Duas aquisições no Hawaii em uma semana: o que isso diz sobre o futuro do empreendedorismo em tecnologia
Duas aquisições acontecendo na mesma semana já seria notícia em qualquer lugar do mundo. Mas quando as duas empresas foram fundadas no Hawaii — um dos lugares que o mercado tech raramente coloca no centro das atenções — o evento ganha um peso completamente diferente.
É exatamente isso que aconteceu recentemente com Richard Matsui, da kWh Analytics, e Brent Akamine, da Vinovest. Dois fundadores, duas empresas construídas com muito trabalho e visão de longo prazo, e dois negócios fechados praticamente ao mesmo tempo.
A kWh Analytics foi adquirida pela Beazley, seguradora britânica de grande porte, enquanto a Vinovest foi comprada pela StartEngine, plataforma americana de investimentos. Além de moradores de longa data do Hawaii e ex-alunos da Punahou School, Matsui e Akamine compartilham algo ainda mais relevante para quem acompanha o setor: a visão de que a inteligência artificial está mudando as regras do jogo para o empreendedorismo em regiões fora dos grandes centros.
E essa parte da história vai bem além das ilhas. 🌊
O que torna esse momento tão especial para o Hawaii
O Hawaii é conhecido mundialmente pelas praias, pelo turismo e por uma qualidade de vida invejável. O que pouca gente sabe — ou ao menos raramente discute — é que o estado americano carrega desafios estruturais bem sérios para quem quer empreender em tecnologia. O custo de vida é um dos mais altos dos Estados Unidos, o acesso a capital de risco é limitado se comparado a hubs como São Francisco ou Nova York, e a distância geográfica dos grandes centros de inovação sempre foi um obstáculo real para fundadores que tentam construir empresas competitivas no cenário nacional e global.
Essa percepção criou uma narrativa persistente de que o ecossistema tech do Hawaii simplesmente não conseguia produzir resultados relevantes. Como o próprio Matsui resumiu em entrevista à Hawaii Business Magazine: existe há tempos uma narrativa de que a tecnologia no Hawaii não deu certo. Mas dois exits em uma semana mostram que o teto é mais alto do que as pessoas imaginam.
Por isso, quando duas aquisições de empresas fundadas no Hawaii acontecem quase simultaneamente, o mercado para e presta atenção. Não é apenas uma coincidência curiosa. É um sinal de que algo mudou na dinâmica do empreendedorismo local — e que essa mudança tem tudo a ver com o avanço da inteligência artificial como ferramenta de equalização entre regiões.
Matsui e Akamine são dois exemplos concretos de que dá para construir empresas robustas, com valor real de mercado e com capacidade de atrair grandes compradores, mesmo operando fora dos polos tradicionais de tecnologia.
O que chama ainda mais atenção é o perfil dos compradores. A Beazley é uma das principais seguradoras especializadas do mercado britânico, com atuação global e um histórico sólido de apostas estratégicas em empresas de dados e análise de risco. Para dar uma dimensão do tamanho dessa operação, a própria Beazley anunciou recentemente que concordou com os termos de uma oferta de aquisição de 10,8 bilhões de dólares feita pelo Zurich Insurance Group, gigante suíço que está intensificando sua presença no mercado de seguros especializados. A StartEngine, por sua vez, é uma das plataformas mais relevantes de equity crowdfunding nos Estados Unidos, conhecida por democratizar o acesso a investimentos em startups. Duas empresas de portes e segmentos diferentes, mas que enxergaram valor suficiente nessas operações para fechar negócio. Isso diz muito sobre a qualidade do que foi construído.
kWh Analytics: de banco de dados a seguradora de energia limpa
A kWh Analytics não surgiu do nada — e sua trajetória é um caso fascinante de como um pivot estratégico pode redefinir completamente o rumo de uma empresa. Quando Richard Matsui fundou a empresa em 2012, a ideia original era construir uma base de dados focada no setor de energia solar. O plano soava relativamente simples: reunir informações de geração de energia renovável e torná-las acessíveis para o mercado.
Mas como acontece com muitas startups, o caminho não foi linear. Nas palavras do próprio Matsui: a gente achava que estava construindo um banco de dados. Aí perguntamos — como a gente ganha dinheiro com isso? E se a gente criasse apólices de seguro a partir dos dados?
Essa mudança de direção foi o que definiu o negócio. A kWh Analytics se transformou naquilo que Matsui descreve como a seguradora de energia limpa, tornando-se uma das maiores seguradoras de projetos de energia solar, eólica e de baterias na América do Norte. A empresa acumulou uma base de dados única e desenvolveu modelos analíticos que nenhum outro player conseguia replicar com a mesma profundidade. A inteligência artificial foi parte central dessa construção, permitindo que a empresa processasse volumes massivos de informação e gerasse insights que antes levariam muito mais tempo e custo para produzir.
A aquisição pela Beazley se materializou de forma relativamente rápida, embora tenha sido precedida por um longo período de amadurecimento. Segundo Matsui, no final do ano passado ficou claro que a empresa teria melhores condições de crescer como parte de uma plataforma maior. Ao perceber sinais de que a Beazley estava interessada em expandir sua atuação no segmento de energia limpa, a equipe da kWh Analytics tomou a iniciativa de abordar a seguradora britânica — e a conversa evoluiu rapidamente a partir daí.
Vinovest: vinho e whisky como investimento acessível
A Vinovest percorreu um caminho diferente, mas igualmente interessante. Brent Akamine fundou a empresa em 2019, após anos trabalhando em startups em Los Angeles, com uma ideia ousada: democratizar o investimento em vinhos finos e whisky, mercados historicamente restritos a investidores institucionais e colecionadores com alto patrimônio.
A plataforma permitia que qualquer pessoa investisse nesses ativos alternativos, com toda a infraestrutura de armazenamento, autenticação e liquidez sendo gerenciada pela empresa. A tecnologia foi o que viabilizou esse modelo de negócio: desde a precificação automatizada de ativos até a gestão logística de um produto físico delicado como o vinho, tudo dependia de sistemas bem construídos e de um uso inteligente de dados para garantir que a operação escalasse sem perder qualidade.
Os números falam por si. A Vinovest cresceu para mais de 200 mil usuários e passou a gerenciar cerca de 140 milhões de dólares em ativos — uma prova de que o modelo de negócio encontrou mercado real e demanda consistente.
Sobre a aquisição pela StartEngine, Akamine explicou que o processo foi conduzido dentro do padrão de mercado, mas que a escolha do parceiro teve um critério claro. No final, escolhemos o parceiro onde sentimos que o crescimento viria mais rápido como parte de uma empresa maior, disse o fundador.
Tanto Matsui quanto Akamine optaram por não divulgar detalhes financeiros das duas aquisições.
O que une essas duas histórias
O que conecta a kWh Analytics e a Vinovest, além da origem geográfica dos fundadores, é a clareza estratégica com que cada um construiu seu negócio. Nenhuma das duas empresas tentou ser tudo para todo mundo. Ambas escolheram nichos específicos, desenvolveram expertise profunda nesses mercados e usaram tecnologia — com destaque para a inteligência artificial — como alavanca para crescer de forma sustentável.
Essa combinação de foco e inovação foi, provavelmente, o principal fator que tornou as duas empresas alvos atraentes para compradores estratégicos de peso. Não são apenas apostas financeiras — são aquisições que fortalecem a posição competitiva de quem comprou.
Para ambos os fundadores, as aquisições representam menos um ponto final e mais uma transição. Cada um planeja permanecer envolvido com as empresas no curto prazo, ao mesmo tempo em que exploram formas de contribuir localmente — em especial ajudando negócios do Hawaii a adotarem novas tecnologias.
O papel da inteligência artificial fora dos grandes centros
Existe uma narrativa bastante consolidada no setor de tecnologia que associa inovação de ponta a lugares específicos: Silicon Valley, Nova York, Londres, Tel Aviv. Essa narrativa não é completamente falsa — esses centros realmente concentram uma quantidade desproporcional de talento, capital e infraestrutura. Mas ela começa a mostrar rachaduras à medida que a inteligência artificial avança como ferramenta acessível a fundadores em qualquer parte do mundo.
O que antes exigia equipes grandes, orçamentos milionários e proximidade física com investidores e parceiros estratégicos, hoje pode ser construído com times menores, mais ágeis e distribuídos geograficamente — desde que haja clareza de propósito e domínio das ferramentas certas.
Tanto Matsui quanto Akamine reforçaram essa ideia em suas declarações. Matsui argumenta que muitas das barreiras tradicionais para construir empresas no Hawaii — como geografia, acesso a talento e capital — estão desaparecendo rapidamente. Hoje você não precisa de uma equipe grande, disse ele. Se eu estivesse começando hoje, seria eu na sala de estar com uma ou duas pessoas.
Akamine trouxe a mesma visão sob uma perspectiva operacional. O que costumava exigir um time de 20 engenheiros agora pode ser feito por dois. A gente consegue entregar em um dia o que antes levava meses, afirmou.
É nesse contexto que o caso do Hawaii se torna especialmente relevante para a conversa sobre o futuro do empreendedorismo em tecnologia. Matsui e Akamine não venceram apesar de estarem no Hawaii. Eles venceram construindo empresas com fundamentos sólidos, usando IA para ganhar vantagem competitiva em mercados onde os dados são o ativo mais valioso. O fato de estarem geograficamente distantes dos grandes centros pode até ter sido um fator que os forçou a ser mais criativos e eficientes — algo que, no fim, se traduziu em empresas mais bem construídas e mais atraentes para compradores estratégicos. 🤖
Uma mudança que vai além do Hawaii
Essa dinâmica já está sendo observada em outras regiões fora do eixo tradicional de inovação. Cidades menores nos Estados Unidos, países da América Latina, regiões da Europa que não são Londres ou Berlim — todos estão vendo surgir empresas de tecnologia com qualidade competitiva global, e a inteligência artificial está no centro dessa transformação.
A capacidade de automatizar processos, gerar insights a partir de dados e desenvolver produtos digitais sofisticados sem depender de equipes enormes ou de escritórios em hubs caros está redistribuindo, lentamente mas de forma consistente, as oportunidades no ecossistema global de empreendedorismo.
As duas aquisições no Hawaii chegam em um momento em que o mercado de venture capital ainda digere os excessos do ciclo de 2021 e busca empresas com fundamentos mais sólidos, margens mais saudáveis e modelos de negócio menos dependentes de crescimento a qualquer custo. Nesse cenário, empresas como a kWh Analytics e a Vinovest representam exatamente o tipo de ativo que compradores estratégicos procuram: negócios com dados proprietários, com posição de mercado difícil de replicar e com tecnologia bem integrada à proposta de valor central.
O recado que fica
Para quem acompanha o setor, esse é também um sinal de que o conceito de geografia como barreira para o empreendedorismo tech está sendo reescrito em tempo real. A combinação de acesso a ferramentas de inteligência artificial, infraestrutura de cloud computing acessível e mercados de capitais cada vez mais distribuídos está criando condições para que fundadores em qualquer lugar do mundo construam empresas de alto impacto.
Matsui deixou um recado direto para quem está pensando em começar: se tem uma coisa que eu diria, é para simplesmente tentar. Passe uma tarde com essas ferramentas. Vai mudar a forma como você pensa sobre o que é possível.
O Hawaii pode ser o exemplo mais visível dessa semana, mas está longe de ser o único. O que Matsui e Akamine mostram, no fundo, é que o empreendedorismo em tecnologia está deixando de ser um jogo jogado apenas por quem tem o endereço certo. As regras estão mudando — e a inteligência artificial é a grande responsável por essa virada. 🚀
