Briga de família em vinícola do Oregon vira escândalo judicial por uso de IA
Uma multa de quase 110 mil dólares foi o preço pago por advogados que tentaram usar inteligência artificial como atalho jurídico — e acabaram transformando uma briga de família em um dos casos mais emblemáticos do mau uso de IA nos tribunais americanos.
A história começa em uma vinícola no interior do Oregon, nos Estados Unidos, chamada Valley View Winery. Uma propriedade familiar de 80 acres, com décadas de história, vinhedos cuidadosamente alinhados entre duas montanhas e fotos em preto e branco nas paredes da sala de degustação que retratam o fundador, Frank Wisnovsky, passeando pelos campos com seus filhos pequenos. Mas por trás dessa imagem bucólica, havia uma disputa de herança que durava cinco anos e envolvia quatro irmãos.
O que ninguém esperava é que esse caso fosse parar nos noticiários por um motivo completamente diferente da briga familiar em si: citações jurídicas inventadas por um chatbot 🤖. O magistrado Mark D. Clarke, do Tribunal Distrital do Oregon, não poupou palavras. Ele descreveu o episódio como um caso notório, tanto em grau quanto em volume de alucinações de IA — com o tom ácido de quem compara a situação a um pinot noir que virou vinagre. Os litígios já eram intensos. Mas quando a inteligência artificial entrou em cena, a situação tomou um rumo que ninguém poderia prever — e as consequências foram históricas.
A Vinícola no Centro da Tempestade
A Valley View Winery não é apenas um negócio qualquer. Fundada em 1972 por Frank Wisnovsky, um engenheiro civil, e sua esposa Ann, uma ex-secretária, a propriedade nasceu do desejo do casal por uma mudança de vida e um lar permanente para criar os quatro filhos. O terreno fica em Ruch, no sul do Oregon, em uma área estabelecida pelo pioneiro Peter Britt na década de 1850, o que torna a vinícola uma das mais antigas do noroeste do Pacífico.
A tragédia chegou cedo. Apenas oito anos depois de fundar a vinícola, Frank faleceu subitamente. Ann Wisnovsky, no entanto, manteve o negócio funcionando como um legado para os filhos. O irmão mais velho, Robert, tocou a operação por alguns anos, mas seguiu em frente. A irmã mais velha, Joanne Couvrette, nunca voltou depois da faculdade. Foram os dois irmãos mais novos, Mark e Michael Wisnovsky, que se juntaram à mãe no dia a dia — cultivando uvas, vendendo vinhos, enquanto ela cuidava da contabilidade e assinava os cheques.
Em 2006, Ann deu aos filhos mais novos uma participação minoritária no negócio da vinícola. Dez anos depois, em 2016, ela assinou documentos concordando em transferir o restante do negócio para eles e, após sua morte, também a terra onde ficam os vinhedos. O arranjo anterior, que previa a divisão da propriedade entre todos os quatro irmãos, foi deixado de lado.
Foi aí que a situação começou a esquentar. Em 2019, Joanne Couvrette apresentou, junto com a mãe, um novo plano sucessório que destinava a vinícola para ela e Robert. Logo depois, Joanne transferiu Ann do Oregon para o sul da Califórnia, onde ela própria morava. Em 2021, Joanne processou Mark e Michael em nome do espólio da mãe, pedindo 12,6 milhões de dólares em danos e acusando os irmãos de terem manipulado a mãe nos acordos de herança anteriores. Os irmãos contra-atacaram no mesmo ano, acusando Joanne de tentar privá-los do patrimônio que lhes era de direito.
Ann Wisnovsky faleceu em 2023, sem ver a disputa resolvida.
O Advogado Gratuito e as Citações Fantasma
Joanne Couvrette contratou um advogado na Califórnia chamado Steve Brigandi, que aceitou representá-la gratuitamente. O motivo? A filha de Joanne estava namorando o filho de Brigandi, segundo uma mensagem de voz que Robert Wisnovsky deixou para o irmão Michael. Na mesma mensagem, Robert se gabou da vantagem financeira: Não estamos gastando um dólar comparado com o que vocês estão gastando. Desistam. Ganhem dinheiro e parem de perder.
O problema é que Joanne acabou recebendo exatamente aquilo pelo que pagou — ou seja, nada de qualidade. As citações jurídicas inventadas por inteligência artificial começaram a aparecer nos documentos do processo de forma crescente e alarmante:
- Janeiro de 2025: duas citações falsas em um documento apresentado ao tribunal.
- Abril de 2025: sete citações fictícias em uma nova petição.
- Maio de 2025: mais 16 referências jurídicas completamente inventadas — mesmo depois que os advogados da parte contrária já haviam alertado sobre as anteriores.
Uma das citações fabricadas fazia referência a um caso de homicídio qualificado que não tinha absolutamente nada a ver com contratos de vinícola ou recuperação de honorários. Era o tipo de absurdo que só uma máquina gerando texto sem compreensão real do contexto poderia produzir — e que só um humano desatento deixaria passar.
Para piorar, pouco antes do prazo final para a equipe de Joanne apresentar sua defesa, Brigandi foi internado às pressas no hospital. Quatro meses depois, seu médico explicou que o advogado sofria de uma doença renal grave que havia prejudicado significativamente sua capacidade cognitiva nos meses anteriores. O juiz Clarke, no entanto, não se comoveu. Ele escreveu que Brigandi deve ser responsabilizado, acrescentando que o tribunal não deu peso total à declaração médica por conta do atraso em sua apresentação.
Quando a IA Começa a Inventar Leis
O fenômeno conhecido como alucinação de inteligência artificial não é novidade para quem acompanha o setor de tecnologia. Modelos de linguagem de grande escala, os chamados LLMs, têm uma característica que pode ser extremamente perigosa em contextos técnicos: quando não encontram a resposta correta, eles simplesmente fabricam uma que parece plausível. No campo jurídico, isso se traduz em citações de casos que nunca existiram, referências a leis que foram distorcidas e precedentes completamente inventados — mas escritos com uma confiança tão convincente que passam facilmente por verídicos para quem não verifica.
Com tantos advogados e litigantes usando chatbots para acelerar o trabalho, os juízes americanos têm sido inundados com argumentos fictícios produzidos por ferramentas de IA. Um banco de dados online que rastreia repreensões judiciais por mau uso de IA, mantido pelo advogado francês Damien Charlotin, já cataloga mais de 1.300 casos — quase o triplo do número registrado apenas cinco meses antes.
O caso da vinícola Valley View Winery se destaca nesse universo por vários motivos: o peso da penalidade, a intensidade emocional dos detalhes familiares e o ridículo de algumas das citações fabricadas. Não estamos falando de um erro pontual ou de uma referência ligeiramente distorcida. Estamos falando de documentos inteiros sustentados por argumentos que simplesmente não existiam no mundo real.
Quem realmente escreveu os documentos?
Aqui o caso fica ainda mais complicado. O juiz Clarke mencionou haver evidências persuasivas de que a própria Joanne Couvrette teria redigido as petições problemáticas, e não seu advogado. Os documentos estavam repletos de citações irrelevantes, incluindo referências a casos de liberdade de expressão que não tinham nenhuma relação com a disputa pela vinícola.
Sandra Gustitus, uma das advogadas de Mark e Michael Wisnovsky, ofereceu uma teoria interessante sobre o que pode ter acontecido: O software de IA parecia estar aprendendo sobre ela e puxando pesquisas que ela havia feito em outro caso.
E isso faz sentido. Na mesma época, Joanne Couvrette havia sido demitida de seu emprego por se referir a manifestantes pró-Palestina como simpatizantes do terrorismo no Facebook, e depois alegou que sua demissão foi uma violação de seu direito à liberdade de expressão. É possível que o chatbot utilizado tenha misturado pesquisas de diferentes contextos, gerando aquele coquetel tóxico de referências desconexas que acabou nos autos do processo.
A Multa Recorde e Suas Implicações
A multa aplicada foi pesada e veio de diferentes frentes. O advogado Steve Brigandi foi penalizado em quase 100 mil dólares. Timothy Murphy, um advogado do Oregon contratado por Joanne para garantir que Brigandi seguisse as regras processuais locais, enfrenta mais de 14 mil dólares em multas por não ter participado de forma significativa no caso. Murphy admitiu que nunca lhe ocorreu que Brigandi pudesse estar apenas colocando seu nome em petições escritas pela própria cliente — mas parecia que era isso que estava acontecendo, disse ele.
Além das multas, o juiz tomou uma decisão ainda mais drástica: encerrou permanentemente o processo movido por Joanne contra seus irmãos. Ou seja, a tentativa dela de tomar a vinícola não apenas falhou — ela foi eliminada de forma definitiva por conta da conduta de sua equipe jurídica (e possivelmente dela mesma).
Segundo Damien Charlotin, o especialista que mantém o banco de dados de uso indevido de IA no judiciário, a penalidade monetária neste caso é provavelmente a maior já registrada. Ele ressalva que é difícil ter certeza absoluta, já que os valores das multas em alguns casos não são divulgados publicamente.
Curtis Glaccum, o novo advogado de Joanne, questionou a decisão do tribunal de puni-la pessoalmente. Se por qualquer razão alguém quiser participar ativamente de suas ações legais, ainda é o advogado quem está assinando o documento e apresentando ao tribunal, argumentou ele.
Normalmente, as punições por uso indevido de IA nos tribunais são modestas — um aviso, a anulação de uma petição, um treinamento de seis horas com a ordem dos advogados. Mas o caso Valley View Winery foi tratado como excepcional. O juiz Clarke deixou claro que a severidade da punição se justificava porque Joanne e seus advogados não foram transparentes, sinceros ou demonstraram arrependimento por sua conduta.
O Que Sobrou Para a Família
Agora, a Valley View Winery está nas mãos dos dois irmãos mais novos, Mark e Michael Wisnovsky. A operação produz cerca de 12 mil caixas de vinho por ano. Mesmo antes de acumular quase 1 milhão de dólares em custos legais, os irmãos não estavam exatamente nadando em lucro — ganhavam apenas o suficiente para pagar os salários de cerca de oito funcionários em tempo integral.
E a briga pode não ter acabado. Mark e Michael esperam que a irmã recorra da decisão de todas as formas possíveis. Como o próprio Mark observou: As pessoas costumam dizer: não acredito que é família. Eu diria que isso só poderia acontecer em uma família.
O Que Isso Significa Para o Futuro da IA no Direito
O setor jurídico é um dos mais promissores para a aplicação de inteligência artificial, e isso não vai mudar por conta de um escândalo isolado. Ferramentas de IA já são usadas com sucesso para análise de contratos, triagem de documentos, pesquisa de jurisprudência e até predição de resultados em determinados tipos de processos. O problema nunca foi a tecnologia em si — foi a forma como ela foi adotada nesse caso específico, sem critério, sem verificação e sem responsabilidade profissional.
O que o caso da vinícola no Oregon deixa como lição mais importante é que inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas que exige um operador igualmente competente. Delegar totalmente a um modelo de linguagem a responsabilidade por argumentos jurídicos que serão apresentados em tribunal é o equivalente a assinar um documento sem lê-lo. A tecnologia pode ser uma aliada extraordinária no preparo de litígios, mas a responsabilidade final — ética e legal — continua sendo humana, e sempre será.
O banco de dados mantido por Charlotin, com seus mais de 1.300 casos registrados e crescendo rapidamente, é um lembrete constante de que o problema está longe de ser resolvido. Cada novo caso que aparece reforça a necessidade de protocolos claros, treinamento adequado e, acima de tudo, verificação rigorosa de qualquer conteúdo gerado por IA antes que ele chegue às mãos de um juiz.
Nos próximos anos, é provável que tribunais ao redor do mundo comecem a adotar diretrizes mais claras sobre o uso de IA em processos judiciais. Alguns já estão nesse caminho. O que o episódio da Valley View Winery faz é acelerar essa discussão, colocar o tema na pauta com urgência real e lembrar que inovação tecnológica sem governança não é progresso — é risco. E quando esse risco envolve uma herança familiar, um negócio com mais de 50 anos de história, uma multa recorde e uma família que talvez nunca mais se reúna ao redor de uma mesa, fica muito difícil ignorar o tamanho do problema. 🍷
