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Os data centers que sustentam a corrida da inteligência artificial nos Estados Unidos escondem um problema que Washington demorou para admitir em voz alta.

Por trás dos bilhões investidos em infraestrutura de IA, existe uma dependência real e estratégica de equipamentos fabricados na China — e isso finalmente virou pauta de segurança nacional. 🚨

Transformadores, sistemas de proteção elétrica, baterias e tecnologia óptica são alguns dos componentes críticos que mantêm esses centros de dados funcionando, e boa parte deles vem de fornecedores chineses. Não é exagero dizer que, sem esses componentes, grande parte da infraestrutura que roda modelos de inteligência artificial hoje simplesmente não existiria nos moldes atuais, ou custaria muito mais caro para ser construída.

Os números são bem concretos. Segundo Yury Dvorkin, professor associado da Johns Hopkins University, a China responde por cerca de 30% de certas categorias de transformadores e switchgear, e mais de 40% das baterias importadas pelos EUA têm origem chinesa. Além disso, empresas chinesas como a Zhongji Innolight e a Eoptolink controlam aproximadamente dois terços do fornecimento global de transceptores ópticos, de acordo com a firma de pesquisa Counterpoint. Quando você coloca esses dados lado a lado, fica difícil ignorar o tamanho real dessa exposição — especialmente num momento em que as tensões geopolíticas entre Washington e Pequim seguem em alta.

O cenário ficou ainda mais tenso depois que o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva declarando emergência nacional relacionada à ameaça estrangeira ao sistema de energia do país. A medida autorizou o Departamento de Energia a proibir ou impor condições a determinadas transações envolvendo componentes usados na rede elétrica e nos data centers. Com isso, algo que o setor de tecnologia já sabia, mas preferia não colocar no centro do debate público, veio à tona: a cadeia de suprimentos dos grandes centros de dados americanos tem raízes profundas em território chinês, e isso representa uma vulnerabilidade que vai muito além de uma simples questão comercial.

Como resumiu Laveena Iyer, analista sênior do The Economist Group, o escrutínio sobre a presença chinesa na camada de energia dos data centers americanos só cresceu nos últimos oito meses — uma mudança em relação ao foco anterior, que se concentrava apenas na camada de computação. Mas reduzir essa dependência não é simples nem rápido, e as consequências de uma transição apressada podem ser sentidas diretamente nos custos e prazos da expansão de IA nos próximos anos. 👇

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O que está em jogo na cadeia de suprimentos dos data centers

Para entender a profundidade do problema, é preciso olhar para o que realmente mantém um data center de grande escala funcionando. Não são apenas os chips de GPU ou os servidores de alto desempenho — esses são os componentes que recebem atenção. O que muita gente não percebe é que a infraestrutura física por trás de tudo isso depende de equipamentos muito mais básicos.

Os transformadores, por exemplo, convertem a eletricidade de alta tensão vinda da rede para os níveis mais baixos necessários aos servidores e aos sistemas de resfriamento. Os sistemas de switchgear são conjuntos centralizados que incluem chaves, fusíveis e disjuntores, enquanto as baterias garantem a energia de reserva em caso de falha. Todos esses itens compõem o que os especialistas chamam de camada de energia, ou power stack, e é exatamente nessa camada que a dependência de equipamentos chineses se torna mais visível e preocupante.

Ben Boucher, analista sênior de cadeia de suprimentos da Wood Mackenzie, destacou que os transformadores de subestação estão entre os pontos mais notáveis dessa exposição, já que os grandes operadores costumam mantê-los no próprio local para reduzir a tensão de transmissão. Dvorkin, da Johns Hopkins, complementa que a exposição de médio prazo está concentrada justamente nos conectores de rede: transformadores, switchgear e baterias. E vai além — segundo ele, há uma exposição ainda mais profunda a montante da cadeia, envolvendo cobre, aço elétrico e materiais de cátodo para baterias.

A cadeia de suprimentos global foi construída ao longo de décadas com base em eficiência de custo, e a China se posicionou como fornecedora central de componentes industriais pesados com uma combinação difícil de bater: capacidade produtiva em escala, mão de obra barata e domínio tecnológico em determinadas categorias de produto. A tecnologia óptica, que usa luz por cabos de fibra em vez de sinais elétricos por fios de cobre para transmitir enormes quantidades de dados, é outro exemplo claro disso. Empresas chinesas não chegaram à posição de controlar dois terços do mercado global por acaso, mas sim pelo resultado de anos de investimento em capacidade fabril e redução de preços que tornou a concorrência ocidental inviável em muitos segmentos. O problema é que, quando esse tipo de concentração de fornecimento encontra uma tensão geopolítica intensa, o risco deixa de ser teórico e passa a ser operacional.

E os operadores de data centers sabem disso. As grandes empresas de nuvem investem centenas de bilhões de dólares em infraestrutura física, e qualquer interrupção no fornecimento de componentes críticos pode atrasar projetos inteiros por meses ou até anos. Se a dependência de equipamentos chineses for restringida de forma abrupta por tarifas ou sanções, esse gargalo pode se tornar ainda mais severo, com impacto direto nos planos de expansão de capacidade computacional que sustentam o crescimento da inteligência artificial.

Washington corre para reduzir a dependência

A resposta óbvia para esse problema seria diversificar os fornecedores — e isso já está acontecendo, pelo menos no discurso. Em comunicado ligado à ordem executiva, Trump afirmou que, desde seu primeiro mandato, a ameaça relacionada ao fornecimento estrangeiro de equipamentos elétricos do sistema de energia ficou ainda mais aguda. Ele acrescentou que o crescimento rápido da manufatura avançada, dos data centers, da inteligência artificial e da produção de defesa aumentou a dependência do país de eletricidade abundante e confiável, ampliando as consequências de um ataque bem-sucedido ou de uma interrupção no fornecimento.

Do outro lado, a China rebate as medidas. Um porta-voz da embaixada chinesa no Reino Unido declarou à CNBC que se opõe ao alargamento excessivo do conceito de segurança nacional para atingir empresas estrangeiras, e afirmou esperar que os países envolvidos ofereçam um ambiente de negócios justo e não discriminatório às companhias chinesas.

A realidade prática de reconstruir ou expandir uma cadeia de suprimentos para componentes industriais pesados é bem mais complicada do que trocar de fornecedor de software ou mudar de provedor de nuvem. Fabricar transformadores de potência de alta tensão exige maquinário especializado, matéria-prima específica e mão de obra técnica qualificada que não se cria do zero em poucos anos. Os EUA reduziram drasticamente sua capacidade de fabricação doméstica nesse setor ao longo das últimas décadas, e reconstruir isso leva tempo e investimento substancial — tempo que o ritmo acelerado da corrida pela inteligência artificial não costuma ter paciência para esperar.

Ainda assim, os investimentos começaram a aparecer. A Hitachi Energy anunciou em setembro de 2025 um aporte de 1 bilhão de dólares para expandir a produção de infraestrutura crítica de rede nos EUA, incluindo 457 milhões de dólares para uma nova fábrica de transformadores de grande porte voltada à demanda da IA. A Siemens Energy também informou, em fevereiro, um investimento de 1 bilhão de dólares na produção americana de equipamentos de rede e turbinas a gás para infraestrutura de IA e expansão de data centers.

A diversificação geográfica da cadeia, porém, não significa necessariamente eliminar a influência chinesa — muitas vezes significa apenas deslocar essa influência para outros países que, por sua vez, dependem de insumos ou tecnologia que ainda passam pela China. O caso das baterias é emblemático: mesmo que as células sejam montadas em outro país, os materiais ativos como lítio, cobalto e grafite refinados frequentemente passam por processamento em território chinês antes de chegarem à linha de montagem. Isso torna o problema estruturalmente mais resistente do que parece à primeira vista. 🔍

O impacto real nos planos de expansão de IA

Quando se fala em expansão de data centers para suportar cargas de trabalho de inteligência artificial, os números são astronômicos. Segundo a S&P Global, a capacidade de data centers nos EUA deve saltar de 62 GW em março de 2026 para 152 GW até 2030, impulsionada pelas cargas de alta densidade da IA. Toda essa capacidade nova precisa de energia, e energia em escala de data center significa transformadores, sistemas de distribuição, backup de baterias e conectividade de fibra óptica de altíssima velocidade — os mesmos componentes cuja cadeia de suprimentos está sob pressão.

O problema já é palpável. De acordo com pesquisa da Wood Mackenzie, transformadores de potência e subestações enfrentam, em 2026, uma escassez estimada de mercado de 15% e 8%, respectivamente. Restrições ao uso de unidades fabricadas na China tendem a agravar ainda mais esses desafios. Boucher, da Wood Mackenzie, aponta que a maior parte dos impactos se concentrará nos data centers que vinham usando unidades chinesas para minimizar prazos de entrega, sendo o segmento acima de 100 MVA justamente aquele onde a escassez é mais aguda.

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Além dos transformadores, o governo americano também mira a tecnologia óptica. Inversores de energia produzidos no exterior foram incluídos em julho na chamada Covered List da FCC, que reúne equipamentos e serviços considerados de risco inaceitável à segurança nacional. E há relatos de que a administração Trump estaria elaborando uma proibição às importações de novos transceptores ópticos chineses, componentes que permitem a transmissão de dados em altíssima velocidade entre centros de dados.

Qualquer restrição desse tipo poderia, em tese, beneficiar empresas americanas como Lumentum e Coherent — ambas receberam 2 bilhões de dólares em investimento da Nvidia em março. Mas os analistas alertam para os limites dessa transição. Neil Shah, vice-presidente de pesquisa da Counterpoint, observou que concorrentes ocidentais possuem projetos fotônicos avançados, porém ainda não têm a capacidade de salas limpas, a infraestrutura de empacotamento automatizado e a escala de rendimento necessárias para absorver o volume das chinesas Innolight e Eoptolink em um horizonte de 12 a 24 meses.

Um veto aos transceptores ópticos significaria que os grandes operadores americanos teriam de buscar alternativas locais, potencialmente elevando os custos, conforme apontou Iyer, do The Economist Group. E o impacto financeiro disso não é abstrato. Quando um projeto de data center atrasa porque não consegue transformadores suficientes, o custo não é apenas o do equipamento — é o custo de capital parado, de contratos de energia já assinados, de equipes de construção aguardando e de receita de serviços cloud que não pode ser entregue.

Ainda assim, a vontade política em Washington para reduzir a dependência da China na camada de energia está crescendo. Iyer resume bem o raciocínio: a administração americana parece disposta a reduzir os riscos de sua infraestrutura de IA antes que a tecnologia chinesa esteja totalmente incorporada nela, num paralelo com o que aconteceu na implantação do 5G — quando a remoção posterior de equipamentos chineses de telecomunicações gerou atrasos e custos crescentes para as operadoras.

O que está se desenhando, na prática, é uma corrida paralela: de um lado, a corrida pela liderança em inteligência artificial; do outro, a corrida para garantir que a infraestrutura que sustenta essa liderança não seja um ponto de vulnerabilidade estratégica. E as duas corridas acontecem ao mesmo tempo, com recursos, prioridades e prazos que frequentemente entram em conflito. O resultado dessas decisões vai moldar não apenas o futuro da inteligência artificial, mas também a arquitetura de poder tecnológico global nas próximas décadas. 🌐

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