O setor de defesa está passando por uma transformação silenciosa, mas profunda.
Enquanto o debate público se concentra em drones, mísseis hipersônicos e inteligência artificial dominando os céus, uma batalha completamente diferente está sendo travada bem abaixo dos nossos pés. O ambiente subterrâneo sempre foi tratado como um território secundário nas estratégias militares ocidentais, mas a realidade operacional dos últimos conflitos mostrou que ignorar o que acontece no subsolo pode custar caro, e isso está mudando a forma como governos e investidores enxergam o setor de defesa e inovação.
Mais de 10.000 instalações militares ao redor do mundo hoje existem no subsolo, e o Ocidente, apesar de dominar o espaço aéreo com uma precisão impressionante, ainda não tem uma resposta sólida para o que acontece metros abaixo da superfície. Esse vácuo estratégico não é novo, mas a urgência em resolvê-lo nunca foi tão evidente quanto agora, depois de conflitos recentes que escancararam como os túneis podem ser usados como infraestrutura logística, de combate e até de comando por grupos como o Hamas e o Hezbollah, que operam em zonas urbanas densas.
É exatamente nessa lacuna estratégica que surge a Traysar, uma das startups mais intrigantes que apareceram no radar de defesa nos últimos tempos. Fundada há cerca de um ano, com sede principal em Austin, no Texas, e uma subsidiária em Israel, a empresa está desenvolvendo sistemas pensados especificamente para operar dentro de túneis e estruturas subterrâneas, algo que vai desde desmantelar passagens usadas por grupos armados até perfurar o solo sem depender de ataques aéreos. 🚧 O timing da fundação não poderia ser mais revelador: a empresa nasceu em um momento em que o mundo inteiro assistia, em tempo real, às limitações das forças convencionais diante de redes subterrâneas sofisticadas.
E o que torna essa história ainda mais curiosa é quem está por trás dela. O cofundador Gilad Adin não tem trajetória em engenharia ou no mercado de defesa. Ele passou décadas na televisão israelense como âncora e jornalista respeitado, chegando a ser CEO do Canal 10 News, que mais tarde deu origem ao atual Canal 13. Agora, aos 60 anos, ele está na linha de frente de uma startup que já captou 25 milhões de dólares com um valuation acima de 100 milhões, e que despertou o interesse de instituições como o DARPA e o MAFAT, o braço de pesquisa e desenvolvimento do Ministério da Defesa de Israel.
Para muitos israelenses mais velhos, Adin é lembrado por ter dado o primeiro anúncio na emissora pública sobre o assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin. Já os mais jovens podem reconhecer sua voz pelos avisos do aeroporto Ben-Gurion pedindo que passageiros não deixem objetos sem vigilância. A trajetória dele é, por si só, um sinal dos tempos: o setor de defesa moderno já não é exclusivo de engenheiros e militares, ele atrai pessoas com visão estratégica e capacidade de comunicar problemas complexos para audiências diversas.
Quando meus amigos já estão pensando em aposentadoria, eu sinto que estou no começo do caminho, diz Adin. De certa forma, estou voltando ao início. Um homem nem tão jovem, com dois sócios na casa dos 30 anos, que pega o laptop pela manhã e caminha feliz para o trabalho.
A Tecnologia que Vai Fundo
O coração da proposta da Traysar está em desenvolver tecnologia capaz de atuar onde os sistemas convencionais simplesmente não chegam. Até agora, a empresa revelou dois sistemas principais, apresentados publicamente pela primeira vez durante uma grande conferência do setor em Detroit. Cada um deles ataca um lado diferente do mesmo problema: o que fazer quando o inimigo se esconde embaixo da terra.
O Mini D9 Autônomo para Túneis
O primeiro sistema é uma espécie de pequeno D9 autônomo, numa referência aos blindados escavadeiras usados pelas Forças de Defesa de Israel. A diferença é que essa versão foi miniaturizada para caber exatamente nas dimensões dos túneis usados por grupos como o Hamas e o Hezbollah. Controlado remotamente por cabo de fibra óptica, o veículo consegue avançar dentro da passagem, ultrapassar sacos de areia, explodir portas e minas, chegar até o final do túnel e então desmantelá-lo enquanto se move para trás.
O grande diferencial é a robustez. O equipamento foi projetado para absorver impactos e ultrapassar obstáculos, podendo inclusive perfurar pequenos furos em pontos táticos dentro do túnel e preenchê-los com explosivos que serão ativados posteriormente. Boa parte dessas ações repetitivas, como perfurar e inserir cargas, pode ser automatizada, bastando apertar um botão para que a máquina execute a tarefa sozinha. Isso é fundamental porque dentro de túneis a comunicação cai com frequência, e os componentes autônomos garantem que o veículo continue funcionando mesmo quando o sinal se perde. 🤖
A Perfuração que Substitui o Ataque Aéreo
O segundo sistema é bem diferente e talvez o mais ambicioso. Ele lembra uma ferramenta conhecida como HDD, sigla para perfuração direcional horizontal, já usada no mercado civil para passar infraestrutura como cabos de energia e comunicação por baixo do solo. Implantado a partir de um trailer de comando e controle no campo, esse equipamento permite atacar instalações enterradas sem recorrer a bombardeios aéreos.
A ideia por trás dele é fascinante e quase desafia a intuição. Como o próprio Adin explica, quando falamos em míssil superfície-superfície, estamos falando de um míssil que sai do solo e volta ao solo, mas não existe no mundo um míssil que se mova dentro da terra. É justamente esse o conceito que a Traysar está tentando concretizar: um sistema capaz de cavar seu próprio caminho rapidamente e explodir ao final, algo que nos Estados Unidos é descrito como munição penetradora não cinética.
O DARPA, agência de projetos de pesquisa avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, publicou recentemente um RFI, ou solicitação de informações, buscando propostas iniciais justamente para essa possibilidade de penetração não cinética contra alvos subterrâneos profundos. A lógica é clara: bombardear do ar pode não ser a forma mais eficiente de destruir instalações enterradas a grandes profundidades. E é exatamente esse o tipo de problema que a empresa diz ter nascido para resolver.
De Israel ao Vale do Silício da Defesa
A construção da Traysar é uma fusão interessante de mundos que raramente conversam. Em Israel, a empresa recrutou engenheiros que vieram de unidades especiais das Forças de Defesa, pessoas que combinam forte entendimento de engenharia com experiência prática real em campo. Nos Estados Unidos, a empresa buscou talentos vindos da SpaceX e da The Boring Company, a empresa de túneis de Elon Musk que constrói passagens subterrâneas para reduzir congestionamentos.
O desafio entregue a todos foi praticamente filosófico: derrotar as leis da física, porque mover-se dentro da crosta terrestre é genuinamente difícil. Para alinhar esses dois universos tão distintos, a empresa precisou criar literalmente um dicionário compartilhado, conectando a linguagem militar israelense, cheia de termos como assinatura logística e assinatura térmica, com a expertise civil americana em geologia e perfuração. Afinal, o comportamento do equipamento depende enormemente do tipo de solo, e a geologia do Texas é completamente diferente da encontrada em outras regiões.
Hoje a empresa conta com cerca de 20 funcionários, mais de 90% deles engenheiros, divididos entre Israel e os Estados Unidos. O comando é compartilhado entre os três fundadores: Yadin Sofer, genro de Adin e empreendedor em série, atua como CEO cuidando da captação de investimentos e da gestão financeira nos EUA. Asher Katz, reservista que serviu por um longo período no laboratório de detecção e identificação de túneis da Divisão de Gaza, gerencia a pesquisa e o desenvolvimento. Já Adin cuida da estratégia, marketing, vendas e dos laços com o Ministério da Defesa israelense.
Startups Reescrevendo as Regras da Defesa
A história da Traysar não existe no vácuo. Ela faz parte de um movimento mais amplo em que startups de base tecnológica estão redefinindo o que é possível no setor de defesa, especialmente em nichos que as grandes empresas do setor ignoraram por décadas. Empresas que nasceram fora dos corredores tradicionais da indústria já mostraram que é possível construir tecnologia militar de ponta com ciclos de desenvolvimento mais rápidos, estruturas mais enxutas e maior disposição para assumir riscos técnicos que as gigantes tradicionais jamais aceitariam facilmente.
Esse ecossistema de inovação em defesa está crescendo especialmente em torno de problemas que conflitos recentes trouxeram à tona de forma urgente. Os túneis são o exemplo perfeito disso. Durante décadas, a doutrina militar ocidental assumiu a superioridade aérea como variável constante, mas o ambiente subterrâneo simplesmente anula essa vantagem. Não existe avião ou drone que resolva o problema de uma rede de túneis construída a dezenas de metros de profundidade abaixo de uma cidade.
O que Adin descobriu ao estudar o tema foi uma realidade militar que migrou para o subsolo mais rápido do que o Ocidente conseguiu se preparar. Não são apenas Irã, Hamas e Hezbollah que foram para baixo da terra. Cartéis de drogas cavaram túneis transfronteiriços do México para os Estados Unidos. A China investe há anos em instalações subterrâneas. A Índia enfrenta túneis vindos do Paquistão, a Espanha lida com passagens vindas do Marrocos, e a Coreia do Sul descobriu túneis enormes preparados pela Coreia do Norte para uma eventual invasão.
O Contexto que Tornou Tudo Isso Necessário
Para entender por que uma empresa como a Traysar consegue tração tão rapidamente, é preciso olhar para o contexto que moldou os últimos anos. O ponto de virada na história da empresa foi o 7 de outubro. Foi nesse período que Adin recebeu a ligação do genro Yadin, que vivia em Nova York e procurava seu próximo grande projeto após um exit bem-sucedido. Junto com Asher Katz, que conheceram nos famosos jantares de sexta-feira para israelenses na casa do casal, os três começaram a desenhar a ideia de uma empresa voltada para combater os túneis usados em combate.
Curiosamente, eles não encontraram nenhuma outra empresa, nem em Israel nem no mundo, trabalhando especificamente nesse campo. E como costuma acontecer quando você chega a um lugar onde ninguém mais está, isso normalmente não é por acaso. O primeiro incentivo formal veio do MAFAT. Adin conta que, ao final da apresentação da equipe, houve um silêncio na sala, seguido por uma única frase de um dos chefes de departamento: finalmente temos alguém com quem conversar sobre o subsolo.
Esse cenário de urgência também aparece na própria gestão da empresa. Katz deixa claro que existe uma pressão real de tempo, pois a capacidade de Estados Unidos e Israel de neutralizar essas instalações pode alterar a capacidade de dissuasão do Ocidente e, na prática, a ordem mundial. A empresa já realizou testes tanto em instalações em Israel quanto em túneis reais em Gaza, em cooperação com o MAFAT, com a Yahalom, unidade de elite de engenharia de combate, e com o Corpo de Engenharia de Combate. 🌍
A Guerra do Futuro Pode Ser Subterrânea
Além de atacar e desmantelar, a Traysar também trabalha em proteção subterrânea, ou seja, mover sistemas críticos para baixo da terra de forma rápida e eficiente. Pode ser um posto de comando e controle ou até uma fazenda de servidores. Sofer conta que executivos do Pentágono têm perguntado repetidamente a fornecedores de data centers se é possível levar essas instalações para o subsolo, depois que bases americanas e grandes centros de dados foram atingidos por mísseis no Oriente Médio.
A crítica que cresce nos Estados Unidos é que parte da infraestrutura militar americana ainda está exposta, com treinamentos realizados sob tendas gigantes facilmente vulneráveis a drones. Quando se olha para a Ucrânia, fica evidente que esse tipo de exposição não sobrevive ao campo de batalha moderno. A percepção é de que o exército americano ainda treina para uma guerra que já não existe, e que esse treinamento também precisa migrar para o subsolo.
Para os fundadores da Traysar, o futuro pode parecer menos com as campanhas aéreas de alta tecnologia das últimas décadas e mais com um retorno a um tipo de guerra mais antigo e brutal. Sofer arrisca dizer que a guerra do futuro vai lembrar a Primeira Guerra Mundial, com o conflito na Ucrânia mostrando que tamanho e dinheiro não garantem superioridade no campo de batalha. A capacidade de se proteger e sobreviver ao longo do tempo é o que decidirá os próximos conflitos.
Adin vai ainda mais longe, recorrendo a uma frase atribuída a Albert Einstein, que dizia não saber com quais armas a Terceira Guerra Mundial seria travada, mas garantia que a Quarta seria com paus e pedras. A conclusão dele é direta: hoje já sabemos que a Terceira Guerra Mundial não será travada apenas no ar, no mar e em terra, mas também dentro da crosta terrestre. E a inovação que a Traysar representa pode ser apenas o começo de uma corrida tecnológica subterrânea que o mundo ainda está começando a entender. 🚀
