28/06/2026 8 minutos de leituraPor Rafael

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O investimento em startups de saúde de Israel registrou uma queda expressiva em 2025.

E não foi pouca coisa: o setor de healthtechs do país encerrou o ano com o menor volume de captação dos últimos cinco anos, revertendo até mesmo a leve recuperação que tinha dado um alento ao mercado em 2024.

Os números vêm de um relatório conjunto elaborado pela Israel Advanced Technology Industries Association, pela Israel Innovation Authority e pela PwC Israel, e pintam um cenário bem diferente do que se viu no restante do ecossistema de tecnologia israelense.

Enquanto o setor tech do país como um todo cresceu 24% e chegou a US$ 15,6 bilhões em aportes, segundo dados da Startup Nation Central, as empresas focadas em saúde foram na direção oposta, sentindo o peso de um ambiente geopolítico instável, de uma guerra que ainda drena energia e recursos, e de uma competição global cada vez mais acirrada por capital.

É o tipo de contraste que chama atenção e que levanta perguntas importantes sobre o futuro de um dos segmentos mais estratégicos da economia israelense. 👇

Os números que explicam a queda

O relatório aponta que as startups de saúde israelenses, também chamadas de empresas de ciências da vida, captaram cerca de US$ 1,6 bilhão ao longo de 2025, o que representa uma queda de aproximadamente 40% em relação ao ano anterior. Para ter uma ideia do tamanho do recuo, em 2022 esse número chegou a US$ 3,3 bilhões. Ou seja, em poucos anos, o setor praticamente perdeu mais da metade da sua capacidade de atrair capital externo, um dado que, por si só, já seria preocupante.

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Outro detalhe importante: o tamanho médio das rodadas de captação caiu abaixo de US$ 10 milhões pela primeira vez em pelo menos cinco anos. Isso significa que, além de menos dinheiro circulando no setor, cada negócio fechado também passou a movimentar valores menores. Mas o que torna a situação ainda mais delicada é que essa queda aconteceu justamente em um momento em que o ecossistema tech de Israel como um todo estava se recuperando com força, o que deixa claro que o problema não é sistêmico, mas específico do setor de saúde.

Omer Gavish, líder de ciências da vida e sócio da PwC Israel, explicou ao The Times of Israel que três áreas concentraram a maior parte dos aportes no país: cibersegurança, tecnologia de defesa e inteligência artificial. Já para os setores tech mais tradicionais, incluindo as healthtechs, 2025 foi um ano significativamente desafiador em termos de volume de captação.

Segundo Gavish, o setor de saúde já costuma enfrentar mais dificuldades do que outras áreas da tecnologia, porque exige enormes quantias de investimento. A fase de desenvolvimento das tecnologias é muito mais longa até a validação, e leva tempo até que os investidores consigam enxergar um produto pronto. Por isso, em tempos de incerteza geopolítica, atrair capital fica ainda mais complicado. 🧐

Por que o setor de saúde foi mais afetado

A resposta mais direta está na combinação de fatores que pesaram de forma desigual sobre as diferentes verticais da tecnologia israelense. Curiosamente, Gavish destacou que, globalmente, 2025 marcou um ano de recuperação para os investimentos em healthtechs e empresas de ciências da vida. Ou seja, Israel está descolado da tendência mundial quando o assunto é private equity, IPOs ou captação por empresas de capital aberto.

Por outro lado, existe um ponto encorajador: quando o assunto são fusões e aquisições, há interesse claro de empresas globais nas companhias israelenses mais maduras. Isso mostra que o valor das soluções desenvolvidas no país não desapareceu, mas que o apetite por risco em estágios iniciais diminuiu bastante.

O setor de saúde, que cobre saúde digital, dispositivos médicos e a área de farmacêutica e biomedicina, representa cerca de 20% de todo o ecossistema tech de Israel. São aproximadamente 1.800 empresas ativas, empregando cerca de 81 mil pessoas. Em 2025, apenas 67 novas empresas foram fundadas no país, o menor número desde 2023. Nos três primeiros meses do ano seguinte, foram criadas 12 novas startups de saúde, com as empresas de biomedicina liderando a fila.

E aqui vale um dado interessante: o setor de biomedicina responde por cerca de 30% das empresas que operam em Israel, mas emprega mais de 50% dos 81 mil trabalhadores da indústria. É um segmento que concentra muita gente e muito conhecimento técnico de ponta. 😬

Dispositivos médicos sofreram o maior baque

A análise setor por setor revelou diferenças importantes. Os investimentos em empresas de dispositivos médicos despencaram mais de 60% em 2025, refletindo a cautela dos investidores em colocar dinheiro em tecnologias com desenvolvimento mais longo e intensivo em capital. Esse tipo de produto costuma exigir anos de testes, validações regulatórias e aprovações antes de chegar ao mercado, o que assusta quem busca retorno mais rápido em períodos de incerteza.

Já as empresas de biomedicina mostraram um comportamento bem diferente. Os aportes nesse segmento permaneceram estáveis ao longo dos últimos três anos e demonstraram maior resiliência aos choques geopolíticos. É um sinal de que nem tudo está em queda, e que algumas áreas do setor de saúde israelense seguem despertando confiança mesmo no meio da tempestade.

O contexto de guerra e os desafios econômicos

Não dá para entender esses números sem olhar para o pano de fundo. Nos últimos dois anos e meio, as startups de saúde e as empresas de tecnologia de Israel continuaram tocando seus negócios mesmo enfrentando desafios enormes. Muitas operaram enquanto se protegiam de foguetes, e diversos executivos e funcionários foram repetidamente convocados para o serviço de reserva após o início da guerra com o grupo terrorista Hamas, em outubro de 2023, conflito que acabou se espalhando por múltiplas frentes.

Karin Mayer Rubinstein, CEO da Israel Advanced Technology Industries Association, comentou que a indústria está enfrentando um dos períodos mais complexos e desafiadores que já conheceu. Segundo ela, além da realidade de segurança contínua, da incerteza geopolítica, das longas convocações para a reserva e da competição global crescente por capital, o setor também lida com problemas econômicos significativos.

Um deles é o enfraquecimento do dólar frente ao shekel, a moeda israelense, que afeta diretamente muitas empresas locais. Como boa parte das receitas dessas companhias vem em dólar, enquanto a maioria das despesas, principalmente os salários, é paga em shekels, essa diferença gera uma erosão importante na lucratividade. Na prática, isso prejudica a capacidade das empresas de continuar investindo em crescimento, contratando pessoas e desenvolvendo novas tecnologias.

Rubinstein alertou ainda para uma tendência preocupante: o aumento de startups se constituindo fora de Israel. Esse movimento tem um significado estratégico de longo prazo para a economia local e para toda a indústria, já que cada empresa que escolhe abrir suas operações em outro país representa empregos, impostos e inovação que deixam de ficar no território israelense.

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O que ainda sustenta o otimismo no setor

Apesar do cenário desafiador, há razões concretas para não jogar a toalha. A própria associação afirmou que está trabalhando em conjunto com o Ministério das Finanças, a Israel Tax Authority, a Israel Innovation Authority e outros órgãos governamentais para encontrar soluções que ajudem a fortalecer a competitividade de Israel e a incentivar as startups a se constituírem e operarem dentro do país.

Para Rubinstein, o que é preciso agora é continuar reforçando a atratividade de Israel para investimentos, alcançar estabilidade em segurança, expandir as fontes de financiamento e aprofundar as colaborações internacionais. O objetivo é garantir que a indústria de ciências da vida do país continue sendo um dos principais motores de crescimento do alto tech israelense nos próximos anos. A ideia é criar as condições para que Israel volte a ser a escolha natural de empreendedores na hora de fundar, crescer e permanecer.

Gavish também trouxe um tom de esperança. Segundo ele, os dados de captação dos três primeiros meses do ano seguinte mostraram uma tendência parecida com a de 2025, mas há expectativa de que mudanças no cenário geopolítico possam tornar o período seguinte um ano de virada para o setor.

Vale lembrar ainda que ciclos de queda em investimento costumam ter um efeito seletivo que, no longo prazo, pode até fortalecer o ecossistema. Empresas que conseguem sobreviver e crescer em períodos de capital escasso tendem a sair mais resilientes, com modelos de negócio mais sólidos e equipes mais eficientes. Se Israel conseguir manter sua base de talento e sua infraestrutura de pesquisa intactas durante esse período, as chances de uma retomada robusta nas healthtechs são bastante concretas. 💡

O setor de healthtechs de Israel captou cerca de US$ 1,6 bilhão em 2025, o menor volume em cinco anos e uma queda de 40% sobre 2024, enquanto o ecossistema tech israelense como um todo cresceu 24% e atingiu US$ 15,6 bilhões em investimentos no mesmo período.

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