Como a Inteligência Artificial está decidindo alvos em conflitos armados
Inteligência Artificial já deixou de ser apenas aquela ferramenta que recomenda séries no streaming ou responde perguntas no seu celular. Hoje, em cenários de conflitos armados reais, algoritmos sofisticados estão sendo usados para gerar listas de alvos militares, calcular a probabilidade de que alguém seja um combatente e acelerar decisões que historicamente dependiam do julgamento humano. O que deveria ser um avanço tecnológico capaz de reduzir erros se tornou, na prática, um mecanismo que dilui a responsabilidade quando civis são atingidos. Quando um sistema automatizado indica um alvo e o resultado é a morte de pessoas inocentes, a pergunta que fica é direta e incômoda: quem responde por isso?
Uma investigação detalhada publicada pelo The Guardian revelou como grandes empresas de tecnologia, aquelas que muita gente conhece por produtos e serviços do cotidiano, estão atuando na prática como contratantes de defesa. Elas fornecem a infraestrutura computacional, os modelos de aprendizado de máquina e as plataformas de dados que sustentam sistemas de seleção de alvos em zonas de guerra. E o ponto mais inquietante dessa história não é que o sistema tenha falhado em algum momento. É que ele funcionou exatamente como foi projetado para funcionar 😐
Da névoa no posto de vigilância à névoa dentro do algoritmo
O artigo original do The Guardian abre com uma referência poderosa a uma estratégia militar israelense conhecida como procedimento de névoa. Usada pela primeira vez durante a segunda intifada, essa regra não oficial orientava soldados em postos de vigilância a disparar rajadas de tiros na escuridão sempre que a visibilidade fosse baixa, sob a justificativa de que uma ameaça invisível poderia estar se aproximando. Era violência autorizada pela cegueira. Atire no escuro e chame de dissuasão.
Com a chegada da guerra baseada em Inteligência Artificial, essa mesma lógica de cegueira deliberada foi refinada, sistematizada e transferida para uma máquina. A escuridão na torre de vigilância era uma condição do terreno. A escuridão dentro do algoritmo é uma condição do design. Em ambos os casos, a cegueira foi escolhida porque cegueira é útil: ela cria possibilidade de negação, faz a violência parecer inevitável e transfere a questão de quem decidiu de uma pessoa para um procedimento. A névoa não se dissipou. Ela recebeu um escore de probabilidade e foi chamada de inteligência.
A guerra recente em Gaza foi descrita como a primeira grande guerra de IA, o primeiro conflito no qual sistemas de inteligência artificial desempenharam papel central na geração da lista de supostos militantes do Hamas e da Jihad Islâmica a serem atacados. Sistemas que processaram bilhões de pontos de dados para classificar a probabilidade de que qualquer pessoa no território fosse um combatente. E o que aconteceu depois não ficou restrito a Gaza.
O caso da escola em Minab e a inteligência desatualizada
Pode ter sido essa mesma cegueira escolhida que levou, no início do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, ao ataque contra a escola primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã. Pelo menos 168 pessoas foram mortas, a maioria crianças, meninas entre sete e 12 anos de idade.
As armas foram precisas. Especialistas em munições descreveram o direcionamento como incrivelmente preciso, com cada edifício atingido individualmente e nada fora do alvo. O problema não foi a execução. O problema foi a inteligência por trás da decisão. A escola havia sido separada de uma base adjacente da Guarda Revolucionária por uma cerca e convertida para uso civil quase uma década antes. Em algum ponto do ciclo de seleção de alvos, esse fato aparentemente nunca foi atualizado.
O papel exato da IA no ataque a Minab não foi oficialmente confirmado. O que se sabe é que a infraestrutura de seleção de alvos na qual esses sistemas operam não possui um mecanismo confiável para sinalizar quando a inteligência subjacente está uma década desatualizada. Para atingir mil alvos nas primeiras 24 horas da campanha no Irã, os militares dos EUA dependeram de sistemas de IA para gerar, priorizar e classificar a lista de alvos a uma velocidade que nenhuma equipe humana conseguiria replicar.
Como resumiu o artigo original: Gaza foi o laboratório. Minab é o mercado. O resultado é um mundo em que as decisões de seleção de alvos mais consequentes da guerra moderna são tomadas por sistemas que não conseguem se explicar, fornecidos por empresas que não respondem a ninguém, em conflitos que não geram prestação de contas. Isso não é uma falha do sistema. Isso é o sistema.
O papel das Big Techs como contratantes de defesa
Durante muito tempo, o setor de defesa foi dominado por empresas tradicionais que fabricavam armamentos, veículos blindados e sistemas de comunicação militar. Esse cenário mudou radicalmente nos últimos anos. Companhias que nasceram no Vale do Silício e que construíram sua reputação em torno de inovação e conectividade agora assinam contratos bilionários com forças armadas ao redor do mundo. A Inteligência Artificial que essas empresas desenvolvem não está apenas otimizando logística ou monitorando fronteiras. Ela está integrada a sistemas que processam dados de vigilância, cruzam informações de inteligência e geram recomendações sobre quem deve ser considerado um alvo legítimo em conflitos armados. A transição dessas corporações para o papel de contratantes de defesa aconteceu de forma relativamente silenciosa, sem o escrutínio público que normalmente acompanha decisões dessa magnitude.
O artigo original nomeia as empresas diretamente. A Palantir, fundada com financiamento inicial da CIA e hoje uma das principais fornecedoras de infraestrutura de IA para os militares americanos, forneceu sistemas usados na campanha contra o Irã. Esses sistemas incorporam em parte o Claude, da Anthropic, um modelo de linguagem de grande escala cuja empresa-mãe tentou resistir à pressão do Pentágono para remover restrições éticas sobre seu uso em seleção de alvos. A resposta do Pentágono foi ameaçar cortar laços e recorrer à OpenAI e outros fornecedores. O mercado de matar em escala, como colocou o Guardian, não carece de fornecedores.
O Google, apesar de protestos internos significativos de funcionários, assinou o Projeto Nimbus, um contrato de computação em nuvem e IA com o governo e as forças armadas de Israel avaliado em mais de um bilhão de dólares. A Amazon é cosignatária do Projeto Nimbus ao lado do Google. A Microsoft tinha integração profunda com sistemas militares israelenses antes de se retirar parcialmente sob pressão em 2024, momento no qual os dados migraram para a Amazon Web Services em questão de dias.
A Anduril, fundada por Palmer Luckey e com quadro composto majoritariamente por ex-oficiais de defesa dos EUA, constrói sistemas de armas autônomas explicitamente projetados para seleção letal de alvos. A OpenAI, que até recentemente proibia uso militar em seus termos de serviço, removeu silenciosamente essa restrição no início de 2024 e desde então tem buscado contratos com o Pentágono. Essas estão entre as empresas mais valiosas do mundo, com produtos voltados ao consumidor usados por centenas de milhões de pessoas, parcerias de pesquisa com universidades e influência política significativa em Washington, Bruxelas e além.
O que torna essa situação particularmente complexa é o modelo de negócio envolvido. Diferente de um fabricante de mísseis, cujo produto tem uma finalidade óbvia e regulamentada, as empresas de tecnologia fornecem serviços de computação em nuvem, algoritmos de reconhecimento de padrões e plataformas de análise de dados que podem ser aplicados a praticamente qualquer finalidade. Isso cria uma zona cinzenta enorme. Uma mesma infraestrutura que alimenta um assistente virtual ou uma ferramenta de busca pode, com ajustes relativamente pequenos, ser adaptada para processar dados de inteligência militar e auxiliar na definição de alvos militares. Essa versatilidade, que do ponto de vista comercial é uma vantagem, do ponto de vista ético e legal é um pesadelo.
Quando o algoritmo erra, quem assume a culpa?
Esse é talvez o nó mais difícil de desatar em toda essa discussão. Em conflitos armados tradicionais, existe uma cadeia de comando relativamente clara. Um oficial autoriza um ataque, um operador executa, e quando algo sai errado, existem mecanismos ainda que imperfeitos para apurar responsabilidades. Quando a Inteligência Artificial entra nessa equação, a cadeia de comando se torna nebulosa de um jeito que favorece a impunidade.
O artigo original traz dados contundentes sobre isso. Em Gaza, um algoritmo processou dados sobre cada pessoa no território, incluindo registros telefônicos, padrões de movimentação, conexões sociais e sinais comportamentais, e produziu uma lista classificada de nomes, cada um com um escore de probabilidade indicando a chance de ser um combatente. A verificação, nesse sistema, significava que um operador humano revisava cada nome por uma média de cerca de 20 segundos, tempo suficiente para confirmar que o alvo era do sexo masculino. Então assinava a aprovação. Um único sistema produziu mais de 37 mil alvos nas primeiras semanas da guerra. Outro era capaz de gerar 100 locais potenciais de bombardeio por dia. Os humanos no circuito não estavam exercendo julgamento. Estavam gerenciando uma fila.
Esse fenômeno tem um nome entre pesquisadores de ética em tecnologia: lacuna de responsabilidade. É o espaço vazio que se cria quando decisões com consequências letais são distribuídas entre humanos e máquinas de tal forma que nenhuma parte pode ser individualmente responsabilizada pelo resultado final. A atribuição se dissolve ao longo de uma cadeia de engenheiros, comandantes, operadores e fornecedores corporativos, cada um dos quais pode apontar para o outro. O raciocínio desaparece em um escore de probabilidade que nenhum advogado consegue auditar e nenhum tribunal consegue interrogar. O processo colapsa em uma aprovação de 20 segundos de uma recomendação da máquina.
O artigo do Guardian também recupera um caso anterior que ilustra como essa lógica não começou com a IA, mas foi amplificada por ela. Em julho de 2014, quatro meninos da família Bakr, Ismail, Zakariya, Ahed e Mohammad, com idades entre 9 e 11 anos, foram mortos em uma praia em Gaza. Nenhuma IA estava envolvida. O local havia sido previamente classificado como um composto naval do Hamas. Os meninos foram sinalizados como suspeitos porque correram e depois andaram, comportamento que correspondia a um modelo de seleção de alvos para combatentes tentando não chamar atenção. Quando o primeiro míssil atingiu, as crianças sobreviventes fugiram. O drone as seguiu e disparou novamente. Um oficial testemunhou depois que, de uma visão aérea vertical, é muito difícil identificar crianças.
Um banco de dados militar israelense classificado, revisado pelo Guardian, pela +972 Magazine e pelo Local Call, indicou que dos mais de 53 mil mortos registrados em Gaza, combatentes identificados do Hamas e da Jihad Islâmica representavam aproximadamente 17%. Isso sugere que os demais, 83%, eram civis. As forças de defesa de Israel contestaram os números, embora não tenham especificado quais.
Existe também um viés cognitivo documentado chamado automação complacente, que descreve a tendência humana de confiar excessivamente em sistemas automatizados, especialmente quando esses sistemas são apresentados como tecnologicamente superiores. Em um cenário de guerra, onde cada segundo conta, a tentação de aceitar a recomendação da máquina sem questionar é enorme. E quando toda uma estrutura militar passa a operar nessa lógica, o papel do julgamento humano se torna cada vez mais cerimonial.
O lobby por trás da cortina e o vácuo regulatório
O artigo original não poupa detalhes sobre como o vácuo regulatório em torno dessas empresas é mantido de forma deliberada. A Palantir gastou quase 6 milhões de dólares em lobby em Washington em 2024, e em um trimestre de 2023 superou os gastos da Northrop Grumman, uma das maiores empreiteiras de defesa tradicionais do mundo. A empresa lançou uma fundação dedicada a moldar o ambiente regulatório no qual opera.
O consórcio formado por Palantir, Anduril, OpenAI, SpaceX e Scale AI foi descrito por seus próprios participantes como um projeto para fornecer uma nova geração de contratantes de defesa ao governo dos EUA. As firmas de capital de risco que financiam essas empresas, como Andreessen Horowitz e Founders Fund, cultivaram influência por meio de proximidade com o poder: ex-funcionários seniores em seus conselhos consultivos, sócios circulando por cargos governamentais e acesso direto aos formuladores de políticas que determinam quanto o Pentágono gasta e em quê.
Nos Estados Unidos, as disposições sobre IA na Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2025 não regulam a IA militar. Elas direcionam as agências a adotar mais IA. A estratégia de IA de Pete Hegseth, emitida em janeiro de 2026, enquadra a questão inteiramente como uma corrida, orientando o Pentágono a se mover em velocidade de guerra. A cultura regulatória não falhou em acompanhar a tecnologia. Ela decidiu, deliberadamente, não tentar.
O que o direito internacional diz sobre isso e por que não é suficiente
O direito internacional humanitário, construído ao longo de décadas a partir das Convenções de Genebra, estabelece princípios como distinção entre combatentes e civis, proporcionalidade no uso da força e precaução em ataques. Essas normas foram pensadas para um mundo em que decisões de combate eram tomadas por seres humanos que podiam ser julgados por suas ações. A introdução da Inteligência Artificial como ferramenta de seleção de alvos militares não viola explicitamente nenhuma dessas normas, e é justamente por isso que ela é tão problemática.
A Lei de IA da União Europeia, a tentativa mais ambiciosa até agora de governar a inteligência artificial, isenta explicitamente aplicações militares e de segurança nacional, com a justificativa declarada de que o direito internacional humanitário é o arcabouço mais apropriado. É um ato notável de circularidade: o único corpo de leis que está sendo sistematicamente destruído por esses sistemas é designado como seu regulador, enquanto os reguladores que poderiam de fato restringi-los olham para o outro lado.
Organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e grupos de pesquisa como o Human Rights Watch têm pressionado por regulamentações específicas para o uso de sistemas autônomos e semiautônomos em conflitos armados. Há propostas de tratados que exigiriam supervisão humana significativa, e não apenas nominal, em qualquer decisão que envolva uso de força letal. Mas essas negociações avançam lentamente. Muitos países que investem pesado em tecnologia militar resistem a qualquer regulamentação que possa limitar sua vantagem estratégica.
O artigo original, no entanto, aponta que pontos de pressão existem e são reais. A opinião consultiva da Corte Internacional de Justiça sobre direitos palestinos criou um arcabouço no qual empresas que fornecem sistemas usados em ataques ilegais enfrentam potencial exposição a responsabilidade legal em jurisdições que levam o direito internacional a sério. E as empresas de IA precisam dos governos, não apenas como clientes, mas como provedores do poder computacional, da energia e da infraestrutura física que a IA de fronteira exige e que nenhuma empresa consegue sustentar apenas com receitas comerciais. Essa dependência dá aos Estados dispostos a usá-la uma alavanca real sobre empresas que prefeririam não ser reguladas.
O que uma regulação efetiva poderia incluir
O texto original defende que o que a regulação deveria incluir é relativamente direto, mesmo que seja difícil de aplicar. Sistemas de IA usados em seleção de alvos precisam ser explicáveis, não por meio de escores de probabilidade, mas por meio de raciocínio que um advogado consiga auditar. O custo civil acumulado de campanhas assistidas por IA precisa ser avaliado como um todo, e não ataque por ataque. E a responsabilidade que para no operador precisa se estender cadeia acima até as empresas que conscientemente construíram e venderam sistemas opacos para uso em conflitos armados.
Essas não são demandas novas. São as condições mínimas para que as leis de guerra signifiquem alguma coisa na era da seleção algorítmica de alvos. O Reino Unido já comprometeu mais de um bilhão de libras em um novo sistema de seleção de alvos integrado por IA, conectando sensores e capacidades de ataque em todos os domínios. A principal empresa de IA da França fez parceria com uma startup alemã de defesa para construir plataformas de armas autônomas. A Alemanha está implantando drones de ataque guiados por IA na Ucrânia. O trem já saiu da estação.
O desafio não é apenas jurídico, mas também conceitual. O arcabouço legal existente pressupõe que é possível identificar um responsável por cada ação em um conflito. Quando essa ação é o resultado de uma cadeia que envolve dados coletados por satélites, processados por algoritmos de aprendizado de máquina, refinados por modelos de linguagem e apresentados a um analista em uma interface projetada para facilitar decisões rápidas, a noção tradicional de responsabilidade simplesmente não se sustenta. Essa defasagem entre a capacidade tecnológica e o marco regulatório é, no fundo, a raiz do problema. E enquanto ela persistir, a tendência é que mais decisões letais sejam tomadas por máquinas, com menos pessoas respondendo pelas consequências.
A névoa não se dissipou, ela ganhou um hardware melhor
O artigo original termina com uma observação que funciona como um soco no estômago. O procedimento de névoa continua operacional e está definindo o futuro da guerra. Mas os soldados que atiravam na escuridão estavam pelo menos presentes nela. As empresas que construíram o que os substituiu fazem isso de Palo Alto, sem risco pessoal, sem exposição legal e com todo incentivo para fazer de novo.
A questão que paira sobre tudo isso não é se a Inteligência Artificial continuará sendo usada em conflitos armados. Isso já é uma realidade. A verdadeira questão é se algum governo com ferramentas para agir vai decidir, antes do próximo Minab, que o custo da inação se tornou alto demais. A escuridão continua lá. Ela só tem um hardware melhor agora 🫠
