Vídeos no Estilo Lego Feitos com IA Escondem Propaganda Pró-Irã e Já Alcançaram Milhões de Pessoas
A Inteligência Artificial virou uma ferramenta poderosa nas mãos de quem quer contar uma história — e nem sempre essa história é verdadeira.
O que parece ser um vídeo animado colorido, no estilo Lego, com personagens em blocos e cenas rápidas, na verdade esconde uma camada bem mais densa por baixo. Esses clips virais estão circulando pelas redes sociais com centenas de milhões de visualizações estimadas, e o conteúdo deles vai muito além do entretenimento inocente que o visual sugere.
Estamos falando de propaganda pró-Irã produzida com IA, espalhada em larga escala, e tão bem executada que especialistas em desinformação ficaram de queixo caído. 🤯
A BBC, por meio do podcast Top Comment, foi atrás da fonte e conseguiu conversar com o homem por trás de boa parte desse conteúdo — um representante da conta Explosive Media, um dos principais perfis responsáveis por gerar esses vídeos. Ele pediu para ser chamado de Mr. Explosive.
O que ele revelou jogou luz em uma operação pequena em número de pessoas, mas enorme em impacto — e que levanta questões sérias sobre como a IA está reescrevendo as regras da informação no mundo digital.
Quem é Mr. Explosive e Como a Operação Funciona
A história começa com um operador de redes sociais habilidoso que comanda uma equipe de menos de dez pessoas. Juntos, eles utilizam ferramentas de Inteligência Artificial para produzir vídeos que parecem ter saído de um estúdio de animação profissional. O formato visual remete ao universo lúdico dos blocos de montar, com cores vibrantes e personagens simplificados — justamente o tipo de conteúdo que as pessoas param para assistir sem pensar duas vezes.
Segundo Mr. Explosive, a escolha pela estética Lego é intencional: os gráficos no estilo blocos de montar funcionam como uma linguagem universal. Qualquer pessoa, independentemente de idioma ou cultura, consegue entender a mensagem rapidamente. O estilo desarmante é parte da estratégia: quanto mais inofensivo parece, mais fácil é de ser compartilhado.
Durante a videochamada com a BBC, Mr. Explosive apareceu em silhueta, ladeado por luzes vermelha e verde — as cores da bandeira iraniana. Sobre sua mesa havia um capacete com plumas verdes, associado ao guerreiro Husayn ibn Ali, figura que aparece em vários dos vídeos da Explosive Media.
Contas de mídia estatal iraniana e russa no X compartilham esses vídeos regularmente para milhões de seguidores, ampliando ainda mais o alcance do conteúdo. O fluxo de produção é extremamente ágil: os vídeos são frequentemente publicados em tempo real, logo após grandes acontecimentos da guerra. Em um caso notável, um vídeo sobre o acordo de cessar-fogo foi publicado antes mesmo de qualquer anúncio oficial. 🎯
A Mensagem por Trás dos Blocos Coloridos
A mensagem central que permeia todo esse conteúdo é clara: o Irã está resistindo contra o que considera um opressor global poderoso — os Estados Unidos.
Os vídeos não são sutis. Em um deles, o presidente dos EUA, Donald Trump, cai em meio a um turbilhão de documentos rotulados como arquivos Epstein, enquanto uma letra de rap diz que os segredos estão vazando e a pressão está aumentando. Em outro, George Floyd aparece sob a bota de um policial enquanto a narração diz que o Irã está de pé por todos que o sistema americano já prejudicou.
Quando questionado pela BBC sobre a presença tão forte dos arquivos Epstein nos vídeos, Mr. Explosive afirmou que o objetivo é mostrar ao público o tipo de confronto que está acontecendo — entre o Irã, que segundo ele busca verdade e liberdade, e aqueles que se associam a canibais. Essa é uma referência a uma teoria conspiratória sem qualquer evidência credível que conecta a administração Trump ao canibalismo por meio dos arquivos Epstein.
Apesar do visual chamativo e das narrativas sem nuances, isso não impediu que o conteúdo fosse compartilhado e comentado intensamente. E é exatamente aí que mora o perigo. 😬
Imprecisões Factuais e Narrativas Alternativas
Os vídeos da Explosive Media também estão repletos de imprecisões factuais, algo que a equipe da BBC questionou diretamente durante a entrevista.
Um exemplo emblemático: em um dos clips, o exército iraniano aparece capturando um piloto americano cujo caça foi abatido. Na realidade, oficiais americanos confirmaram que o piloto — que ficou preso em uma região montanhosa e remota do Irã após sua aeronave ser derrubada — foi resgatado por forças especiais dos EUA em 4 de abril.
Mr. Explosive rejeitou essa versão dos fatos. Ele afirmou que possivelmente não houve nenhum piloto perdido, nenhuma operação de resgate, e que o verdadeiro objetivo dos americanos era roubar urânio do Irã. Quando a BBC insistiu, citando declarações oficiais dos EUA de que o piloto estava recebendo tratamento no Kuwait, ele respondeu de forma direta: apenas 13% do que Trump diz é baseado em fatos.
O problema é que esse vídeo sobre o piloto conseguiu amplificar com sucesso essa narrativa alternativa entre audiências anglófonas. Uma influenciadora americana no TikTok, conhecida como @newswithsteph, disse aos seus seguidores que os vídeos no estilo Lego tinham sido surpreendentemente precisos até o momento, e que teriam revelado antes de todos que a missão do piloto não era um resgate, mas sim uma operação especial para obter urânio.
Essa dinâmica ilustra como a desinformação ganha vida própria quando o formato é atraente e a distribuição é eficiente. Uma vez viralizado, o conteúdo se torna quase impossível de conter.
Slopaganda: Quando Propaganda de IA é Poderosa Demais Para Ser Ignorada
A Dra. Emma Briant, uma das principais especialistas em propaganda, avaliou esses vídeos e considerou que o termo slopaganda — cunhado em um artigo acadêmico como uma variação de AI slop — é fraco demais para capturar o quão poderoso e altamente sofisticado esse conteúdo realmente é.
Segundo Briant, a Inteligência Artificial permitiu que o Irã e outros atores se comunicassem diretamente com audiências ocidentais de forma mais eficaz do que nunca. As ferramentas de IA foram amplamente treinadas com dados ocidentais, o que as torna ideais para criar conteúdo culturalmente apropriado para públicos nos EUA e na Europa. Essa é a peça que faltava para países autoritários que querem atingir o Ocidente e que, no passado, não tinham essa capacidade.
Já a Dra. Tine Munk, especialista em guerra cibernética da Universidade Nottingham Trent, caracteriza as táticas do Irã como guerra memética defensiva. Na visão dos criadores, esse tipo de conteúdo é uma necessidade para combater a retórica americana. Trata-se de uma forma de diplomacia digital agressiva e ágil que, segundo Munk, veio para ficar.
De maneira crucial, Munk destaca que esse modelo elimina os intermediários — corta a imprensa, os veículos de comunicação de massa — e circula memes constantemente. A diplomacia tradicional não existe nesse ambiente. Isso borrar nosso entendimento do que realmente está acontecendo, ao mesmo tempo em que aumenta o risco de má interpretação e escalada de conflitos. Estamos, nas palavras dela, em uma espécie de limbo. 💡
O Contexto da Guerra e a Escala da Destruição Real
Os vídeos da Explosive Media começaram a aparecer no início de 2025, mas sua popularidade explodiu com o início da guerra entre EUA e Irã. O conflito atual começou em fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã. Desde então, milhares de pessoas foram mortas no Irã, Líbano e outros países do Oriente Médio, de acordo com autoridades dessas nações.
Os clips no estilo Lego estão se tornando cada vez mais detalhados, mostrando localizações altamente específicas no Golfo — incluindo usinas de energia, aeroportos e instalações industriais — sendo completamente destruídas por mísseis iranianos. Na realidade, a maioria desses locais sofreu apenas danos limitados. Essa discrepância entre o que os vídeos mostram e o que de fato aconteceu é um dos aspectos mais preocupantes da operação.
A ação militar americano-israelense causou destruição significativa no Irã desde o início da guerra em fevereiro, e esse contexto de conflito real torna o terreno ainda mais fértil para a desinformação prosperar.
A Relação com o Governo Iraniano
Um dos momentos mais reveladores da entrevista foi quando Mr. Explosive acabou admitindo algo que nunca havia confirmado publicamente antes. Inicialmente, ele negou trabalhar para o governo iraniano. Em entrevistas anteriores, a Explosive Media sempre se declarou totalmente independente. Porém, após questionamentos mais incisivos da BBC, ele reconheceu que o regime iraniano é um cliente de sua empresa.
Em mensagens anteriores trocadas pelo Instagram com a equipe da BBC, Mr. Explosive já havia indicado que sua operação fora diretamente comissionada para múltiplos projetos por oficiais iranianos. Na entrevista em vídeo, ele defendeu essa relação, dizendo que era honroso trabalhar pela pátria.
Um detalhe importante de contexto: antes da eclosão da guerra, milhares de manifestantes foram mortos em uma repressão brutal pelo regime iraniano. A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (Hrana), sediada nos EUA, reporta um número de ao menos 7.000 civis mortos. Mr. Explosive descartou esses protestos em massa como um golpe financiado pelo presidente Trump.
Quando confrontado com alegações de que seus vídeos utilizam tropos antissemitas, ele rejeitou, afirmando que os vídeos não são antissemitas, mas sim antissionistas. Ele defendeu a representação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu bebendo sangue como uma forma de destacar as atrocidades cometidas por ele.
Internet Restrita e Liberdade de Imprensa em Questão
Existe uma ironia inquietante nessa história. A maioria dos iranianos não consegue usar a internet devido a um desligamento generalizado da rede no país. Ou seja, os cidadãos iranianos comuns sequer conseguem ver o conteúdo que está sendo produzido em nome deles.
Mr. Explosive explicou que conseguia se comunicar com a BBC utilizando uma internet para jornalistas, concedida pelo governo iraniano. Vale lembrar que o Irã é consistentemente classificado como um dos países mais repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa.
Essa contradição é gritante: um governo que bloqueia o acesso à internet para sua própria população, ao mesmo tempo em que financia operações de propaganda sofisticadas direcionadas ao público ocidental. 🌐
Plataformas Tentam Reagir, Mas o Problema Persiste
As plataformas de redes sociais têm derrubado contas que publicam os vídeos no estilo Lego, mas novas contas surgem com a mesma velocidade. É um jogo de gato e rato que, por enquanto, os criadores de conteúdo parecem estar vencendo.
Segundo a Dra. Tine Munk, essa é uma forma ágil e agressiva de diplomacia digital que aparenta ter vindo para ficar. O modelo elimina intermediários, contorna a imprensa tradicional e mantém uma circulação constante de memes e narrativas. A diplomacia convencional simplesmente não opera nesse terreno, e isso cria um vácuo perigoso onde a desinformação floresce sem contraponto eficaz.
O Que Fica Dessa História
Esse episódio é um retrato fiel do momento em que vivemos: a Inteligência Artificial não é boa nem má por natureza — ela amplifica intenções. Nas mãos de um criador de conteúdo com uma agenda política clara, ela se torna uma máquina de propaganda eficiente e de baixo custo. Nas mãos de jornalistas investigativos, ela pode ser a ferramenta que ajuda a rastrear e expor essas operações. O mesmo conjunto de tecnologias serve para os dois lados, e é por isso que a discussão sobre regulação, transparência e responsabilidade das plataformas nunca foi tão urgente.
O caso da Explosive Media revelado pela BBC não é um caso isolado. É um exemplo documentado de uma tendência que pesquisadores de desinformação vêm monitorando em diferentes contextos ao redor do mundo. Operações semelhantes foram identificadas ligadas a outros países e grupos de interesse, todas aproveitando o mesmo vetor: ferramentas de IA acessíveis, algoritmos de distribuição que favorecem o engajamento emocional e uma audiência global cada vez mais dependente das redes sociais como fonte primária de informação.
A técnica empregada nesses vídeos raramente recorre à mentira explícita. Em vez disso, seleciona fatos reais, omite contextos cruciais e enquadra situações complexas de maneira que beneficia uma perspectiva específica. Essa abordagem, conhecida como desinformação por omissão, é muito mais difícil de combater do que a mentira direta, porque não pode ser simplesmente checada com um fact-check tradicional. E com a IA acelerando a produção desse tipo de conteúdo, o desafio para os verificadores de fatos fica cada vez maior.
A diplomacia digital do século 21 está sendo escrita agora, em tempo real, em vídeos de 60 segundos com blocos de Lego animados por IA. E enquanto o debate sobre como regular e identificar esse tipo de conteúdo ainda está engatinhando, a produção segue em velocidade máxima. Ficar por dentro dessas dinâmicas não é mais um diferencial — é uma necessidade para qualquer pessoa que consome informação na internet.
