UX, HMI e design automotivo estão passando por uma transformação que vai muito além da estética dos veículos.
A indústria está vivendo um momento raro — daqueles que aparecem uma ou duas vezes por geração — onde o digital e o físico precisam, mais do que nunca, falar a mesma língua dentro de um carro. Não é exagero dizer que o interior de um veículo moderno virou um verdadeiro campo de encontro entre duas forças: a tradição do design físico, com seus materiais nobres, texturas e formas esculpidas, e a ascensão avassaladora do software, que promete personalização, conectividade e experiências que os botões e knobs de antigamente jamais conseguiriam entregar. A tensão entre esses dois mundos é real, visível e, principalmente, sentida por qualquer pessoa que já tentou ajustar o ar-condicionado de um carro moderno enquanto dirigia.
Um bom exemplo dessa nova realidade é a tela fininha para passageiros do Lotus Eletre, ladeada por tecido, que mostra como as montadoras estão tentando equilibrar o toque digital com o acabamento físico e acolhedor. É esse tipo de detalhe que revela o desafio real de integrar dois universos tão diferentes dentro de um mesmo espaço.
Nos últimos cinco anos, o software tomou conta do protagonismo no design de interiores automotivos. Telas por todo lado, interfaces touch, displays flutuantes… mas algo ainda parece fora do lugar em boa parte dos projetos. Evidências informais sugerem que a balança pendeu forte demais para o lado do software — e nem sempre esse software conversa bem com o seu hospedeiro físico. Não porque a tecnologia seja ruim, pelo contrário, o hardware disponível hoje é impressionante. O problema está em como essa tecnologia é integrada ao espaço físico e, mais importante, como ela dialoga com quem está atrás do volante. Empilhar telas não é design. Conectar experiências, sim.
E essa tensão está no centro de um debate que cresce rápido na indústria 🚗
Como noticiado recentemente, um novo estúdio chamado Östra nasceu exatamente para resolver essa equação. Fundado pelos designers Rob Dolton e Ben Guyer, profissionais com passagem por gigantes como JLR, Lotus e Afry, o estúdio aposta em uma abordagem que poucos tentaram até agora: unir as forças do design de interiores, HMI e UX sob o mesmo teto, como se fossem uma coisa só. E faz todo sentido — porque na prática, elas são. A própria ideia de fundir essas disciplinas parece bem fundamentada, dado o cruzamento natural que existe entre elas.
Segundo os fundadores, a indústria está num ponto de virada. E é justamente isso que o Östra pretende endereçar: mudar o status atual da relação entre UX e UI dentro dos veículos, que segundo os próprios designers precisa evoluir.
O que o Östra está fazendo de diferente
A proposta do Östra não é apenas criativa — ela é estrutural. Em vez de tratar o design de interiores, a HMI e a UX como disciplinas separadas que se encontram no final do processo, o estúdio coloca esses três pilares para trabalharem juntos desde o primeiro rascunho. Isso muda tudo. Quando um designer de superfície e um especialista em UX compartilham o mesmo briefing desde o início, as decisões deixam de ser compensatórias e passam a ser complementares. O resultado é um ambiente interno que respira coerência — onde o toque de uma tela, a posição de um botão físico e a hierarquia visual de um display parecem ter sido pensados por uma única mente, não por três times diferentes que mal se falaram durante o desenvolvimento.
Essa abordagem integrada resolve um problema crônico da indústria automotiva: a fragmentação do processo criativo. Durante décadas, o design de interiores ficou com os estilistas, a eletrônica com os engenheiros, e a interface digital chegava quase como um acessório, encaixada no projeto em fases avançadas. O crescimento exponencial das interfaces digitais nos últimos anos só escancarou essa falha. Quanto mais tela entrava no carro, mais evidente ficava que ninguém tinha pensado de forma holística em como o usuário iria interagir com tudo aquilo ao mesmo tempo — especialmente dirigindo, que é, convenhamos, uma atividade que exige atenção dividida o tempo todo.
O Östra aposta que a saída para esse impasse é justamente a convergência de expertises. E os nomes por trás do estúdio dão credibilidade a essa aposta. Designers que passaram pela JLR conhecem as exigências de premium e sofisticação que marcas de alto padrão impõem. Quem trabalhou na Lotus entende a relação íntima entre espaço, peso e sensação de condução. E a experiência na Afry traz uma visão mais sistêmica, de engenharia e consultoria, que ajuda a traduzir intenções criativas em soluções viáveis para a produção em escala. É uma combinação incomum — e por isso, promissora.
Por que a HMI virou o coração do carro moderno
A HMI — Human-Machine Interface — sempre existiu nos veículos, mesmo antes do termo ser cunhado. Toda vez que um motorista gira um botão de volume ou puxa uma alavanca de câmbio, está interagindo com uma interface projetada para mediar a relação entre humano e máquina. O que mudou radicalmente nos últimos anos é a complexidade e o volume dessa interação. Um carro elétrico moderno pode ter mais linhas de código do que um avião comercial. E toda essa complexidade precisa ser gerenciada por alguém que, ao mesmo tempo, está monitorando o trânsito, checando os retrovisores e talvez ainda tentando encontrar uma música nova na playlist.
Esse cenário coloca a HMI no centro absoluto da experiência automotiva. Não é mais sobre quantas telas o carro tem, mas sobre como essas telas — e tudo ao redor delas — guiam o motorista de forma intuitiva, sem criar sobrecarga cognitiva. O design de uma boa HMI automotiva precisa entender de psicologia da percepção, de ergonomia, de hierarquia de informação e de comportamento do usuário em situações de estresse. É, essencialmente, um trabalho de UX aplicado a um ambiente de alta criticidade, onde um erro de design pode ter consequências reais para a segurança das pessoas dentro e fora do veículo.
E é exatamente por isso que o movimento do Östra importa tanto para o setor. A indústria automotiva ainda carrega uma cultura muito forte de silos — times que operam de forma isolada, com entregas sequenciais e pouca sobreposição criativa. Trazer a lógica do design centrado no usuário, tão consolidada no mundo digital, para dentro do desenvolvimento de veículos é um passo que parece óbvio quando você para pra pensar, mas que encontra resistência em organizações acostumadas a trabalhar de outro jeito. Estúdios independentes como o Östra têm a vantagem de nascer sem esse legado — e podem, com isso, mostrar um caminho diferente para as montadoras que estão dispostas a ouvir. 🎯
O futuro do design digital dentro dos veículos
A tendência que o Östra representa não é isolada — ela faz parte de um movimento maior que está redesenhando o que significa projetar um carro no século XXI. O veículo deixou de ser apenas um meio de transporte para se tornar um espaço de vida conectado, onde as pessoas trabalham, se entretêm, descansam e se comunicam. Essa mudança de paradigma exige que o design digital dentro do habitáculo evolua de forma proporcional — não apenas em sofisticação visual, mas em inteligência de interação. As interfaces precisam antecipar necessidades, adaptar-se ao contexto e, acima de tudo, desaparecer quando não são necessárias, deixando o foco onde ele precisa estar: na condução.
Nesse sentido, conceitos como ambient computing e adaptive UX estão começando a entrar no vocabulário do design automotivo com mais força. A ideia de que a interface se ajusta automaticamente ao modo de uso — mais discreta em uma rodovia, mais rica em funcionalidades quando o carro está parado ou no modo autônomo — é uma das fronteiras mais interessantes que os estúdios e montadoras estão explorando agora. E resolver isso bem exige exatamente o tipo de integração que o Östra defende: não dá pra pensar em UX adaptativa sem considerar como a luz ambiente, os materiais ao redor da tela e o posicionamento físico dos controles contribuem para a experiência como um todo.
O design automotivo digital está, enfim, crescendo com a maturidade que o momento exige. E iniciativas como a do Östra são o sinal de que a indústria está, aos poucos, entendendo que a experiência do usuário dentro de um carro não começa quando o motorista toca na tela — ela começa no momento em que ele abre a porta. Tudo que acontece entre esses dois momentos é design. Tudo que acontece depois também. E quanto mais cedo a indústria tratar UX, HMI e design físico como uma única disciplina, mais coerentes, seguros e genuinamente prazerosos serão os ambientes que os carros do futuro vão oferecer. 🚀
