Como a Inteligência Artificial Ajudou Um Homem e Seu Irmão a Construir Uma Empresa de US$ 1,8 Bilhão
Imagine construir uma empresa que projeta US$ 1,8 bilhão em faturamento com apenas duas pessoas na equipe.
Parece ficção científica, né?
Mas foi exatamente isso que Matthew Gallagher, 41 anos, fez ao tirar sua startup do papel em apenas dois meses, com US$ 20 mil no bolso e mais de uma dúzia de ferramentas de inteligência artificial trabalhando por ele. De sua casa em Los Angeles, Gallagher usou IA para escrever o código do software que alimenta a empresa, produzir os textos do site, gerar imagens e vídeos para anúncios, cuidar do atendimento ao cliente e até analisar a performance do negócio em tempo real.
A Medvi, plataforma de telemedicina focada em medicamentos GLP-1 para perda de peso, se tornou um dos casos mais surpreendentes do mundo dos negócios nos últimos tempos. Não pelo produto em si, mas pela forma como foi construída e pela velocidade absurda com que escalou.
No primeiro mês de operação, a Medvi conquistou 300 clientes. No segundo, mais 1.000 se juntaram. Em 2025, o primeiro ano completo de funcionamento, a empresa registrou US$ 401 milhões em vendas e acumulou 250 mil clientes. E tudo isso com um único funcionário além do fundador: seu irmão mais novo, Elliot. 🚀
O que parecia ser uma previsão distante de Sam Altman, CEO da OpenAI, sobre empresas bilionárias com um único fundador, começa a ganhar forma no mundo real. Em 2024, Altman disse em um podcast que uma empresa de uma pessoa valendo US$ 1 bilhão teria sido inimaginável sem IA, mas que isso aconteceria. Em um e-mail ao The New York Times, Altman afirmou que aparentemente ganhou uma aposta que fez com amigos CEOs de tecnologia sobre quando uma empresa assim surgiria, e que gostaria de conhecer o cara que conseguiu.
E a história da Medvi levanta uma questão que ninguém consegue ignorar: o que muda quando duas pessoas conseguem fazer o que antes exigia centenas?
A Trajetória de Um Empreendedor Nato
Para entender como Gallagher chegou até aqui, vale voltar um pouco no tempo. Ele teve uma infância itinerante, vivendo em motéis e carros por um período antes de se estabelecer em Cincinnati aos 12 anos. Foi lá que um tio lhe deu um laptop, e ele usou a máquina para aprender a programar sozinho, criando uma página de fã do Weird Al Yankovic.
Ainda adolescente, começou a construir sites para empresas locais. Sempre teve um espírito empreendedor, vendendo velas e espadas de samurai no eBay. Aos 18 anos, vendeu um negócio de hospedagem de sites por US$ 6 mil. Passou brevemente pela Universidade de Cincinnati e pela Northern Kentucky University, mas não se formou em nenhuma delas.
Em 2010, mudou-se para Los Angeles com o sonho de ser ator. Acabou voltando para a programação e alternando entre empregos na área de tecnologia. Em 2016, fundou a Watch Gang, uma startup que vendia relógios de pulso por assinatura. A empresa tinha fãs, mas nunca deu lucro, mesmo com Gallagher perseguindo crescimento de receita e contratando 60 pessoas.
Essa experiência com a Watch Gang moldou profundamente sua visão sobre como empresas deveriam operar. Ter 60 funcionários não ajudou a empresa a crescer, segundo ele. Apenas aumentou os custos e atrasou a tomada de decisões porque havia mais gente no caminho. Essa lição ficou gravada e influenciou diretamente a forma como ele estruturou a Medvi anos depois.
Quando a OpenAI lançou o ChatGPT em 2022, Gallagher começou a experimentar com IA. Dois anos depois, conheceu Jiten Chhabra, cofundador da CareValidate, uma startup médica de Atlanta que oferece essencialmente um kit de telemedicina pronto para uso. Empresas que querem vender medicamentos sob prescrição podem usar a tecnologia e a rede de médicos online da CareValidate para montar um negócio. O software conecta pacientes a médicos e farmácias, que prescrevem, embalam e enviam os medicamentos.
Gallagher viu a oportunidade na hora. Ele poderia usar IA para cuidar da marca e do marketing enquanto plataformas como CareValidate e OpenLoop Health lidavam com médicos, farmácias, envio e compliance. Era a combinação perfeita. 💡
Como a IA Virou o Verdadeiro Motor da Operação
Matthew não tinha um exército de desenvolvedores, designers ou gerentes de produto. O que ele tinha era uma visão clara de onde queria chegar e um conjunto de ferramentas de inteligência artificial que transformaram cada hora de trabalho em algo exponencialmente mais produtivo.
Para construir o site da Medvi, ele usou ChatGPT, Claude e Grok. Criou ferramentas customizadas, incluindo agentes de IA, que são bots que executam tarefas de forma autônoma, para fazer seus sistemas de software conversarem entre si. Testou ferramentas de voz da ElevenLabs e outras para se comunicar com clientes. E usou os geradores de imagem e vídeo Midjourney e Runway para criar conteúdo visual para o site e os anúncios.
Desde o primeiro dia, a estratégia foi simples: automatizar tudo que pudesse ser automatizado e focar energia humana apenas no que realmente exigia julgamento e criatividade. Ferramentas de IA geravam o código da plataforma, outras cuidavam do suporte aos pacientes, e outras ainda otimizavam as campanhas de marketing em tempo real, ajustando orçamentos, textos e segmentação sem intervenção manual constante.
O que chama atenção nesse modelo não é só a eficiência operacional, mas a velocidade com que decisões eram tomadas e implementadas. Em uma empresa tradicional, uma mudança no fluxo de atendimento ao cliente passaria por reuniões, aprovações, testes e ciclos de feedback que poderiam durar semanas. Na Medvi, isso acontecia em horas. A inteligência artificial não substituiu apenas mão de obra, ela comprimiu o tempo entre ideia e execução de uma forma que redefine o que significa ser ágil no mercado atual.
Gallagher chegou a criar um clone de IA da própria voz para gerenciar sua vida pessoal. Usava o clone para ligar e agendar compromissos, liberando mais tempo para trabalhar na Medvi. Ele basicamente trabalha na empresa em todos os momentos em que não está dormindo, tomando banho ou passando tempo com seus dois filhos.
Essa camada de automação pessoal foi tão importante quanto qualquer outra para garantir que a startup crescesse sem perder a direção. Como observou Kobie Fuller, investidor da Upfront Ventures que aconselhou Gallagher, nem todo mundo consegue construir uma empresa assim movida por IA. Gallagher tem a combinação rara de saber marketing e dominar ferramentas de IA de ponta, o que funciona como um superpoder nesse momento. 🤖
Tropeços, Chatbots Alucinando e Corridas Para Casa
Nem tudo foram flores, claro. O site inicial da Medvi apresentava fotos de modelos sorridentes que pareciam geradas por IA e fotos de antes e depois de perda de peso retiradas da internet com os rostos alterados. Alguns anúncios tinham aquela cara de conteúdo gerado por IA sem muito cuidado. Um ticker rolante com logos de grandes veículos de mídia dava a impressão de que a Medvi havia sido destaque na Bloomberg e no The New York Times, quando na verdade havia apenas anunciado nesses veículos.
O chatbot de atendimento ao cliente também apresentou problemas. Às vezes, inventava preços para os medicamentos, e Gallagher honrou esses preços fictícios. Em outros momentos, o bot alucinava e dizia que a Medvi vendia medicamentos para queda de cabelo quando isso não era verdade na época.
Um teste curioso: Gallagher perguntou ao sistema de atendimento por receitas de lasanha, e o bot forneceu as receitas alegremente. Levou um tempo de ajustes para fazer a IA parar de sair do roteiro e focar apenas no que importava para o negócio.
Se algum cliente queria falar com uma pessoa de verdade, o chatbot havia sido treinado para transferir a ligação diretamente para o celular pessoal de Gallagher. Isso resultou em mais de mil ligações de atendimento ao cliente chegando no bolso dele. Para gerenciar esse volume, ele integrou programas da OpenLoop e da CareValidate que passaram a atender as chamadas.
Houve também um episódio em março do ano passado que ilustra bem os riscos de operar com uma equipe tão enxuta. Gallagher fez uma mudança pequena no site da Medvi e saiu para uma caminhada. No meio da trilha, recebeu uma ligação de uma de suas agências de mídia perguntando se não era estranho que não houvesse pedidos na última hora. Ele percebeu que a atualização tinha quebrado algo no site. Sem ninguém para consertar, saiu correndo de volta para casa. O tempo fora do ar custou cerca de 200 clientes potenciais.
Conforme a operação cresceu, Gallagher foi migrando de soluções improvisadas para estruturas mais profissionais. Trocou o LegalZoom por um escritório de advocacia real. Substituiu ferramentas de contabilidade por IA por uma firma de contabilidade. Contratou agências de mídia para ajudar a comprar anúncios e atrair clientes em escala maior.
Telemedicina Como Campo Fértil para Crescimento Acelerado
A escolha da telemedicina como vertical não foi por acaso. O mercado de saúde digital explodiu nos últimos anos, especialmente após a pandemia, e o segmento de medicamentos GLP-1 para perda de peso ganhou tração gigantesca com a popularização de compostos como semaglutida e tirzepatida. Os americanos queriam GLP-1s baratos, entregues em casa, sem precisar ir ao consultório. A Medvi começou cobrando a partir de US$ 179 pelo primeiro mês de medicamento, em linha com a concorrência.
Gallagher estava entrando em um mercado já estabelecido. Há quase uma década, empresas como Hims and Hers Health, Ro e outras vendem medicamentos para disfunção erétil e queda de cabelo online, usando redes de médicos para prescrever. A Hims, que abriu capital em 2021, tem 2.442 funcionários e gerou US$ 2,4 bilhão em receita no ano passado. Tanto Hims quanto Ro já tinham expandido para medicamentos GLP-1, mas Gallagher acreditava que podia fazer a mesma coisa de forma mais rápida e eficiente com IA e as plataformas de médicos sob demanda.
O modelo de telemedicina se encaixa perfeitamente com uma operação movida por inteligência artificial porque grande parte da jornada do paciente pode ser estruturada, padronizada e automatizada. O agendamento, o preenchimento de histórico médico, o envio de resultados, os lembretes de acompanhamento e até parte do suporte pós-consulta são processos que a IA consegue gerenciar com alta qualidade e escala praticamente ilimitada.
O crescimento da Medvi também se beneficiou de uma janela de oportunidade regulatória nos Estados Unidos, onde regras para prescrição remota foram flexibilizadas durante a pandemia e, em alguns contextos, essa flexibilização se manteve. Gallagher soube aproveitar esse momento, escalando a aquisição de pacientes com campanhas digitais altamente otimizadas por IA antes que o mercado ficasse mais congestionado e caro.
O Que os Números Revelam Sobre o Futuro das Startups
US$ 401 milhões em vendas no primeiro ano completo de operação com uma equipe de duas pessoas e uma margem de lucro líquido de 16,2%, equivalente a US$ 65 milhões. Esse número não é apenas impressionante, ele é um sinal de como o conceito de startup está sendo reinventado. A Hims, com seus mais de 2.400 funcionários, teve margem de lucro líquido de 5,5% no mesmo período. A comparação fala por si.
Durante décadas, o padrão no Vale do Silício foi levantar rodadas milionárias, contratar dezenas de pessoas, construir uma estrutura e depois tentar escalar. A Medvi inverteu essa lógica completamente: primeiro veio a escala, e a estrutura ficou propositalmente enxuta. A startup não levantou financiamento externo e não tem uma avaliação oficial de mercado, mas seus números de receita e lucro colocam ela em um patamar que muitas empresas de tecnologia altamente valorizadas sonhariam em alcançar.
Esse modelo tem implicações profundas para o ecossistema de empreendedorismo tecnológico. Se uma única pessoa com as ferramentas certas consegue operar uma empresa que fatura centenas de milhões, o papel do capital de risco, da contratação massiva e até das estruturas corporativas tradicionais precisa ser repensado. Quando Gallagher perguntou ao investidor Kobie Fuller se deveria buscar venture capital, Fuller disse que se ele não precisava do dinheiro, não deveria levantar. Gallagher depois agradeceu pelo conselho.
E não é só no mundo das startups que essa onda está chegando. Grandes empresas de tecnologia como Pinterest e Block cortaram milhares de funcionários nos últimos meses, citando eficiências proporcionadas pela IA. A barreira para criar algo de grande impacto nunca foi tão baixa para quem sabe usar as ferramentas disponíveis.
Expansão em Todas as Direções
Gallagher está reinvestindo parte dos lucros da Medvi em expansão. Ele considerou comprar empresas que oferecem outros produtos de saúde, mas decidiu que era tão fácil construir ele mesmo.
Em fevereiro deste ano, a Medvi começou a vender produtos de saúde masculina, incluindo medicamentos para disfunção erétil. Esse segmento alcançou 50 mil clientes no primeiro mês e está a caminho de ultrapassar o negócio de GLP-1 em quatro meses, segundo Gallagher.
No mês passado, a plataforma adicionou planos de entrega de refeições saudáveis, gerenciados pela OpenLoop. Os próximos passos incluem saúde feminina, incluindo medicamentos de terapia hormonal, além de produtos para crescimento capilar, suplementos e cuidados com a pele.
O faturamento total da empresa em termos de lucro acumulado ficou entre US$ 70 milhões e US$ 80 milhões, números que deixaram Gallagher emocionado dada sua origem humilde.
Pela primeira vez, não estou em modo de sobrevivência, ele disse.
No ano passado, ele criou uma fundação com US$ 1 milhão e fez doações para uma organização de resgate de gatos em Los Angeles, com planos de também doar para uma entidade que ajuda jovens em situação de rua. Seu objetivo é direcionar a maior parte dos lucros da Medvi através da fundação. Como diversão, investe em filmes e compra itens históricos, incluindo um relógio de bolso do século 18.
O Toque Humano Que a IA Ainda Não Substituiu
Apesar de toda a automação, a Medvi descobriu que algum toque humano ainda é necessário. Em setembro, a empresa começou a designar gerentes de conta humanos para um subconjunto de clientes. Quando esses clientes ligam, enviam mensagem ou e-mail com alguma dúvida, eles se conectam sempre com o mesmo gerente. A ideia é que esses gerentes conheçam os clientes e lembrem de detalhes como aniversários ou nomes dos filhos, criando uma experiência mais satisfatória.
A Medvi tem hoje sete gerentes de conta, todos contratados como terceirizados, cada um atendendo várias centenas de clientes. E como eles gerenciam tantos relacionamentos ao mesmo tempo? Usando IA, naturalmente.
Gallagher não planeja contratar mais pessoas. Ele disse que simplesmente não vê como isso ajudaria a Medvi neste momento. Mas admitiu que sente falta da camaradagem de ter colegas de trabalho.
Nesse ponto, eu meio que quero contratar pessoas porque estou solitário, disse ele.
Quando questionado sobre a história que construiu, Gallagher foi direto: Quer dizer, é loucura, né? E então respondeu a si mesmo: É loucura.
Eficiência Radical: O Novo Diferencial Competitivo
A história da Medvi reacende um debate que a indústria de tecnologia tem evitado de forma muito conveniente: talvez o problema de muitas empresas não seja falta de talento ou de capital, mas sim excesso de complexidade organizacional. Quando você tem duas pessoas tomando decisões, a comunicação é direta, o alinhamento é quase automático e a execução é rápida. Não há política interna, não há reuniões desnecessárias, não há camadas de aprovação que atrasam o que poderia ser feito em minutos.
A eficiência que Gallagher conquistou não é só tecnológica, é estrutural. A experiência fracassada com a Watch Gang, onde 60 funcionários não conseguiram gerar lucro, contrasta violentamente com a Medvi, onde duas pessoas e um arsenal de ferramentas de IA produzem margens de lucro que superam as de concorrentes com milhares de funcionários.
É claro que esse modelo tem limitações. Há aspectos regulatórios, de compliance médico e de responsabilidade clínica que exigem atenção humana especializada e que podem se tornar gargalos à medida que a operação cresce. A startup provavelmente precisará expandir sua equipe em áreas críticas conforme os requisitos legais e operacionais aumentam com a escala. Mas o ponto central que a Medvi demonstra é que o ponto de inflexão para contratar mais pessoas ficou muito mais alto do que era antes. Com inteligência artificial absorvendo funções que antes exigiam equipes inteiras, o momento de crescer o time humano pode ser adiado consideravelmente sem comprometer a qualidade ou a velocidade da operação.
Como CareValidate e OpenLoop confirmaram ao The New York Times, a Medvi rapidamente se tornou um dos maiores clientes de ambas as plataformas. Jiten Chhabra, da CareValidate, disse que sempre perguntava a Gallagher se ele tinha um exército de pessoas escondido em algum lugar. A resposta era sempre não. Jon Lensing, CEO da OpenLoop, disse que a língua nativa de Gallagher parece ser IA, e que ele começou a compartilhar dicas de tecnologia com a própria OpenLoop.
No fim das contas, o que torna a trajetória da Medvi tão relevante para quem acompanha o universo de tecnologia e inteligência artificial é que ela não é um experimento teórico ou um caso isolado de sorte. É uma demonstração prática, com números reais verificados pelo The New York Times, de que a promessa da IA como multiplicador de capacidade humana está se cumprindo agora, neste momento, em empresas reais. E isso muda a forma como empreendedores, investidores e até profissionais de tecnologia precisam enxergar o que é possível construir com recursos limitados e as ferramentas certas. 🎯
Como o próprio Gallagher resumiu: a Medvi não é uma empresa de IA, mas ele a construiu com IA. E esse talvez seja o detalhe mais importante de toda essa história.
