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A corrida por energia que está transformando o futuro da inteligência artificial nos Estados Unidos

A inteligência artificial está crescendo em um ritmo que poucos imaginavam ser possível há alguns anos, e esse crescimento tem um preço que vai muito além do desenvolvimento de algoritmos e modelos.

Ele tem um preço literalmente elétrico. ⚡

Os centros de dados que sustentam toda essa infraestrutura de IA consomem uma quantidade absurda de energia, e a rede elétrica dos Estados Unidos simplesmente não foi projetada para dar conta dessa demanda. Só para ter uma ideia do tamanho do problema: hoje, mais de 4 mil centros de dados já estão operando em solo americano, com outros 3 mil planejados ou em construção. Alguns desses complexos consomem mais energia do que cidades inteiras.

É um cenário que virou uma corrida contra o relógio, e o governo dos EUA acabou de dar um passo que pode mudar esse jogo de forma significativa.

Em junho de 2026, a FERC — a Comissão Federal de Regulação de Energia — aprovou por unanimidade uma medida para acelerar a conexão elétrica de grandes consumidores de energia, especialmente os centros de dados voltados para IA, à rede de transmissão de alta tensão do país. Foi descrito como um voto histórico pela própria presidente da comissão.

Mas como toda decisão que envolve dinheiro, poder e política, ela não veio sem controvérsias. E os desafios que ficaram para trás são tão grandes quanto os que essa aprovação tenta resolver. 👇

O que a FERC aprovou, afinal?

A medida aprovada pela FERC tem um nome técnico, mas o conceito por trás dela é simples de entender. Antes dessa decisão, qualquer empresa que quisesse conectar um grande centro de dados à rede elétrica de transmissão precisava passar por uma fila de aprovação que, em muitos casos, levava anos para ser concluída. Estamos falando de processos que podiam se arrastar por quatro, cinco ou até seis anos antes de uma única tomada ser ligada. Para uma indústria que opera na velocidade da inteligência artificial, isso é praticamente uma eternidade.

O que a FERC fez foi direcionar que centros de dados de IA e outros grandes consumidores de energia sejam capazes de se conectar ao sistema de transmissão de forma tempestiva e ordenada. Na prática, isso significa que operadores de centros de dados poderão, sob determinadas condições técnicas e regulatórias, ter sua conexão elétrica processada com muito mais agilidade do que antes, reduzindo gargalos que travavam projetos bilionários antes mesmo de eles saírem do papel.

A votação foi unânime entre os cinco comissários, o que por si só já é um sinal de que havia um consenso raro de que algo precisava mudar urgentemente. Laura Swett, indicada pelo presidente Donald Trump e que preside a comissão, chamou a votação de ação histórica para empurrar o mercado de eletricidade do país para o futuro. O mercado reagiu positivamente, e empresas de tecnologia que já vinham pressionando por esse tipo de reforma regulatória comemoraram a decisão. 🤔

Mas como qualquer mudança estrutural desse porte, os detalhes de implementação ainda estão sendo definidos, e é justamente aí que mora boa parte das dúvidas.

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O papel do secretário de Energia e a disputa com a China

Essa decisão não surgiu do nada. O secretário de Energia, Chris Wright, havia pedido à FERC que agisse para ajudar os Estados Unidos a competir melhor com a China pela supremacia no setor de inteligência artificial, que cresce em ritmo acelerado. A pressão do governo Trump sobre a comissão independente refletia uma visão estratégica de que a infraestrutura energética é tão importante quanto o próprio desenvolvimento tecnológico na corrida global pela liderança em IA.

Para o governo, atrair investimentos estrangeiros e manter a relevância econômica e militar dos EUA passa diretamente pela capacidade de oferecer energia rápida e confiável para alimentar os complexos computacionais que sustentam essa tecnologia. Trump assinou inclusive uma ordem executiva neste mês que estabelece um framework para o governo federal avaliar os riscos de segurança nacional dos sistemas de IA mais avançados por até um mês antes de seu lançamento público. A abordagem combina aceleração de infraestrutura com controle estratégico sobre a tecnologia em si.

Empresas de tecnologia e desenvolvedores de centros de dados já vinham aplaudindo as iniciativas que facilitam conexões mais rápidas ao fornecimento de energia do país. Esse apoio do setor privado ajudou a criar o momento político necessário para que a FERC se movesse.

Por que a demanda de energia dos centros de dados explodiu assim?

Para entender o tamanho da transformação que está acontecendo, é importante dar um passo atrás e olhar para o que está impulsionando essa demanda absurda por energia. A resposta está diretamente ligada à evolução da inteligência artificial generativa, dos grandes modelos de linguagem e das infraestruturas de treinamento e inferência que sustentam tudo isso. Treinar um único modelo de linguagem de grande escala pode consumir a mesma quantidade de eletricidade que dezenas de milhares de residências consomem em um mês inteiro — e isso é só o treinamento. Quando esse modelo entra em produção e começa a responder consultas em tempo real, o consumo continua de forma contínua e crescente.

Os centros de dados modernos voltados para IA são completamente diferentes dos data centers tradicionais que o setor conhecia há dez anos. Eles são equipados com aceleradores de hardware altamente especializados, como GPUs e TPUs, que exigem muito mais energia por rack do que os servidores convencionais. Um rack de servidores padrão consumia em torno de 5 a 10 kilowatts. Um rack equipado com as GPUs mais avançadas de hoje pode facilmente ultrapassar os 100 kilowatts. Multiplique isso por milhares de racks dentro de um único complexo e você começa a ter uma dimensão real do que está sendo exigido da rede elétrica.

Dados do Electric Power Research Institute mostram que os centros de dados agora representam cerca de 5% da demanda total de eletricidade dos EUA, mas esse número pode triplicar até 2035. Na Virgínia, onde se concentra a maior parte dessas instalações, os centros de dados já respondem por mais de 25% da demanda total de energia e podem ultrapassar 40% até 2030. Esses números ajudam a dimensionar por que essa questão virou prioridade regulatória. 💡

A promessa de proteger o consumidor

Uma das preocupações centrais em torno dessa decisão é o impacto nos bolsos dos consumidores americanos. Laura Swett fez questão de abordar esse ponto diretamente durante a votação.

Eu sei que americanos em todo o país estão preocupados com a acessibilidade, e nós também estamos, disse Swett, referindo-se à comissão de cinco membros. Ela acrescentou que leva extremamente a sério a missão que o Congresso confiou à FERC para garantir que as tarifas sejam razoáveis e que os americanos paguem sua parte justa ou menos.

Uma das cláusulas importantes da ordem aprovada pela comissão é que os centros de dados pagarão o custo total de qualquer atualização na rede que seja necessária para viabilizar sua conexão. Ou seja, em tese, os consumidores residenciais não deveriam arcar com a conta dessas melhorias de infraestrutura. Essa separação de custos é um ponto fundamental para dar legitimidade à medida.

Porém, a ordem tem suas limitações. Ela pode fazer pouco para resolver o aperto no fornecimento de energia que já está elevando as contas de luz em algumas regiões e gerando alertas sobre possíveis apagões. Isso acontece porque a construção de centros de dados está avançando mais rápido do que a entrada em operação de novas usinas para atender a demanda adicional.

O compromisso de proteção ao consumidor das big techs

Para tentar mitigar os temores do público, empresas como xAI, Google, Microsoft, Meta, Oracle, OpenAI e Amazon assinaram o chamado Compromisso de Proteção ao Consumidor proposto por Trump. Nesse acordo, elas se comprometeram a:

  • Construir ou comprar novas fontes de geração de energia para seus centros de dados
  • Cobrir os custos de atualizações de infraestrutura necessárias para a conexão
  • Disponibilizar geração de energia de backup para prevenir apagões em situações de emergência
  • Contratar mão de obra local para a construção de seus complexos de dados

Esses compromissos são um sinal de que as empresas de tecnologia reconhecem que não podem simplesmente se conectar à rede elétrica sem dar algo em troca. A questão que permanece é o quanto essas promessas serão cumpridas na prática e quais mecanismos de fiscalização existem para garantir isso.

A oposição de utilities, estados e comunidades locais

Nem todo mundo comemorou a decisão da FERC, e é importante entender por quê. Utilities, governos estaduais e operadores regionais de rede manifestaram preocupação de que o plano do governo republicano poderia retirar sua autoridade para gerenciar o processo de conexão. Essas entidades são as que estão na linha de frente da operação diária da rede elétrica e temem que uma aceleração sem controle adequado possa gerar instabilidades.

Defensores de energia limpa também levantaram objeções. Eles querem que a agência avance, em vez de enfraquecer, os esforços em nível estadual para exigir o uso de energias renováveis. Boa parte da rede elétrica americana ainda depende de fontes de energia não renováveis, e aumentar a capacidade de conexão para grandes consumidores sem garantias claras sobre a origem dessa eletricidade é visto como um retrocesso por organizações ambientalistas.

Além dos aspectos regulatórios e ambientais, existe uma reação crescente das comunidades locais contra os centros de dados. Moradores não querem viver perto desses complexos, citando medos sobre o aumento dos preços de energia, poluição, consumo massivo de água e a perda de espaços abertos, terras agrícolas e o caráter rural de suas regiões. Em diversos pontos dos Estados Unidos, protestos têm sido organizados contra a instalação de novos complexos, criando um cenário social tenso que regulamentações federais sozinhas não conseguem resolver. ⚠️

As construções que estão atrasadas

Mesmo com a aprovação regulatória acelerada, existe um gargalo prático que pode limitar o impacto real dessa medida. Um relatório do J.P. Morgan publicado no mês passado revelou dados preocupantes: com base em imagens de satélite, mais de 60% da capacidade de centros de dados planejada para conclusão em 2027 sequer começou a ser construída. Outros 7% estão atrasados.

Os culpados pelos atrasos são tipicamente relacionados a:

  • Problemas com licenciamento e permissões
  • Atrasos na entrega de turbinas a gás
  • Falta de transformadores disponíveis no mercado
  • Escassez de mão de obra qualificada

Esses gargalos mostram que acelerar a conexão à rede é apenas uma parte da equação. A construção física dos centros de dados enfrenta seus próprios desafios logísticos e de cadeia de suprimentos que nenhuma decisão regulatória pode resolver sozinha. As empresas de tecnologia continuam aumentando seus investimentos em centros de dados, mas os números mostram que há uma lacuna real entre planejamento e execução.

Os passos anteriores que levaram até aqui

A decisão de junho não foi a primeira ação nessa direção. A votação de agora veio oito meses depois de o secretário Wright pedir à agência independente que assumisse mais controle para garantir que a vasta rede de enormes complexos computacionais necessários para alimentar a IA fosse conectada rapidamente às linhas de transmissão de alta tensão.

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Já em dezembro anterior, a FERC havia dado um passo inicial importante ao votar para permitir que empresas de tecnologia pudessem conectar um centro de dados diretamente a uma usina de energia. Essa medida, conhecida no setor como co-localização, foi considerada uma alternativa criativa para contornar os gargalos do sistema de transmissão. Porém, também gerou controvérsias sobre como garantir que essa energia consumida de forma direta não estivesse sendo desviada de consumidores que dependiam da mesma usina.

Esses movimentos em sequência mostram que há uma estratégia deliberada e incremental para reformar o sistema de conexão elétrica do país em favor de grandes consumidores de energia ligados à IA.

O que isso significa para o futuro da IA

No cenário maior, a decisão da FERC é um sinal claro de que os governos estão começando a tratar a infraestrutura de inteligência artificial como uma questão de política energética nacional, e não apenas como um assunto do setor privado de tecnologia. Isso tem implicações enormes. Significa que as discussões sobre o futuro da IA vão cada vez mais se misturar com debates sobre planejamento de rede elétrica, regulação de transmissão, política ambiental e distribuição de recursos escassos.

É uma convergência que transforma o setor de tecnologia em um ator central de conversas que antes eram exclusivas de utilities, reguladores de energia e governos estaduais.

Para as empresas que operam ou planejam operar centros de dados de grande escala, a aprovação representa uma janela de oportunidade real para avançar em projetos que estavam travados na fila de espera regulatória. A redução no tempo de conexão elétrica pode significar meses ou anos a menos para que novos complexos entrem em operação, o que tem impacto direto na capacidade de atender a demanda crescente por serviços de IA, computação em nuvem e processamento de dados em tempo real.

Em um mercado que se move tão rápido quanto o de inteligência artificial, essa diferença de tempo pode ser o fator que separa líderes de mercado de competidores que ficaram para trás.

E para o usuário final — seja você uma pessoa usando um assistente de IA no celular, uma empresa rodando modelos de machine learning ou um desenvolvedor construindo o próximo produto baseado em linguagem natural — a equação de energia importa mais do que parece à primeira vista. A disponibilidade, a velocidade e o custo dos serviços de IA dependem diretamente da infraestrutura que os sustenta. Quando essa infraestrutura cresce de forma mais eficiente, os benefícios, em teoria, se distribuem ao longo de toda a cadeia.

O caminho entre uma decisão regulatória em Washington e a experiência do usuário final é longo e cheio de variáveis, mas essa aprovação da FERC é, sem dúvida, um passo relevante nessa direção. 🚀

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