Cerebras protocola IPO na Nasdaq após retirar documentação em 2025
A Cerebras finalmente deu o passo que o mercado estava esperando 👀
A fabricante de chips para inteligência artificial protocolou na sexta-feira os documentos para abrir capital na Nasdaq, sob o ticker CBRS, e o timing não poderia ser mais interessante.
Isso porque essa não é a primeira vez que a empresa tenta esse movimento.
Em 2024, a Cerebras já havia anunciado planos de IPO, mas retirou toda a documentação em 2025 para atualizar dados sobre desempenho financeiro e estratégia. Agora, com números bem mais robustos no bolso e um contrato bilionário com a OpenAI na mesa, a empresa voltou com força total.
E o cenário para esse movimento é bastante favorável.
O mercado de inteligência artificial está aquecido como nunca, e os investidores estão com sede de IPOs de empresas de tecnologia depois de um longo período de escassez que começou lá em 2022. A Cerebras chega nesse momento com uma proposta diferente das concorrentes, crescimento financeiro expressivo e parcerias que chamam atenção até de quem não acompanha o setor de perto.
Vale entender o que está por trás de tudo isso 🚀
Os números financeiros que a Cerebras trouxe para o IPO
Se em 2024 a história financeira da Cerebras ainda levantava dúvidas, os dados de 2025 contam uma narrativa completamente diferente. A empresa reportou receita de 510 milhões de dólares no ano passado, um crescimento de quase 76% em relação a 2024. Mais impressionante ainda: a companhia registrou um lucro líquido de 87,9 milhões de dólares, revertendo um prejuízo de 485 milhões de dólares que havia marcado o ano anterior.
Esse salto é significativo porque mostra que a Cerebras não está apenas crescendo em receita, mas também encontrou um caminho para a rentabilidade, algo que muitas empresas de infraestrutura de IA ainda lutam para alcançar. De acordo com o documento protocolado na SEC, a empresa tinha 24,6 bilhões de dólares em obrigações de desempenho remanescentes até 31 de dezembro, com expectativa de reconhecer 15% desse valor ao longo de 2026 e 2027.
Esses números dão ao mercado uma visão clara de que a Cerebras tem uma esteira de receita futura considerável, o que ajuda a justificar a avaliação de 23 bilhões de dólares que a empresa obteve em sua rodada de financiamento de 1 bilhão de dólares realizada em fevereiro. Para comparação, em setembro de 2025, poucos dias antes de retirar a documentação do IPO anterior, a empresa havia levantado uma rodada de 1,1 bilhão de dólares com valuation de 8,1 bilhões. A diferença entre os dois momentos fala por si só.
A concentração de clientes e a questão dos Emirados Árabes
Um dos pontos que mais geraram ruído na primeira tentativa de IPO da Cerebras, lá em 2024, foi a concentração extrema de receita. Na época, a empresa revelou que a G42, uma companhia dos Emirados Árabes Unidos com investimentos da Microsoft, era responsável por 87% da receita no primeiro semestre daquele ano. Isso deixou muitos investidores desconfortáveis, porque significava que praticamente todo o faturamento dependia de um único cliente.
Os números de 2025 mostram que houve uma mudança, mas com ressalvas. A participação da G42 na receita caiu para 24%. Porém, outro cliente dos Emirados Árabes assumiu o protagonismo: a Universidade Mohamed bin Zayed de Inteligência Artificial, uma instituição pública, respondeu por 62% da receita em 2025.
Ou seja, a concentração geográfica nos Emirados Árabes continua sendo um fator relevante na análise de risco da empresa. Ainda assim, a diversificação entre clientes diferentes dentro desse mercado, combinada com novos contratos em outras regiões, sinaliza que a Cerebras está trabalhando para ampliar sua base de forma mais equilibrada nos próximos anos.
O que faz a Cerebras ser diferente no mercado de chips
Quando a maioria das pessoas pensa em chips para inteligência artificial, o nome que vem à cabeça é a Nvidia. Mas a Cerebras construiu uma abordagem completamente diferente, e é justamente essa diferença que tem chamado tanta atenção.
Enquanto a Nvidia aposta em GPUs que processam dados em paralelo dentro de chips menores e interconectados, a Cerebras foi na direção oposta e criou o Wafer Scale Engine, um chip gigante que ocupa praticamente a área inteira de uma bolacha de silício. O resultado é um processador com capacidade absurda de memória e largura de banda para dados, o que o torna especialmente eficiente para treinar e rodar modelos grandes de inteligência artificial.
De acordo com o próprio site da empresa, o Wafer Scale Engine 3 oferece velocidade superior e custo menor em comparação com GPUs tradicionais. Essa vantagem é particularmente relevante no processo de inferência, que é basicamente rodar um modelo de IA já treinado para gerar respostas. Os sistemas da Cerebras conseguem gerar tokens em velocidades muito superiores às soluções baseadas em GPUs convencionais, o que coloca a empresa em uma posição bastante atraente para clientes que precisam de respostas em tempo real.
A empresa, inclusive, tem conquistado novos negócios justamente ao enfatizar a alta velocidade que seus processadores de larga escala conseguem entregar, principalmente para responder consultas de usuários finais.
A evolução do modelo de negócios: de vendedora de chips a provedora de nuvem
Um dos movimentos mais importantes da Cerebras nos últimos anos foi a mudança no seu modelo de atuação. Durante muito tempo, a empresa buscou vender chips diretamente para empresas. Agora, a Cerebras também opera seus próprios data centers e oferece poder computacional como serviço de nuvem para seus clientes.
Essa transição coloca a empresa em competição direta com gigantes como Amazon, Microsoft, Alphabet, Oracle e CoreWeave. É um jogo bem mais complexo do que apenas fabricar hardware, mas também é um caminho com margens potencialmente maiores e relacionamentos mais duradouros com clientes.
Um detalhe importante do documento protocolado na SEC é que a Cerebras não é dona dos data centers que utiliza para oferecer serviços de nuvem, embora tenha mencionado a possibilidade de construir instalações próprias no futuro. Essa dependência de infraestrutura de terceiros é algo que investidores certamente vão monitorar de perto.
O contrato bilionário com a OpenAI
O grande destaque entre as parcerias da Cerebras é, sem dúvida, o acordo com a OpenAI. Em janeiro, a empresa anunciou planos de fornecer até 750 megawatts de poder computacional para a OpenAI até 2028, em um contrato avaliado em mais de 20 bilhões de dólares.
O contrato prevê que a Cerebras disponibilize 250 megawatts por ano entre 2026 e 2028. Além disso, a OpenAI tem a opção de adquirir um adicional de 1,25 gigawatt de poder computacional da Cerebras até 2030. A própria Cerebras reconhece no documento que essa aliança representa uma parcela substancial de suas receitas projetadas para os próximos anos.
A relação entre as duas empresas vai além de um simples contrato de prestação de serviços. Em dezembro, a Cerebras emitiu para a OpenAI warrants para compra de até 33,4 milhões de ações da classe N, sem direito a voto. Em janeiro, a Cerebras recebeu um empréstimo de 1 bilhão de dólares da OpenAI, com taxa de juros anual de 6%, destinado à construção de infraestrutura de data centers. Esse empréstimo pode ser quitado em dinheiro ou por meio da entrega de produtos e serviços. Os warrants só se tornam totalmente exercíveis se a OpenAI comprar 2 gigawatts de poder computacional da Cerebras.
Atualmente, a Cerebras fornece à OpenAI poder computacional baseado em nuvem para operar uma ferramenta de programação assistida por inteligência artificial.
Mas atenção: a OpenAI tem o direito de encerrar parte ou todo o acordo caso a Cerebras não consiga entregar o poder computacional dentro do prazo ou se o serviço ficar abaixo de um determinado padrão de qualidade. Isso adiciona uma camada de risco que os investidores precisam considerar.
Novas parcerias com Amazon e Oracle no radar
Além da OpenAI, a Cerebras tem expandido suas parcerias com outras gigantes da tecnologia. Em março, a empresa fechou um acordo com a Amazon que permite a oferta de serviços de nuvem baseados em chips Cerebras. Como parte desse acordo, a Amazon poderá adquirir cerca de 270 milhões de dólares em ações da classe N da empresa.
No caso da Oracle, a situação é um pouco mais nebulosa. Durante a teleconferência de resultados de março, o CEO da Oracle, Safra Catz, e Clay Magouyrk mencionaram que a empresa de banco de dados e nuvem oferece chips da Cerebras entre seus fornecedores. No entanto, na época, a lista de preços da Oracle não continha referências à Cerebras, e o documento protocolado na sexta-feira também não menciona nenhum negócio formal com a Oracle.
O mercado está de olho e com apetite
O IPO da Cerebras chega num momento em que investidores de varejo e institucionais estão com fome de novas ofertas públicas de empresas de tecnologia em crescimento. Desde 2022, o mercado passou por uma seca considerável de IPOs relevantes no setor, e a demanda represada é visível.
Outras empresas de inteligência artificial como Anthropic e OpenAI também estão considerando abrir capital ainda em 2026, o que pode criar uma nova onda de ofertas no segmento. A recepção do mercado ao IPO da Cerebras pode funcionar como um termômetro para essas outras empresas que estão na fila.
Os bancos de investimento Morgan Stanley, Citigroup, Barclays e UBS figuram entre os principais subscritores da oferta. Além disso, no início desta semana, a Cerebras obteve do Morgan Stanley uma linha de crédito rotativo de até 250 milhões de dólares, com opção de aumentar o limite para 850 milhões após o IPO.
Quem está por trás da Cerebras
A Cerebras foi fundada em 2016 e tem sede em Sunnyvale, na Califórnia, com 708 funcionários registrados até 31 de dezembro de 2025. O cofundador e CEO, Andrew Feldman, não é novato no mercado de chips. Ele vendeu a startup de servidores SeaMicro para a AMD por 355 milhões de dólares em 2012.
Feldman também já revelou que em 2018, Elon Musk tentou comprar a Cerebras, o que dá uma dimensão do potencial que a empresa já demonstrava nos seus primeiros anos de existência.
Entre os investidores da companhia estão nomes de peso como Alpha Wave, Benchmark, Eclipse, Fidelity e Foundation Capital. O site da própria Cerebras também lista Sam Altman, CEO da OpenAI, como investidor, o que reforça a profundidade da relação entre as duas empresas.
Por que esse IPO importa para o setor de inteligência artificial
O movimento da Cerebras vai muito além de uma empresa buscando capital no mercado. Esse IPO representa um termômetro real de como os investidores estão enxergando o futuro da infraestrutura de inteligência artificial. Depois de anos com poucas ofertas públicas relevantes no setor de tecnologia, o mercado estava claramente represado, e empresas como a Cerebras chegam num momento em que há apetite genuíno por parte de fundos, gestoras e investidores individuais que querem exposição ao crescimento da IA sem necessariamente apostar apenas nos grandes nomes já consolidados.
O que torna esse cenário ainda mais interessante é que a Cerebras representa uma aposta na camada de chips e infraestrutura, que é historicamente uma das mais defensáveis dentro do ecossistema de tecnologia. Empresas que controlam o hardware onde a inteligência artificial roda têm uma vantagem estrutural enorme, porque toda aplicação, todo modelo, toda plataforma de IA precisa de processamento físico por baixo. Conforme os modelos ficam maiores e os casos de uso mais complexos, a demanda por chips especializados só aumenta.
O sucesso desse IPO pode abrir portas para outras empresas do setor que estavam esperando um sinal verde do mercado. O ecossistema de startups de infraestrutura de IA está cheio de empresas com tecnologia robusta que ainda não deram o salto para o mercado público. Se a Cerebras conseguir uma boa recepção na Nasdaq, isso cria um precedente importante e pode acelerar uma nova onda de aberturas de capital no segmento de inteligência artificial, o que seria uma ótima notícia para quem acompanha o setor de perto e quer ver mais opções de investimento em empresas que estão moldando o futuro da tecnologia 🤖
