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A era das notícias com inteligência artificial e sua influência: para onde vamos a partir daqui?

A inteligência artificial já mudou muita coisa na forma como consumimos informação, mas um estudo recente trouxe um dado que é difícil de ignorar.

Pesquisadores de psicologia da comunicação da University College London (UCL) descobriram algo que vai direto ao ponto: pessoas que assistiram a vídeos deepfake continuaram sendo influenciadas pelo conteúdo mesmo depois de serem avisadas de que tudo era falso.

Deixa isso afundar por um segundo.

Saber que algo é mentira não foi suficiente para apagar o efeito que aquele conteúdo já tinha causado na cabeça das pessoas.

É um paradoxo desconfortável, né?

A gente cresce ouvindo que o antídoto para a mentira é a verdade, mas a ciência está mostrando que o cérebro humano não funciona bem assim quando o assunto é fake news e conteúdo visual hiper-realista criado por IA.

E o que torna tudo isso ainda mais urgente é o fato de que as ferramentas para criar deepfakes estão ficando mais acessíveis, mais rápidas e mais convincentes a cada mês que passa.

Neste artigo, a gente vai entender o que esse estudo revelou, por que o nosso cérebro cai nessa armadilha e o que está sendo feito, na prática, para lidar com esse cenário. 🧠

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O que o estudo da UCL revelou sobre deepfakes e influência

A pesquisa conduzida pela University College London não foi um experimento simples. Os pesquisadores trabalharam com grupos de participantes que foram expostos a vídeos deepfake de figuras públicas dizendo coisas que nunca disseram de verdade. Depois da exposição, parte dos participantes foi informada de que o conteúdo era completamente fabricado por inteligência artificial. O que aconteceu em seguida foi exatamente o que os cientistas queriam medir, e os resultados foram surpreendentes até para os próprios pesquisadores envolvidos no projeto.

Mesmo após receber a informação de que o vídeo era falso, os participantes continuaram demonstrando crenças e atitudes alinhadas com o conteúdo que tinham assistido. Ou seja, a influência do deepfake persistiu mesmo com a correção explícita sendo feita logo em seguida. Esse fenômeno já era estudado no campo da psicologia da comunicação em contextos mais tradicionais, como boatos e textos de desinformação, mas a intensidade observada com vídeos gerados por IA foi consideravelmente maior do que em experimentos anteriores com outros formatos de conteúdo falso.

O que os dados sugerem é que o formato visual hiper-realista tem um peso cognitivo diferente. Quando o cérebro processa uma imagem em movimento de alguém que parece real, falando de forma natural, com expressões faciais e entonação de voz convincentes, ele ativa mecanismos de processamento emocional antes mesmo de qualquer análise crítica acontecer. É como se a mensagem entrasse por uma porta dos fundos, direto para a memória e para o sistema de crenças, antes que o julgamento racional tivesse chance de intervir. Esse é o nó central do problema que o estudo expôs com dados concretos.

Por que o cérebro não consegue simplesmente desligar a influência

Entender por que isso acontece exige uma pequena viagem pela psicologia da comunicação e pelo funcionamento do cérebro humano diante de estímulos visuais. O ser humano evoluiu para confiar no que vê. Durante a maior parte da história da nossa espécie, ver algo acontecendo na frente dos olhos era uma prova suficiente de realidade. O problema é que a inteligência artificial generativa aprendeu a explorar exatamente essa característica do nosso sistema cognitivo, produzindo conteúdo visual que engana os sentidos com um nível de precisão que simplesmente não existia antes dessa tecnologia chegar ao nível atual de desenvolvimento.

Existe um conceito bem estudado na psicologia chamado de efeito de continuidade da crença, que descreve exatamente o que o estudo da UCL observou. Quando uma informação é absorvida e processada, ela deixa um rastro na estrutura cognitiva da pessoa, mesmo que essa informação seja desmentida logo depois. O desmentido precisa competir com uma memória já formada, e nessa competição, a memória original frequentemente leva vantagem, especialmente quando o conteúdo original foi emocionalmente carregado ou visualmente impactante. Um vídeo deepfake bem produzido preenche todos esses critérios ao mesmo tempo, o que explica a persistência da influência mesmo após a correção.

Além disso, há um fator de confiança implícita que os vídeos carregam culturalmente. Durante décadas, a sociedade tratou imagens e vídeos como evidências. Frases como uma imagem vale mais que mil palavras ou ver para crer estão enraizadas no imaginário coletivo. Mesmo que as pessoas saibam intelectualmente que deepfakes existem e que a IA pode fabricar rostos e vozes, o sistema emocional do cérebro ainda responde ao vídeo como se ele fosse real no momento em que está sendo assistido. Esse gap entre o que a pessoa sabe racionalmente e o que ela sente instintivamente é o terreno fértil onde as fake news em formato de vídeo deepfake plantam suas raízes mais profundas.

O papel da memória emocional nesse processo

Outro aspecto que merece destaque é como a memória emocional funciona de maneira diferente da memória factual. Quando alguém assiste a um vídeo deepfake com carga emocional forte, seja indignação, medo, surpresa ou raiva, o cérebro armazena não apenas a informação, mas também a emoção associada a ela. Mesmo que a informação factual seja corrigida depois, a emoção permanece intacta na memória. Esse resíduo emocional continua influenciando julgamentos e decisões futuras de forma sutil, muitas vezes sem que a pessoa sequer perceba que está sendo guiada por uma reação a algo que ela própria reconhece como falso.

Pesquisas na área de neurociência cognitiva já demonstraram que o sistema límbico, responsável pelo processamento emocional, opera com uma velocidade significativamente maior do que o córtex pré-frontal, que cuida do pensamento crítico e da análise racional. Em termos práticos, isso significa que a emoção chega primeiro e se instala antes que a razão tenha tempo de questionar o que acabou de ser visto. No contexto dos deepfakes, essa diferença de velocidade entre emoção e razão é exatamente o que torna esses vídeos tão perigosamente eficazes como ferramentas de desinformação.

O cenário atual das fake news geradas por IA

O estudo da UCL chegou em um momento em que o volume de conteúdo sintético circulando na internet atingiu proporções que seriam impensáveis há apenas cinco anos. Ferramentas de geração de vídeo com inteligência artificial que antes exigiam servidores potentes e equipes especializadas agora estão disponíveis em aplicativos de celular, gratuitos ou de baixo custo, acessíveis a qualquer pessoa com uma conexão de internet. Isso significa que a capacidade de produzir deepfakes convincentes não está mais restrita a laboratórios de tecnologia ou a grupos com recursos elevados, ela está na palma da mão de qualquer usuário que queira utilizá-la, independentemente das intenções.

O impacto disso no ecossistema de informação é profundo. Plataformas de redes sociais têm lutado para desenvolver mecanismos de detecção automática de conteúdo sintético, mas a corrida é assimétrica. As ferramentas de geração evoluem continuamente, muitas vezes mais rápido do que as ferramentas de detecção conseguem acompanhar. Pesquisadores de segurança digital relatam que modelos de detecção treinados para identificar artefatos visuais típicos de deepfakes ficam desatualizados em questão de meses, porque as gerações mais novas dos modelos de IA corrigem exatamente os padrões que os detectores aprenderam a reconhecer. É um ciclo de ataque e defesa que se retroalimenta sem uma solução definitiva à vista no curto prazo.

Do ponto de vista da psicologia da comunicação, o problema não é apenas técnico. A velocidade com que as fake news se espalham nas redes sociais significa que, muitas vezes, o desmentido chega tarde demais para alcançar o mesmo público que consumiu o conteúdo original. Estudos anteriores da área já mostravam que notícias falsas se espalham significativamente mais rápido do que notícias verdadeiras no ambiente digital, e quando o conteúdo falso está em formato de vídeo deepfake com alta produção, o engajamento tende a ser ainda maior, amplificando o alcance antes que qualquer correção seja publicada. Esse timing desfavorável é um dos maiores desafios para quem trabalha com combate à desinformação hoje. 📱

O efeito cascata nas redes sociais

Um ponto que merece atenção especial é o efeito cascata que um único vídeo deepfake pode provocar em plataformas como Instagram, TikTok, X e YouTube. Quando um conteúdo falso viraliza, ele não circula apenas no formato original. Usuários criam recortes, comentários em vídeo, reações e até memes baseados naquele material, multiplicando a exposição do conteúdo desinformativo em formatos derivados que escapam completamente dos sistemas de moderação automatizada. Mesmo que o vídeo original seja removido, essas versões secundárias continuam circulando, prolongando a vida útil da mentira de forma quase orgânica.

Além disso, os algoritmos de recomendação das plataformas tendem a priorizar conteúdo com alto engajamento emocional, que é exatamente o tipo de resposta que deepfakes provocam. Isso cria uma situação em que o próprio funcionamento das redes sociais amplifica a distribuição de conteúdo potencialmente falso, mesmo sem intenção deliberada dos responsáveis pela plataforma. É uma dinâmica estrutural que vai além da moderação de conteúdo individual e toca na própria arquitetura dos sistemas de distribuição de informação que bilhões de pessoas utilizam todos os dias.

O que está sendo feito para enfrentar esse problema

A resposta para os desafios criados pelos deepfakes e pela desinformação gerada por inteligência artificial está sendo construída em várias frentes simultaneamente, porque nenhuma abordagem isolada é suficiente para dar conta da complexidade do problema. No campo técnico, grandes empresas de tecnologia como Google, Meta e Microsoft têm investido em sistemas de watermarking digital, que é basicamente uma marca d’água invisível embutida nos vídeos gerados por IA, permitindo que ferramentas de verificação identifiquem a origem sintética do conteúdo mesmo depois que ele é compartilhado e editado. Iniciativas como o Content Authenticity Initiative (CAI) e o projeto C2PA trabalham para criar padrões abertos de certificação de autenticidade para conteúdo digital, algo parecido com um passaporte de origem para imagens e vídeos.

No campo da educação midiática, pesquisadores e organizações de checagem de fatos estão desenvolvendo programas de letramento digital focados especificamente em como identificar sinais de manipulação em vídeos. A ideia não é transformar todo usuário de internet em um especialista forense, mas criar hábitos de consumo mais crítico, como:

  • Verificar a fonte antes de compartilhar qualquer conteúdo em vídeo
  • Buscar o contexto original de um vídeo antes de acreditar no que está sendo apresentado
  • Usar ferramentas de busca reversa de imagens para checar a autenticidade de materiais visuais
  • Desconfiar de vídeos com carga emocional muito intensa que aparecem sem contexto claro
  • Consultar agências de checagem de fatos antes de formar uma opinião definitiva sobre conteúdo sensível

Alguns estudos na área de psicologia da comunicação têm mostrado que intervenções educativas realizadas antes da exposição ao conteúdo falso, as chamadas abordagens de pré-bunking, são mais eficazes do que o desmentido feito depois que a desinformação já foi consumida. Esse achado dialoga diretamente com os resultados do estudo da UCL sobre a persistência da influência dos deepfakes, reforçando a importância de preparar o público antes que ele seja exposto ao problema, em vez de tentar consertar o estrago depois.

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O avanço regulatório ao redor do mundo

Regulatoriamente, governos ao redor do mundo estão movendo peças para criar marcos legais que responsabilizem plataformas e criadores de conteúdo sintético usado com intenção de enganar. A União Europeia, com seu AI Act, exige que sistemas de IA que geram conteúdo sintético incluam identificação clara de que o material foi produzido artificialmente. Essa legislação representa um dos esforços mais abrangentes até agora para estabelecer regras claras sobre transparência no uso de inteligência artificial generativa em contextos de comunicação pública.

No Brasil, o debate regulatório sobre fake news e uso de IA em contextos eleitorais ganhou força especialmente após episódios recentes de uso de deepfakes em campanhas políticas, levando o Tribunal Superior Eleitoral a publicar resoluções específicas sobre o uso de inteligência artificial em material de propaganda eleitoral. É um movimento importante, ainda que as lacunas na fiscalização e na aplicação das regras ainda sejam um desafio real para as instituições envolvidas. ⚖️

Os limites das soluções tecnológicas

É importante reconhecer que nenhuma tecnologia de detecção, por mais avançada que seja, vai resolver o problema sozinha. O watermarking digital, por exemplo, depende de adoção ampla por parte dos desenvolvedores de ferramentas de IA generativa, algo que ainda está longe de ser universal. Ferramentas de código aberto, modelos disponibilizados em fóruns e plataformas descentralizadas frequentemente operam fora do alcance dessas iniciativas de padronização, criando lacunas significativas no sistema de rastreabilidade de conteúdo sintético.

Da mesma forma, a detecção automatizada baseada em machine learning enfrenta o chamado dilema do gato e rato. Cada vez que os detectores melhoram, os geradores também evoluem, frequentemente usando os próprios detectores como ferramenta de treinamento adversarial para produzir deepfakes ainda mais difíceis de identificar. Esse ciclo sugere que a solução para o problema da desinformação gerada por IA não será puramente tecnológica, mas uma combinação de tecnologia, educação, regulação e, fundamentalmente, mudança cultural na forma como as pessoas se relacionam com conteúdo digital.

O fator humano no centro da questão

O que o estudo da UCL nos deixa de lição mais importante talvez não seja técnico nem político. É humano. Ele nos lembra que a influência de um conteúdo não desaparece só porque alguém nos diz que ele é falso. Isso coloca uma responsabilidade enorme sobre o momento do consumo, sobre o ambiente em que as pessoas recebem informação e sobre os hábitos que constroem a relação de cada um com o que aparece na tela.

Em um mundo onde a inteligência artificial pode fabricar realidades visualmente perfeitas, a consciência sobre como o próprio cérebro processa essas imagens talvez seja a ferramenta mais valiosa que qualquer pessoa pode desenvolver. Não se trata de desconfiar de tudo ou de viver em estado permanente de paranoia digital, mas de entender que o cérebro humano tem vulnerabilidades que podem ser exploradas por conteúdo sintético, e que reconhecer essas vulnerabilidades é o primeiro passo para não ser dominado por elas.

A questão que fica no ar, e que o estudo da UCL coloca de forma bastante direta, é: se saber que algo é falso não é suficiente para anular seu efeito, então o que é? A resposta ainda está sendo construída por pesquisadores, educadores e desenvolvedores de tecnologia ao redor do mundo. Mas uma coisa já ficou clara: a abordagem precisa mudar. Não basta desmentir depois. É preciso preparar antes. E isso passa por repensar como ensinamos pensamento crítico, como projetamos plataformas de informação e como cada pessoa escolhe se relacionar com o conteúdo que consome diariamente. 🧩

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