O Paddock da Fórmula 1 Virou a Sala de Reuniões Mais Disputada do Mundo Tech
Startups estão encontrando um lugar bem inusitado para fechar negócios: o paddock da Fórmula 1. Enquanto os carros cruzam a pista a mais de 300 km/h, fundadores, investidores e executivos de tecnologia trocam cartões, apertam mãos e, às vezes, fecham contratos milionários entre um coquetel e outro no calor da Flórida. O GP de Miami se tornou palco de algo que já vinha crescendo nos bastidores do esporte mais veloz do mundo: o paddock virou, na prática, uma das salas de reunião mais concorridas do universo de tecnologia e venture capital.
Não é exagero. Tem gente que nem assistiu à corrida — só foi pelos eventos paralelos. E tem investidor que trocou a Milken Conference, um dos encontros financeiros mais importantes do planeta, pela experiência de três dias de networking de altíssimo nível às margens da pista. Como disse o investidor Marell Evans ao TechCrunch: muita gente deixou a Milken de lado para estar no F1 Miami.
O que está acontecendo aqui vai muito além de patrocínio ou de empresas de tecnologia colando logotipo em carro de corrida. É uma mudança real na forma como negócios são construídos, acelerados e fechados — e a F1 virou o ambiente perfeito pra isso acontecer. 🏎️
O Paddock Como Novo Espaço de Negócios
Durante décadas, o paddock da Fórmula 1 foi território quase exclusivo de engenheiros, mecânicos, pilotos e patrocinadores tradicionais do setor automotivo. A dinâmica era clara: marcas pagavam fortunas para ter visibilidade nos carros e nas mídias, e o retorno era medido em audiência de TV e reconhecimento de marca. Mas esse modelo começou a mudar de forma acelerada nos últimos anos, especialmente após a série documental Drive to Survive, da Netflix, lançada em 2020, que transformou a F1 em fenômeno cultural global e atraiu um público completamente novo para o esporte — incluindo uma geração inteira de empreendedores, fundadores de startups e gestores de fundos de venture capital.
Hannan Happi, fundador da startup climática Exowatt, credita justamente a série da Netflix como um catalisador para o aumento do interesse do público. Mas, segundo ele, a presença forte da indústria de tecnologia é algo mais recente, concentrado nos últimos três ou quatro anos. Happi citou todas as grandes empresas de tech que entraram no esporte, incluindo marcas de cripto e inteligência artificial. Na visão dele, onde os patrocinadores vão, os executivos seguem.
O que o GP de Miami deixou evidente é que o paddock deixou de ser apenas um bastidor esportivo para se tornar um ecossistema vivo de negócios. Nos camarotes e áreas VIP ao redor da pista, a conversa raramente girava em torno de estratégia de corrida ou de quem estava liderando o campeonato. O papo era sobre rodadas de investimento, valuations, expansão de mercado, parcerias estratégicas e tecnologias emergentes. Fundadores de startups de inteligência artificial, healthtech, fintech e deeptech circulavam pelos mesmos espaços que executivos de fundos bilionários, e o ambiente informal criado pelo evento tornava as conversas muito mais fluidas do que qualquer reunião formal em escritório jamais conseguiria.
Como observou um fundador que frequenta o paddock desde que foi levado por uma firma de venture capital há dois anos: é um lugar quente para qualquer pessoa com acesso tentando fechar um negócio.
As Marcas de Tecnologia Dominam os Carros de Corrida
Um sinal literal de onde o dinheiro está pode ser visto nas próprias pinturas dos carros. As equipes de F1, que antes eram patrocinadas por gigantes do petróleo, tabaco, bancos e bebidas alcoólicas, abraçaram os novos gigantes da economia digital. Nesta temporada, os carros estampam logos de empresas de inteligência artificial, computação em nuvem e software corporativo — uma mudança visual que conta uma história econômica muito maior.
Nos últimos cinco anos, esse movimento ganhou proporções impressionantes. A Oracle se tornou patrocinadora principal da equipe Red Bull Racing. A equipe Mercedes-AMG PETRONAS firmou uma parceria plurianual com a Microsoft. A CoreWeave virou a parceira oficial de nuvem de IA da Aston Martin Aramco. A Anthropic começou a trabalhar com a Williams Racing. Palantir e IBM se associaram à Ferrari. A AWS passou a fornecer análises de dados para toda a F1. E marcas como o app de áudio ElevenLabs e a fintech Revolut se uniram à Audi.
Não para por aí. Algumas firmas de venture capital e private equity também detêm participações diretas em equipes. A Dorilton Capital adquiriu a Williams Racing em 2020. E a Alpine recebeu um investimento de 200 milhões de euros de um grupo que inclui a Otro Capital, a RedBird Capital Partners e a Maximum Effort Investments. O dinheiro de tech não está apenas patrocinando a F1 — está comprando pedaços dela. 💰
Startups e Investidores: A Nova Parceria nas Pistas
O ecossistema de startups sempre dependeu de relacionamentos. Não importa o quanto a tecnologia de uma empresa seja revolucionária — sem acesso às pessoas certas, sem o pitch no momento certo, sem aquela conversa que acontece fora do script, muitas empresas simplesmente não decolam. E é exatamente esse gap que o paddock da F1 tem preenchido com uma eficiência surpreendente.
No GP de Miami, o TechCrunch encontrou Josh Machiz, CMO da Lightspeed Ventures, que explicou que fundadores e executivos de diversas startups do portfólio da firma também estavam circulando pelo paddock. O objetivo era claro: fechar alguns negócios enterprise com outras startups e gigantes de tecnologia.
Embora o encontro com Machiz tenha acontecido no paddock da IBM, ele revelou que a Lightspeed tem um programa formal estabelecido com a entidade dona da Fórmula 1 para as três corridas realizadas em cidades americanas: Austin, Las Vegas e Miami. Como parte desse programa, Machiz trabalhou com a Aston Martin Aramco e outras equipes para apresentar fundadores da Lightspeed a essas organizações e aos seus clientes corporativos.
No paddock, CIOs e CISOs ficam ao lado de CEOs, e os espaços são pequenos o suficiente para que as pessoas realmente consigam conversar umas com as outras. A Aston Martin, assim como todas as equipes de F1, está ativamente procurando formas de usar a tecnologia mais recente e também quer conhecer os fundadores por trás dessas inovações.
Machiz se considera o primeiro a formalizar esse tipo de parceria e disse que a corrida de Miami trouxe 10 empresas do portfólio. E os resultados apareceram. Uma das empresas de blockchain da firma fechou um acordo de aperto de mão durante o fim de semana, e uma startup de infraestrutura de IA fechou mais dois. Duas dessas oportunidades vieram de apresentações feitas pela Aston Martin, enquanto a terceira surgiu por acaso.
Farooq Malik, fundador da Rain — uma empresa do portfólio da Lightspeed — confirmou que conseguiu fechar um negócio, conectar-se com outro potencial cliente e conhecer um fundador cujo produto ele tem interesse em usar como parte do ERP da Rain. Segundo Malik, esse modelo gerou interações muito mais orgânicas e produtivas. 🚀
Concentração de Compradores Enterprise em Um Só Lugar
A lógica por trás dessa movimentação é simples, mas poderosa. Eventos como a Milken Conference são importantes, mas têm uma estrutura muito formal: painéis, apresentações, agendas fechadas. O ritmo é corporativo, e o acesso às pessoas mais relevantes costuma ser filtrado por camadas de assistentes e protocolos.
O paddock da F1, por outro lado, coloca todo mundo no mesmo ambiente físico, com um contexto emocional muito mais intenso — a adrenalina da corrida, o som dos motores, a experiência sensorial intensa — e isso baixa as barreiras de uma forma que nenhuma sala de conferência consegue replicar.
Machiz, que antes trabalhava na Redpoint e entrou na Lightspeed poucos meses atrás, quis logo de cara desafiar a ideia do retiro tradicional de fundadores — aqueles eventos em que startups e seus investidores passam um tempo num lugar remoto conversando, colocando o papo em dia e, bom, às vezes morrendo de tédio.
Segundo ele, o pedido consistente dos fundadores sempre foi o mesmo: me ajude a conhecer mais compradores. Mais um fim de semana em Sonoma nunca ia resolver isso. Os feedbacks eram sempre que, embora fosse legal passar tempo juntos e conhecer personalidades do mundo tech ou palestrantes VIP, eles prefeririam estar construindo ou encontrando clientes.
Em vez de mais um retiro, Machiz levou o portfólio da Lightspeed para a F1. Afinal, como ele mesmo disse, é uma das maiores concentrações de compradores enterprise que existe em qualquer lugar do mundo.
Tecnologia Dentro e Fora da Pista
Seria impossível falar sobre a F1 como hub de tecnologia e negócios sem mencionar o que acontece dentro das próprias equipes. A Fórmula 1 é, por definição, um laboratório de tecnologia extrema. As equipes investem centenas de milhões de dólares por ano em pesquisa e desenvolvimento, e boa parte das inovações que surgem nesse ambiente acabam migrando para outros setores ao longo do tempo — de materiais compostos usados na indústria aeroespacial até sistemas de análise de dados em tempo real que hoje alimentam ferramentas de business intelligence usadas por empresas de todos os tamanhos.
A tecnologia sempre foi central para a F1, ajudando a impulsionar avanços em tecnologia de consumo e segurança automobilística. Olhar para frente é como as equipes se mantêm à frente. E hoje em dia, se uma startup como a Anthropic cresce o suficiente, a equipe pode até garantir um futuro patrocinador.
Evans, o investidor, reforçou esse ponto ao dizer que os grandes players do mercado financeiro gostam de ver como o mundo dos negócios deles se entrelaça com a tecnologia que essas equipes de corrida estão utilizando. Diferentes marcas já mostraram como estão usando IA para os pilotos e parte da tecnologia embarcada nos carros.
Além disso, startups estão usando a associação com a F1 como alavanca de credibilidade — tanto para investidores quanto para clientes. Ter seu produto ou serviço associado a uma equipe de F1, mesmo que de forma indireta, comunica uma mensagem poderosa sobre capacidade técnica, tolerância zero a falhas e cultura de alta performance. Isso tem um valor enorme no processo de captação de investimentos e na construção de reputação no mercado. ⚡
Todo Mundo Lá Dentro Tem Capital
A investidora Immpana Srri contou que foi a Miami especificamente para procurar negócios e observou que, nos últimos cinco anos, o evento se transformou em ponto de encontro para pessoas de tecnologia. Patrocinadores foram, investidores foram, fundadores foram. Agora é simplesmente onde as pessoas estão, resumiu ela.
Srri voou sozinha, encontrou alguns conhecidos por acaso, recebeu um convite para o paddock da McLaren e acabou participando de ativações de marcas que ela mesma chamou de miniconferência — onde encontrou operadores, alocadores de capital e fundadores de startups.
Na visão dela, o preço funciona como filtro. Quando você finalmente está lá dentro, a sala já fez a seleção por você. Todo mundo ali tem capital, deal flow ou o tipo de histórico que justifica gastar seis dígitos em um fim de semana. Assim como Machiz, ela também notou como os espaços são minúsculos — uma verdadeira panela de pressão de pessoas tentando discretamente se superar umas às outras nas conversas.
Ao longo do fim de semana, Srri ouviu pitches em áreas como defesa, bens de consumo e muito mais. Negócios são mostrados, nomes são mencionados, novidades são provocadas — tudo num ritmo frenético que combina perfeitamente com o espírito do próprio esporte.
F1 Como Espelho da Cultura Startup
Happi, o fundador da Exowatt, compartilhou que o ex-campeão de F1 e agora investidor Nico Rosberg passou pela sede da startup durante o fim de semana do Grande Prêmio de Miami para ver o que a equipe estava construindo. Segundo Happi, a F1 representa algo com que a tecnologia também se identifica: excelência em engenharia, iteração rápida e disposição para investir pesado para vencer.
A estética do esporte, ele continuou, combina com o mundo das startups. É internacional por natureza, e o fato de o evento durar alguns dias dá às pessoas tempo suficiente para amadurecer e fechar um negócio, se quiserem. A F1 é um esporte de luxo por natureza, e isso atrai um certo tipo de pessoa. Happi disse que já ouviu falar de negócios sendo fechados no helicóptero entre o hotel e o circuito.
E não deixa de ajudar, ele acrescentou, que Miami e Las Vegas — que de repente se tornaram duas das corridas mais importantes do calendário — são cidades divertidas e voltadas para o entretenimento. Evans, o investidor, complementou essa perspectiva dizendo que investidores estão cansados de ir a jantares e conferências. Eles querem vivenciar experiências reais — e por que não fazer isso no que ele chamou de empresa com crescimento mais acelerado do mundo agora, a F1?
Um Novo Modelo de Networking Para um Novo Tempo
O que o GP de Miami mostrou, de forma muito concreta, é que o modelo tradicional de networking corporativo está sendo substituído por algo mais experiencial, mais humano e, paradoxalmente, mais eficiente. Conferências formais ainda têm seu espaço e importância, mas a capacidade de criar conexões reais e duradouras em ambientes de alta intensidade emocional — como um Grande Prêmio de Fórmula 1 — está se provando superior em termos de qualidade das relações geradas.
Machiz disse que a experiência de Miami foi o pontapé do programa Lightspeed com a Aston Martin e que espera continuar ao longo da temporada, pelo menos nas corridas americanas — a última das quais será em Las Vegas, em novembro. Depois, ele quer expandir o programa internacionalmente e já está planejando levar um grupo pequeno de fundadores europeus do portfólio para Silverstone, na Inglaterra, ainda neste ano.
Nas palavras dele: em IA, distribuição é velocidade. As firmas que vencem são as que conseguem colocar fundadores na frente de compradores e dentro de negócios mais rápido do que qualquer outra.
Essa percepção está gerando um efeito de bola de neve. À medida que mais histórias de negócios fechados no paddock se tornam conhecidas no ecossistema, mais pessoas de alto nível passam a incluir as corridas de F1 em seus calendários de networking. Isso, por sua vez, aumenta ainda mais o valor do ambiente — porque o ativo principal de qualquer evento de networking é exatamente a qualidade e a densidade das pessoas presentes. E quando investidores de peso começam a preferir o paddock em detrimento de conferências tradicionais, o sinal que isso manda para o mercado é muito claro: a F1 não é mais apenas um esporte, é uma plataforma de negócios de altíssimo nível. 🤝
Para as startups que ainda não descobriram esse universo, o recado é direto: o acesso ao paddock ainda não é democrático, mas está se tornando mais diverso à medida que o ecossistema cresce. Programas formais como o da Lightspeed com a F1 e a Aston Martin, iniciativas de inovação aberta e parcerias com organizações do mundo de venture capital estão criando caminhos alternativos para que fundadores em diferentes estágios consigam se aproximar desse ambiente. O paddock está se abrindo — e quem entender cedo esse movimento pode sair na frente. 🏁
