IA generativa e o jornalismo: quem está processando e quem está fechando acordo?
A inteligência artificial generativa transformou o mercado de mídia global em um verdadeiro campo de batalha. De um lado, veículos jornalísticos entrando na Justiça contra empresas de tecnologia pelo uso não autorizado de seus conteúdos. Do outro, publishers fechando acordos milionários com essas mesmas empresas para licenciar o que produzem. Esse cenário de tensão entre quem cria conteúdo e quem treina modelos de IA não é exatamente novo, mas ganhou uma escala impressionante nos últimos meses, movimentando bilhões de dólares e redefinindo como o setor jornalístico se posiciona diante da tecnologia.
Desde o final de 2023, a OpenAI acumula mais de uma dúzia de processos judiciais movidos por organizações de mídia ao redor do mundo — e o Perplexity AI não fica muito atrás, com cerca de cinco ações em andamento. Ao mesmo tempo, acordos continuam sendo anunciados em ritmo acelerado, envolvendo grandes nomes como News Corp, Financial Times, Guardian e centenas de outras publicações. São dois caminhos opostos diante de um mesmo problema: o valor do conteúdo jornalístico na era da IA generativa ainda não tem preço definido — e todo mundo está tentando chegar lá primeiro. 🤔
O que está em jogo vai muito além de indenizações ou contratos. Esse embate vai moldar como o jornalismo digital vai funcionar nos próximos anos — e quem vai definir as regras desse jogo.
Os processos judiciais que colocaram a OpenAI no banco dos réus
O caso mais emblemático dessa guerra jurídica foi aberto pelo The New York Times em dezembro de 2023, quando o jornal entrou com uma ação contra a OpenAI e a Microsoft alegando que os modelos de inteligência artificial foram treinados com milhões de artigos publicados pelo veículo sem qualquer autorização ou compensação financeira. A ação pediu indenizações e a destruição de todos os modelos de linguagem treinados com o conteúdo do jornal. O NYT e a OpenAI tinham negociado por nove meses antes da abertura do processo, mas a publicação entendeu que nenhuma resolução estava caminhando e decidiu levar a questão à Justiça.
Na resposta, a OpenAI argumentou que ninguém usa o ChatGPT como substituto de uma assinatura do NYT e que o jornal teria pago alguém para hackear seus produtos, realizando dezenas de milhares de tentativas para gerar resultados em que parágrafos inteiros de artigos eram reproduzidos literalmente. Segundo a OpenAI, isso só foi possível explorando um bug específico e usando prompts que violavam os termos de uso da plataforma.
Logo depois, outros publishers seguiram o mesmo caminho. Oito jornais diários do grupo Alden Global Capital — incluindo o New York Daily News, Chicago Tribune, Denver Post e Orlando Sentinel — processaram a OpenAI e a Microsoft em abril de 2024. Em novembro de 2025, outros nove jornais regionais da mesma holding entraram com nova ação, buscando coletivamente mais de 10 bilhões de dólares em indenizações.
O Chicago Tribune também processou o Perplexity separadamente no final de 2025, acusando a empresa de copiar ilegalmente milhões de histórias, vídeos, imagens e outros conteúdos protegidos para alimentar seu mecanismo de respostas. A ação destacou que o Perplexity gera conteúdos idênticos ou substancialmente similares aos originais e que, quando não copia, produz alucinações — informações fabricadas falsamente atribuídas ao jornal.
Ações internacionais ganham força
O movimento não ficou restrito aos Estados Unidos. Na Dinamarca, a organização DPCMO entrou com processo contra a OpenAI em fevereiro de 2026, alegando que a empresa treinou seus modelos com conteúdo de publishers dinamarqueses sem dar a opção de recusar esse uso. Segundo a entidade, a OpenAI recusou negociações e não participou de mediações propostas pelo governo dinamarquês.
No Brasil, a Folha de S.Paulo processou a OpenAI em agosto de 2025, argumentando que a empresa acessa diariamente o site do jornal contornando mecanismos de proteção e distribui o conteúdo para seus usuários, tirando audiência do veículo. O jornal exigiu que a OpenAI pare de usar seu conteúdo sem autorização e destrua os modelos treinados com material protegido.
No Japão, o Yomiuri Shimbun, um dos maiores jornais do país, processou o Perplexity em agosto de 2025 pela aquisição não autorizada de mais de 119 mil artigos entre fevereiro e junho daquele ano. O veículo pediu indenização de cerca de 9,9 milhões de libras e compensação pela perda de receita publicitária, já que os usuários do Perplexity passaram a consumir resumos em vez de clicar nos links originais.
Na Índia, veículos como Indian Express, Hindustan Times e NDTV pediram para se juntar a um processo contra a OpenAI já em curso. E no Canadá, uma coalizão de grandes publishers incluindo CBC/Radio-Canada, Toronto Star, Globe and Mail e Postmedia entrou com ação coletiva em novembro de 2024, afirmando que a OpenAI regularmente viola direitos autorais e termos de uso ao raspar grandes volumes de conteúdo para desenvolver seus produtos. 😬
Perplexity sob pressão crescente
O Perplexity AI se tornou um alvo frequente de ações judiciais e ameaças legais. Além dos processos movidos pelo NYT, Chicago Tribune, News Corp e Yomiuri Shimbun, a Encyclopedia Britannica e o Merriam-Webster também processaram a empresa em setembro de 2025, alegando que o Perplexity se aproveita do conteúdo deles ao resumir artigos e redirecionar tráfego que iria para seus sites. As mesmas entidades abriram outra ação contra a OpenAI em março de 2026, com alegações semelhantes de cópia em massa e reprodução literal de conteúdo.
Até a BBC, embora sem ação formal, ameaçou processar o Perplexity ao apresentar evidências de que o modelo padrão da empresa foi treinado com conteúdo da emissora e que resultados de busca incluíam material literal e links recentes do site da BBC. Em resposta, o Perplexity chamou as alegações de manipuladoras e oportunistas.
O caso Penske contra o Google
Um processo especialmente relevante foi o da Penske Media Corp — dona do Hollywood Reporter, Variety, Deadline e Rolling Stone — contra o Google. Diferente das outras ações, essa não envolve treinamento de modelos: a Penske processou o Google pelo impacto dos AI Overviews nos resultados de busca, alegando que cerca de 20% das buscas que linkam para seus sites exibem resumos gerados por IA, reduzindo drasticamente os cliques. A empresa reportou queda de mais de um terço na receita de links afiliados em comparação com o final de 2024. É o primeiro processo de um publisher contra o Google especificamente sobre esse recurso de IA na busca.
Getty Images e o precedente frustrado
O caso da Getty Images contra a Stability AI no Reino Unido também merece destaque, embora com um resultado diferente do esperado. A Getty alegou que a Stability AI copiou e processou ilegalmente milhões de suas imagens para treinar o modelo Stable Diffusion. No entanto, o processo acabou sendo chamado de decepcionante após a Getty retirar a alegação relacionada ao treinamento durante o julgamento e o juiz decidir amplamente a favor da Stability AI. A Getty continua com o processo nos Estados Unidos.
O outro lado da moeda: acordos que movimentam bilhões
Enquanto parte da indústria jornalística aposta nos tribunais, outra parte decidiu sentar à mesa e negociar. A OpenAI tem sido especialmente ativa na construção de parcerias com grandes organizações de mídia, e os números são expressivos.
O acordo com a News Corp, que controla o Wall Street Journal, New York Post, The Times e The Sun, foi avaliado em mais de 250 milhões de dólares ao longo de cinco anos. Mais recentemente, a News Corp fechou outro contrato com a Meta no valor de até 50 milhões de dólares por ano durante pelo menos três anos, permitindo o uso de conteúdo de seus títulos nos Estados Unidos e no Reino Unido para ferramentas de IA do Facebook.
O Financial Times foi o primeiro grande veículo britânico a anunciar um acordo com a OpenAI, em abril de 2024. A parceria envolve conteúdo atualizado e material de arquivo, e o FT também assinou acordos com a Prorata.ai e se juntou ao programa piloto de IA do Google.
O Guardian fechou acordo com a OpenAI em fevereiro de 2025, garantindo compensação pelo uso de seu jornalismo no ChatGPT em resumos curtos e trechos de artigos com crédito adequado. O veículo também firmou parcerias com a Prorata.ai e é um dos publishers envolvidos no programa piloto do Google.
A explosão de acordos com múltiplas plataformas
A lista de publishers que assinaram acordos é extensa e continua crescendo. Veja alguns dos mais relevantes:
- Condé Nast (Vogue, Wired, GQ, Vanity Fair) fechou com a OpenAI em agosto de 2024 e também com a Amazon para o assistente de compras Rufus
- Time assinou com a OpenAI dando acesso ao seu arquivo de 101 anos e também participa do programa de compartilhamento de receitas do Perplexity
- Vox Media (The Verge, New York Magazine, Eater) firmou parceria estratégica com a OpenAI
- The Atlantic fechou acordo com a OpenAI e com a Prorata.ai
- Axel Springer (Politico, Business Insider, Bild) tem acordos tanto com a OpenAI quanto com a Microsoft
- Associated Press licenciou seu arquivo desde 1985 para a OpenAI e também tem acordo com o Google para fornecer informações em tempo real ao Gemini
- Hearst (Houston Chronicle, Esquire, Cosmopolitan) assinou com a OpenAI cobrindo mais de 20 revistas e 40 jornais nos EUA
- Reuters fechou acordo com a Meta para uso em tempo real no chatbot de IA e é parceira da Microsoft no Copilot
- Reach (Mirror, Express) assinou contrato com a Amazon baseado em uso para o modelo Nova AI e a Alexa
Até o New York Times, que lidera os processos contra a OpenAI, fechou seu primeiro acordo de licenciamento de IA — mas com a Amazon, em maio de 2025, por valores entre 20 e 25 milhões de dólares por ano. O acordo permite que a Amazon use resumos e trechos do conteúdo do NYT, do NYT Cooking e do The Athletic em produtos como a Alexa.
Prorata.ai e o modelo de compartilhamento de receita
Uma das abordagens mais interessantes vem da Prorata.ai, que desenvolveu um algoritmo proprietário para medir quanto do conteúdo de cada publisher é usado nas respostas geradas por IA e alocar compensação proporcional. Mais de 500 publicações já assinaram parcerias com a empresa, incluindo The Atlantic, Fortune, Time, The Guardian, Daily Mail e Sky News. A Prorata promete dividir 50% das receitas com os criadores de conteúdo. 📊
Google entra no jogo com uma abordagem diferente
O Google anunciou seu primeiro conjunto de acordos focados em IA com publishers em dezembro de 2025, mas com uma abordagem distinta: não são acordos de licenciamento. Em vez disso, são descritos como extensões de parcerias comerciais existentes, envolvendo pagamentos em dinheiro e direitos ampliados de exibição. Os publishers participantes incluem The Guardian, The Washington Post, Financial Times, Der Spiegel, El País e Folha. O programa piloto testa recursos como resumos de artigos gerados por IA nas páginas de publishers no Google News e briefings em áudio.
O que essa disputa revela sobre o futuro do conteúdo digital
A tensão entre processos judiciais e acordos não é apenas uma questão legal ou financeira — ela reflete uma transformação estrutural na forma como o valor da informação é percebido e distribuído na internet. Durante décadas, o modelo dominante foi o da publicidade digital: produz-se conteúdo, atrai-se audiência, vende-se espaço publicitário. A chegada da inteligência artificial generativa quebrou esse ciclo porque criou uma camada intermediária entre o conteúdo e o usuário final — uma camada que processa, resume e entrega a informação sem necessariamente levar o leitor até a fonte original.
Para a OpenAI e empresas similares, os acordos com publishers funcionam como uma espécie de seguro jurídico e reputacional. Negociar licenciamentos reduz o risco de processos, demonstra boa-fé perante reguladores e constrói uma base de dados de alta qualidade para o treinamento contínuo dos modelos. Conteúdo verificado e produzido por jornalistas profissionais tem um peso diferente no treinamento em comparação com textos aleatórios coletados da web aberta. Isso explica a disposição real dessas empresas para assinar contratos com valores significativos.
Parte da comunidade jornalística, no entanto, critica duramente os veículos que optaram por negociar. O argumento é que, ao licenciar conteúdo para sistemas de IA capazes de responder perguntas de forma direta e completa, os publishers estariam treinando seus próprios substitutos — sistemas que informam o público sem que o usuário precise visitar o site do veículo, reduzindo tráfego e receita publicitária.
Os valores oferecidos também geram debate. Reportagens indicaram que a OpenAI oferecia inicialmente entre 1 e 5 milhões de dólares por ano para publishers licenciarem seus conteúdos — valores considerados baixos por muitos veículos. O acordo com a News Corp, avaliado em mais de 250 milhões de dólares em cinco anos, ficou bem acima dessa faixa, sugerindo que o poder de barganha varia enormemente dependendo do tamanho e da relevância do publisher.
Quem está processando quem: o mapa completo
A lista de ações judiciais envolvendo publishers e empresas de IA é extensa. Entre os processos mais relevantes estão:
- Encyclopedia Britannica e Merriam-Webster contra OpenAI e Perplexity
- DPCMO (entidade dinamarquesa) contra OpenAI
- New York Times contra OpenAI, Microsoft e Perplexity
- Chicago Tribune contra Perplexity
- US News & World Report contra OpenAI
- Jornais do grupo Alden Global Capital contra OpenAI e Microsoft (dois processos separados)
- Penske Media Corp contra Google (AI Overviews)
- Folha de S.Paulo contra OpenAI
- Yomiuri Shimbun contra Perplexity
- Reddit contra Anthropic
- Ziff Davis (CNET, PCMag, IGN) contra OpenAI
- Membros da News/Media Alliance contra Cohere
- Publishers indianos contra OpenAI
- Coalizão canadense contra OpenAI
- News Corp contra Perplexity
- Mumsnet contra OpenAI
- Center for Investigative Reporting contra OpenAI e Microsoft
- The Intercept, Raw Story e AlterNet contra OpenAI
- Getty Images contra Stability AI
O cenário que está se formando
A definição de um preço justo para o conteúdo jornalístico na era da IA generativa é, hoje, uma das questões mais complexas e urgentes do ecossistema digital. Os processos judiciais em andamento podem estabelecer precedentes legais importantes, mas os tribunais tendem a ser lentos demais para acompanhar o ritmo acelerado do desenvolvimento tecnológico. Os acordos fechados voluntariamente criam benchmarks de mercado, mas variam enormemente em termos de valor e condições, tornando difícil qualquer padronização.
Há também iniciativas que tentam construir pontes entre os dois mundos. A OpenAI e a Microsoft destinaram 10 milhões de dólares ao Lenfest Institute for Journalism para financiar projetos de IA em redações locais nos Estados Unidos. A OpenAI também investiu 5 milhões de dólares no American Journalism Project e financiou a abertura de quatro novas redações locais da Axios. Esses movimentos sugerem que as empresas de IA reconhecem a necessidade de manter um ecossistema jornalístico saudável — seja por convicção, estratégia ou pressão regulatória.
O que parece certo é que os próximos dois a três anos serão decisivos para definir as regras desse jogo. Publishers que entenderem essa dinâmica com clareza — avaliando quando faz sentido negociar e quando faz sentido ir à Justiça — terão uma vantagem real nessa negociação. A inteligência artificial não vai embora, e o conteúdo jornalístico de qualidade continuará sendo indispensável para que esses modelos funcionem bem. A questão central permanece: quem vai capturar o valor gerado por essa relação? 🚀
