Pessoas ao redor do mundo já enxergam um vencedor na corrida da IA — e não são os EUA
A inteligência artificial virou o assunto mais quente do planeta, e todo mundo quer saber quem vai sair na frente dessa corrida tecnológica. Só que tem um detalhe curioso: enquanto boa parte do mundo ainda olha para a IA com esperança, os Estados Unidos estão indo na direção contrária. E não é só isso — uma pesquisa global recente sugere que as pessoas já enxergam a China como a grande vencedora dessa disputa, deixando os americanos para trás tanto na percepção internacional quanto no apetite interno para avançar de forma unificada.
A pesquisa conduzida pela Public First, que vem ouvindo respondentes anualmente entre 2024 e 2026, jogou uma luz bem interessante sobre como a opinião pública americana mudou nos últimos dois anos. Os números são reveladores e mostram uma tendência que vai muito além de uma simples flutuação estatística.
Em 2024, 39% dos americanos acreditavam que a IA ia melhorar a sociedade, contra 34% que achavam que ia piorar. Em 2025, esses números subiram levemente para 40% e 36%, respectivamente. Mas em 2026 o cenário virou de cabeça para baixo: agora, apenas 31% acreditam que a tecnologia vai melhorar as coisas, enquanto 40% estão convictos de que ela vai piorar. Essa inversão não aconteceu do nada, e entender o caminho que levou até ela é fundamental para compreender o que está mudando na relação entre as pessoas e a tecnologia.
A confiança de que a IA vai melhorar a vida pessoal dos respondentes também despencou. O saldo líquido positivo de 15 pontos registrado em 2024 encolheu para apenas 5 pontos neste ano. Quando o assunto é o impacto sobre as próximas gerações, a deterioração é ainda mais dramática: o saldo positivo de 10 pontos virou um saldo negativo de 4 pontos.
E o dado que mais chama atenção vem de um grupo específico:
- Os jovens americanos entre 18 e 24 anos, que antes tinham uma visão positiva sobre o impacto social da IA, em apenas um ano passaram para um pessimismo bem marcado
- A mudança foi de uma margem positiva de 4 pontos em 2025 para uma margem negativa de 13 pontos em 2026
- Uma queda expressiva que diz muito sobre como essa geração está encarando o futuro
- Jovens respondentes no Reino Unido espelharam resultados semelhantes
Do outro lado do globo, o cenário é bem diferente. Em países como Singapura e Índia, existe uma crença generalizada e persistente de que a IA vai impactar positivamente a sociedade. Os dois países com atitudes mais negativas em relação à tecnologia? Estados Unidos e Canadá.
O que está por trás dessa virada de chave? Medo de perder emprego, desinformação, deepfakes, preocupação com o consumo de energia dos data centers e até reações violentas de comunidades locais entram nessa lista. Vamos entender melhor o que esses números revelam e o que eles podem significar para o futuro da IA. 👇
O que os números realmente estão dizendo
Quando uma pesquisa mostra uma inversão tão clara em tão pouco tempo, é sinal de que algo relevante aconteceu no meio do caminho. A Public First ouviu uma amostra representativa em 15 países diferentes, e o que encontrou não é apenas uma flutuação estatística — é uma mudança de percepção que reflete experiências reais do dia a dia. As pessoas estão convivendo com a inteligência artificial de formas cada vez mais concretas: ferramentas que automatizam tarefas, algoritmos que decidem o que aparece no feed, sistemas que fazem triagem de currículos antes de qualquer humano ler uma linha. E esse contato mais próximo, em vez de gerar conforto, está gerando desconforto.
O salto para 40% de americanos acreditando que a IA vai piorar a sociedade é um número que merece atenção redobrada. Não estamos falando de uma minoria radical ou de um grupo com pouco acesso à tecnologia. Estamos falando de uma fatia significativa da população de um dos países mais tecnologicamente avançados do mundo, que convive diariamente com produtos e serviços baseados em IA e que, mesmo assim — ou talvez por isso mesmo — está cada vez mais desconfiante. Esse dado coloca em xeque a narrativa de que a familiaridade com a tecnologia, por si só, cria aceitação.
Do lado oposto, os 31% que ainda mantêm uma visão otimista representam uma queda considerável em relação a anos anteriores. O que é interessante notar é que esse grupo não desapareceu completamente — ele apenas encolheu. Isso sugere que a conversa sobre os benefícios da IA ainda tem espaço, mas está claramente perdendo terreno para as preocupações. O impacto social da tecnologia está sendo sentido de maneiras que as promessas de inovação, por si só, não estão conseguindo compensar na percepção pública.
A pesquisa também revela algo ainda mais significativo em termos geopolíticos: as pessoas ao redor do mundo não apenas veem os Estados Unidos ficando para trás em relação à China na corrida da IA, como também percebem que pode faltar ao país o apetite público unificado necessário para avançar com força nessa área. É um duplo golpe na imagem dos EUA como líder tecnológico global.
Por que os jovens lideram o pessimismo
Talvez o dado mais surpreendente dessa pesquisa seja justamente o comportamento dos jovens entre 18 e 24 anos. Essa é a geração que cresceu com smartphone na mão, que aprendeu a usar redes sociais antes de aprender a dirigir, que integrou ferramentas digitais na rotina de um jeito que gerações anteriores ainda estão tentando acompanhar. Era de se esperar que esse grupo fosse o mais entusiasmado com a chegada da IA generativa, dos assistentes virtuais avançados e de tudo que vem junto com essa onda tecnológica. Mas o que os dados mostram é o contrário: eles passaram de uma margem positiva de 4 pontos em 2025 para uma margem negativa de 13 pontos em 2026, uma virada de 17 pontos em apenas um ano.
Esse movimento faz mais sentido quando a gente começa a olhar para o contexto em que esses jovens estão inseridos. Eles são justamente a geração que está entrando no mercado de trabalho num momento em que a automação está redesenhando quais habilidades têm valor. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, fez um alerta que reverberou com força: a IA poderá eliminar metade dos empregos de escritório de nível inicial nos próximos um a cinco anos. Quando um dos executivos mais influentes do setor faz uma previsão dessas, o impacto psicológico sobre quem está começando a carreira é enorme.
Formações que antes abriam portas estão sendo questionadas, áreas criativas que pareciam imunes à automação agora enfrentam concorrência direta de ferramentas de geração de imagem, texto e código. A ansiedade sobre o futuro profissional é real e bem documentada entre essa faixa etária, e a IA passou a ser um personagem central nessa narrativa de incerteza. Não é pessimismo por desconhecimento — é pessimismo por experiência direta com as consequências.
Tem ainda outro fator que pesa bastante para esse grupo: a exposição intensa a deepfakes, desinformação gerada por IA e manipulação de conteúdo em plataformas que eles usam todos os dias. Os jovens americanos estão na linha de frente do consumo de conteúdo digital e, consequentemente, também estão na linha de frente dos efeitos negativos que a IA está tendo sobre a qualidade da informação online. Ver rostos conhecidos em vídeos falsos, encontrar notícias geradas automaticamente e não conseguir distinguir o que é real do que é fabricado cria um clima de desconfiança que vai muito além da tecnologia em si — contamina a relação com a informação como um todo. 😬
A avalanche de conteúdo gerado por IA nas redes sociais
As plataformas de redes sociais estão enfrentando uma enxurrada de conteúdo gerado por inteligência artificial que pode ser criado em velocidades sem precedentes. Esse fenômeno está mudando a internet de formas que poucos previram, e a reação do público não tem sido positiva.
O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, descreveu a IA como o próximo grande salto na evolução de suas plataformas. Segundo ele, as redes sociais já passaram por duas eras: a primeira, quando todo o conteúdo vinha de amigos, família e contas que você seguia diretamente; e a segunda, quando o conteúdo de criadores foi adicionado à mistura. Agora, com a IA facilitando a criação e a remixagem de conteúdo, um volume imenso de material adicional está sendo adicionado sobre essas camadas já existentes.
Essa visão otimista do ponto de vista empresarial contrasta fortemente com o que os usuários comuns estão sentindo. Para muita gente, a explosão de conteúdo artificial nas redes significa mais ruído, menos autenticidade e uma dificuldade crescente em saber no que confiar. A desinformação e os deepfakes ficaram no topo da lista de preocupações dos americanos na pesquisa da Public First, e não é difícil entender por quê.
Os medos concretos por trás da desconfiança
A desconfiança em relação à inteligência artificial não é abstrata — ela tem endereço e consequências bem reais. Um dos principais motores do pessimismo americano é o medo da perda de empregos. Diferente de crises econômicas anteriores, onde a automação atingia principalmente funções repetitivas e manuais, a IA generativa está avançando sobre trabalhos que exigem criatividade, análise, comunicação e julgamento — exatamente o tipo de trabalho sobre o qual a classe média americana construiu sua estabilidade.
Quando um advogado júnior, um designer, um redator ou um analista financeiro começa a ver ferramentas de IA fazendo partes do seu trabalho em segundos, a reação natural não é de entusiasmo — é de alerta. E esse alerta está se traduzindo nos números da pesquisa de forma muito clara.
A questão da desinformação e dos deepfakes também merece destaque, porque ela tem uma dimensão política muito específica nos Estados Unidos. O país passou por eleições altamente polarizadas, e o uso de IA para criar conteúdo falso, manipular imagens de figuras públicas e disseminar narrativas enganosas foi um tema que dominou o debate público. Quando a tecnologia que deveria representar progresso começa a ser associada a ameaças à democracia e à integridade das eleições, é difícil manter uma visão positiva sobre ela.
O impacto ambiental dos data centers está no radar
Existe ainda uma preocupação que está crescendo de forma consistente e acelerada: o impacto ambiental da IA. Os números da pesquisa são eloquentes — em 2024, 52% dos respondentes diziam estar preocupados com o uso de recursos naturais pela tecnologia. Em 2026, esse número saltou para dois em cada três respondentes, um crescimento expressivo que mostra que essa questão saiu da periferia e entrou no centro das preocupações.
Os data centers que sustentam os grandes modelos de linguagem consomem quantidades absurdas de energia e frequentemente dependem de sistemas de refrigeração baseados em água. E esse custo ambiental não é mais apenas uma preocupação teórica — está gerando reações muito concretas em comunidades pelo país.
A resistência local contra data centers tem perturbado representantes eleitos em diversas localidades. Em uma cidade no Missouri, metade do conselho municipal foi votada para fora depois de aprovar um data center de 6 bilhões de dólares. Em Indianápolis, uma semana depois de um plano de rezoneamento ser aprovado para acomodar o projeto de um desenvolvedor de data centers, um vereador relatou que sua casa foi alvejada por tiros, e uma nota dizendo NO DATA CENTERS foi deixada na varanda da frente. Esses episódios mostram o nível de tensão que a expansão da infraestrutura de IA está gerando nas comunidades americanas.
Diante desse cenário, o presidente Trump emitiu em março o que chamou de compromisso de proteção ao contribuinte, pedindo que as grandes empresas de tecnologia forneçam ou paguem pelo próprio fornecimento de eletricidade à medida que estabelecem rapidamente centros de computação pelo país. É um reconhecimento oficial de que o custo energético da IA se tornou uma questão política de primeira ordem.
O contraste global: onde a IA ainda inspira otimismo
Enquanto os Estados Unidos e o Canadá lideram o ranking de pessimismo em relação à inteligência artificial, outros países mantêm uma visão significativamente mais positiva. Singapura e Índia se destacam como exemplos de nações onde a crença de que a IA vai beneficiar a sociedade é generalizada e persistente ao longo dos três anos de pesquisa.
Esse contraste levanta questões importantes. O que faz com que populações em diferentes partes do mundo tenham percepções tão distintas sobre a mesma tecnologia? Parte da resposta pode estar no estágio de desenvolvimento econômico e nas expectativas sobre o que a IA pode trazer. Em países onde a tecnologia é vista como uma alavanca de oportunidades e mobilidade social, a receptividade tende a ser maior. Já em economias maduras, onde muitos trabalhadores sentem que têm algo a perder, a desconfiança cresce com mais facilidade.
O fato de a pesquisa abranger 15 países diferentes dá uma dimensão global ao fenômeno e ajuda a entender que a relação entre sociedade e IA não é monolítica. Cada cultura, cada economia e cada contexto político molda essa percepção de maneiras únicas. 🌍
O que esse cenário significa para o futuro
A queda na confiança americana em relação à inteligência artificial não significa necessariamente que a tecnologia vai desacelerar. As empresas continuam investindo bilhões, os produtos continuam sendo lançados e a integração da IA na infraestrutura digital do país segue em ritmo acelerado. Mas o que esses números sinalizam é que existe uma desconexão crescente entre o ritmo de adoção tecnológica e o ritmo de construção de confiança pública. E essa desconexão tem consequências práticas: ela afeta a disposição das pessoas de usar novas ferramentas, influencia o debate regulatório e molda as expectativas de toda uma geração em relação ao papel da tecnologia na sociedade.
Para as empresas de tecnologia, esse cenário é um sinal que vale a pena levar a sério. A narrativa de que a IA vai resolver todos os problemas da humanidade claramente não está ganhando a batalha das percepções. O que está faltando não é mais tecnologia — é mais transparência, mais responsabilidade e mais evidências concretas de que os benefícios estão chegando para as pessoas comuns, não apenas para quem está no topo da cadeia econômica.
A opinião pública está pedindo por uma conversa diferente, menos hype e mais honestidade sobre os desafios reais. E quando essa demanda vem de múltiplos ângulos ao mesmo tempo — preocupação com empregos, com desinformação, com o meio ambiente e com a concentração de poder nas mãos de poucas empresas — ignorá-la não é uma opção viável a longo prazo.
Para os jovens que lideram esse pessimismo, o recado talvez seja ainda mais importante. Eles não são contra a tecnologia — eles querem que ela funcione de um jeito melhor, mais justo e mais seguro. Essa geração tem uma capacidade enorme de pressionar por mudanças, seja como consumidores, seja como profissionais que vão construir os próximos sistemas. O pessimismo deles não é necessariamente o fim da história com a IA — pode ser o começo de uma relação mais madura e exigente com ela. 🤔
E talvez o recado mais importante dessa pesquisa seja para quem ainda acha que os EUA estão na liderança inquestionável da corrida da IA. O mundo está olhando para outro lado, e a opinião pública interna parece cada vez menos disposta a embarcar sem questionamentos nessa jornada. A corrida continua, mas os termos em que ela é disputada estão mudando — e rápido.
