Inteligência artificial está mudando muita coisa no mundo jurídico, e uma startup sueca chamada Legora quer aproveitar essa onda para fazer algo bem ambicioso: desafiar dois gigantes que dominam o mercado de pesquisa jurídica há décadas.
Se você já ouviu falar em LexisNexis e Westlaw, sabe do que estamos falando. Esses dois nomes são praticamente sinônimos de banco de dados jurídico para advogados do mundo inteiro, e eles carregam esse título há tanto tempo que muita gente nem consegue imaginar o mercado de outra forma.
Mas a Legora enxerga uma brecha nessa história, e a aposta dela é bem interessante: construir uma base própria de dados jurídicos verificados, reduzir o risco de erros nos resultados gerados por IA e, no processo, se tornar uma terceira grande opção em um mercado que, há muito tempo, só tem dois donos. A meta, nas palavras da própria empresa, é transformar os Dois Grandes nos Três Grandes.
A ideia pode parecer simples no papel, mas na prática envolve desde acordos de licenciamento com editoras ao redor do mundo até o trabalho bem manual de cortar lombadas de livros físicos para digitalizar conteúdo jurídico que ainda vive preso em volumes impressos. É legal tech do jeito mais concreto possível. 📚
O que significa manter a lei correta dentro do sistema
No universo jurídico, existe um conceito fundamental que talvez pareça técnico demais para quem está de fora, mas que faz toda a diferença no dia a dia de um advogado. Um caso é considerado lei válida, ou good law no jargão em inglês, quando um advogado ainda pode confiar nele com segurança. Isso quer dizer que aquela decisão não foi revertida, não foi substituída por uma nova lei e não foi enfraquecida por uma decisão judicial posterior.
Errar nisso pode significar citar uma regra que já não se aplica mais, o que no melhor dos cenários é apenas constrangedor e, no pior, pode prejudicar seriamente o caso de um cliente. É justamente esse tipo de erro que a Legora quer eliminar da vida dos advogados que usam sua plataforma. Para isso, a empresa está ampliando seu acervo de jurisprudência e de outros dados jurídicos, montando uma estrutura que consiga mapear como os casos e as leis se relacionam e se hierarquizam entre si.
De forma bem discreta, a startup contratou uma equipe de ex-advogados com uma missão específica: coletar a legislação e a jurisprudência nas jurisdições que a empresa cobre e, em seguida, mapear como cada caso e cada estatuto se conectam e se organizam por importância. É um trabalho minucioso, quase artesanal, e revela o nível de comprometimento que a Legora está colocando nessa empreitada.
O problema que a Legora quer resolver
Para entender por que a Legora está apostando tão alto, é preciso entender o problema central que ela quer atacar. Hoje, quando advogados usam ferramentas de inteligência artificial para fazer pesquisa jurídica, um dos maiores riscos que enfrentam é o fenômeno conhecido como alucinação dos modelos de linguagem, que é quando a IA simplesmente inventa citações, casos ou argumentos que nunca existiram. Isso já causou situações constrangedoras na prática jurídica, incluindo casos em que advogados apresentaram petições com referências inexistentes para juízes, o que gerou penalidades e danos à reputação desses profissionais.
Segundo Melanie Brown, diretora sênior de dados jurídicos da Legora, a lógica é clara: se a empresa conseguir conectar seu software a uma fonte rica de material verificado, ela reduz o risco de que informações erradas escorreguem para dentro dos resultados gerados pelo sistema. A raiz desse problema está, em grande parte, na qualidade e na confiabilidade dos dados que alimentam esses sistemas de IA. Se o modelo não tem acesso a fontes jurídicas verificadas, estruturadas e atualizadas, ele acaba recorrendo ao que tem disponível, que pode ser genérico, desatualizado ou simplesmente errado.
É exatamente aí que a Legora quer entrar com uma proposta diferente. Ao invés de usar dados de terceiros ou depender de fontes abertas com qualidade variável, a startup sueca está construindo sua própria base de dados jurídicos licenciados, checados e organizados especificamente para alimentar modelos de IA com segurança. Isso muda bastante o jogo porque transforma a confiabilidade do dado em um diferencial competitivo real, e não apenas em um argumento de marketing.
Um detalhe curioso apontado por Brown é que, ao contrário dos humanos, os sistemas de inteligência artificial não são especialmente bons em reconhecer os limites do próprio conhecimento. Em outras palavras, uma IA raramente admite que não sabe algo, e é por isso que ela precisa de tudo à disposição para conseguir raciocinar de forma eficaz. O sonho de Brown é ambicioso: fazer com que todo o universo jurídico passe a viver dentro da Legora.
Um trabalho braçal por trás da tecnologia de ponta
Aqui entra a parte que soa quase inacreditável para uma empresa de tecnologia moderna. Boa parte do conhecimento jurídico ainda existe em formatos físicos, especialmente em países com sistemas legais mais antigos e tradições editoriais consolidadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, as decisões judiciais são registros públicos, mas as versões que os advogados podem realmente citar continuam presas dentro de volumes físicos que pertencem justamente à LexisNexis e ao Westlaw.
Para conseguir levar essa jurisprudência citável para dentro da plataforma, os funcionários da Legora literalmente cortam as lombadas desses livros, removem os resumos e anotações das editoras, escaneiam as páginas e depois conferem se as cópias digitais estão corretas. Pode soar primitivo para uma empresa que trabalha com inteligência artificial de ponta, mas é exatamente esse tipo de comprometimento com a qualidade da fonte que diferencia uma solução séria de uma que apenas parece funcionar bem em demonstrações.
Vale destacar também que a Legora já fechou acordos de licenciamento com dezenas de editoras ao redor do mundo, incluindo a Wolters Kluwer, e tem mais de uma dúzia de novas parcerias em andamento. O que a empresa não faz é licenciar conteúdo diretamente da LexisNexis ou da Thomson Reuters, dona do Westlaw. Ou seja, o plano é coletar cada vez mais da legislação mundial de forma direta, construindo um acervo independente. 🛠️
Por que LexisNexis e Westlaw são tão difíceis de destronar
LexisNexis e Westlaw não dominam o mercado de pesquisa jurídica à toa. Eles têm décadas de vantagem na construção de bases de dados, relacionamentos profundos com tribunais, editoras e associações jurídicas, além de uma reputação consolidada que faz parte da formação de qualquer advogado. Quando um estudante de direito aprende a pesquisar jurisprudência, provavelmente aprende usando uma dessas duas plataformas. Esse tipo de fidelização começa cedo e tende a durar a carreira inteira, o que torna a barreira de entrada para qualquer concorrente extremamente alta.
Para a maioria dos grandes escritórios, o acesso a essas plataformas não é um luxo opcional, e sim uma necessidade básica. Os advogados recorrem a esses bancos de dados para consultar casos e leis e para garantir que as fontes que pretendem citar ainda são válidas. Nos últimos anos, os dois conglomerados investiram pesado em tecnologia capaz de lidar com a redação e a análise que vêm depois dessa pesquisa, o que reforçou ainda mais o domínio deles.
Além da questão de hábito e cobertura, existe o fator financeiro. A LexisNexis pertence ao grupo RELX, uma empresa global com receita na casa dos bilhões, o que lhe dá uma capacidade de investimento praticamente incomparável com a de uma startup em estágio inicial. O Westlaw, por sua vez, faz parte da Thomson Reuters, outro gigante com presença global e recursos robustos para manter e expandir sua base de dados.
Curiosamente, Melanie Brown trabalhava justamente na RELX antes de entrar para a Legora no início deste ano. Segundo ela, a frustração que mais escuta dos escritórios é a sensação de que eles são obrigados a escolher entre uma coisa ou outra: acesso aos melhores dados jurídicos ou uma tecnologia melhor. Raramente conseguem os dois no mesmo lugar. E é exatamente essa lacuna que a Legora quer preencher.
O ponto fraco dos gigantes
O calcanhar de aquiles dessas plataformas, e é aqui que a Legora aposta todas as fichas, é a adaptação à era da inteligência artificial. Empresas grandes e estabelecidas tendem a ser mais lentas para incorporar mudanças disruptivas, especialmente quando essas mudanças ameaçam o modelo de negócio que as tornou grandes. As ferramentas de IA que a LexisNexis e o Westlaw estão lançando existem, mas ainda carregam a lógica do produto tradicional, com uma camada de IA colocada por cima de uma estrutura que foi desenhada para outro paradigma de uso.
Uma startup que nasce já pensando em IA como centro da experiência tem uma vantagem conceitual importante, mesmo que ainda precise construir muita coisa do zero. A grande pergunta, porém, é se os escritórios de advocacia vão se sentir prontos para desligar suas contas na LexisNexis e no Westlaw e gastar mais com a Legora. Os advogados ainda recorrem a esses bancos de dados com a mesma memória muscular que usam para abrir um documento no Word. E mesmo que a Legora consiga reunir um acervo parecido, ela não carregaria automaticamente a mesma aura de autoridade que as veteranas construíram ao longo de décadas.
Uma segunda batalha: a briga com a Harvey
Construir uma alternativa confiável às líderes de pesquisa jurídica é apenas uma das frentes da campanha da Legora. A empresa também está tentando diminuir a distância em relação à Harvey, uma startup ainda mais bem financiada que vende soluções para grandes escritórios de advocacia e departamentos jurídicos corporativos.
Essa disputa provavelmente vai ser decidida no produto. A Legora está apostando que o dinheiro investido na construção da própria biblioteca jurídica vai se traduzir em uma experiência melhor para os advogados, o que seria uma vitória independentemente de a empresa conseguir ou não abocanhar uma fatia do duopólio. Em outras palavras, mesmo que não consiga derrubar os gigantes, o esforço já a coloca em uma posição diferenciada frente a outras startups do setor.
O que está em jogo no mercado de legal tech
O mercado de legal tech está crescendo em um ritmo que poucos setores conseguem acompanhar. Estima-se que o mercado global de tecnologia jurídica movimente bilhões de dólares anualmente, com projeções de crescimento acelerado impulsionadas justamente pela adoção de inteligência artificial. Escritórios de advocacia, departamentos jurídicos corporativos e até tribunais estão cada vez mais abertos a usar ferramentas que aumentem a produtividade e reduzam custos, e a pesquisa jurídica é uma das tarefas que mais consome tempo dentro de qualquer operação jurídica.
Se uma ferramenta consegue fazer em minutos o que antes levava horas, o valor percebido é imediato e concreto. É nesse contexto que a Legora aparece como um player que vai além de ser apenas mais uma startup de IA com interface bonita. A proposta de construir uma base de dados própria, verificada e licenciada coloca a empresa em uma posição diferente da maioria das ferramentas de legal tech que surgiram nos últimos anos, que geralmente funcionam como camadas sobre dados de terceiros ou sobre modelos de linguagem genéricos.
Para os advogados e profissionais do direito, o que está em jogo é bastante prático. Ter acesso a uma terceira opção robusta no mercado de pesquisa jurídica significa mais competição, o que historicamente tende a resultar em preços mais justos, mais inovação e mais atenção às necessidades reais dos usuários. O duopólio formado por LexisNexis e Westlaw existe há tanto tempo que muitos escritórios simplesmente pagam o que é cobrado sem questionar, porque não há alternativa com o mesmo nível de qualidade. Se a Legora conseguir mudar isso, o impacto vai muito além da Suécia ou da Europa. 🌍
A corrida está só começando, e o que a Legora está fazendo, tijolo por tijolo e lombada por lombada, pode ser exatamente o tipo de fundação que uma nova era na pesquisa jurídica precisa para se sustentar de verdade.
