O design automotivo chegou num momento que poucos conseguem ignorar.
Dentro dos carros modernos, a tensão entre o mundo digital e os elementos físicos do interior nunca foi tão evidente — e tão difícil de equilibrar. Durante décadas, o painel de um carro foi um espaço físico, tátil, quase instintivo. Você sabia onde estava o botão do ar-condicionado sem precisar olhar. Sabia que girar aquele controle específico aumentava o volume. Havia uma lógica sensorial que, mesmo sem perceber, criava uma experiência de uso segura e fluida enquanto o carro estava em movimento.
Nos últimos anos, as telas tomaram conta do painel. E não foi uma transição gradual — foi quase uma avalanche. Montadoras passaram a competir pelo tamanho da tela central, pela quantidade de funções integradas ao sistema digital e pela sofisticação visual dos seus menus e animações. O argumento era claro: modernidade, conectividade e flexibilidade. Um software pode ser atualizado; um botão físico, não.
Os sistemas de HMI — Human-Machine Interface, ou interface humano-máquina — evoluíram numa velocidade impressionante, e o software passou a ditar as regras dentro do habitáculo. O que antes era mecânico virou digital. O que era tátil virou toque na tela. E o que era intuitivo virou, em muitos casos, um labirinto de menus que exige atenção visual constante para executar tarefas simples — como ajustar a temperatura ou ativar o desembaçador traseiro.
Mas nem tudo que brilha na tela funciona bem no mundo real. É exatamente aí que o problema mora, e ele é mais sério do que parece à primeira vista. Um exemplo interessante desse novo momento pode ser visto em modelos como o Lotus Eletre, que aposta em uma tela fina para o passageiro, emoldurada por tecido, buscando justamente unir o digital e o físico de maneira harmônica dentro da cabine.
Um especialista em UX automotivo acendeu o sinal de alerta: a indústria chegou num ponto de virada, e alguma coisa precisa mudar — e rápido. A boa notícia é que uma resposta concreta já está tomando forma, com um novo estúdio surgindo justamente para resolver esse desequilíbrio. A pergunta que fica é: será que a indústria está pronta para ouvir?
O Problema que Ninguém Quer Admitir em Voz Alta
A digitalização do interior automotivo trouxe vantagens reais — isso não dá pra negar. Atualizações remotas, integração com smartphones, personalização da experiência, painéis que se adaptam ao perfil do motorista. São recursos que fazem sentido e que, quando bem implementados, elevam de verdade a experiência dentro do carro. O problema não está na tecnologia em si. Está em como ela foi aplicada, e principalmente em quem foi consultado durante esse processo.
A crítica que especialistas em UX e HMI vêm levantando com cada vez mais frequência é que a indústria automotiva priorizou a estética tecnológica em detrimento da usabilidade real. Em outras palavras: as telas ficaram bonitas, os menus ficaram sofisticados, mas a experiência de uso dentro do carro — especialmente enquanto se dirige — piorou em muitos aspectos. Funções que antes eram acessadas com um toque cego agora exigem que o motorista tire os olhos da estrada, navegue por dois ou três níveis de menu e confirme a ação na tela. Isso não é progresso. É regressão disfarçada de modernidade.
A ideia de unir UX, HMI e design de interior parece bem fundamentada, justamente por causa da sobreposição natural entre essas disciplinas. Afinal, a forma como o motorista e os passageiros interagem com o veículo hoje é uma mistura densa de pontos de contato digitais e físicos. Ao longo dos últimos cinco anos, ou até mais, o digital assumiu um papel de protagonista nessa conversa — mas evidências recentes sugerem que a balança pendeu longe demais em favor do software. E esse software nem sempre conversa bem com o corpo físico que o hospeda.
Estudos de segurança já documentaram o aumento da distração cognitiva associada ao uso de telas durante a condução. O tempo que os olhos ficam fora da estrada para completar uma tarefa simples em uma interface digital é, em média, significativamente maior do que o necessário para operar controles físicos equivalentes. E isso tem consequências diretas na segurança. O design de um interior automotivo não pode ser tratado como um projeto puramente visual — ele é, essencialmente, um projeto de segurança.
HMI e UX: A Diferença que Muda Tudo
É importante entender que HMI e UX não são a mesma coisa, embora trabalhem juntos. O HMI é a interface em si — a tela, os botões, os controles de voz, os sensores de gestos. É o conjunto de elementos que permite ao motorista interagir com os sistemas do veículo. Já o UX — User Experience, ou experiência do usuário — é a disciplina que estuda como essa interação acontece na prática, como o usuário se sente durante o processo e se o resultado final atende de forma eficiente às suas necessidades reais. São camadas diferentes, mas profundamente dependentes uma da outra.
Quando o design de HMI ignora os princípios de UX, o resultado é exatamente o que estamos vendo em muitos veículos modernos: interfaces visualmente impressionantes que frustram o motorista no dia a dia. A lógica de navegação não é intuitiva. As hierarquias de menu não refletem a frequência de uso real das funções. As respostas táteis — ou a falta delas — tornam difícil saber se um comando foi registrado sem olhar para a tela. São falhas de design que só aparecem quando o produto é usado de verdade, em condições reais, por pessoas reais.
E é justamente por isso que o surgimento de estúdios especializados na interseção entre HMI e UX automotivo é uma notícia relevante. Não se trata de mais uma consultoria de design bonito. Trata-se de uma abordagem que coloca o comportamento humano no centro do processo — antes da tela, antes da animação, antes da paleta de cores. O ponto de partida é entender como o motorista pensa, age e reage dentro do veículo, para então criar uma interface que se encaixa nesse contexto sem gerar atrito desnecessário.
O Novo Estúdio e o que Ele Representa para o Setor
Como noticiado recentemente, um novo estúdio abriu as portas com um objetivo bastante claro: unificar sob o mesmo teto as forças do design de interior, do HMI e do UX. Batizado de östra, o estúdio será liderado por Rob Dolton e Ben Guyer, dois designers com bagagem em nomes de peso do setor, como JLR, Lotus e Afry. A proposta é ambiciosa e responde diretamente ao alerta feito por especialistas: o atual estado do UX/UI automotivo precisa mudar, e é exatamente isso que o östra pretende colocar em prática.
A chegada de um estúdio dedicado especificamente ao UX e ao design de HMI automotivo é um sinal claro de que o mercado está reconhecendo a gravidade do problema. Não é só sobre criar interfaces mais bonitas ou mais modernas — é sobre repensar fundamentalmente como os sistemas digitais dentro do carro devem se comportar para servir ao motorista, e não o contrário. Esse tipo de iniciativa marca uma virada de mentalidade importante dentro de um setor que, historicamente, tratou o design de interior como uma disciplina secundária em relação à engenharia mecânica e à estética externa do veículo.
O que diferencia esse tipo de estúdio especializado das equipes internas das montadoras é justamente o foco. Dentro das grandes fabricantes, o time de design precisa equilibrar demandas comerciais, prazos de produção, restrições de hardware e pressões de marketing — tudo ao mesmo tempo. Um estúdio independente, focado em UX e HMI, pode mergulhar fundo nas questões de usabilidade sem as mesmas restrições institucionais. Pode testar, iterar e questionar premissas que, dentro de uma grande corporação, muitas vezes são aceitas sem discussão.
Além disso, há um componente de timing que não pode ser ignorado. O setor automotivo está passando por uma das maiores transformações da sua história — eletrificação, autonomia de direção, conectividade avançada, novos modelos de mobilidade. Cada uma dessas mudanças impacta diretamente o interior do veículo e, consequentemente, a forma como o motorista interage com os sistemas embarcados. Nunca houve um momento mais adequado para colocar o design de HMI e UX no centro da conversa — e iniciativas como essa ajudam a garantir que essa pauta não fique em segundo plano.
O equilíbrio entre o digital e o físico dentro do carro não é um detalhe estético. É uma questão de funcionalidade, de segurança e, no final das contas, de respeito ao motorista. A indústria que souber encontrar esse equilíbrio primeiro vai sair na frente — não só em prêmios de design, mas em satisfação real dos usuários e em veículos que as pessoas genuinamente gostam de usar. 🚗✨
