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Esqueça o Apocalipse da IA — Os Memes Já Detonaram a Nossa Cultura

Do slang que seus filhos repetem sem entender até as estratégias de comunicação do governo dos Estados Unidos, o chamado brain rot escapou das telas dos celulares e tomou conta de praticamente tudo ao nosso redor.

Uma mãe recebeu uma pergunta aparentemente simples do filho de 9 anos ao voltar da escola: o que significa 6-7? O menino não tinha muito acesso a redes sociais, mas os colegas estavam todos repetindo a expressão, e ele queria entender. Ela fez o que qualquer pai ou mãe faria em 2026, pegou o celular e pesquisou.

O caminho da explicação foi típico da era digital. Um rapper chamado Skrilla gravou uma música chamada Doot Doot, supostamente em dez minutos logo depois de bater o carro. A faixa misturava referências quase aleatórias, de Baby Shark a clássicos do rap como White Tee e A Bay Bay. Em algum momento, Skrilla soltou a expressão 6-7, aparentemente emprestada de outro rapper da Filadélfia que usava o número como referência à rua onde morava, a 67th Street, do outro lado da cidade. Áudios da música começaram a aparecer em TikToks sobre o jogador de basquete LaMelo Ball, que mede 6 pés e 7 polegadas. Um adolescente gritou a expressão num jogo de basquete colegial, o que virou outro TikTok. E assim o ciclo se alimentou, impulsionado pelo fato estatisticamente banal de que os números seis e sete aparecem juntos com frequência suficiente para colar.

E aí veio a resposta que destruiu a noite do menino: não significa nada.

A criança ficou tão perturbada que não conseguiu dormir. A ideia de que algo que todo mundo estava dizendo pudesse simplesmente não ter significado era genuinamente perturbadora para um coração e uma mente ainda não corrompidos pela internet. Essa história, contada pelo jornalista Willy Staley no The New York Times, parece pequena à primeira vista, mas carrega um peso enorme sobre como as plataformas digitais estão reformatando a nossa linguagem, a nossa cultura e, talvez, a nossa forma de pensar. Porque o 6-7 não é uma exceção curiosa. É a regra. 👀

Enquanto todo mundo debate se a inteligência artificial vai substituir escritores, artistas e pensadores, as redes sociais já estão fazendo algo parecido, só que de um jeito diferente, por dentro, reformatando o que a gente fala, como a gente pensa e o que a gente considera cultura. A IA pode ser o próximo capítulo dessa história, mas o livro já começou há um bom tempo.

O Meme Como Corante Revelador do Ecossistema Digital

O que tornava o 6-7 tão revelador, segundo Staley, não era sua estupidez aparente, mas sim o abismo gigantesco entre a carga simbólica da expressão, que era basicamente nula, e o grau de penetração cultural que ela alcançou. Funcionou como um corante de rastreamento injetado no nosso ecossistema informacional, revelando funções e disfunções que normalmente ficam invisíveis. A expressão não nasceu de um lugar, de uma cena cultural ou de uma comunidade com algo a dizer. Ela simplesmente fluiu das plataformas para o mundo real com um grau extraordinário de sucesso e sem nenhum motivo identificável. Uma mensagem secreta do mundo dentro do celular para o mundo lá fora.

Talvez mais do que uma mensagem, uma demonstração de força. Uma forma de dizer: é assim que as coisas vão funcionar daqui pra frente.

Staley faz uma observação que vale a pena pausar para digerir. Há uns dez anos, o celular ainda parecia conter uma vastidão selvagem, um portal para uma dimensão alternativa às vezes aterrorizante. A sensação se parecia com vertigem, um poço sem fundo na palma da mão. Desde o isolamento massivo da pandemia, essa vertigem foi substituída por uma claustrofobia crescente. Você pode largar o celular no outro cômodo, mas ele continua se fechando sobre você. Mesmo quem passa pouco tempo online tem dificuldade em escapar da lógica da internet. Ela é uma força que deforma a realidade, um ruído cósmico de fundo que está em todo lugar e em lugar nenhum ao mesmo tempo, algo não humano que está remodelando sutilmente a nossa linguagem, a nossa política e até as nossas mentes.

Quando o Slang Virou a Nova Língua Franca das Redes Sociais

Toda geração teve o seu vocabulário próprio. Nos anos 80, alguém era da hora. Nos 90, as coisas eram iradas. Nos anos 2000, tudo era da hora de novo, só que escrito diferente no MSN. Mas o que está acontecendo agora opera numa escala completamente diferente, porque a velocidade com que o slang nasce, viraliza e morre nas redes sociais não tem precedente histórico. Uma expressão pode surgir num vídeo do TikTok numa terça-feira, estar na boca de todo mundo na quinta, e já parecer ultrapassada no domingo seguinte. Isso cria uma dinâmica cultural completamente nova, onde o ciclo de vida de uma palavra ou expressão é medido em dias, não em anos ou décadas como acontecia antes.

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O problema não é só a velocidade. É que boa parte dessas expressões nasce sem âncora semântica real, ou seja, sem um significado fixo que possa ser explicado com clareza. O 6-7 é o exemplo perfeito disso. Não tem definição. Não tem origem cultural profunda. Nasceu de uma coincidência entre um número e a altura de um atleta, passou por um rapper, foi amplificado pelo algoritmo do TikTok e virou parte do vocabulário de uma criança de 9 anos que não faz ideia do que está dizendo. Esse processo acontece centenas de vezes por semana nas redes sociais, criando uma camada de comunicação que funciona mais como sinal de pertencimento do que como transmissão real de significado. Você usa o slang certo para mostrar que está dentro, não porque tem algo concreto a dizer.

E aí chega a parte mais interessante da história: quando esses termos se popularizam além das bolhas que os criaram, eles perdem até o valor de identificação que tinham originalmente. Quando o seu chefe de 52 anos usa skibidi numa reunião tentando ser descolado, a palavra já morreu para quem a criou. As comunidades que originam o slang, geralmente jovens negros e periféricos nos Estados Unidos e no Brasil, veem seu vocabulário ser absorvido, diluído e esvaziado numa velocidade que mal dá tempo de reagir. A cultura se move, mas o crédito raramente acompanha o movimento. 🎯

A Minoria Que Produz Quase Todo o Conteúdo

Tem um dado do Pew Research Center que ajuda a entender como essa dinâmica funciona na prática. Em uma pesquisa de 2021, o centro descobriu que os observadores passivos no Twitter superavam amplamente a classe que realmente postava. Mesmo entre os usuários que publicavam algo, apenas 25% das contas geravam praticamente toda a atividade da plataforma. Em 2024, outro relatório do Pew mostrou que o padrão se repetia no TikTok de forma quase idêntica. Um terço dos adultos americanos dizia usar o aplicativo, mas entre eles, apenas 40% tinham sequer postado um vídeo publicamente. O quartil mais ativo de usuários adultos produzia 98% de todo o conteúdo publicamente disponível na plataforma.

Isso pode ser uma espécie de lei fundamental das redes sociais. A cultura de qualquer rede é gerada por uma minoria pequena de pessoas com algum traço, ou talvez alguma carência, que as faz desejar essa nova forma de competição social mais do que outras. E uma forma de garantir que você vai pelo menos participar da conversa é se manter legível, falar sobre o que os outros estão falando, ou pelo menos falar como os outros estão falando. Essas pessoas se subordinam à lógica da plataforma, remodelam seus pensamentos para se adequar a ela e, nesse processo, empurram os memes e o slang para cima na cadeia alimentar cultural.

O que importa, então, não é tanto o sucesso de uma expressão específica, mas o sucesso do slang da internet como sistema. A estrutura de incentivos das plataformas agora consegue produzir novas unidades de cultura praticamente sem necessidade de vontade humana, ou, mais precisamente, deformando a nossa vontade para atender às necessidades do sistema. O termo em si é apenas um grão de areia em torno do qual o comportamento imitativo se acumula, até ficar grande o suficiente para atravessar a barreira entre o digital e o mundo offline.

Quando o Algoritmo Invade a Sua Cabeça

Se você nunca ficou viciado numa plataforma de rede social, talvez não saiba exatamente o que se passa na cabeça de alguém curvado sobre um celular. E não está claro que os próprios viciados saibam. O escritor Jonah Weiner descreveu esse fenômeno de um jeito que Staley considerou assustadoramente preciso. Weiner contou que, ao lavar a louça e perceber que o sabão estava acabando, seu primeiro pensamento foi diluir o que restava com água para fazer render. Até aí, normal. Mas tudo que veio depois foi deformado pela internet.

Em vez de pensamentos normais, o que aparecia na cabeça dele era uma sequência de formatos de tweet: A necessidade masculina de diluir o sabão da louça, ou Os dois gêneros: sabão novo vs. sabão diluído, ou Homens vão diluir o último milímetro de sabão antes de procurar terapia. Cada uma dessas estruturas de piada é imediatamente reconhecível para qualquer pessoa que passe tempo demais no X. O que Weiner descreve não é só o comportamento imitativo que sustenta e alimenta memes. É o que esse comportamento exige: o sequestro do seu lobo frontal pelos incentivos da plataforma. Mergulhe no celular por tempo suficiente e o celular vai mergulhar em você, colocando você para trabalhar para as plataformas mesmo nos seus momentos de descanso.

As pessoas começaram a chamar isso de brain rot, e não é um termo ruim, não só porque o slang de celular é boboca e irritante, embora seja, mas porque ele realmente remodela a sua massa cinzenta. Em 2024, brain rot foi eleita a Palavra do Ano pela Oxford University Press, derrotando outros termos nascidos de memes como lore, demure e slop. Em 2025, a escolhida foi rage bait, mais um termo para mais um tipo de distração online, que venceu aura farming, outro meme. Em 2023, tinha sido rizz, que bateu beige flag, algo do TikTok. Desde 2021, quando a escolha foi vax, Oxford consistentemente deu o prêmio a algum tipo de meme da internet. Talvez seja porque o público vota, mas talvez seja porque é isso que a nossa cultura produz agora. 🧠

Memes São Cultura, Mas Que Tipo de Cultura?

Dá para fazer uma defesa honesta dos memes como forma de expressão cultural. Eles são ágeis, democráticos e muitas vezes mais eficientes do que um parágrafo inteiro para transmitir uma emoção ou comentar um evento. Um bom meme condensa ironia, contexto e crítica social numa única imagem com duas linhas de texto. Isso é habilidade comunicativa real, e não tem como negar. Mas existe uma diferença enorme entre usar memes como ferramenta dentro de uma conversa cultural mais ampla e substituir completamente o pensamento crítico por eles. E é exatamente essa segunda dinâmica que as redes sociais têm incentivado de forma cada vez mais agressiva, porque o engajamento premia a reação rápida e pune a reflexão demorada.

O formato do meme, por natureza, simplifica. Ele pega algo complexo e reduz a um gancho emocional imediato. Às vezes isso é genial. Mas quando toda a comunicação começa a funcionar nesse formato, o que acontece com a capacidade de sustentar um argumento, de tolerar nuance, de conviver com a ambiguidade que toda questão importante carrega? Pesquisas sobre comportamento em redes sociais apontam que o consumo excessivo de conteúdo em formato de microdose, seja meme, seja reels de 15 segundos ou tweets curtos, está associado a uma redução na capacidade de concentração prolongada e na tolerância a textos mais longos e complexos. Não é alarmismo. É o que os dados mostram sobre como o cérebro responde ao ambiente informacional que as plataformas criaram.

Existe também uma questão de memória cultural que merece atenção. Os memes têm uma meia-vida curtíssima. O que era referência obrigatória há seis meses já não significa nada para quem começou a usar a internet agora. Isso cria gerações separadas por camadas de referências que mal se comunicam, e dentro de cada geração, subculturas que só se entendem entre si. A fragmentação da cultura em bolhas de memes e slang específicos não é só um fenômeno estético. Ela tem consequências reais na capacidade de grupos diferentes se entenderem, debaterem e construírem narrativas compartilhadas. Quando a linguagem comum começa a desaparecer, o espaço público de ideias também começa a encolher. 🧩

Gooning, Looksmaxxing e Outras Cavernas Digitais

Enquanto o 6-7 se espalhava entre as crianças, algo raro aconteceu na internet: um artigo de revista viralizou de verdade. Isso costumava ser mais comum antes de Elon Musk adquirir o Twitter e tornar mais difícil compartilhar links, prendendo ainda mais os usuários dentro do seu ecossistema cada vez mais inclinado à direita. Mas esse artigo da Harpers, escrito por Daniel Kolitz, tocou num nervo cultural compartilhado até pelos usuários mais assíduos da plataforma. Ele falava sobre gooning.

Sem entrar em detalhes excessivos, gooning é uma subcultura de pessoas viciadas em pornografia que passam horas a fio se masturbando, frequentemente transmitindo ao vivo para outros viciados. Os espaços onde fazem isso são chamados de gooncaves, um termo que Staley considera particularmente evocativo não só pela escuridão úmida que evoca, mas porque remete à famosa caverna de Platão. Assim como na alegoria do filósofo grego, na gooncave a realidade é substituída por representação, que por sua vez suplanta a realidade para seus prisioneiros. E tal como na alegoria, nem mesmo o conhecimento do mundo exterior diminui a preferência pela caverna.

O ponto de Kolitz, e o que fez o artigo ressoar tão profundamente, é que mesmo quem não é gooner está fazendo algo parecido o tempo todo: desperdiçando horas assistindo vídeos na internet, se obcecando com microcelebridades e substituindo relacionamentos reais por substitutos sintéticos. E não faltam exemplos de subculturas online com essas mesmas características de inversão entre meios e fins. O Twitch transforma o interesse em jogar videogame na experiência de assistir outra pessoa jogar. Subreddits de fãs de podcasts invariavelmente se voltam contra os próprios apresentadores. E o looksmaxxing, em que homens alteram seus corpos seguindo métricas hiperspecíficas de proporções faciais nascidas em fóruns de incels, leva a situações como a do streamer conhecido como Clavicular, que admitiu ter possivelmente se esterilizado ao tomar testosterona, um desfecho um tanto irônico para alguém tão obcecado com a forma como é percebido pelo sexo oposto.

Mas o objeto real do desejo dessas pessoas não é o que parece ser. É algo escondido dentro dos mecanismos das plataformas. E na viralidade que alcançou, Clavicular finalmente se tornou digno do amor dessa entidade invisível.

Quando Memes Viram Política de Estado

A coisa toda poderia ser tratada como curiosidade cultural se ficasse confinada ao universo de piadas, slang e pop. Mas a influência dos memes já chegou ao governo do país mais poderoso do mundo. A administração Trump, conforme destaca o artigo do NYT, adora seus memes. Funcionários do governo fizeram manchetes repetidamente com o uso despudoradamente agressivo de memes institucionais.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos postou memes dos Simpsons nativos do X. O Departamento do Trabalho fez referências veladas ao QAnon. O Departamento de Educação, já esvaziado, publicou um meme do personagem Franklin a Tartaruga sobre a sua própria inutilidade. Mas nenhuma agência abraçou a estética memética tanto quanto o Departamento de Segurança Interna, que repetidamente publicou conteúdo embebido em imagética da direita online: Gigachad, um meme do 4chan; Agartha, uma piada sobre um suposto paraíso ariano sob a crosta terrestre; pessoas presas em cristais, algo de um videogame. Tudo isso saindo da conta oficial da agência criada para prevenir o próximo 11 de setembro.

Essa sensibilidade também alimentou um esforço de recrutamento de 100 milhões de dólares para o ICE, o serviço de imigração, direcionado a espaços de direita. Segundo o Washington Post, os anúncios digitais de recrutamento miravam fãs de UFC e NASCAR, ouvintes de podcasts conservadores e pessoas interessadas em armas e equipamento tático. Por um lado, usar dados assim é perfeitamente sensato para qualquer campanha de recrutamento em 2026. Por outro, parece garantido que esse método vai atrair recrutas ideologicamente selecionados, pinçados de comunidades online de nicho e convocados por imagética que pisca o olho para a direita radical. Uma agência de segurança que recruta dessa forma corre o risco real de operar de maneiras consistentes com os memes que usa, como sugeriu um post infame do DHS sobre como seriam os Estados Unidos depois de 100 milhões de deportações. Mas esses são os riscos de substituir mecanismos democráticos de feedback pelos prazeres da caverna.

O Papel da Inteligência Artificial Nessa Equação

Agora é que a coisa fica realmente interessante, porque a inteligência artificial não está chegando num cenário cultural intacto. Ela está chegando num ambiente onde a linguagem já foi profundamente reformatada pelas dinâmicas das redes sociais, onde slang sem significado real circula como moeda forte, onde memes substituem argumentos e onde o algoritmo já treinou bilhões de pessoas a consumir conteúdo de um jeito muito específico.

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Um dos grandes medos em relação à IA é que, ao digerir todo o corpus da cultura humana, ela eventualmente nos supere, revelando a lógica oculta que guia a nossa produção criativa, ou pelo menos se prove mais econômica em comparação, boa o suficiente, mesmo que difícil de controlar, como infinitos macacos em máquinas de escrever, produzindo sem custo marginal. A preocupação é que vamos perder alguma qualidade essencialmente humana da cultura que consumimos, roubada por robôs mais espertos ou por executivos que nunca se importaram com cultura. Mas, como Staley pergunta, algo assim já não aconteceu?

Os grandes modelos de linguagem, os famosos LLMs como GPT, Claude e Gemini, foram treinados com enormes volumes de texto da internet, incluindo tudo isso. O que significa que a IA aprendeu a linguagem humana a partir de um corpus que já estava profundamente marcado por esses padrões. Ela aprendeu slang, aprendeu o formato de meme, aprendeu a comunicação fragmentada das redes. Quando você pede para um modelo de linguagem escrever algo e o resultado parece vazio, genérico ou excessivamente colado em fórmulas, parte disso reflete o ambiente linguístico do qual ele foi alimentado. A IA não inventou a comunicação rasa. Ela aprendeu com a comunicação rasa que já existia e, em alguns casos, está amplificando esses padrões ao devolvê-los em escala industrial.

Existe um risco real de que o uso massivo de IA generativa para produção de conteúdo acelere ainda mais o esvaziamento linguístico que as redes sociais iniciaram, criando um loop onde a máquina aprende com conteúdo de baixa densidade semântica e produz mais conteúdo do mesmo tipo, que por sua vez alimenta os próximos modelos. Por outro lado, e essa é a parte que a maioria dos debates pessimistas ignora, a inteligência artificial também tem sido usada de formas que vão na direção oposta. Ferramentas de IA estão sendo aplicadas para preservar línguas em risco de extinção, para transcrever e analisar expressões culturais de comunidades marginalizadas, para tornar acessível conteúdo cultural que estava trancado em formatos inacessíveis. A questão não é a ferramenta em si. É como as plataformas incentivam ou desincentivam cada tipo de uso. 🤖

O Maximizador de Clipes de Papel Já Está Funcionando

Staley encerra o artigo com uma metáfora poderosa. Ele evoca o famoso experimento mental do paper clip maximizer, proposto pelo filósofo Nick Bostrom no início dos anos 2000. No cenário de Bostrom, uma IA avançada programada para fabricar clipes de papel é solta no mundo real sem as devidas proteções e passa a consumir todos os recursos disponíveis para cumprir seu único objetivo, possivelmente decidindo transformar a própria humanidade em clipes de papel. É uma parábola sobre como incentivos ligeiramente descalibrados podem levar a destruição e catástrofe inimagináveis, à medida que tudo é remodelado para atender às necessidades da máquina.

E isso, argumenta Staley sem querer soar apocalíptico demais, é mais ou menos o que aconteceu desde o surgimento das redes sociais. Levou apenas cerca de uma década, mas agora, todos os dias, nossos celulares produzem esses clipes de papel. Lowkenuinely, coastal grandma, 6-7 — clipes de papel. Aquela história sobre o Império Romano que circulou alguns anos atrás? Clipe de papel. Pequenos, descartáveis, extrudados e moldados para se encaixar nas necessidades da plataforma que os cospe. Você pode desdobrá-los, tentar torcê-los em novas formas, mas eles nunca perdem completamente o formato original.

Esse é o ecossistema informacional que construímos sem realmente pretender: um que remodelou toda a cultura ao privilegiar a perspectiva de quem dobra a sua vontade diante das massas; poderoso o suficiente para fazer uma geração inteira de crianças gritar números aleatórios por alguns meses; cuja totalidade é impossível de abarcar porque pouca coisa pode ser dita como existindo fora dele. Tudo e todos estão tão completamente plugados nele que não dá nem para saber se foi uma boa ideia ou não.

O Que Fica Quando o Meme Passa

A história da mãe que passou horas pesquisando o significado de 6-7 para o filho é engraçada e frustrante ao mesmo tempo, mas o que ela revela vai além de um slang sem sentido. Ela mostra que as crianças estão sendo alfabetizadas culturalmente por algoritmos que não têm nenhum compromisso com profundidade, contexto ou coerência. O TikTok não tem obrigação de ensinar nada. O Instagram não foi construído para formar repertório. O YouTube Shorts não foi projetado para desenvolver pensamento crítico. Essas plataformas foram construídas para maximizar tempo de tela e engajamento, e elas fazem isso de forma extraordinariamente eficiente. O efeito colateral é que uma geração inteira está crescendo com referências culturais que têm a durabilidade de uma story de 24 horas.

Isso não significa que tudo está perdido nem que toda expressão nascida nas redes sociais é descartável. Algumas expressões do slang digital já entraram para o vocabulário permanente de idiomas inteiros. A língua sempre foi viva, sempre absorveu influências populares e sempre chocou os puristas de cada época. O ponto não é defender uma pureza linguística que nunca existiu. O ponto é prestar atenção na diferença entre uma língua que evolui porque as pessoas têm coisas novas a dizer e uma língua que muda porque um algoritmo de recomendação descobriu que certos padrões geram mais cliques.

No final, a pergunta que o 6-7 coloca não é sobre linguagem. É sobre agência cultural. Quem está decidindo o que vira referência, o que entra no vocabulário coletivo, o que uma criança de 9 anos considera importante saber? Por muito tempo, essa decisão era distribuída entre famílias, comunidades, escolas, artistas e instituições culturais. Hoje, uma parte significativa dessa decisão passou para as mãos de sistemas de recomendação que otimizam engajamento. A inteligência artificial está prestes a se tornar mais um ator poderoso nessa equação. E a forma como ela vai se encaixar nesse cenário, amplificando ou equilibrando essas dinâmicas, depende muito das escolhas que ainda estão sendo feitas agora. 🌐

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