A inteligência artificial acaba de fazer algo que parecia impossível: ler um livro que foi destruído há quase 2 mil anos.
Não estamos falando de um arquivo digitalizado ou de um documento bem preservado em algum museu climatizado.
Estamos falando de um pergaminho carbonizado, partido ao meio, com fragmentos que se desfazem ao toque, soterrado pelas cinzas do Vesúvio em 79 d.C. e redescoberto séculos depois em condições bem precárias.
E mesmo assim, pesquisadores conseguiram revelar 20 colunas de texto oculto, cobrindo mais de um metro de papiro queimado, tudo isso sem abrir fisicamente o documento uma única vez.
O resultado é impressionante por si só, mas o que torna essa história ainda mais especial é o conteúdo que veio à tona depois de tanto silêncio.
São reflexões sobre filosofia estoica, ética, arte e comportamento humano, escritas possivelmente por um dos grandes pensadores da Grécia antiga.
Livros que o mundo acreditava perdidos para sempre estão, literalmente, começando a falar de novo. 📜✨
O que é o Pergaminho de Herculano e por que ele importa tanto
Herculano era uma cidade romana, vizinha de Pompeia, que foi completamente engolida pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. Diferente de Pompeia, que foi coberta por cinzas e pedra-pomes, Herculano foi atingida por uma onda de material vulcânico superaquecido que carbonizou praticamente tudo que havia lá, incluindo madeira, alimentos e, claro, papiros. Esse processo de carbonização foi cruel com os objetos físicos, mas ao mesmo tempo acabou preservando o conteúdo de centenas de rolos de texto que, de outra forma, teriam simplesmente apodrecido ao longo dos séculos. Foi um equilíbrio delicado e perturbador entre destruição e preservação.
Esses rolos foram encontrados dentro de uma vila luxuosa em Herculano, formando o que ficou conhecido como a biblioteca dos Pergaminhos de Herculano, com centenas de rolos recuperados. O problema é que eles estavam tão frágeis e quebradiços que qualquer tentativa de abri-los resultava em destruição imediata. Durante muito tempo, os pesquisadores ficaram com a sensação de segurar um tesouro inestimável nas mãos sem conseguir lê-lo.
O pergaminho que está em destaque agora recebeu o nome de PHerc 1667. A idade dele faz dele um dos mais antigos de toda a coleção, com datação que aponta para o segundo ou final do terceiro século a.C. Mas a história desse rolo foi marcada por danos sérios ao longo do tempo. Em algum momento ele foi partido ao meio, e tentativas antigas de desenrolá-lo manualmente fizeram com que as camadas externas se soltassem ou se desintegrassem. O que sobrou hoje é apenas metade do tamanho original, com cerca de 8 centímetros de altura e 2 centímetros de largura. Mesmo assim, foi o suficiente para revelar conteúdos valiosíssimos.
Como a IA conseguiu ler algo que nem deveria existir
O processo que tornou tudo isso possível começa com imagens de raio-x de altíssima resolução. Com elas, os pesquisadores conseguem criar uma representação detalhada do interior do rolo sem precisar desenrolá-lo fisicamente. O problema é que, mesmo com essas imagens em mãos, a tinta antiga e o papiro carbonizado têm aparências extremamente parecidas, o que tornava quase impossível distinguir as letras escritas do fundo do documento.
Foi aí que o Vesuvius Challenge entrou na história. Lançado em 2023 como uma competição global, o desafio propôs que equipes do mundo inteiro tentassem desenvolver modelos de inteligência artificial capazes de identificar padrões nas imagens de raio-x e, a partir daí, revelar letras e palavras ocultas. O projeto distribuiu centenas de milhares de dólares em prêmios para os times que conseguiram avançar nessa missão usando IA e outros softwares para desenrolar virtualmente os rolos e ler o texto a partir das imagens de alta resolução.
A base de todo esse trabalho veio do professor Brent Seales, cientista da computação da Universidade de Kentucky. Ele demonstrou como algoritmos de machine learning poderiam ser treinados para ler a tinta nas camadas escondidas dos rolos, detectando diferenças sutis nas fibras do papiro presentes nas imagens de raio-x. O desafio, apoiado por doadores do Vale do Silício, atraiu equipes que refinaram essas técnicas de desenrolar e ler os pergaminhos virtualmente.
Os modelos treinados dentro do contexto do Vesuvius Challenge aprenderam a identificar diferenças minúsculas na superfície do papiro carbonizado, detectando traços deixados pela tinta mesmo quando esses traços tinham praticamente a mesma aparência do material ao redor. O resultado foi a leitura de trechos cada vez mais longos, culminando na revelação das 20 colunas que hoje são notícia no mundo inteiro. Esse processo não foi rápido nem linear, mas funcionou de uma maneira que pouca gente conseguia prever com certeza antes de tentar.
O conteúdo revelado e sua conexão com a filosofia estoica
Boa parte da biblioteca de Herculano era dominada por Filodemo de Gadara, um filósofo e poeta epicurista do primeiro século a.C. Porém, o caso do PHerc 1667 é diferente. Tanto o título quanto o autor seguem desconhecidos, mas a idade mais avançada do rolo e o conteúdo apontam para outro nome. A análise feita pela papiróloga Dra. Federica Nicolardi, da Universidade de Nápoles Federico II, e seus colegas sugere que o texto é um tratado estoico, possivelmente escrito pelo filósofo grego Crisipo.
Crisipo foi o terceiro líder da escola estoica e já tem outras obras presentes na coleção. O texto inclusive faz referência ao seu sobrinho e aluno, Aristócreon, o que reforça essa hipótese. Como a própria Nicolardi comentou, no começo a equipe achava que poderia ser um epicurista falando sobre doutrina estoica, mas depois percebeu que, se aquele texto tivesse sido encontrado fora de Herculano, ele seria classificado diretamente como uma obra estoica.
O conteúdo revelado mergulha em conceitos centrais da filosofia estoica. Um deles é o hormē, ou impulso, com um alerta de que não regular o comportamento por meio da razão pode levar a paixões prejudiciais e ao afastamento dos próprios objetivos. Outro conceito presente é o phronēsis, ou sabedoria prática, considerada a maior virtude que uma pessoa pode ter dentro do pensamento estoico.
Em uma das passagens, o autor escreve que iremos investigar algo, mas não conseguiremos compreendê-lo se de alguma forma nos afastarmos de nós mesmos e da nossa própria natureza. Essa linha sugere que a razão e a inclinação humana natural para fazer o bem eram fundamentais para o avanço do conhecimento. É um pensamento que ressoa de forma surpreendente até hoje, mesmo depois de mais de dois mil anos.
Outros achados e o futuro dos pergaminhos
O PHerc 1667 não foi o único rolo a revelar surpresas. Outro pergaminho desenrolado virtualmente trouxe à tona as palavras Filodemo, Sobre os Deuses, Livro 8, revelando pela primeira vez que a obra Sobre os Deuses era composta por vários livros. Antes disso, apenas o primeiro havia sido identificado. Como resumiu a própria Nicolardi, esses rolos fechados de Herculano parecem livros mortos, mas não são. Eles estão começando a falar de novo. 🧠
Para o professor Brent Seales, o foco do desafio agora mudou. Antes, o problema era encontrar as técnicas necessárias para ler os rolos queimados. Hoje, com a comprovação de que isso é possível, o trabalho passa a ser de natureza acadêmica, voltado para entender o que esses textos realmente significam. Ele descreveu o momento com uma comparação emocionada, dizendo que para ele aquilo era a copa do mundo e que tinha acabado de vencer essa copa, considerando aquela a sua grande vitória.
A própria Nicolardi destacou que, mesmo sem ter o rolo inteiro, o objeto que sobreviveu foi desenrolado por completo, e isso é um resultado importantíssimo, porque mostra que já existe a capacidade de desenrolar esses objetos totalmente. É um marco que abre portas para todos os outros rolos ainda intactos da coleção.
O mais fascinante de tudo isso é perceber que a inteligência artificial não foi apenas uma ferramenta nesse processo. Ela foi, de certa forma, a chave que abriu uma porta que a humanidade havia perdido há dois milênios. E isso levanta uma pergunta que fica no ar, não de forma retórica, mas genuinamente curiosa: quantas outras portas ainda estão fechadas esperando pela tecnologia certa para serem abertas? 🔓📚
