Inteligência artificial vai acabar com os aplicativos dos smartphones?
Parece coisa de ficção científica, mas é exatamente o que Carl Pei, cofundador e CEO da Nothing, afirmou publicamente no SXSW, o famoso festival de tecnologia e cultura realizado em Austin, no Texas.
Para quem não conhece, a Nothing é uma marca de eletrônicos que ficou conhecida pelos seus smartphones com design diferentão, aquele visual transparente que virou símbolo da empresa.
Carl Pei não é qualquer fundador falando por falar. Ele já teve passagem pela OnePlus antes de criar a Nothing, e agora coloca a empresa no centro de uma aposta grande: construir o primeiro dispositivo verdadeiramente orientado por inteligência artificial, onde os aplicativos como conhecemos hoje simplesmente deixam de existir.
A declaração foi direta e sem rodeios:
Os apps vão desaparecer. E se o valor do seu produto depende do seu app, ele vai ser disruptado, queira você ou não.
Forte, né? Mas o que está por trás dessa visão, o que ela significa na prática e por que isso importa tanto agora é o que a gente vai explorar aqui. 👇
O fim dos apps como conhecemos
Pensa bem: a lógica dos aplicativos em smartphones não mudou quase nada desde que a App Store foi lançada em 2008. A gente baixa um app pra cada coisa, navega por menus, clica em botões, preenche formulários e vai aprendendo onde cada função está escondida dentro de cada tela. É um modelo que funciona, mas que claramente foi desenhado numa época em que a inteligência artificial ainda era só promessa.
O que Carl Pei está dizendo é que esse modelo chegou no seu limite, e que a próxima grande virada não vai ser um app melhor, mas sim a eliminação da necessidade de navegar por apps no primeiro lugar.
Na entrevista no SXSW, Pei foi bem específico sobre isso. Ele comparou a estrutura atual dos smartphones com dispositivos que existiam antes mesmo do iPhone, como os Palm Pilots e PDAs dos anos 2000. Segundo ele, temos telas de bloqueio, telas iniciais, apps organizados em grade, cada app ocupando a tela inteira e uma loja de aplicativos pra baixar mais. Essa lógica tem praticamente 20 anos e não mudou de verdade.
A ideia central é que, num mundo dominado por inteligência artificial, você simplesmente diz o que precisa e o sistema resolve. Sem abrir app de banco pra fazer transferência, sem entrar no app do restaurante pra fazer reserva, sem alternar entre cinco aplicativos diferentes pra planejar uma viagem. A interface deixa de ser um conjunto de ícones numa tela e passa a ser uma conversa, um contexto, uma intenção. Isso muda completamente a forma como a gente pensa sobre experiência do usuário em dispositivos móveis, porque o próprio conceito de navegar por uma interface visual pode se tornar algo do passado.
Não é só teoria. A Nothing já levantou uma rodada Series C de 200 milhões de dólares, liderada pela Tiger Global, justamente com a proposta de criar esse tipo de dispositivo orientado por IA. A empresa está literalmente apostando que quem conseguir criar essa camada de inteligência artificial conversacional e contextual antes dos outros vai ter uma vantagem enorme. E o mercado está prestando atenção nisso, porque o argumento de Carl Pei tem lógica, especialmente num momento em que modelos de linguagem de grande escala, os famosos large language models, estão ficando cada vez mais capazes de entender contexto, intenção e executar tarefas complexas de forma autônoma.
Os passos até o smartphone do futuro segundo Carl Pei
Uma coisa interessante que Pei detalhou durante a entrevista no SXSW é que ele não imagina essa transformação acontecendo de uma vez só. Ele descreveu etapas bem claras de como a inteligência artificial vai evoluir dentro dos dispositivos móveis.
O primeiro passo, que já está sendo testado por algumas empresas hoje, é ter uma IA que executa comandos específicos a pedido do usuário. Coisas como reservar voos, agendar hotéis ou fazer pedidos em restaurantes. Pei reconheceu que esse estágio existe, mas foi bem direto ao classificá-lo como algo super chato. É basicamente automação de tarefas, nada que mude radicalmente a forma como usamos nossos dispositivos.
O segundo passo é onde a coisa fica realmente interessante. Nessa fase, a inteligência artificial começa a aprender as intenções do usuário a longo prazo. Se você quer ser mais saudável, por exemplo, o dispositivo entenderia esse objetivo e passaria a te dar sugestões proativas, lembretes e incentivos sem que você precisasse pedir. É como ter um assistente pessoal que te conhece profundamente e antecipa suas necessidades.
Pei explicou que o nível mais avançado dessa evolução é quando o sistema começa a sugerir coisas que você nem sabia que queria. Ele comparou esse conceito ao recurso de memória do ChatGPT, onde o modelo vai acumulando contexto sobre o usuário ao longo do tempo e usa isso pra oferecer respostas cada vez mais personalizadas e relevantes.
Na visão final de Carl Pei, o smartphone do futuro seria um dispositivo que faz coisas por você sem precisar ser comandado pra isso. Não é só responder perguntas ou executar tarefas sob demanda. É antecipar, agir e resolver, tudo em segundo plano, com o mínimo de intervenção humana possível. 🚀
O problema da fricção nos smartphones atuais
Carl Pei usou um exemplo simples e poderoso pra ilustrar por que a estrutura atual dos smartphones precisa mudar. Ele perguntou: quantos passos você precisa pra tomar um café com alguém?
Parece uma coisa trivial, mas pensa na quantidade de aplicativos envolvidos. Primeiro você precisa de algum app de mensagem pra combinar com a pessoa. Depois um app de mapas pra encontrar uma cafeteria. Talvez um Uber pra chegar lá. E o calendário pra verificar se você tem horário livre. São pelo menos quatro apps diferentes pra realizar uma intenção simples.
Essa fragmentação é exatamente o tipo de fricção que a experiência do usuário sempre tentou minimizar. Os aplicativos foram um passo nessa direção, organizando funcionalidades de forma visual e acessível. Mas eles também criaram novos tipos de fricção: a necessidade de aprender cada interface separadamente, de gerenciar notificações de dezenas de apps, de atualizar tudo constantemente e de lidar com a fragmentação de informações espalhadas por múltiplos aplicativos que não conversam entre si.
A proposta da inteligência artificial é justamente colapsar tudo isso numa camada única e inteligente. Na visão de Pei, o futuro dos smartphones e sistemas operacionais deveria funcionar assim: o sistema te conhece profundamente, entende sua intenção e simplesmente executa, sem que você precise passar por todos esses apps manualmente.
Imagina você acordar de manhã e, ao invés de abrir cinco aplicativos diferentes, simplesmente perguntar pro seu smartphone: como tá meu dia? E ele já sabe que você tem uma reunião às 10h, que o trânsito tá pesado no caminho que você normalmente faz, que seu voo amanhã tá com pequeno atraso e que a temperatura vai cair à tarde, então você vai precisar de casaco. Isso não é ficção, é o que os modelos de inteligência artificial já conseguem fazer quando bem integrados, e é exatamente o tipo de experiência do usuário que empresas como a Nothing estão mirando. A interface some do caminho e o que fica é só a resposta certa, na hora certa.
Interfaces feitas para agentes de IA, não para humanos
Um ponto técnico bem relevante que Carl Pei levantou no SXSW é sobre a interface dos dispositivos futuros. Segundo ele, não basta ter um agente de IA tentando usar a mesma interface que foi desenhada pra humanos. Sabe aquelas demonstrações em que um robô virtual fica navegando por menus, tocando em botões e deslizando telas como se fosse uma pessoa? Pei foi categórico: isso não é o futuro.
O que ele defende é a criação de interfaces projetadas especificamente para os agentes de IA. Em vez de a inteligência artificial imitar o toque humano numa tela, os serviços precisam oferecer caminhos nativos pra que a IA acesse suas funcionalidades de forma direta e sem atrito. É uma diferença fundamental de arquitetura de sistemas que muda completamente como os desenvolvedores vão precisar pensar seus produtos daqui pra frente.
Pei resumiu bem: o futuro não é o agente usando uma interface humana. O futuro é criar uma interface pro agente usar. E essa é a abordagem mais preparada pro que vem pela frente.
Do ponto de vista técnico, essa mudança exige que a inteligência artificial tenha acesso profundo ao sistema operacional, aos dados do usuário e a serviços externos, tudo ao mesmo tempo e de forma segura. É um desafio enorme de arquitetura e privacidade, mas as peças estão começando a se encaixar. Empresas como Google, Apple e Microsoft já estão movendo suas apostas nessa direção, integrando modelos de linguagem diretamente nos sistemas operacionais e criando APIs que permitem que a IA execute ações dentro de outros serviços sem que o usuário precise abrir nenhum app manualmente. A corrida já começou.
Os apps não vão sumir amanhã, mas a transição já começou
Vale destacar que o próprio Carl Pei fez uma ressalva importante durante a entrevista. Ele não está dizendo que os aplicativos vão desaparecer amanhã. O sistema operacional da Nothing inclusive permite que os usuários criem seus próprios mini apps usando o conceito de vibe coding, mostrando que a empresa ainda reconhece o valor dos apps no momento atual.
O que Pei está sinalizando é uma direção, uma tendência de longo prazo que vai gradualmente transformar como interagimos com nossos dispositivos. Os aplicativos vão migrar de interfaces visuais ricas e autossuficientes pra serviços modulares que a inteligência artificial acessa em segundo plano, sem que o usuário precise interagir diretamente com eles. Nesse modelo, o valor do produto deixa de estar na beleza da interface e passa a estar na qualidade dos dados, na confiabilidade do serviço e na capacidade de integração com os sistemas de IA que vão orquestrar tudo.
É uma mudança de paradigma bem radical, mas que já dá pra ver os sinais no horizonte. E a velocidade com que os large language models estão evoluindo sugere que essa transição pode acontecer mais rápido do que muita gente imagina.
O que isso significa pra quem desenvolve apps hoje
Se a visão de Carl Pei se concretizar, e há boas razões pra acreditar que pelo menos parte dela vai se tornar realidade, o impacto pra quem desenvolve aplicativos hoje é gigante. A lógica de monetização da maioria dos apps está diretamente ligada ao engajamento com a interface: quanto mais tempo o usuário passa dentro do app, mais anúncios ele vê, mais compras ele faz, mais dados ele gera. Se a inteligência artificial passa a ser a camada intermediária entre o usuário e o serviço, o app deixa de ser o ponto de contato principal, e toda essa lógica de negócio precisa ser repensada do zero.
Pra quem trabalha com design de interface, desenvolvimento mobile ou experiência do usuário, esse é um momento que pede atenção total. As habilidades de entender o comportamento humano, mapear necessidades e eliminar fricção continuam sendo fundamentais, mas o contexto de aplicação muda completamente. Em vez de desenhar telas e fluxos de navegação, o trabalho pode evoluir pra algo mais próximo de desenhar conversas, definir como a inteligência artificial deve se comunicar, que informações ela prioriza e como ela garante que o usuário sempre sinta que está no controle, mesmo quando a máquina está fazendo quase tudo. 🤖
Por que a Nothing está na vanguarda dessa discussão
A Nothing não é a maior empresa de tecnologia do mundo, longe disso. Mas ela tem algo que as gigantes muitas vezes perdem quando ficam grandes demais: a liberdade de apostar em ideias radicais sem precisar proteger um modelo de negócio estabelecido. Carl Pei entende isso, e é por isso que ele usa palcos como o SXSW pra provocar a indústria com afirmações que soam absurdas até que, de repente, não soam mais.
Foi assim que a Nothing entrou no mercado de smartphones com um design que ninguém pediu mas todo mundo começou a querer, e é com essa mesma energia que a empresa agora mira o futuro da inteligência artificial em dispositivos móveis.
A declaração de Carl Pei no SXSW não foi por acaso. O festival é exatamente o tipo de ambiente onde ideias provocativas ganham tração e chegam até investidores, desenvolvedores e formadores de opinião que vão carregá-las de volta pras suas empresas e comunidades. Ao posicionar a Nothing como a empresa que vai construir o primeiro smartphone verdadeiramente orientado por inteligência artificial, Carl Pei está fazendo muito mais do que anunciar um produto: ele está definindo uma narrativa, e narrativas fortes têm o poder de moldar o mercado mesmo antes de qualquer produto existir de fato.
O que torna essa aposta interessante é que ela não depende só de tecnologia. Depende de convencer usuários, desenvolvedores e parceiros de que o modelo dos aplicativos realmente está com os dias contados, e que vale a pena construir o próximo ecossistema agora, antes que as grandes plataformas fechem as portas pra quem chegou tarde. Se a Nothing conseguir reunir as pessoas certas em torno dessa visão, ela pode ter um papel desproporcional ao seu tamanho na definição de como os smartphones do futuro vão funcionar, e como a experiência do usuário vai ser redesenhada pra uma era onde a inteligência artificial faz a maior parte do trabalho pesado. 💡
