A corrida pela Inteligência Artificial está redesenhando a infraestrutura corporativa
A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante e se tornou o principal combustível da modernização da infraestrutura dentro das empresas. O mais recente Enterprise Cloud Index, publicado pela Nutanix em março de 2026, deixa claro que este ano representa um verdadeiro ponto de virada para organizações de todos os portes. De um lado, lideranças executivas pressionam suas equipes de tecnologia para colocar mais aplicações e agentes de IA em produção o mais rápido possível. Do outro, times de infraestrutura enfrentam o desafio de manter data centers e ambientes híbridos funcionando de forma estável, enquanto precisam lidar com containers, compliance, soberania de dados e segurança — tudo isso sem frear a inovação que o negócio exige.
Essa é a oitava edição anual do relatório, que mede o progresso global das empresas na adoção de nuvem. Neste ano, o foco recaiu especificamente sobre os obstáculos que executivos de TI enfrentam ao navegar pelo crescimento acelerado do uso de IA e pela necessidade urgente de modernizar aplicações e infraestrutura. O cenário é complexo, mas também cheio de oportunidades para quem souber se posicionar.
A pesquisa revela um dado que chama bastante atenção: 85% dos entrevistados afirmam que a IA está acelerando a adoção de containers para melhorar velocidade, confiabilidade e escalabilidade. Empresas que antes engatinhavam na containerização agora tratam essa tecnologia como peça central de suas estratégias. Paralelamente, cresce de forma preocupante o fenômeno do Shadow IT, com colaboradores adotando ferramentas e agentes de IA por conta própria, sem qualquer supervisão ou aprovação do departamento de TI. O resultado disso é uma combinação perigosa: novos riscos organizacionais, silos de dados ainda mais fortes e um gap crescente entre a ambição em IA e a capacidade real que a infraestrutura consegue entregar.
Containers como alicerce da modernização
O Enterprise Cloud Index aponta que a adoção de containers deixou de ser uma tendência restrita a empresas de tecnologia e passou a permear praticamente todos os setores da economia. A razão é simples: containers oferecem portabilidade, escalabilidade e eficiência que modelos tradicionais baseados exclusivamente em máquinas virtuais não conseguem acompanhar no mesmo ritmo. Com a Inteligência Artificial exigindo ciclos de desenvolvimento mais rápidos, ambientes de teste mais flexíveis e deploys contínuos, os containers se tornaram a escolha natural para equipes que precisam entregar resultados sem esperar semanas por provisionamento de infraestrutura.
Os números do relatório reforçam essa tendência de forma contundente. 87% dos entrevistados esperam que o uso de containers para aplicações aumente nos próximos três anos, e 83% já estão construindo novas aplicações diretamente em containers. Na prática, organizações que já investiram na containerização estão conseguindo colocar modelos de IA e agentes inteligentes em produção com muito mais agilidade do que aquelas que ainda dependem de arquiteturas monolíticas.
Além da velocidade, existe uma questão de governança que torna os containers ainda mais relevantes neste momento. Ambientes híbridos — que combinam nuvem pública, nuvem privada e infraestrutura on-premises — precisam de uma camada de orquestração capaz de garantir que workloads de IA rodem no local certo, com o nível de segurança adequado e em conformidade com regulamentações locais. Kubernetes, por exemplo, se consolidou como o padrão de orquestração de containers, e a maioria das empresas entrevistadas já utiliza ou planeja utilizar essa tecnologia nos próximos meses.
Lee Caswell, SVP de Produto e Marketing de Soluções da Nutanix, resumiu bem a situação ao comentar que as descobertas indicam a necessidade de segurança, resiliência e portabilidade de nível corporativo, já que workloads de IA podem rodar em qualquer lugar. Segundo ele, as organizações se beneficiariam de um ambiente operacional comum para máquinas virtuais e containers, que permita aos líderes de TI escalar a IA com confiança em ambientes híbridos.
O ponto é que não basta apenas adotar containers de forma isolada. A modernização da infraestrutura exige que VMs e containers coexistam num ambiente unificado, capaz de ser gerenciado de forma centralizada e com visibilidade total sobre o que está rodando, onde está rodando e quem tem acesso.
Platform engineering e a maturidade operacional
Outro aspecto importante é que a containerização abre portas para um modelo de operações mais maduro, frequentemente chamado de platform engineering. Nesse modelo, equipes de infraestrutura deixam de ser gargalos e passam a oferecer plataformas internas de autoatendimento para desenvolvedores. Isso reduz atrito, acelera entregas e, principalmente, mantém a governança no centro da operação.
Para empresas que estão investindo pesado em Inteligência Artificial, esse tipo de abordagem é quase obrigatório, porque a quantidade de experimentos, modelos e agentes que precisam ser testados e publicados cresce exponencialmente. Sem uma base sólida de containers bem orquestrados, o risco de perder o controle sobre o ambiente aumenta a cada sprint.
Shadow IT e os riscos organizacionais que ninguém quer ignorar
Se os containers representam o lado estruturado da modernização, o Shadow IT é o lado que tira o sono dos CISOs e CTOs. A pesquisa da Nutanix confirma algo que muitos profissionais de TI já sentiam na pele: com a popularização de ferramentas de Inteligência Artificial generativa e agentes autônomos, funcionários de diversas áreas começaram a adotar soluções por conta própria, sem passar pelo crivo da equipe de tecnologia.
Os dados são bastante reveladores. 79% dos entrevistados relatam encontrar aplicações ou agentes de IA sendo implementados por funcionários de áreas que não são de TI. Pode ser um time de marketing usando um chatbot para gerar conteúdo, uma equipe de vendas alimentando dados sensíveis em uma plataforma de IA externa, ou até mesmo desenvolvedores configurando ambientes de teste em nuvens públicas sem aprovação. Cada uma dessas ações, por menor que pareça, cria um ponto cego na infraestrutura e amplia significativamente os riscos organizacionais relacionados a vazamento de dados, não conformidade regulatória e vulnerabilidades de segurança.
Para piorar, 87% dos entrevistados acreditam que o uso não autorizado de IA introduz riscos reais, incluindo exposição de dados sensíveis e propriedade intelectual. Esse cenário destaca a necessidade de uma colaboração mais próxima entre equipes de TI e stakeholders de negócio para garantir que as implementações de IA permaneçam seguras, em conformidade e alinhadas com os objetivos da organização.
O Shadow IT ganhou uma nova dimensão com a IA
O problema do Shadow IT não é novo, mas a Inteligência Artificial deu a ele uma dimensão completamente diferente. Antes, o Shadow IT se resumia a planilhas compartilhadas em serviços de nuvem pessoais ou softwares instalados sem licença. Agora, estamos falando de agentes de IA que tomam decisões, processam dados confidenciais e interagem com clientes — tudo fora do perímetro de segurança oficial da empresa.
O Enterprise Cloud Index mostra que a maioria das organizações ainda não tem políticas claras para lidar com esse cenário, e muitas sequer conseguem mapear quantas ferramentas de IA estão sendo usadas de forma não oficial. Isso cria silos internos que dificultam a integração de dados, comprometem a qualidade das decisões baseadas em IA e, em última instância, podem gerar consequências legais graves, especialmente em mercados com regulamentações rigorosas de proteção de dados.
Silos organizacionais amplificam o problema
Além do Shadow IT, o relatório aponta que os silos entre unidades de negócio e equipes de TI continuam sendo um obstáculo significativo. 82% dos entrevistados acreditam que esses silos dificultam a execução eficaz de iniciativas tecnológicas, atrasando cronogramas de implantação e aumentando a complexidade operacional. Em um contexto onde a velocidade de adoção de IA é crítica, esse tipo de barreira interna pode ser o fator que separa empresas que escalam com sucesso daquelas que ficam presas em projetos-piloto intermináveis.
Para enfrentar os riscos organizacionais gerados pelo Shadow IT e pelos silos, o caminho mais eficiente não é simplesmente proibir o uso de ferramentas de IA — até porque isso raramente funciona e ainda gera atrito com as áreas de negócio. A abordagem que a pesquisa sugere é justamente o oposto: oferecer internamente um ambiente seguro, governado e acessível, onde equipes possam experimentar e usar Inteligência Artificial sem precisar recorrer a soluções externas. É aqui que a modernização da infraestrutura se conecta diretamente com a questão do Shadow IT.
Quando a organização disponibiliza uma plataforma unificada, com suporte a containers, VMs e workloads de IA, ela reduz drasticamente o incentivo para que colaboradores busquem alternativas por conta própria. Além disso, centralizar a operação permite aplicar políticas de segurança, monitoramento e compliance de forma consistente, reduzindo a superfície de ataque e fortalecendo a postura de segurança como um todo.
Agentes de IA e o potencial transformador para as organizações
Nem tudo no relatório são alertas e preocupações. Um dos pontos mais animadores do Enterprise Cloud Index está relacionado ao potencial dos agentes de IA dentro das organizações. A maioria dos executivos de TI entrevistados enxerga esses agentes como catalisadores de transformação em diversas frentes.
61% dos executivos de TI esperam que agentes de IA melhorem a experiência de clientes ou colaboradores. Além disso, 58% antecipam que esses agentes vão aumentar a produtividade e a eficiência operacional. E tem mais: 57% veem potencial para que agentes de IA criem novos produtos, serviços ou fontes de receita. Estamos falando de uma tecnologia que não apenas otimiza processos existentes, mas que pode abrir caminhos completamente novos para geração de valor.
Esse otimismo, no entanto, precisa vir acompanhado de infraestrutura capaz de suportar a demanda. Agentes de IA sofisticados exigem poder computacional significativo, acesso a dados em tempo real e integração com múltiplos sistemas. Sem uma base sólida de containers e ambientes híbridos bem configurados, o potencial dos agentes fica limitado a provas de conceito que nunca chegam à produção em escala.
Soberania de dados e o equilíbrio entre inovação e compliance
Outro tema que ganha destaque no Enterprise Cloud Index é a soberania de dados, que se tornou uma preocupação central para empresas que operam em múltiplas regiões e precisam cumprir legislações como a LGPD no Brasil, o GDPR na Europa e diversas outras regulamentações locais.
Os números falam por si: para 80% dos entrevistados, a soberania de dados é alta prioridade ao tomar decisões de infraestrutura, incluindo onde utilizar containers. Obrigações de compliance frequentemente levam organizações a manter dados fisicamente dentro do país onde foram coletados. Mais da metade dos entrevistados — 57% — sentem a necessidade de rodar sua infraestrutura dentro de um único país, seja on-premises ou por meio de uma região de nuvem local, principalmente por preocupações com segurança e proteção de dados.
Com a Inteligência Artificial processando volumes cada vez maiores de dados — muitos deles sensíveis —, garantir que essas informações permaneçam armazenadas e processadas nas jurisdições corretas é uma exigência que impacta diretamente as decisões de infraestrutura. A modernização da infraestrutura precisa considerar esse fator desde o início, e não como uma camada adicional adicionada tardiamente. Empresas que ignoram a soberania de dados ao projetar seus ambientes híbridos correm o risco de enfrentar multas, sanções e danos reputacionais que podem ser difíceis de reverter.
Na prática, isso significa que a escolha entre nuvem pública, nuvem privada ou ambientes on-premises não pode ser guiada apenas por custo ou desempenho. A localização dos dados, as políticas de acesso e a rastreabilidade das operações realizadas pela Inteligência Artificial precisam estar no centro da estratégia. Os containers ajudam bastante nesse contexto, porque permitem que workloads sejam movidos entre ambientes com relativa facilidade, desde que a orquestração esteja bem configurada. Mas a governança vai além da tecnologia: envolve processos, políticas internas e, acima de tudo, visibilidade.
A pesquisa indica que organizações com ambientes unificados — onde VMs e containers são gerenciados a partir de uma mesma plataforma — têm mais facilidade para implementar controles de soberania de dados sem comprometer a agilidade das equipes de desenvolvimento e ciência de dados.
A diretriz vem do topo, mas a infraestrutura ainda não acompanha
Talvez um dos dados mais reveladores do relatório seja a desconexão entre a ambição estratégica e a prontidão da infraestrutura. 59% dos entrevistados antecipam que suas organizações terão mais de cinco aplicações habilitadas por IA nos próximos três anos. A pressão para implantar IA vem diretamente das lideranças executivas, o que é compreensível dado o potencial competitivo dessa tecnologia.
No entanto, quando questionados sobre a capacidade de suas empresas de rodar workloads de IA on-premises, 82% consideram que sua infraestrutura atual não está totalmente preparada para dar esse suporte. Essa é uma lacuna significativa que reforça a urgência da modernização da infraestrutura. Não adianta ter uma estratégia ambiciosa de IA se o chão de fábrica tecnológico não consegue sustentar a operação.
Esse gap entre visão e execução é um dos maiores desafios para 2026 e os anos seguintes. Fechar essa lacuna exige investimento em containers, orquestração, ambientes híbridos e, principalmente, em pessoas e processos que consigam gerenciar essa complexidade de forma sustentável.
O que esperar daqui para frente
O grande desafio para 2026, segundo o relatório, é justamente encontrar o equilíbrio entre inovar com Inteligência Artificial e manter o compliance em dia. Empresas que conseguirem construir uma base de infraestrutura moderna, com containers bem orquestrados, políticas claras contra o Shadow IT e controles robustos de soberania de dados, estarão em posição privilegiada para escalar seus projetos de IA sem acumular riscos organizacionais.
Já aquelas que tratarem a modernização da infraestrutura como um projeto secundário, provavelmente vão descobrir que a distância entre ambição e execução só aumenta — e que o custo de corrigir o rumo depois é muito maior do que o de planejar corretamente desde o início.
A mensagem central do Enterprise Cloud Index de 2026 é clara: a IA não espera infraestrutura ficar pronta. As empresas que se movem agora, investindo na base certa e quebrando silos internos, são as que vão colher os resultados lá na frente. 🚀
