A corrida pela busca na web ganhou um novo capítulo, e desta vez quem dita as regras não são mais os humanos. Financiamento, tecnologia de ponta e uma visão completamente diferente sobre como a informação deve ser entregue estão no centro dessa história.
A Seltz é uma das startups que resolveu encarar esse desafio de frente, apostando que o Google e os motores de busca tradicionais simplesmente não foram feitos para o que está vindo por aí.
E o que está vindo são os agentes de IA 🤖
Esses agentes não funcionam como você ou eu quando jogamos uma pergunta no Google. Eles disparam consultas longas e precisas, e alguns desses agentes de pesquisa chegam a enviar dezenas ou centenas de consultas em paralelo, buscando informações estruturadas e prontas para serem processadas por uma máquina.
O problema é que a pesquisa na web como ela existe hoje foi construída para fazer humanos clicarem em links, não para alimentar sistemas de inteligência artificial com dados limpos e contextualizados.
É exatamente essa lacuna que a Seltz quer preencher, e ela acabou de levantar US$ 12,5 milhões em rodada seed para tirar essa ideia do papel. 💡
A rodada foi liderada pela firma de venture capital europeia Speedinvest e pelo investidor global B Capital, com participação do Italian Founders Fund, da United Ventures e da Future Back Ventures, o braço de investimento da Bain & Company. Não é todo dia que se vê um time desse calibre apostando numa tese tão específica.
O que a Seltz está construindo, afinal?
A proposta da Seltz pode parecer simples à primeira vista, mas esconde uma complexidade técnica bem relevante. A startup está desenvolvendo uma infraestrutura de pesquisa na web construída especificamente para ser consumida por agentes de IA, e não por olhos humanos.
Segundo Antonio Mallia, fundador e CEO da Seltz, os motores de busca tradicionais foram desenhados para pessoas que digitam consultas curtas baseadas em palavras-chave e depois passam o olho por uma lista de links ranqueados. Só que os agentes de IA trabalham de um jeito totalmente diferente.
Nas palavras dele em entrevista à Fortune: os métodos antigos de busca não funcionam porque foram arquitetados para humanos. Mallia explica que a informação que o agente de IA realmente precisa não está no resumo que aparece nos resultados. Ela está no corpo da página, em coisas como tabelas, imagens e outras formas de representação que podem ser úteis para um LLM ou para um agente.
Isso muda tudo. Quando um motor de busca tradicional retorna resultados, ele pensa em cliques, em tempo de permanência na página, em anúncios que precisam ser vistos. Só que um agente de inteligência artificial não clica, não assiste a um anúncio e não precisa de uma interface bonita para navegar pelos resultados.
O que um agente de IA precisa é diferente: respostas rápidas, dados bem estruturados, contexto suficiente para tomar decisões e a capacidade de processar múltiplas fontes ao mesmo tempo sem travar ou perder informações pelo caminho. A infraestrutura que a Seltz está desenvolvendo prioriza baixa latência, alta precisão na recuperação de dados e uma arquitetura que aguenta o volume absurdo de requisições que os agentes de IA modernos geram durante uma única tarefa complexa.
O diferencial: dono da pilha de busca inteira
O grande trunfo da Seltz, segundo Mallia, é que a empresa controla toda a pilha de busca: o rastreador da web, o índice de pesquisa, os modelos de recuperação e o ranqueamento. Ou seja, ela não está só colocando uma camada por cima do motor de busca de outra empresa.
Isso é mais importante do que parece. Muitos produtos de busca com IA são construídos em cima das APIs do Google, do Bing ou do Brave. Algumas empresas, como OpenAI e Perplexity, também teriam começado a construir seus próprios índices de pesquisa e a usar rastreadores próprios para coletar informações da web. Ainda assim, o Google é considerado dono do melhor índice, justamente porque sua escala gigantesca, com bilhões de usuários diários, permite enxergar muito mais da web do que qualquer rival.
O sistema da Seltz rastreia centenas de milhões de páginas por dia e devolve resultados em menos de 200 milissegundos. Em vez de sempre entregar uma página inteira ou um resumo, ele pontua passagens individuais e extrai a tabela, o texto ou a imagem específica que o agente realmente precisa. Mallia chama isso de context engineering, ou engenharia de contexto.
Quem é Antonio Mallia e por que ele entende do assunto
O fundador da Seltz não chegou nesse mercado por acaso. Mallia se preparou para esse momento durante boa parte da carreira. O doutorado dele em ciência da computação, na Universidade de Nova York, foi focado justamente em recuperação de informação. Depois disso, ele trabalhou como cientista aplicado no time de inteligência artificial geral da Amazon e como cientista de pesquisa na Pinecone, empresa especializada em bancos de dados vetoriais, antes de decidir fundar a Seltz.
Ele compara o momento atual com o início dos anos 2000, quando o PageRank do Google virou de cabeça para baixo o jeito como a busca funcionava. Para Mallia, a revolução está de volta, e desta vez é movida pelos modelos transformers e pelos fluxos de trabalho de IA que cada vez mais fazem a própria busca sozinhos.
Por que esse financiamento importa tanto?
O financiamento de US$ 12,5 milhões em rodada seed pode não parecer astronomicamente grande se você comparar com os bilhões que algumas empresas de inteligência artificial estão movimentando por aí. Mas o contexto importa muito aqui. Uma rodada seed nesse valor para uma startup que está atacando um problema de infraestrutura, que historicamente é mais difícil de monetizar no curto prazo, diz bastante sobre a confiança que os investidores estão depositando na visão da Seltz.
Infraestrutura é cara, leva tempo para escalar e exige engenharia de alto nível, mas quando dá certo, costuma se tornar algo praticamente insubstituível dentro de um ecossistema tecnológico. E o momento também não poderia ser mais oportuno. O mercado de agentes de IA está explodindo, com empresas como OpenAI, Anthropic e Google lançando ou aprimorando soluções de agentes autônomos que precisam acessar informações externas para funcionar bem.
Outro ponto interessante é como esse cenário expõe uma fragilidade dos grandes laboratórios. Em dezembro, o Google processou a SerpApi, um serviço que coletava resultados do próprio Google e que teria a OpenAI entre seus clientes, alegando que a empresa contornava suas proteções antirrobôs. Enquanto isso, Anthropic e Mistral teriam recorrido ao índice do Brave para alimentar a busca na web em seus chatbots. Mallia aponta esses arranjos como prova de que nem os maiores laboratórios construíram uma recuperação de informação web genuinamente independente, o que deixa espaço para uma alternativa feita sob medida.
Um campo cheio de concorrentes
Não dá para fingir que a Seltz está sozinha nessa jornada. Pelo contrário, ela está entrando num mercado disputado e com vários concorrentes mais bem financiados. A Parallel, fundada pelo ex-CEO do Twitter Parag Agrawal, levantou recentemente US$ 100 milhões com uma avaliação de US$ 2 bilhões. Outra empresa de busca nativa de IA, a Exa, captou US$ 85 milhões. E uma terceira, chamada Tavily, foi adquirida pela empresa de nuvem de IA Nebius por até US$ 400 milhões no início deste ano.
Mesmo assim, Mallia se diz confiante. Para ele, controlar toda a pilha de busca e construir um produto melhor vai acabar sendo o fator decisivo nessa briga. É uma aposta ousada, mas que faz sentido quando você olha para a estratégia da empresa de não depender de ninguém para entregar resultados.
Uma operação enxuta e global
A Seltz é uma operação bastante leve. Incorporada nos Estados Unidos e fundada em outubro do ano passado, a empresa emprega atualmente apenas 15 pessoas, sendo que só cerca de meia dúzia delas são funcionários em tempo integral. O time trabalha de forma totalmente remota e está dividido entre a região da Baía de São Francisco e polos próximos a universidades europeias em Pisa, na Itália, e Leipzig, na Alemanha.
Muitos integrantes da equipe têm doutorado em recuperação de informação, e Mallia recrutou outros veteranos dos esforços de IA da Amazon. Os conselheiros e investidores anjo da Seltz incluem executivos do Google, da Ramp, da Cohere, da Synthesia e da Databricks, além de acadêmicos de laboratórios de recuperação de informação da NYU e da Universidade de Glasgow. Não é um currículo qualquer.
Segundo a própria empresa, o financiamento captado será usado para continuar desenvolvendo a pilha de busca, contratar mais gente e iniciar um esforço de vendas voltado para empresas.
A busca na web nunca mais vai ser a mesma
A chegada dos agentes de IA como consumidores ativos de informação na web está forçando uma revisão completa de como pensamos sobre pesquisa e recuperação de dados. Durante décadas, a web foi construída em cima de uma premissa muito clara: humanos navegam, humanos leem, humanos clicam. Todo o modelo de negócio dos grandes motores de busca, toda a lógica de SEO, toda a arquitetura de entrega de conteúdo foi desenhada em torno dessa premissa. E agora, de repente, surge um novo tipo de usuário que quebra todas essas regras ao mesmo tempo.
Os agentes de IA não têm paciência para páginas lentas, não se importam com design bonito e não vão clicar em um anúncio. Eles querem a informação, querem agora e querem no formato que conseguem processar diretamente. Isso cria um choque enorme com a infraestrutura atual da web, que simplesmente não foi projetada para lidar com esse tipo de demanda em escala.
O que está acontecendo agora com a pesquisa na web lembra muito o que aconteceu com o armazenamento de dados quando o volume de informações começou a explodir. Surgiram novas arquiteturas, novos players e novas abordagens que substituíram soluções que antes pareciam sólidas e permanentes. A inteligência artificial, especialmente na forma de agentes autônomos, está criando uma pressão parecida sobre como a informação é indexada, recuperada e entregue.
E startups como a Seltz estão apostando que quem resolver esse problema primeiro vai ocupar uma posição central na infraestrutura da próxima geração da web. A disputa está só começando, e vai ser fascinante acompanhar quem vai sair na frente. 🚀
