reestruturação significativa no seu modelo de trabalho, apostando cada vez mais no retorno presencial para os seus funcionários, mas de forma concentrada em polos estratégicos. Esse movimento naturalmente deixou algumas operações regionais menores sem justificativa de custo, especialmente em cidades onde manter grandes escritórios representa uma despesa considerável. San Francisco, com seus aluguéis comerciais historicamente elevados mesmo depois da queda pós-pandemia, entrou nessa conta.
O porta-voz Steve Kelly não quis comentar se a saída do prédio na Spear Street significa uma possível consolidação das equipes nos outros dois endereços que a Amazon ainda mantém na cidade: o 525 Market St. e o 660 3rd St. Essa falta de resposta deixa no ar a possibilidade de que a empresa esteja planejando algo maior do que simplesmente devolver um contrato vencido.
Outro fator importante é a própria aposta da Amazon em inteligência artificial como eixo central das suas operações. A empresa tem investido bilhões no desenvolvimento de modelos de IA, nos serviços da AWS e em parcerias com startups do setor. Esse foco tecnológico muda o perfil das equipes que a empresa precisa manter fisicamente presentes, priorizando hubs onde a concentração de talentos em IA é maior e onde a infraestrutura de pesquisa já está estabelecida. San Francisco ainda tem esse capital humano, mas a Amazon claramente avaliou que não precisa de mais de meia dúzia de andares no distrito financeiro para acessá-lo.
O que é certo é que a listagem do espaço significa que a torre 188 Spear pode estar caminhando para ficar quase completamente vazia. No final de 2023, a empresa de análise de software New Relic, segunda maior inquilina do prédio, já buscava sublocar cerca de metade dos quatro andares que ocupava. Segundo dados da CoStar, plataforma especializada em dados imobiliários comerciais, todo o escritório de 55 mil pés quadrados da New Relic está sendo atualmente oferecido para locação direta. A empresa não respondeu a pedidos de comentário, e a proprietária do edifício, a Shorenstein Properties, também se recusou a falar sobre as listagens e seus esforços para atrair novos inquilinos. O térreo do prédio ainda conta com uma agência do Chase Bank em funcionamento. 📉
A torre 181 Fremont e a nova onda de inquilinos de IA
A poucos passos da 188 Spear, a 181 Fremont conta uma história radicalmente diferente. A torre de 57 andares, esbelta e revestida de vidro, foi concluída em 2018 e abriga cerca de 435 mil pés quadrados de escritórios abaixo de condomínios de luxo. Conectada ao Salesforce Park por uma passarela elevada, ela se tornou um dos endereços mais cobiçados do centro da cidade.
Antes mesmo de a construção terminar, o Facebook, hoje conhecido como Meta Platforms, havia alugado toda a porção comercial do prédio num contrato de longo prazo que vai até 2031. Na época, o acordo simbolizava o auge da aposta das grandes empresas de tecnologia em San Francisco como hub de crescimento e talento.
A torre voltou às manchetes no início de 2023, quando a Meta despejou todo esse espaço no mercado de sublocação, juntando-se à lista de grandes empresas que abraçaram o trabalho remoto durante a pandemia. A taxa de desocupação do centro da cidade chegou a ultrapassar 35% nos anos seguintes, mas o espaço da Meta não ficou parado por muito tempo.
No final de 2023, o prédio começou a atrair uma série de contratos menores. A empresa de tecnologia para viagens Navan foi a primeira a assinar, ocupando cerca de 36 mil pés quadrados em outubro daquele ano. Logo depois vieram Zendesk e Strava, cada uma ficando com escritórios de aproximadamente 40 mil pés quadrados distribuídos em múltiplos andares.
No ano passado, a startup de inteligência artificial Mercor fechou contrato para três andares superiores do edifício, estabelecendo ali sua sede após levantar uma rodada de financiamento de 350 milhões de dólares. Esse movimento sinalizou uma mudança clara: a 181 Fremont deixou de depender de um único gigante da tecnologia e passou a abrigar uma base de inquilinos mais fragmentada, formada principalmente por empresas da nova geração de IA. Segundo informações do mercado, a Mercor estaria negociando espaço adicional no prédio, embora o acordo ainda não tenha sido fechado.
E a presença de IA no antigo espaço da Meta só cresce. A Lila Sciences, com sede em Cambridge, confirmou ao Chronicle que reivindicou os andares 35 a 38 para seu programa de inteligência artificial, inaugurando seu primeiro escritório em San Francisco justamente na 181 Fremont.
Além disso, um porta-voz da própria Meta confirmou que a empresa sublocou neste ano cerca de 80 mil pés quadrados para a Perplexity AI, um dos maiores blocos do espaço de sublocação a ser absorvido até agora. 🤖
San Francisco dividida entre o vazio e a disputa por espaço
O paradoxo imobiliário de San Francisco nunca foi tão visível. De um lado, torres inteiras com andares vagos que acumulam poeira e custos de manutenção sem gerar receita. De outro, prédios específicos onde as filas de interesse de novos inquilinos crescem antes mesmo de uma vaga ser oficialmente anunciada. A 181 Fremont é o exemplo mais recente e emblemático dessa segunda categoria.
Esse movimento não é coincidência. San Francisco se transformou no epicentro global da corrida pela inteligência artificial, e as empresas desse setor têm uma característica diferente das grandes corporações de tecnologia que dominaram a cidade na última década. Elas crescem rápido, precisam de espaço físico para montar laboratórios, atrair pesquisadores e criar uma cultura de equipe, e muitas delas preferem estar próximas umas das outras para facilitar parcerias, contratações e o fluxo informal de ideias que acontece quando times de IA convivem no mesmo ambiente. Isso cria uma demanda concentrada em endereços específicos, geralmente próximos a aceleradoras e outros hubs do setor.
Robert Sammons, diretor sênior de pesquisa da corretora Cushman and Wakefield, observou que as startups de IA têm buscado espaços prontos para uso o mais rápido possível. Segundo ele, não são apenas os espaços menores e já montados que estão sendo ocupados rapidamente. Os blocos maiores também estão indo embora com velocidade. Sammons acrescentou que há certa ansiedade entre os inquilinos, com a percepção de que os melhores espaços, tanto de sublocação quanto de locação direta, estão sendo absorvidos cada vez mais rápido.
O resultado é uma cidade com dois mercados imobiliários funcionando em paralelo. O mercado das grandes empresas de tecnologia que amadureceram, cresceram demais e agora enxugam suas operações físicas, devolvendo espaços que conquistaram durante o boom dos anos 2010. E o mercado das startups de inteligência artificial, faminto por localização, por prestígio de endereço e por proximidade com o ecossistema de inovação que San Francisco ainda oferece melhor do que qualquer outra cidade do mundo. Esses dois mercados coexistem a poucos quarteirões de distância, criando uma paisagem urbana cheia de contradições visíveis a olho nu. 🏢
O novo mapa da IA no mercado imobiliário
O que está acontecendo em San Francisco é, na prática, uma reorganização do mapa econômico da cidade orientada pela inteligência artificial. As empresas que definiram a cidade nas últimas duas décadas, como Meta, Uber, Dropbox e agora a própria Amazon, foram deixando para trás espaços físicos enormes à medida que adotaram modelos híbridos, reduziram quadro de funcionários ou simplesmente consolidaram operações em outras cidades. No lugar delas, chegam nomes como Mercor, Perplexity AI, Lila Sciences e dezenas de startups menores, todas orbitando o mesmo ecossistema e todas com apetite por espaço físico de qualidade, bem localizado e com infraestrutura capaz de suportar operações intensivas em computação e pesquisa.
Esse novo ciclo traz consigo uma discussão importante sobre o futuro do trabalho e do espaço físico no setor de tecnologia. Durante muito tempo, o debate girou em torno do trabalho remoto como o grande vilão dos escritórios vazios. E ele tem, sim, uma parcela de responsabilidade. Mas o que San Francisco mostra na prática é que o problema é mais nuançado do que parece. Empresas de IA estão indo na direção oposta, buscando presença física intensa, escritórios colaborativos e proximidade geográfica com concorrentes e parceiros. Isso sugere que o escritório não está morto, ele só está sendo ressignificado por um setor específico que entende o valor da co-presença para acelerar inovação.
Para o mercado imobiliário de San Francisco, essa dinâmica representa tanto um desafio quanto uma oportunidade. O desafio está em reconverter espaços que foram pensados para grandes empresas de tecnologia em formatos que atendam startups menores e mais ágeis, com necessidades diferentes de planta, infraestrutura e flexibilidade contratual. A oportunidade está em que, diferente de outras cidades americanas que simplesmente viram suas torres comerciais esvaziarem sem perspectiva de recuperação, San Francisco ainda tem um motor de demanda potente funcionando. E esse motor tem nome: inteligência artificial. 💡
A taxa de desocupação de escritórios em San Francisco supera 30%, mas prédios próximos a hubs de IA registram ocupação praticamente total. O inventário de sublocação que antes assustava o mercado agora é visto como oportunidade, e a grande pergunta é se blocos mais antigos, como o da 188 Spear, vão conseguir preencher seus andares com a mesma velocidade que as torres mais modernas e bem posicionadas.
O movimento da Amazon é, portanto, muito mais do que uma empresa devolvendo chaves de um escritório. É um capítulo de uma história maior sobre como a tecnologia está redesenhando as cidades, os espaços de trabalho e as prioridades das empresas que moldam a economia digital. E San Francisco, com todas as suas contradições, continua sendo o lugar onde essa história está sendo escrita em tempo real. 🌉
