O Divine chegou e quer devolver a autenticidade às redes sociais
Vídeos autênticos, sem filtro de IA e com aquela vibe nostálgica que muita gente sente falta — esse é o coração do Divine, o novo app de vídeos curtos que já está disponível para download na Apple App Store e na Google Play Store. E sim, ele chegou causando.
A internet de 2025 está saturada de conteúdo gerado por inteligência artificial, e fica cada vez mais difícil saber o que é real e o que saiu de um prompt. Você abre qualquer feed e se depara com rostos gerados, vozes sintéticas, cenários que nunca existiram e textos que parecem humanos, mas não são. A sensação de desconfiança virou rotina, e isso cansa. As pessoas estão começando a questionar não só o que consomem, mas também o próprio sentido de compartilhar algo online — afinal, se qualquer coisa pode ser fabricada, o que ainda tem valor de verdade?
Foi exatamente essa dor que motivou Evan Henshaw-Plath, co-fundador do Divine, a fazer uma pergunta aparentemente simples: dá pra construir um app que filtre conteúdo de IA de verdade? Tudo começou como um experimento, segundo o próprio Henshaw-Plath. Ele queria ver se conseguia criar uma plataforma capaz de barrar efetivamente o chamado AI slop — aquele conteúdo artificial de baixa qualidade que inunda a internet. A ideia era oferecer uma experiência de rede social diferente, sem vídeos gerados por IA ou fotos impecavelmente artificiais, priorizando autenticidade em vez de engajamento a qualquer custo.
E foi aí que o caminho o levou de volta ao Vine.
O resultado é um app que não só resgata o espírito do Vine como trouxe de volta um acervo histórico de mais de 500 mil vídeos clássicos, preservados pelo Internet Archive e agora acessíveis de um jeito completamente novo. O nome Divine — que vem do trocadilho com a frase do it for the vine — já entrega a referência. Mas calma, não é só nostalgia. O app chegou com tecnologia de verificação de origem de vídeo, sem anúncios pagos e com uma proposta bem clara: devolver a autenticidade às redes sociais. Além do app, também dá pra assistir aos vídeos diretamente pelo site, sem precisar criar uma conta. 🎬
O Vine nunca deveria ter morrido
Pra quem viveu a era do Vine, a lembrança é quase afetiva. A plataforma, que atingiu seu pico de popularidade lá por 2014, tinha algo raro: ela transformava restrição em criatividade. Com apenas 6 segundos de vídeo disponíveis, os criadores precisavam ser diretos, engraçados e originais ao mesmo tempo. Não tinha espaço pra enrolação, e isso gerou um formato de conteúdo único, conhecido pelo estilo cru, sem polimento e com humor peculiar. Esse formato influenciou praticamente tudo que veio depois — do TikTok aos Reels.
Quando o Twitter, então dono do Vine, encerrou a plataforma em 2017, a reação da internet foi de luto genuíno. Muita gente ainda cita o Vine como um dos maiores erros da história das redes sociais. Apesar do app ter sido desativado, aqueles vídeos antigos continuaram existindo graças ao trabalho do Internet Archive. E foi justamente esse acervo que serviu de base para o Divine.
A equipe do Divine trabalhou diretamente com o pessoal do Internet Archive para converter esses vídeos arquivados em um formato mais acessível, permitindo que eles fossem assistidos novamente dentro de uma experiência moderna. O que o Divine faz é reconhecer esse legado e usá-lo como alicerce. A plataforma bebeu fundo na essência do que tornava o Vine especial — a simplicidade, a espontaneidade e o foco total na criatividade humana — e transportou isso para um contexto atual, onde a principal ameaça a esse tipo de conteúdo não é mais o limite de tempo, mas sim a quantidade absurda de vídeos artificialmente gerados que inundam qualquer feed.
Ao trazer os 500 mil vídeos clássicos do arquivo histórico do Vine de volta à superfície, o Divine cria uma ponte entre o que a internet já foi e o que ela poderia ser de novo, com um pouco mais de humanidade no centro. 📱
Grandes criadores do Vine estão de volta
Como acontece em qualquer espaço online, o que torna o Divine especial são as pessoas que estão nele. Alguns dos maiores criadores que começaram suas carreiras no Vine já estão no Divine, incluindo Lele Pons e JimmyHere. Vídeos antigos de nomes como Logan Paul e Nash Grier também estão de volta no acervo.
Lele Pons, influenciadora venezuelano-americana, comentou sobre o significado do retorno: o Vine foi o começo de tudo para muitos criadores, um app icônico. Para ela, foi um momento-chave na sua trajetória pessoal e na cultura da internet como um todo. A possibilidade de ver esses clássicos de volta e de poder criar novos vídeos na plataforma é algo que a deixa genuinamente animada.
Essa presença de criadores originais do Vine não é só marketing — é um sinal de que o Divine entende que comunidade é o ingrediente mais importante de qualquer rede social. Sem pessoas criando conteúdo de verdade, nenhuma tecnologia sustenta uma plataforma por muito tempo.
Não é o Vine original, mas vai parecer familiar
O Divine não é exatamente igual ao Vine, e a equipe por trás do app sabe disso. Quando começaram a construir a plataforma, Henshaw-Plath e seu time tentaram recriar o app original o mais fielmente possível: vídeos quadrados, esquema de cores verde-limão e tudo mais. Mas as redes sociais evoluíram muito desde o auge do Vine, há mais de uma década.
A equipe percebeu que precisava fazer algumas adaptações para incluir funcionalidades que hoje são padrão na indústria — como ferramentas de edição que permitem sobrepor texto e legendas nos vídeos. Ainda assim, o formato básico de vídeo em loop de 6 segundos permaneceu intocado. Navegar pelo Divine vai parecer familiar pra quem já rola o feed de plataformas como Instagram e TikTok, mas com aquele toque de simplicidade que remete aos velhos tempos.
O app também inclui dois modos de câmera: o clássico quadrado e uma opção moderna vertical. E aqui vai uma dica importante — o ideal é filmar e editar os vídeos diretamente dentro do Divine, porque a tecnologia por trás da câmera do app é parte central da outra grande promessa da plataforma: ser um espaço livre de IA.
Como o Divine garante conteúdo AI-free de verdade
Essa é a parte mais técnica e, talvez, a mais interessante de toda a proposta. Falar que um app é AI-free é fácil — o desafio real é conseguir garantir isso com algum nível de confiabilidade técnica. Plataformas de todos os tamanhos e formatos têm enfrentado dificuldades para identificar e rotular conteúdo gerado por inteligência artificial. A maioria das grandes redes — Instagram, YouTube, TikTok — permite que as pessoas publiquem conteúdo gerado por IA. E isso é controverso. Muitos usuários reclamam que esse tipo de conteúdo está sufocando criadores humanos e tornando cada vez mais difícil distinguir o que é real do que é fabricado.
O plano do Divine para ser uma rede social livre de IA passa por limitar os tipos de conteúdo compartilhados. A plataforma usa um conjunto de tecnologias chamado proof mode, que adiciona marcas d’água invisíveis ao conteúdo no momento da captura e verifica a origem de cada vídeo enviado para a plataforma. Essa é uma iniciativa de código aberto do Guardian Project, a mesma tecnologia utilizada por organizações de direitos humanos e veículos de mídia para verificar conteúdo suspeito.
Na prática, funciona assim: se o vídeo que você está tentando enviar não inclui as marcas d’água invisíveis que verificam sua autenticidade, você simplesmente não vai conseguir publicá-lo. A equipe do Divine reconhece que essa limitação pode dificultar a vida de criadores profissionais que editam em apps de terceiros, como o CapCut. Mas estão otimistas de que, no futuro, poderão aceitar uploads de outros apps à medida que esses adotem tecnologias de verificação de conteúdo.
Henshaw-Plath foi direto sobre o assunto: conteúdo gerado por IA é um problema sério para todos, não só para o Divine. É preciso mudar a forma como a tecnologia funciona para que seja possível saber o que é real. Se o CapCut passasse a suportar essa tecnologia, a equipe adoraria permitir publicações feitas nele. Mas o ponto central e inegociável é que o conteúdo precisa ser real, autêntico e humano — e por isso utilizam um conjunto robusto de tecnologia para manter as coisas assim.
Alguns apps de terceiros, como o Adobe Premiere, já são compatíveis com os padrões do proof mode. Mas, por enquanto, filmar e editar diretamente no Divine continua sendo o caminho mais simples e garantido. Só o tempo vai dizer se os esforços do Divine para manter a IA fora da plataforma serão totalmente bem-sucedidos, especialmente considerando que vídeos gerados por inteligência artificial estão ficando cada vez mais realistas. Mas é uma posição refrescante num cenário em que a internet está cada vez mais inundada por conteúdo artificial. 🙌
Resistência à degradação das plataformas
As redes sociais se transformaram muito desde os primeiros dias do Vine, e não apenas por causa da IA. Trazer o Vine de volta para 2025 significou projetar intencionalmente uma plataforma que fosse, nas palavras de Henshaw-Plath, resistente à enshittification — um termo que se refere à teoria de que a experiência dos usuários em plataformas online é deliberadamente degradada à medida que as empresas de tecnologia monetizam cada aspecto da experiência.
Parte dessa resistência significa que o Divine evita o modelo de publicidade — então você não deve ver anúncios pagos na plataforma. Essa decisão pode parecer detalhe, mas diz muito sobre a filosofia do produto. Plataformas financiadas por publicidade têm incentivos estruturais para maximizar engajamento a qualquer custo, e conteúdo gerado por IA pode ser produzido em escala industrial, alimentando esse ciclo de forma muito lucrativa. Ao tirar esse elemento da equação, o Divine cria condições mais favoráveis para que conteúdo humano genuíno ganhe espaço e visibilidade.
Outra parte dessa filosofia é dar aos usuários mais controle sobre suas próprias experiências. O Divine está sendo construído sobre um protocolo aberto chamado Nostr, e a equipe trabalha em uma atualização futura que vai permitir aos usuários escolherem qual algoritmo constrói seus feeds. É uma abordagem descentralizada que devolve poder ao usuário, em vez de concentrá-lo nas mãos da plataforma.
Autenticidade como diferencial de produto
O conceito de autenticidade virou quase um clichê no mundo do marketing digital — todo mundo fala em ser autêntico, mas poucos produtos constroem funcionalidades reais em torno disso. O Divine é uma exceção interessante porque trata a autenticidade não como mensagem, mas como arquitetura. A verificação de origem via proof mode, a curadoria de conteúdo histórico do Vine, a ausência de monetização por anúncios e a construção sobre protocolo aberto são decisões de produto que, juntas, criam um ambiente onde a chance de um vídeo humano genuíno aparecer no seu feed é estruturalmente maior do que em qualquer outra plataforma hoje.
Isso tem impacto direto na experiência do usuário. Quando você sabe que o conteúdo que está assistindo passou por algum nível de verificação e veio de uma pessoa real, a relação com aquele vídeo muda. Você ri de um jeito diferente de uma piada gravada num quarto de adolescente às 23h do que de um sketch roteirizado por IA e narrado por uma voz sintética. Essa diferença emocional é real e é exatamente o tipo de coisa que o Divine está apostando como proposta de valor.
É uma aposta contracultural num momento em que a maioria das plataformas está correndo na direção oposta, integrando cada vez mais ferramentas de IA generativa diretamente nos seus produtos. O mercado de vídeos curtos é competitivo e dominado por gigantes com bilhões de usuários, então o posicionamento do Divine precisa ser muito preciso para sobreviver. Não dá pra competir com TikTok ou Reels no volume — mas dá pra competir em propósito. E esse parece ser exatamente o caminho que Henshaw-Plath e sua equipe escolheram: construir uma plataforma menor, mais intencional e com um contrato de confiança mais claro com seus usuários. 🌱
O que esperar do Divine daqui pra frente
O app ainda está nos estágios iniciais, mas a proposta já gerou bastante atenção na comunidade tech e entre criadores de conteúdo que estão cansados do ciclo atual das redes sociais. O anúncio inicial do Divine gerou entusiasmo que ia muito além da simples nostalgia, principalmente quando a equipe confirmou que a plataforma seria livre de IA — sem aqueles vídeos bizarros gerados artificialmente.
A combinação entre nostalgia do Vine, tecnologia de verificação AI-free, modelo sem anúncios e construção sobre protocolo aberto é incomum o suficiente para se destacar num mercado saturado. A dúvida que fica — e que só o tempo vai responder — é se o Divine consegue escalar essa proposta sem perder o que a torna especial.
Plataformas com valores fortes costumam enfrentar uma tensão clássica: crescer significa trazer mais usuários, mais usuários significam mais pressão por monetização, e monetização muitas vezes compromete exatamente os princípios que atraíram as pessoas em primeiro lugar. O Divine vai precisar encontrar um modelo sustentável que respeite sua própria filosofia, e isso é genuinamente difícil. Mas a existência de um produto assim, no mínimo, coloca uma questão importante na mesa para toda a indústria: o que os usuários perdem quando todo conteúdo pode ser gerado artificialmente?
Como o próprio Henshaw-Plath colocou de forma bem direta, as redes sociais podem e devem ser divertidas de novo. Em vez de doomscrolling, deveríamos ter joyscrolling. Essa frase talvez resuma melhor do que qualquer análise técnica o que o Divine está tentando ser.
Por enquanto, o Divine existe como uma resposta prática a uma pergunta que muita gente está fazendo. Um app de vídeos que aposta na imperfeição humana como funcionalidade, que trata a memória do Vine como patrimônio cultural e que usa tecnologia não para gerar conteúdo, mas para proteger o que ainda é feito por gente de verdade. Se isso vai virar tendência ou vai ficar como nicho, a gente ainda vai descobrir — mas a conversa que ele está iniciando já vale muito. 🎥
