Nvidia enfrenta revolta dos gamers que se sentem abandonados pela corrida da inteligência artificial
DLSS 5, inteligência artificial generativa, GPUs cada vez mais caras e uma comunidade gamer que se sente deixada para trás. Esse é o cenário que a Nvidia enfrenta hoje, depois de três décadas sendo praticamente sinônimo de gaming.
A empresa que quase foi à falência em 1999 e foi salva exatamente pelos jogadores que compraram suas primeiras placas de vídeo agora coleciona manchetes sobre bilhões em contratos de IA, GPUs para data centers que custam até 40 mil dólares a unidade e um roadmap de hardware para consumidores que, pela primeira vez em 30 anos, pode não trazer nenhuma geração nova em 2026.
E aí vem a frase que resumiu tudo isso melhor do que qualquer relatório financeiro.
Dance with the one who brought you. Quem disse isso foi Greg Miller, co-fundador do podcast Kinda Funny Games Daily, em entrevista à CNBC, completando com uma confissão simples e direta: isso parte meu coração.
Mas será que a Nvidia realmente está abandonando os gamers, ou o mercado simplesmente mudou rápido demais para todo mundo acompanhar? Tem muita coisa acontecendo por baixo dessa superfície 👇
Os lucros da IA dominaram tudo
A era de dominância da Nvidia em inteligência artificial não começou ontem. Tudo remonta ao lançamento do CUDA, seu toolkit de software, em 2006. A partir dali, desenvolvedores puderam usar GPUs para computação de propósito geral, não apenas gráficos. O momento que muitos consideram o big bang da IA moderna veio em 2012, quando as GPUs da Nvidia e o CUDA foram usados para construir uma rede neural chamada AlexNet, que destruiu a concorrência numa competição de reconhecimento de imagens.
Em 2020, a Nvidia sinalizou um novo foco estratégico ao adquirir a Mellanox Technologies, fabricante de chips para computação de alto desempenho, por 7 bilhões de dólares. Desde então, a empresa vem lançando gerações de GPUs de altíssimo desempenho voltadas para IA, junto com sistemas completos em escala de rack, como a plataforma Vera Rubin, que a CNBC teve acesso exclusivo em fevereiro.
Os números explicam a mudança de prioridade de forma bem direta. As margens operacionais do segmento de computação e rede da Nvidia tiveram média de 69% nos últimos três anos. Já o segmento de gráficos, voltado para consumidores, ficou com margem de 40%. Uma GPU Blackwell para data center pode custar até 40 mil dólares, e o Futurum Group estima que um sistema Vera Rubin completo pode chegar a 4 milhões de dólares. Para efeito de comparação, a linha RTX 50 para gamers é vendida entre 299 e 1.999 dólares.
Stacy Rasgon, da Bernstein Research, colocou de forma objetiva: o segmento de gaming já não é mais a força motriz da companhia. Houve um ponto no tempo em que claramente era, mas esse tempo passou.
O que o DLSS 5 tem a ver com tudo isso
O CEO Jensen Huang fez um anúncio voltado para games no início de sua apresentação na GTC 2026, em março, revelando a próxima geração do software de renderização Deep Learning Super Sampling, o DLSS 5, com lançamento previsto para o segundo semestre. A tecnologia é conhecida por aumentar taxas de quadros renderizando jogos em resoluções mais baixas e usando IA para escalar a imagem, ajudando títulos a rodarem com mais fluidez em hardware menos potente.
A controvérsia surgiu porque o DLSS 5 utiliza IA generativa para criar quadros inteiros que não existiam no pipeline original de renderização. Huang apresentou a novidade com um vídeo mostrando versões fotorrealisticamente aprimoradas de personagens de jogos populares como Resident Evil Requiem, Starfield e Hogwarts Legacy. E foi aí que a comunidade gamer reagiu com força.
Miller, do Kinda Funny Games, foi enfático: eu jogo videogame porque é uma forma de arte. Gosto de ver a impressão digital do criador naquilo que estou jogando. Ele disse que a demonstração levantou muitos alertas na indústria de games, especialmente num momento em que o setor lida com tantas demissões e fechamentos de estúdios.
Tim Gettys, co-fundador do Kinda Funny Games junto com Miller, era fã das versões anteriores do DLSS por tornarem os jogos mais acessíveis com orçamento menor. Mas a adição da camada generativa mudou sua percepção: a tecnologia é impressionante pelo que faz para rodar jogos em PCs mais modestos. Mas colocar essa coisa de IA generativa em cima disso parece um tapa na cara.
O medo maior de Gettys é que essa seja uma etapa rumo a jogos totalmente gerados por IA, algo que ele acredita ser o objetivo final. Elon Musk já abordou essa possibilidade publicamente. Em outubro, Musk postou na rede social X que seu estúdio de jogos da xAI lançaria um grande jogo gerado por IA antes do fim de 2026.
Gettys foi direto: você está literalmente alterando a arte criada pelos desenvolvedores. E em algum momento você está substituindo os desenvolvedores, e aí o estúdio deles fecha.
Huang respondeu às críticas durante uma sessão de perguntas e respostas no dia seguinte à apresentação na GTC. Ele disse que as acusações de que o DLSS 5 torna os jogos homogêneos estão completamente erradas e enfatizou que os desenvolvedores continuarão no controle, podendo ajustar a IA generativa para combinar com seu estilo artístico.
A Nvidia também declarou à CNBC que jogos são uma forma de arte criativa e que suas tecnologias RTX, incluindo ray tracing, path tracing, DLSS Super Resolution, DLSS Frame Generation e DLSS 5, são ferramentas para que desenvolvedores alcancem sua visão criativa, entregando o melhor desempenho e qualidade de imagem possíveis.
A crise de memória que está por trás de tudo
Mas existe um fator técnico e econômico que poucos gamers conhecem em detalhe e que explica boa parte do problema. A escassez de memória DRAM está no centro da questão.
Relatórios da indústria indicam que a Nvidia planeja reduzir a produção de suas GPUs gaming mais recentes em até 40% por causa de uma grande escassez da memória de propósito geral necessária para fabricar uma GPU. A memória DRAM (Dynamic Random Access Memory) permite armazenamento rápido e temporário de dados para que a GPU execute tarefas paralelas.
PCs pessoais, onde as GPUs gaming da Nvidia são instaladas, sofreram o maior impacto dessa escassez. Quando os preços de memória sobem, fabricar uma GPU custa mais, e esse custo desce até o consumidor final. A Gartner prevê que os preços de PCs vão subir 17% neste ano, fazendo os embarques globais caírem 10,4%.
Gettys comentou sobre esse cenário: com tudo ficando tão caro, é preocupante ver os preços subirem no lado gaming sem nenhum sinal de que vão voltar a cair, enquanto a Nvidia claramente persegue uma categoria completamente diferente de consumidor.
A explicação técnica é reveladora. GPUs de alto desempenho como Blackwell e Rubin utilizam pilhas densas de um tipo específico de DRAM chamado HBM (High Bandwidth Memory). Segundo Rasgon, da Bernstein, são necessários cerca de quatro vezes mais wafers de silício para produzir um gigabyte de HBM do que para produzir a mesma quantidade de DRAM tradicional.
Essa dinâmica está privando toda a indústria do tipo de memória que tradicionalmente é usado para aplicações mais voltadas ao consumidor. Simplesmente não está disponível, disse Rasgon. Se há atrasos no roadmap de gaming, é em grande parte porque provavelmente não dão conta de fabricar as placas mesmo, já que é difícil conseguir a memória. Cada pedaço de memória que existe está sendo priorizado para computação de IA.
A Nvidia informou à CNBC que continua enviando todas as GPUs GeForce, que vê demanda forte e que está trabalhando em parceria com fornecedores para maximizar a disponibilidade de memória.
A Nvidia que os gamers construíram, e a que eles perderam
Existe um contexto histórico aqui que muda bastante a forma como você enxerga o momento atual. Em 1999, a Nvidia estava à beira do colapso financeiro. A empresa havia apostado numa GPU chamada NV10, que se tornaria a GeForce 256, e dependia desse lançamento para sobreviver. A empresa demitiu a maioria dos funcionários e chegou perto da falência para tornar o lançamento possível. Foi exatamente a comunidade gamer que comprou essas placas e manteve a empresa de pé. Não foram data centers. Não foram pesquisadores de IA. Foram gamers.
Essa relação se aprofundou ao longo das décadas seguintes. A Nvidia popularizou as unidades de processamento gráfico, as GPUs, que possibilitam taxas de quadro rápidas e renderização de alta qualidade para a melhor experiência de jogo possível.
Se as previsões de analistas estiverem corretas, 2026 será o primeiro ano em três décadas sem o lançamento de uma nova geração da linha GeForce voltada para consumidores. A série RTX 50 foi apresentada na CES em janeiro de 2025, e com a CES 2026 e a GTC já no retrovisor, muitos temem que este será o primeiro ano sem novidade geracional, embora a Nvidia costume revelar novos hardwares até setembro.
A empresa disse à CNBC por e-mail que os gamers são extremamente importantes para ela e que está sempre inovando, testando e lançando novas tecnologias focadas em jogos.
Nem todos veem o intervalo como negativo. Gettys observou: é meio difícil acompanhar. Você não consegue fazer upgrade todo ano, então ter uma pausa e esperar uma geração que realmente faça diferença acho que na verdade favorece os gamers.
Preços nas alturas e o passado da mineração de criptomoedas
A questão de preços não é nova para a Nvidia. Durante os picos de criptomoedas em 2018 e 2021, as GPUs da empresa eram vendidas em marketplaces online por até três vezes o preço de tabela, porque eram essenciais para minerar Bitcoin e Ethereum. Embora os preços tenham caído quando a mineração mudou de rumo em 2022, a RTX 5090 atual ainda é vendida online por até o dobro do preço sugerido.
Essa demanda elevada pela geração atual pode tornar a Nvidia menos motivada a lançar uma versão nova este ano. Afinal, se o estoque esgota mesmo com preços inflacionados, qual seria o incentivo financeiro imediato para acelerar o próximo ciclo?
Dados de pesquisas de hardware da Steam mostram que a GPU mais popular entre os usuários da plataforma ainda é uma placa de entrada lançada anos atrás. Isso diz muito sobre onde está a maioria dos gamers no mundo real, bem longe das RTX 5090 e das discussões sobre DLSS 5 com geração de múltiplos quadros. A conversa sobre IA em jogos está acontecendo num estrato da comunidade que representa uma parcela pequena do total de jogadores ativos.
Se o mercado de PCs de entrada desaparecer até 2028, como a Gartner prevê, o mercado para as GPUs gaming de entrada da Nvidia também tende a encolher.
A indústria de games em crise e o peso das demissões
O contexto da indústria de games torna tudo ainda mais sensível. Enquanto enfrenta uma desaceleração pós-pandemia, o setor viu uma onda de fechamentos de estúdios, jogos cancelados e milhares de demissões em gigantes como Epic Games, Xbox da Microsoft e PlayStation da Sony.
Quando a Nvidia apresenta uma tecnologia que, na percepção dos gamers, usa IA generativa para alterar a arte criada por desenvolvedores humanos, o timing não poderia ser pior. Miller capturou esse sentimento ao dizer que a demonstração do DLSS 5 levantou muitos pelos na indústria de videogames, justamente num momento em que o setor lida com tantas demissões e fechamentos de estúdios.
O medo de que a IA generativa eventualmente substitua desenvolvedores humanos é real e palpável dentro da comunidade. Gettys foi claro: se eles estão ganhando três vezes mais dinheiro e os acionistas estão três vezes mais felizes, então sim, eu acho que eles vão abandonar o gaming apesar de ter sido o que os trouxe até aqui.
GeForce NOW e o lado positivo da história
Nem tudo são más notícias na relação entre Nvidia e gamers. Por mais de uma década, a empresa oferece jogos na nuvem através do serviço GeForce NOW. O modelo evoluiu para incluir diferentes tiers de assinatura, incluindo uma opção gratuita, que permite aos usuários fazer streaming de jogos que já possuem em plataformas como a Steam, rodando em GPUs da Nvidia em data centers, em vez de nos dispositivos pessoais.
Miller elogiou a plataforma: você vê Xbox e PlayStation e outros competidores tentando levar a nuvem para as mãos dos gamers de uma forma que faça sentido. E a Nvidia com o GeForce NOW realmente decifrou esse código.
Gettys foi ainda mais enfático, chamando a plataforma de streaming da Nvidia de a melhor de longe. Ela permite que milhões de pessoas a mais tenham acesso a jogos no mais alto nível, mesmo sem as placas mais recentes. É uma tecnologia realmente incrível.
Esse é talvez o caminho mais claro que a Nvidia tem para manter os gamers engajados mesmo sem lançar hardware novo todo ano. Se a infraestrutura de nuvem permite que qualquer pessoa jogue com qualidade de ponta sem precisar de uma RTX 5090 na mesa, o GeForce NOW pode se tornar a ponte entre a era gamer e a era IA da empresa.
AMD e a concorrência que também sofre
A AMD, com sua linha Radeon de GPUs, é a principal concorrente da Nvidia no segmento de games. Mas a crise de memória atinge as duas.
Rasgon não deixou dúvidas: se a Nvidia não consegue a memória, a AMD também não vai conseguir. Ele acrescentou que, em termos de sentimento de marca, ambas têm fãs dedicados que podem ser bem fervorosos.
Ainda assim, Gettys apontou uma preferência clara do mercado: existe um favorito óbvio. Se você joga no PC, você vai querer uma placa Nvidia.
Essa dinâmica de mercado significa que, mesmo com todas as frustrações, os gamers de PC não têm muitas alternativas reais. A Intel está tentando competir com suas GPUs Arc, mas ainda não chegou perto de ameaçar a posição da Nvidia ou da AMD no segmento de alto desempenho. Isso dá à Nvidia uma margem confortável para priorizar seus chips de IA sem perder fatia de mercado significativa no gaming, pelo menos no curto prazo.
O que os gamers realmente querem da Nvidia
A resposta é menos complexa do que parece. A comunidade gamer não está pedindo para a Nvidia abandonar a IA ou parar de investir em tecnologias de ponta. O que boa parte dos jogadores quer é um sinal claro de que ainda existe lugar para eles na estratégia da empresa, não apenas como consumidores de segunda linha que recebem versões rebaixadas de tecnologias pensadas para data centers, mas como a audiência que historicamente impulsionou a inovação da Nvidia em processamento gráfico.
Isso se traduz em algumas coisas bastante concretas: GPUs com preços que façam sentido para o orçamento de um jogador médio, comunicação transparente sobre o roadmap de hardware futuro, e acesso a tecnologias como o DLSS 5 em placas de entrada e intermediárias num prazo razoável.
A frase de Greg Miller, dance with the one who brought you, ressoou tanto porque captura exatamente esse sentimento. Não é raiva. É decepção de quem apostou numa empresa quando ela era pequena e vulnerável, e agora assiste essa mesma empresa olhar para outro lado enquanto conta seus bilhões.
A tendência histórica mostra que tecnologias de ponta eventualmente descem para as camadas mais acessíveis do mercado. O ray tracing, que em 2018 rodava de forma aceitável apenas nas RTX 2080 e 2080 Ti, hoje funciona bem em GPUs de entrada como a RTX 4060. O DLSS 5 e a geração de quadros por IA provavelmente vão seguir o mesmo caminho nos próximos ciclos de hardware. Mas enquanto isso não acontece, uma parcela enorme dos gamers fica à margem, e a sensação de abandono tem tudo a ver com esse intervalo entre o lançamento da tecnologia e a democratização dela.
Pode ser que o mercado tenha mudado de forma irreversível e que a Nvidia esteja apenas se adaptando à nova realidade. Mas a forma como essa adaptação está sendo comunicada, ou melhor, a falta de comunicação direta sobre isso, é o que continua alimentando a sensação de que os gamers ficaram em segundo plano. 🎮
