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Grupos pró-Irã usam inteligência artificial para criar memes contra Trump e moldar narrativa de guerra

A inteligência artificial virou arma de guerra — e não estamos falando de drones ou mísseis.

Enquanto conflitos armados dominam manchetes ao redor do mundo, uma batalha paralela acontece nas telas de celular de milhões de pessoas. Grupos ligados ao governo iraniano estão usando IA para produzir memes sofisticados em inglês, com um objetivo bem claro: moldar a narrativa do conflito contra os Estados Unidos e Israel, e despertar oposição popular no Ocidente. 🎯

Analistas afirmam que esses memes parecem vir de grupos conectados ao governo de Teerã e fazem parte de uma estratégia para maximizar recursos limitados e infligir danos aos EUA, mesmo que indiretamente. Essa lógica é parecida com a forma como o Irã usa ataques e ameaças para controlar o fluxo de tráfego pelo Estreito de Ormuz e manter pressão sobre a economia mundial.

E o mais surpreendente nisso tudo não é só a tecnologia por trás das peças — é o quanto elas conhecem a cultura americana por dentro.

Referências à política interna dos EUA, ao universo pop, até ao estilo visual dos filmes Lego. Tudo usado com uma precisão que deixou pesquisadores em alerta.

Essas criações estão acumulando milhões de visualizações nas redes sociais, embora ainda não esteja claro o quanto de influência real elas exercem sobre a opinião pública. A pergunta que ninguém consegue responder com segurança é: até onde esse tipo de propaganda digital pode ir?

Como a IA está sendo usada para criar propaganda em formato de meme

Durante muito tempo, a ideia de propaganda digital evocava imagens de textos mal traduzidos, erros gramaticais óbvios e imagens de baixa qualidade que qualquer pessoa conseguia identificar como conteúdo estrangeiro. Esse tempo ficou para trás. As ferramentas de inteligência artificial generativa mudaram completamente o jogo, e o que pesquisadores de segurança digital estão documentando agora é algo bem diferente: peças visuais e textuais tão bem calibradas para o público americano que passam facilmente como conteúdo orgânico criado por cidadãos dos próprios Estados Unidos.

Neil Lavie-Driver, pesquisador de IA na Universidade de Cambridge, não deixou margem para dúvidas ao classificar o que está acontecendo. Segundo ele, referindo-se ao Irã, isso é uma guerra de propaganda para eles. O objetivo, de acordo com o pesquisador, é semear discórdia suficiente em relação ao conflito para eventualmente forçar o Ocidente a ceder — e por isso essa frente é tão importante para Teerã.

O que chama atenção nos materiais identificados é a camada de conhecimento cultural embutida em cada detalhe. Não basta só falar inglês fluente — é preciso entender o ritmo do humor americano, as referências que ressoam com diferentes demografias, o timing certo para postar determinado tipo de conteúdo e até qual estética visual vai performar melhor em cada plataforma. E é exatamente isso que está sendo entregue por sistemas de IA que foram treinados ou orientados para imitar com precisão cirúrgica a cultura americana nas redes sociais.

Nancy Snow, acadêmica que escreveu mais de uma dúzia de livros sobre propaganda, resumiu a estratégia de forma direta: eles estão usando a cultura popular contra o país número um da cultura pop, os Estados Unidos. 😮

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Os memes mergulham fundo na cultura americana

Os memes não são apenas fluentes em inglês — são fluentes no universo cultural americano e na arte do trolling digital. Publicados em diversas plataformas sociais, esses conteúdos acumulam milhões de visualizações e demonstram um domínio impressionante do vocabulário visual e político dos EUA.

As peças retrataram o presidente Donald Trump como envelhecido, desconectado e internacionalmente isolado. Fizeram referência a hematomas nas costas da mão direita de Trump que geraram especulação sobre sua saúde, a disputas internas na base MAGA e até à conturbada audiência de confirmação do secretário de Defesa Pete Hegseth.

Entre os exemplos mais notáveis está uma série de animações no estilo dos filmes Lego. Em uma delas, um comandante militar iraniano faz um rap dizendo algo como você achava que mandava no mundo sentado no seu trono, agora estamos transformando cada base em pedra, enquanto Trump cai dentro de um alvo construído com os chamados arquivos Epstein — os registros investigativos do governo americano sobre o financista Jeffrey Epstein.

O nível de sofisticação dessas produções não passou despercebido. Mahsa Alimardani, diretora da WITNESS, organização de direitos humanos que trabalha com evidências em vídeo geradas por IA, destacou que as animações demonstram níveis de sofisticação e acesso à internet que indicam ligações com escritórios governamentais. Segundo ela, se você consegue ter a largura de banda necessária para gerar conteúdo assim e fazer upload, você está oficial ou extraoficialmente cooperando com o regime — uma referência às severas restrições impostas pelo Irã à internet como parte de uma repressão a protestos nacionais.

Quem está por trás dos memes e qual a conexão com o governo iraniano

A mídia estatal iraniana repostou alguns desses memes, incluindo materiais da conta por trás dos vídeos no estilo Lego, chamada Akhbar Enfejari, que significa Notícias Explosivas.

Quando contactado pela Associated Press por meio do aplicativo de mensagens Telegram, o grupo Akhbar Enfejari se descreveu como um coletivo independente de iranianos sem conexão com o governo. De acordo com o grupo, eles não recebem financiamento algum — são apenas um grupo de amigos trabalhando voluntariamente, pagando sua própria internet, usando seus próprios laptops e computadores, e fazendo tudo por conta própria.

O grupo afirmou que produz e publica conteúdo de dentro do Irã para tentar romper décadas de domínio ocidental sobre as narrativas midiáticas. Em suas próprias palavras, eles dominaram o cenário da mídia por muito tempo e, por meio desse poder, impuseram narrativas a muitas nações. Mas desta vez algo parece diferente. Desta vez, nós interrompemos o jogo. Desta vez, estamos fazendo melhor.

Além dos memes vindos de grupos pró-Irã, contas oficiais do governo iraniano também entraram na provocação digital. Na quarta-feira, a embaixada do Irã na África do Sul publicou um post com uma foto da bandeira iraniana e a frase diga olá à nova superpotência mundial. Tanto os EUA quanto o Irã declararam vitória após concordarem com um cessar-fogo. ⚡

Os analistas apontam que esse domínio profundo da política e da cultura americana não é fruto apenas da IA, mas vem de métodos mais tradicionais de propaganda: um programa do governo iraniano que existe há décadas e é dedicado a promover narrativas contra os EUA e Israel.

Como Alimardani explicou, essa guerra de memes vem de instituições muito conscientes do que o público americano conhece e de referências da cultura pop que podem atrair essa audiência.

O que os Estados Unidos e Israel estão fazendo nessa frente

Analistas apontam que os EUA e Israel não parecem estar engajados no mesmo tipo de campanha direcionada ao público iraniano — e dadas as restrições que o Irã impôs ao acesso à internet, levar esse tipo de mensagem aos iranianos comuns seria muito difícil.

No início do conflito que começou em 28 de fevereiro com ataques conjuntos EUA-Israel, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu divulgou um vídeo que usava IA para simular que ele estava falando em farsi, no qual incitava os iranianos a derrubar seu governo. A Casa Branca, por sua vez, tem publicado um fluxo constante de memes, mas esses são direcionados ao público americano e utilizam clipes de programas de TV e esportes dos EUA.

A Voz da América, serviço de notícias do governo americano que durante décadas transmitiu reportagens para países sem tradição de imprensa livre, ainda transmite em farsi. No entanto, tem operado com uma equipe mínima desde que Trump ordenou seu fechamento.

Nancy Snow fez uma observação que resume bem o momento geopolítico: essa ordem mundial está realmente mudando da noite para o dia, e os EUA não vão necessariamente acabar como o estado que todo mundo escuta.

Não é a primeira vez que memes são usados em conflitos

Vale lembrar que o uso de memes em conflitos não é novidade. A prática evoluiu nos últimos anos para incluir imagens geradas por inteligência artificial. Em 2022, após a invasão russa da Ucrânia, imagens produzidas por IA bombardearam os ucranianos. No ano passado, o termo AI slop se popularizou para descrever a enxurrada de imagens imperfeitas publicadas online durante o conflito Israel-Irã relacionado ao programa nuclear.

O que diferencia o momento atual é a qualidade e a sofisticação. As ferramentas de IA generativa avançaram a ponto de tornar muito mais difícil distinguir conteúdo fabricado de conteúdo autêntico. E quando falamos de memes — um formato que já circula sem verificação de fonte por natureza — essa dificuldade se multiplica exponencialmente. 🔍

Por que os memes são o veículo perfeito para esse tipo de conflito

O meme como formato tem uma característica que nenhum outro tipo de conteúdo consegue replicar com a mesma eficiência: ele se espalha sozinho. As pessoas compartilham memes porque acham engraçado, porque concordam com a mensagem ou porque querem fazer parte de uma conversa cultural maior. Ninguém para verificar a fonte de um meme antes de apertar o botão de compartilhar. E é exatamente essa dinâmica que torna o formato tão poderoso — e tão perigoso — quando colocado a serviço de uma operação de propaganda organizada dentro de um conflito geopolítico.

No contexto de um conflito internacional, o meme funciona como um míssil de precisão cultural. Ele não precisa convencer todo mundo — só precisa criar dúvida, amplificar divisões já existentes e fazer com que determinados grupos sintam que suas crenças estão sendo validadas por outras pessoas ao redor. Quando você vê um meme que reflete exatamente o que você pensa sobre um assunto, a tendência é assumir que aquilo vem de alguém parecido com você. É um viés cognitivo natural, e é esse viés que operações sofisticadas de desinformação exploram com maestria.

Com a inteligência artificial gerando esses conteúdos em escala industrial, o volume de material circulando muda completamente a equação. Não estamos falando de algumas dezenas de posts por semana — estamos falando de uma produção contínua, adaptável e personalizável, capaz de responder a eventos em tempo real e ajustar o tom conforme a temperatura política do momento. Isso cria um ecossistema de propaganda que é muito mais difícil de rastrear, identificar e combater do que qualquer campanha de desinformação anterior.

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O que pesquisadores e plataformas estão fazendo a respeito

A detecção de conteúdo gerado por IA a serviço de operações de influência estrangeira ainda é um campo em desenvolvimento acelerado. Empresas de segurança digital, laboratórios de pesquisa em desinformação e as próprias plataformas de mídia social estão investindo em ferramentas capazes de identificar padrões que indicam produção automatizada em escala — coisas como velocidade de publicação, similaridade entre contas, padrões linguísticos repetitivos e comportamento coordenado de distribuição.

Mas a inteligência artificial usada para criar esse conteúdo também evolui rapidamente, o que torna a corrida tecnológica entre criadores e detectores algo extremamente dinâmico e sem um vencedor claro no horizonte.

Organizações como o Stanford Internet Observatory, o Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council e grupos independentes de checagem de fatos têm documentado operações de influência cada vez mais sofisticadas ao longo dos últimos anos. O que muda agora é a velocidade e a qualidade com que esse conteúdo é produzido. Antes, era possível identificar uma operação de influência iraniana ou russa pelo padrão linguístico dos textos, pelos erros culturais ou pela estranheza das referências. Com ferramentas de IA generativa bem configuradas, esses marcadores estão desaparecendo, e o conteúdo fabricado está se tornando indistinguível do real para a maioria das pessoas.

As plataformas, por sua vez, têm adotado políticas de remoção e redução de alcance para contas identificadas como parte de operações coordenadas de influência. Meta, X (antigo Twitter) e YouTube já publicaram relatórios de transparência descrevendo a remoção de redes de contas ligadas a governos estrangeiros. O desafio, no entanto, continua o mesmo: identificar essas redes antes que o conteúdo já tenha circulado o suficiente para causar impacto real na opinião pública. E no ritmo em que a inteligência artificial está avançando, esse intervalo entre criação e detecção segue como um dos grandes dilemas da segurança digital contemporânea. ⚠️

O que fica quando o meme some da tela

Talvez o aspecto mais preocupante dessa nova era de propaganda digital não seja o conteúdo em si, mas o efeito cumulativo que ele produz ao longo do tempo. Um meme isolado não muda a opinião de ninguém. Mas milhões de memes, distribuídos de forma estratégica, em momentos certos, para públicos específicos, dentro de plataformas que já favorecem conteúdo que gera engajamento emocional — isso cria um ambiente onde certas narrativas se tornam familiares, confortáveis e, eventualmente, aceitas como verdade por grandes parcelas da população.

No caso específico dos materiais identificados como parte de operações ligadas ao governo iraniano, o foco tem sido em amplificar a oposição americana a intervenções militares no Oriente Médio, criar desconfiança em relação a aliados dos EUA na região e reforçar divisões políticas internas que já existem de forma orgânica na sociedade americana. Nada disso é invenção — são tensões reais, exploradas com uma habilidade nova que vem diretamente da capacidade das ferramentas de inteligência artificial de entender e imitar a cultura americana em profundidade.

O que muda, no final das contas, é a escala e a precisão. A propaganda sempre existiu. O uso de narrativas para influenciar populações em tempos de conflito é tão antigo quanto a própria guerra. O que é novo aqui é a capacidade de fazer isso com uma eficiência sem precedentes, a um custo extremamente baixo, sem precisar de grandes equipes ou recursos físicos — só de acesso às ferramentas certas e conhecimento de como usá-las. E esse conhecimento, infelizmente, está cada vez mais acessível. 🌐

Entender como esse processo funciona já é um primeiro passo importante. Saber que aquele meme engraçado sobre política internacional pode ter vindo de um lugar bem diferente do que parece é o tipo de consciência digital que faz diferença na hora de decidir o que compartilhar — e o que questionar.

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