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O Google chegou em setembro com uma energia bem diferente da que vinha apresentando nos últimos meses.

Depois de registrar sua maior sequência de perdas mensais na bolsa em mais de uma década, a empresa virou o jogo de um jeito que poucos esperavam tão rápido. Três acontecimentos mudaram o clima de vez: o lançamento do novo Gemini 3.8 Flash, uma vitória importante no campo do antitruste e o apoio público de um dos investidores mais respeitados do mercado. Não é exagero dizer que foi uma semana e tanto para a gigante de Mountain View.

O verão tinha sido pesado: o Google perdeu terreno na corrida de inteligência artificial, viu talentos importantes saírem pela porta e ainda passou por uma reestruturação interna considerável no DeepMind. Uma das mudanças mais simbólicas foi a de Demis Hassabis, que deixou o cargo de CEO do DeepMind para assumir a presidência do conselho da unidade. Mas setembro trouxe um fôlego novo — e vale entender o que está por trás de cada um desses movimentos. 👇

Gemini de volta ao jogo

O lançamento do Gemini 3.8 Flash foi, sem dúvida, o evento técnico mais comentado da semana. Curiosamente, foi o terceiro modelo Flash lançado pela empresa em apenas seis semanas, o que mostra o ritmo acelerado com que o Google está iterando. O modelo chegou com melhorias significativas em raciocínio, tarefas de programação e execução de tarefas agênticas — exatamente as áreas em que as empresas de IA estão tentando transformar avanços técnicos em receita concreta com clientes corporativos. O próprio Google descreveu o novo Flash como seu melhor modelo de raciocínio e programação até hoje, com ganhos expressivos em engenharia de software e tarefas de múltiplas etapas em relação ao antecessor, o 3.7 Flash.

Tulsee Doshi, diretora sênior de gerenciamento de produtos do Google DeepMind, comentou à imprensa que os modelos Flash recentes surpreenderam a equipe de forma bastante positiva em termos de desempenho, o que abriu novas oportunidades para a empresa apostar ainda mais neles. Para quem acompanha o setor de perto, a evolução foi notável: o Flash sempre foi o modelo voltado para eficiência, mas dessa vez o Google conseguiu equilibrar desempenho e economia de uma forma que chamou atenção até dos mais céticos. Desenvolvedores que testaram o modelo relataram ganhos em tarefas de raciocínio encadeado, geração de código e análise de documentos longos, áreas em que versões anteriores ainda deixavam a desejar.

Mas nem tudo são flores. Segundo Gil Luria, analista da D.A. Davidson, apesar do modelo manter o Google na corrida do ponto de vista de produto, ele provavelmente não muda o fato de que a empresa ainda ocupa uma distante terceira posição no mercado corporativo, atrás de Anthropic e OpenAI. Luria, que recomenda manter a ação, resume bem o desafio: os modelos menores e mais baratos, como o Flash, se aproximam cada vez mais dos sistemas de fronteira em algumas tarefas, mas ainda não são suficientes para alcançar os líderes do setor.

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Ainda assim, o contexto em que esse lançamento aconteceu o tornou especialmente relevante. O Google vinha sendo constantemente questionado sobre sua capacidade de manter o ritmo na corrida de inteligência artificial. Com o Gemini ganhando tração real nas ferramentas do ecossistema Google — como o Workspace, o Search e o Android — a empresa está mostrando que sua vantagem de distribuição ainda é um diferencial poderoso. Ter um modelo de IA dentro de produtos que bilhões de pessoas já usam todo dia é algo que nenhuma startup consegue replicar da noite para o dia.

Competindo no preço

Um dos trunfos mais importantes da estratégia do Google é o preço. O Gemini 3.8 Flash custa 75 centavos de dólar por milhão de tokens de entrada e 3,75 dólares por milhão de tokens de saída — o mesmo preço promocional do modelo Flash anterior, mesmo com todas as melhorias em programação, tarefas agênticas e raciocínio. Ou seja, o cliente ganha mais capacidade pagando o mesmo valor de antes.

Além disso, o Gemini Enterprise passou a oferecer cobrança sob demanda, descontos de até 20% em tokens, limites mensais de gastos com agentes e até uma opção de assinatura base sem custo. Em materiais divulgados à imprensa, o Google mirou diretamente na Microsoft e na Anthropic, argumentando que as taxas recorrentes por usuário e as licenças de produtos separadas dessas concorrentes tornam suas ofertas mais caras e menos flexíveis.

A escala também joga a favor do Google. Quase três quartos dos clientes do Google Cloud já utilizam seus produtos de IA, e Thomas Kurian, CEO do Google Cloud, revelou que esses clientes estão gastando cerca de 50% a mais do que haviam se comprometido inicialmente. É o tipo de número que mostra que a adoção não é só experimental — as empresas estão realmente incorporando essas ferramentas no dia a dia.

Demis Hassabis reforçou essa visão ao falar publicamente pela primeira vez desde a reorganização do DeepMind. Durante uma reunião de inovação do G20, ele descreveu um futuro em que o Gemini poderia funcionar como uma camada de uso geral, coordenando modelos especializados mais baratos e agentes autônomos. Nesse cenário, a amplitude da oferta pode ser tão importante quanto ter simplesmente o melhor modelo isolado — e é justamente aí que o Google acredita ter vantagem.

Cybersecurity entra na conversa

Outro destaque da semana foi o avanço do Google nas suas iniciativas de cybersecurity baseadas em inteligência artificial. Junto com o Flash, a empresa lançou também o Gemini 3.8 Flash Cyber, um modelo focado em segurança digital. Segundo o Google, ele consegue detectar e corrigir vulnerabilidades de software com desempenho de nível de fronteira, mas rodando de forma substancialmente mais rápida e mais barata do que modelos maiores.

Como Doshi explicou, a proposta é oferecer aos defensores uma solução que custa uma fração do preço, é muito mais veloz e, ao mesmo tempo, entrega desempenho de ponta. É uma combinação que faz toda a diferença para equipes de segurança que precisam agir em tempo real contra ameaças cada vez mais sofisticadas.

Justamente porque essas capacidades também poderiam ser usadas de forma indevida, o Google decidiu limitar inicialmente o acesso a um grupo restrito de clientes governamentais e corporativos de confiança, por meio de um novo programa chamado Fairwind. É uma abordagem cautelosa e responsável, que reconhece que ferramentas poderosas exigem controle sobre quem as utiliza.

A interseção entre inteligência artificial e cybersecurity é um dos campos que mais cresce no setor de tecnologia, e o Google tem uma posição privilegiada aqui. A empresa opera uma das maiores infraestruturas digitais do mundo, o que significa que ela vê um volume absurdo de dados de tráfego, tentativas de ataque e padrões de exploração de vulnerabilidades. Usar o Gemini para processar e aprender com esse volume de informação é uma vantagem competitiva difícil de replicar.

O apoio que veio na hora certa

Para fechar a semana com chave de ouro, Greg Abel, CEO da Berkshire Hathaway, fez questão de declarar publicamente seu otimismo com a Alphabet. Esse tipo de sinal importa mais do que parece à primeira vista. No mercado financeiro, especialmente depois de um período de turbulência como o que a empresa atravessou nos últimos meses, a voz de um investidor tão respeitado funciona como um catalisador de confiança.

Abel explicou que a visão positiva da Berkshire vem, em parte, de como as próprias empresas do portfólio utilizam a tecnologia do Google. Nas palavras dele, a Berkshire tem bastante visibilidade sobre como suas companhias aplicam a IA e que tipo de benefícios ela entrega, o que gerou um interesse incremental e fez a empresa enxergar o Google como um player significativo nesse mercado.

O argumento central era direto: o Google ainda possui os ativos mais valiosos da internet — distribuição massiva, dados em escala incomparável e uma infraestrutura de computação que pouquíssimas empresas no mundo conseguem competir. A narrativa de que a empresa estaria ficando para trás na corrida de inteligência artificial sempre foi um pouco exagerada, até porque construir modelos de IA de ponta não é o único fator que determina quem vai ganhar essa disputa no longo prazo.

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O motor que continua girando

Enquanto a posição do Google em IA é vista por alguns especialistas como frágil, o negócio de publicidade segue firme, crescendo 14% no último trimestre. Esse é o motor de caixa que financia toda a ambição da empresa em inteligência artificial, e ele recebeu um reforço importante no campo jurídico.

Um juiz federal responsável pelo caso antitruste do Departamento de Justiça sobre a tecnologia de anúncios decidiu que o Google não será obrigado a vender sua plataforma de troca de anúncios AdX. Em vez do desmembramento estrutural que os reguladores buscavam, o juiz optou por remédios comportamentais. A decisão vem na esteira de outra vitória do ano anterior, quando um juiz também rejeitou a exigência de que o Google se desfizesse do Chrome.

Para o advogado especializado em antitruste Wyatt Fore, sócio da Schinder Cantor Lerner, o fato de tribunais em ambos os casos terem optado por não dividir a empresa é algo enorme. Segundo ele, o Google entra na corrida da IA sem nenhuma mão amarrada nas costas — uma imagem que resume bem o alívio estratégico que essas decisões trouxeram.

Vale destacar que a batalha do antitruste ainda não acabou por completo, e o ambiente regulatório global segue exigente para as big techs. Mas a combinação de vitórias jurídicas mudou o sentimento do mercado. As ações da Alphabet ainda não mostraram uma recuperação forte — subiram 0,6% na quarta-feira depois de caírem mais de 1% na terça —, mas o clima geral em torno da empresa melhorou bastante.

O que setembro mostrou, no fundo, é que o Google ainda sabe se reinventar quando a pressão aumenta. A combinação de modelos de inteligência artificial mais competitivos, uma estratégia agressiva de preços, um cenário de antitruste menos hostil, avanços reais em cybersecurity e o respaldo de quem entende do mercado criou uma janela de recuperação que muita gente não esperava ver tão cedo. O caminho ainda tem obstáculos, mas o fôlego voltou. 🚀

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