12/05/2026 14 minutos de leituraPor Rafael

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O que startups de EdTech estão aprendendo — e ensinando

O ano letivo mal terminou e várias startups de Minnesota já estão de olho no próximo ciclo escolar. Essas empresas de tecnologia educacional, ou EdTech, desenvolveram soluções pensadas para facilitar a vida de quem mais precisa: professores, alunos e famílias. Não é segredo que a rotina de um educador é puxada. Como observa o empreendedor Josh Thelemann, os professores trabalham antes de chegar à escola, trabalham depois do expediente, trabalham nos fins de semana. A missão dessas startups é justamente tirar parte desse peso das costas de quem já carrega demais.

E não estamos falando de promessas futuristas. São ferramentas já em uso em milhares de escolas, resolvendo problemas muito concretos — do vício em celular à saúde mental dos estudantes, passando pela burocracia de licenciamento profissional e até pelo custo absurdo do material escolar. O que essas quatro empresas têm em comum é uma filosofia simples: a tecnologia deve servir às pessoas, não o contrário. 👀

Por que a EdTech está ganhando tanta relevância agora

O mercado de tecnologia educacional vive um momento de expansão acelerada nos Estados Unidos. A pandemia abriu os olhos de gestores escolares, legisladores e famílias para o potencial — e para as limitações — do uso de tecnologia no ambiente escolar. Ferramentas que antes pareciam acessórias passaram a ser vistas como essenciais, e startups que já vinham desenvolvendo soluções encontraram um terreno mais receptivo para crescer.

Ao mesmo tempo, novos desafios surgiram. O uso excessivo de dispositivos móveis por estudantes virou pauta legislativa em mais de 40 estados americanos. A saúde mental dos jovens entrou no centro das discussões sobre educação. E a pressão financeira sobre as famílias só aumentou, com o custo do material escolar subindo 50% desde 2007, segundo dados citados pela startup Impacks. É nesse cenário cheio de dores reais que as startups de EdTech encontram espaço para oferecer soluções que realmente fazem diferença.

O estado de Minnesota, em particular, tem se destacado como um polo de inovação nessa área. Com uma combinação de universidades de ponta, cultura empreendedora e um sistema educacional que enfrenta os mesmos problemas de tantas outras regiões do país, o estado criou um ambiente propício para que empresas jovens testem, aprendam e escalem suas soluções. As quatro startups que você vai conhecer a seguir são exemplos claros dessa dinâmica.

The Commons — quando o celular deixa de ser vilão e vira ferramenta

Pergunte a qualquer professor qual é uma das maiores distrações em sala de aula e a resposta será quase unânime: o celular. Legisladores em mais de 40 estados americanos estão trabalhando para regulamentar o uso de dispositivos móveis durante o período escolar — Minnesota, inclusive, está entre os que consideram aprovar leis sobre o tema. Mas enquanto o debate legislativo avança, uma startup de St. Paul chamada The Commons já está oferecendo uma solução prática.

Fundada em 2025 por Shannon Godfrey e Julia Gustafson, a empresa nasceu da experiência de ambas com escolas que tentaram se tornar livres de celulares usando métodos físicos — bolsas com cadeado, racks, caixas de armazenamento. O problema, segundo Godfrey, é que essas abordagens até geravam um impacto imediato, mas não criavam uma mudança de comportamento duradoura. E Gustafson complementa com uma verdade que todo educador conhece bem: os professores não querem ser a polícia do celular.

A proposta do The Commons é diferente. Quando o estudante pisa no campus, o aplicativo da empresa é ativado automaticamente por meio de uma VPN de túnel único que, nas palavras de Gustafson, fecha todas as portas. O app bloqueia o acesso ao que ela chama de ruído mais alto nos telefones dos alunos — redes sociais, navegação na web, jogos e YouTube — durante o horário escolar. A escola, então, escolhe quais portas reabrir, liberando aplicativos educacionais como o Google Classroom, por exemplo.

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Se o aluno tentar burlar o sistema, um administrador é alertado imediatamente. Ao mesmo tempo, a privacidade do estudante é preservada. Godfrey faz questão de destacar que a plataforma não tem acesso a mensagens de texto ou histórico de navegação dos alunos. O foco não está em vigiar, mas em ensinar hábitos digitais mais saudáveis.

E é exatamente essa filosofia que diferencia o The Commons de soluções meramente restritivas. Como Godfrey explica, se os estudantes aprendem a largar o celular por conta própria, isso é fundamental não apenas na sala de aula, mas também no mercado de trabalho, nos fins de semana e no ensino superior. A ideia não é eliminar os telefones — é ensinar os alunos a utilizá-los de forma mais inteligente.

A startup começou com pilotos pagos em 10 escolas de quatro estados, incluindo a Hope Academy em Minneapolis, alcançando 7.700 estudantes. As parcerias foram intencionalmente diversificadas entre escolas públicas, privadas e charter, para que a empresa pudesse desenvolver boas práticas aplicáveis a diferentes contextos escolares. Para o ano letivo 2026-2027, o The Commons sai do modo piloto. A empresa já renovou suas parcerias existentes e trouxe novos distritos, incluindo localizações em três estados adicionais, projetando um total de 20.000 estudantes na plataforma.

Gwoop — jogos que treinam o cérebro e cuidam da saúde mental

A Gwoop tem uma das histórias de pivô mais interessantes entre as startups de EdTech de Minnesota. Fundada em 2020 em Minneapolis por Gavin Lee e Tony Dincau, a empresa começou como uma plataforma de treinamento digital para esports. A mudança de direção aconteceu cerca de quatro anos atrás, quando educadores começaram a perguntar se poderiam usar a Gwoop para se conectar com seus alunos. Hoje, cerca de 80% do negócio vem de estudantes a partir de 13 anos, e a plataforma está presente em mais de 15.000 escolas em todo o território americano.

O produto da Gwoop consiste em mini-jogos baseados na web, projetados para melhorar memória, foco e tempo de reação dos estudantes. Segundo Lee, essas são habilidades que impactam diretamente a forma como os alunos aprendem. Os estudantes podem entrar na plataforma por alguns minutos durante o período de estudo, o horário de homeroom ou qualquer intervalo disponível. A ideia é que, independentemente de a disciplina ser inglês ou STEM, os professores tenham uma ferramenta de engajamento que funcione de verdade.

Mas o que tornou a Gwoop ainda mais relevante foi uma descoberta que veio diretamente dos educadores: se o cérebro e o bem-estar do aluno não estão no lugar certo, o aprendizado simplesmente não acontece. Foi por isso que a empresa incorporou um check-in de saúde mental simples e rápido à plataforma. Os estudantes clicam em emojis que indicam se estão felizes, preocupados, estressados ou para baixo. Segundo Lee, muitos educadores consideram essa abordagem rápida mais eficaz do que aplicativos de saúde mental dedicados ou formulários em papel. As informações são compartilhadas com o professor e os pais caso o aluno precise de algum tipo de apoio.

O modelo de negócios da Gwoop é gratuito para professores que usam a plataforma com até 30 alunos. Escolas e distritos pagam para acesso mais amplo. A empresa também gera receita por meio de parcerias com marcas alinhadas a atividades saudáveis no mundo real. Um exemplo é a organização sem fins lucrativos Take Me Fishing, cujo jogo online na plataforma também incentiva a prática da pesca ao ar livre. A Gwoop ainda anunciou uma nova parceria com um grande esporte que lançará seus jogos no outono. A plataforma é construída com o motor de jogos Unity.

A frase de Lee resume bem a filosofia da empresa: somos uma empresa de tecnologia, mas usamos a tecnologia para influenciar comportamentos fora da tela. Mais de 90% das crianças jogam videogames, e uma grande parcela diz que essas experiências influenciam seus interesses na vida real. Em vez de lutar contra isso, a Gwoop abraça essa realidade. A visão da empresa é que o futuro da educação pertence a plataformas que consigam apoiar o estudante como um todo, não apenas entregar conteúdo. O objetivo não é aumentar o tempo de tela, mas tornar o tempo que os alunos já passam em frente a uma tela mais significativo.

Impacks — o material escolar ficou caro demais e essa startup quer resolver isso

Se você tem filhos em idade escolar, sabe que a lista de material não é mais aquela folhinha simples com meia dúzia de itens. O que 40 anos atrás eram cinco ou seis produtos cresceu para mais de 25, em média. E o custo acompanhou — os gastos com cadernos, lápis de cor, pastas e instrumentos de escrita aumentaram 50% desde 2007, segundo Clare Richards, CEO da Impacks. Para completar o cenário, dados da organização sem fins lucrativos Adopt a Classroom mostram que em 2025 os professores americanos gastaram, em média, 895 dólares do próprio bolso com materiais para seus alunos.

Clare e seu marido Brandon fundaram a Impacks em 2020, em St. Cloud, com o objetivo de oferecer uma abordagem mais fácil, acessível e tecnológica para a compra de material escolar. A inspiração veio dos tempos de faculdade, quando ambos trabalharam na Office Max e testemunharam de perto a frustração de pais ocupados tentando decifrar listas intermináveis de volta às aulas. Clare seguiu carreira em marketing em uma agência, enquanto Brandon foi para vendas em empresas de tecnologia e logística — experiências que se provaram fundamentais na construção da Impacks.

O produto principal da empresa é um kit de materiais escolares no modelo B2B2C, onde a escola funciona como o segundo B. Cada kit pode ser personalizado de acordo com a lista de cada escola, e a Impacks também customiza a página do portal e os materiais de marketing para cada instituição parceira. A participação no programa não tem custo para a escola, e não há pedidos mínimos nem taxas de frete. Os kits podem ser entregues tanto na escola quanto na casa da família. No momento do checkout, os pais são convidados — mas não obrigados — a fazer uma doação para apoiar outras escolas, doação que a Impacks complementa parcialmente.

A startup começou com quatro escolas da região de St. Cloud e algumas centenas de kits. Hoje, trabalha com mais de 310 escolas em 30 estados e projeta estar presente em 400 escolas no próximo ano letivo, com uma receita de 1,5 milhão de dólares registrada em 2025. A empresa mantém cerca de 220 SKUs em estoque, incluindo marcas como Elmers, Ticonderoga e Crayola. Apesar de ser uma operação pequena, a Impacks acredita que consegue oferecer preços mais competitivos e uma navegação mais simples do que grandes redes varejistas e outros portais online.

Mas o grande salto está por vir. Neste verão, a Impacks lançará uma opção de venda direta ao consumidor, e é aqui que a empresa vai mostrar seu lado de empresa de tecnologia, não apenas de varejo. A equipe desenvolveu uma tecnologia de análise de imagem com inteligência artificial que lê a lista de material escolar e automaticamente associa cada item aos SKUs disponíveis no sistema. Os pais poderão ver exatamente o que estava na lista da escola, traduzido direto para a tela, com a possibilidade de adicionar ou remover produtos do carrinho. O objetivo, como Richards descreve, é transformar um processo doloroso em algo que se resolve em questão de instantes. 🛒

Proserva — o sistema operacional da carreira do professor

A última startup da lista ataca um problema que raramente aparece nas manchetes, mas que consome uma quantidade enorme de tempo e energia dos educadores: o desenvolvimento profissional. A Proserva foi fundada em 2022 por Josh Thelemann, que antes de empreender trabalhava como intervencionista comportamental nas escolas públicas de Hopkins, em Minneapolis. Nessa função, ele viu de perto as dificuldades que professores e distritos enfrentavam para gerenciar certificações, workshops, cursos, webinários e todos os requisitos de renovação de licença.

Thelemann descreve a tecnologia da Proserva como uma plataforma completa de crescimento profissional para educadores — um verdadeiro sistema operacional para toda a jornada de carreira do professor. A plataforma acompanha o profissional desde a obtenção da licença, passando pelo desenvolvimento profissional contínuo até as renovações. Além de rastrear workshops e cursos, a Proserva captura atividades que também contam como crédito profissional, como coaching e mentoria entre pares. Uma vez que algo é concluído, a informação é automaticamente registrada no banco de evidências do professor e enviada ao comitê de renovação.

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Atualmente, a Proserva atende mais de 25.000 professores em 48 estados americanos, com uma equipe de oito funcionários baseada em Minneapolis. O sistema de gestão de aprendizagem da empresa é open source, o que significa que especialistas em diferentes áreas do conhecimento podem contribuir para o desenvolvimento da plataforma. Thelemann define o processo de construção do produto como um aprendizado febril com o cliente — uma busca constante por feedback de professores, administradores e agências estaduais. Ele costuma brincar durante demonstrações para líderes distritais dizendo que o que eles estão vendo é o que eles mesmos construíram, já que as ideias vêm diretamente de quem usa a ferramenta.

Uma das especialidades da Proserva é auxiliar pessoas a obterem suas licenças de ensino por meio de portfólio. Trata-se de um programa de Minnesota que permite que educadores conquistem sua licença por meio de um portfólio de evidências e experiências — como aprendizados práticos e estágios — em vez de completar um programa tradicional de formação, como bacharelado ou mestrado em educação. Um dos primeiros clientes da Proserva foi justamente o conselho estadual de licenciamento e padrões para educadores profissionais de Minnesota. Até o final de 2025, a empresa havia ajudado mais de 325 educadores no estado a obterem suas licenças por essa via.

E o crescimento não para. Neste mês, a Proserva recebeu um subsídio do National Institute for the Advancement of Education. Segundo Thelemann, essa parceria vai conectar a empresa com seis outros estados, incluindo Minnesota, para desenvolver um manual de referência sobre programas de aprendizagem e formação que permitam que mais profissionais obtenham suas licenças de ensino.

O que todas essas startups nos ensinam

Olhando para essas quatro empresas, um padrão fica claro: todas partiram de um problema real, vivido por pessoas reais dentro do sistema educacional. O The Commons nasceu da frustração de escolas que tentaram banir celulares sem sucesso. A Gwoop pivotou porque educadores pediram ajuda para engajar seus alunos. A Impacks surgiu da experiência direta com pais perdidos em corredores de papelaria. E a Proserva foi construída por alguém que vivia a burocracia do desenvolvimento profissional de professores todos os dias.

Nenhuma delas começou pela tecnologia. Todas começaram pela dor. A tecnologia entrou como ferramenta para resolver algo que já existia, não como uma solução em busca de um problema. E é exatamente isso que diferencia startups de EdTech que ganham tração daquelas que desaparecem depois da primeira rodada de investimento.

Outro ponto comum é o respeito pelo contexto. O The Commons preserva a privacidade dos alunos. A Gwoop não tenta aumentar o tempo de tela, mas melhorar a qualidade dele. A Impacks facilita a doação sem obrigar ninguém. A Proserva deixa que os próprios usuários moldem o produto. São decisões de design que refletem uma compreensão profunda de como a educação funciona na prática — e de como a tecnologia pode servir a esse ecossistema sem atropelá-lo.

O cenário da EdTech nos Estados Unidos está longe de estar maduro. Há muito espaço para inovação, muitas dores ainda sem solução e muita gente talentosa trabalhando para mudar a realidade de quem está dentro da sala de aula. Essas quatro startups de Minnesota são apenas uma amostra do que está acontecendo — e o movimento só tende a crescer conforme mais escolas, distritos e legisladores passem a enxergar a tecnologia educacional não como um luxo, mas como uma peça indispensável na transformação do ensino. 🚀

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