O design automotivo está passando por um momento decisivo que poucos conseguem ignorar. Segundo especialistas em HMI, a indústria está num verdadeiro ponto de virada.
Nos últimos anos, o interior dos carros virou quase um painel de controle de nave espacial, cheio de telas, menus e gestos digitais. A promessa era clara: mais tecnologia, mais conforto, mais modernidade. Só que tem um detalhe importante que ficou pelo caminho nessa corrida pelo digital — a experiência de quem realmente está atrás do volante. Não adianta nada ter um cockpit digno de ficção científica se o motorista precisa navegar por camadas de menu só pra ajustar uma função simples do carro.
É aí que entra o debate sobre UX e HMI automotivo, dois conceitos que, na teoria, deveriam andar juntos, mas que na prática têm gerado uma baita desconexão entre o software e o ambiente físico do veículo. A UX, ou experiência do usuário, cuida de como as pessoas se sentem ao interagir com um sistema. Já a HMI, a interface humano-máquina, define como o ser humano se comunica com a tecnologia dentro do carro — seja por toque, voz, olhar ou gestos. Quando essas duas disciplinas não conversam entre si, o resultado aparece na forma de frustração e desconforto no dia a dia.
Pensa bem: de que adianta uma interface linda se ela não conversa com o espaço ao redor? Um designer do setor já veio a público alertar que o status atual do UX/UI automotivo precisa mudar. E, por coincidência, é exatamente isso que um novo estúdio chamado östra pretende fazer. A seguir, você vai entender por que essa discussão importa tanto para quem dirige quanto para quem projeta os carros do futuro. 🚗
O que acontece quando o digital engole o físico
Durante muito tempo, os fabricantes de automóveis competiram em cima de atributos mecânicos: potência, torque, consumo, acabamento. Com a chegada da era conectada, o campo de batalha mudou de endereço. Agora, a briga é por polegadas de tela, por assistentes de voz mais inteligentes, por painéis que parecem tablets gigantes colados no centro do console. O problema é que essa transição aconteceu muito rápido e, quase sempre, sem o devido cuidado com a interação humana no centro do processo.
Nos últimos cinco anos ou mais, vimos o digital assumir um papel de protagonista nessa conversa. Só que evidências dentro do próprio setor sugerem que a balança pendeu demais para o lado do software. E esse software nem sempre combina bem com o seu hospedeiro físico, ou seja, com o interior real do carro. Um bom exemplo dessa nova geração de interiores é a tela fina e horizontal para o passageiro do Lotus Eletre, cercada por tecido, que mostra como as montadoras estão tentando equilibrar o toque digital com materiais mais aconchegantes.
O que a indústria esqueceu — ou ignorou — é que um carro não é um smartphone. O contexto de uso é completamente diferente. Num celular, você pode parar, olhar com atenção, explorar menus, errar e tentar de novo. Dentro de um veículo em movimento, cada segundo de atenção conta. Interfaces que exigem múltiplos toques sequenciais ou navegação por menus aninhados acabam tornando tarefas simples mais complicadas do que deveriam ser. Isso não é apenas uma questão de estética — é uma questão de usabilidade real que precisa ser tratada com o cuidado que merece.
A HMI automotiva, quando mal planejada, também cria o que os especialistas chamam de carga cognitiva excessiva. Basicamente, o motorista precisa pensar demais para realizar tarefas simples. Imagine precisar navegar por três camadas de menu apenas para ativar o aquecedor do banco — algo que, numa geração anterior de carros, era feito com um único botão físico. Esse tipo de regressão funcional, mascarada por uma interface visualmente sofisticada, é justamente o ponto cego que o mercado automotivo tem enfrentado nos últimos anos.
A crise de identidade entre UX e HMI no setor automotivo
A ideia de unir UX, HMI e design de interiores faz muito sentido, principalmente porque existe uma sobreposição natural entre essas disciplinas. A forma como o motorista e os passageiros interagem com o veículo hoje é uma mistura densa de pontos de contato digitais e físicos. E as marcas têm tentado equilibrar esses dois campos com graus de sucesso bem variados. Algumas acertam a mão, outras claramente tropeçam.
Quando se fala em UX no contexto digital tradicional — aplicativos, sites, plataformas — existe um ecossistema robusto de boas práticas, testes de usabilidade, pesquisa com usuários e melhoria contínua. O problema é que esse conhecimento não foi transplantado de forma eficiente para o ambiente automotivo. As equipes de design de software raramente têm contato profundo com as restrições físicas do veículo, e os profissionais que constroem o espaço interno do carro nem sempre dominam os princípios de interação digital. Esse gap entre as duas especialidades criou um produto final que não pertence completamente a nenhum dos dois mundos.
Esse fenômeno ficou ainda mais evidente com a popularização dos veículos elétricos, que, por não terem motor a combustão, abriram espaço para redesenhar completamente o interior dos carros. Em vez de aproveitar essa liberdade para criar experiências mais intuitivas, boa parte das montadoras usou o espaço para empilhar ainda mais telas e funcionalidades. O resultado são interiores que impressionam numa foto de divulgação, mas que geram confusão real no uso cotidiano. A estética virou protagonista quando deveria ser coadjuvante da funcionalidade.
Conheça o östra, o estúdio que quer mudar as regras
É nesse cenário que o estúdio östra chega com uma proposta que vai na contramão do mercado. Conforme noticiado no início deste mês, o novo estúdio abriu suas portas com um objetivo bem declarado: unificar os pontos fortes do design de interiores, da HMI e do UX sob um mesmo teto. A ideia é acabar de vez com aquela fragmentação que separa quem cuida do software de quem cuida do espaço físico.
O östra será liderado por Rob Dolton e Ben Guyer, dois designers com uma bagagem e tanto. Eles passaram por nomes de peso da indústria automotiva, como JLR, Lotus e Afry. Ou seja, gente que conhece de perto os bastidores de como um carro é projetado, tanto na parte visível quanto na parte que fica escondida sob a superfície.
A abordagem integrada do östra parte de um princípio simples, porém poderoso: o motorista é o centro de tudo, e qualquer decisão de design precisa passar pelo filtro da experiência real de direção, não apenas pela aparência numa tela de protótipo. Segundo esses especialistas, a solução não está em escolher entre o digital e o físico, mas em criar uma linguagem que faça os dois coexistirem de forma harmoniosa.
Como o design automotivo pode se reinventar
A resposta para a crise que o setor enfrenta não está em descartar a tecnologia, muito pelo contrário. O caminho é usar a tecnologia de forma mais inteligente, colocando a interação humana como ponto de partida do projeto e não como um ajuste de última hora. Isso significa investir em pesquisa contextual — entender como as pessoas realmente dirigem, em quais condições de luz e atenção. Significa também trazer de volta elementos físicos estratégicos, como botões e controles táteis em posições que o motorista consegue encontrar sem olhar, criando o que os especialistas chamam de memória muscular de interface.
Outra frente importante é o uso mais sofisticado de HMI multimodal, que combina diferentes canais de interação — voz, toque, gestos e feedback tátil — de maneira inteligente, oferecendo ao motorista a opção de usar o canal mais adequado para cada situação. Num momento de chuva intensa, comandos de voz são mais convenientes. Numa fila parada, o toque numa tela pode funcionar bem. O sistema ideal é aquele que se adapta ao contexto, e não o contrário. Esse nível de sofisticação exige uma integração profunda entre UX, HMI e engenharia de produto, algo que ainda é raro nas grandes montadoras.
O que o östra e outros estúdios especializados estão mostrando é que existe um mercado real para esse tipo de expertise. Conforme os carros ficam mais autônomos e conectados, a importância de uma boa interação humano-máquina só tende a crescer. O motorista que hoje ainda precisa tomar decisões rápidas no trânsito vai, gradualmente, assumir um papel diferente dentro do veículo. Mas até esse futuro chegar de vez, a indústria precisa resolver o presente, e o presente é uma crise de design que afeta a satisfação de milhões de pessoas todos os dias.
O que muda na prática para quem compra um carro
Para o consumidor final, esse debate tem consequências bem concretas. A escolha de um veículo hoje envolve avaliar não só o motor ou o consumo, mas também a qualidade da interface interna. Uma HMI mal projetada pode transformar uma viagem cotidiana numa experiência frustrante, enquanto uma UX bem construída faz com que o motorista se sinta completamente no controle, mesmo num carro cheio de tecnologia. Essa percepção já começa a influenciar as avaliações de satisfação dos clientes e, consequentemente, as decisões de compra.
Marcas que investem seriamente na qualidade da interação dentro dos seus veículos estão colhendo frutos em termos de fidelidade e recomendação. Não é à toa que alguns dos modelos mais bem avaliados em experiência de usuário são justamente aqueles que encontraram um equilíbrio entre o digital e o físico — com telas bem posicionadas, comandos de voz eficientes e controles físicos para as funções mais usadas. Esse equilíbrio não é fácil de alcançar, mas quando é feito direito, o resultado aparece na satisfação de quem usa o carro todo dia.
A boa notícia é que a conversa sobre UX e HMI automotivo está ganhando volume dentro da indústria. Eventos de design de produto, fóruns de tecnologia embarcada e até conferências de ergonomia têm colocado esse tema na pauta com cada vez mais frequência. O surgimento de estúdios especializados como o östra é um sinal claro de que o mercado reconhece que existe um problema — e que existe espaço para quem souber resolvê-lo com inteligência, criatividade e um olhar genuinamente centrado no ser humano. 🎯
