Tim Cook fala sobre aposentadoria, inteligência artificial, vício em celular e política em entrevista ao vivo
Tim Cook deixou bem claro que não está nem pensando em pendurar as chuteiras. Em uma entrevista ao programa Good Morning America, o CEO da Apple conversou com o apresentador e membro do Hall da Fama do futebol americano Michael Strahan sobre alguns dos assuntos mais quentes do momento, e deu respostas diretas sobre rumores de aposentadoria, inteligência artificial, vício em celular e até sobre política e tarifas.
O bate-papo aconteceu na Wadleigh Secondary School for the Performing & Visual Arts, uma escola de artes cênicas e visuais em Harlem, Nova York, onde alunos usam tecnologia Apple por meio de uma parceria com a ONG Save the Music. Um cenário bem diferente das salas de reunião do Vale do Silício, mas que mostrou um lado mais humano do executivo.
E olha, o papo rendeu bastante 👀
Cook falou sobre seus 28 anos dentro da Apple, explicou como a empresa protege a privacidade dos usuários no universo da IA, deu sua visão sobre a relação entre tecnologia e comportamento humano e até comentou sobre sua posição em relação ao governo Trump e as tarifas comerciais. Nos próximos blocos, você vai entender melhor o que ele disse sobre cada um desses temas, e por que essas declarações importam muito além das páginas de tecnologia.
Aposentadoria? Nem pensar
Quando Michael Strahan perguntou diretamente sobre uma possível saída da Apple, Tim Cook foi bastante tranquilo na resposta, mas deixou claro que ainda tem muito chão pela frente. Cook, que completou 65 anos em novembro, disse que ama profundamente o que faz e que não existe verdade nos rumores de aposentadoria.
Na entrevista, ele foi categórico: Vinte e oito anos atrás, eu entrei na Apple, e amei cada dia desde então. Tivemos altos e baixos, mas as pessoas com quem trabalho são tão incríveis. Elas trazem o melhor de mim, e espero que eu possa trazer o melhor delas.
Para quem esperava um anúncio bombástico ou alguma pista sobre sucessão, a resposta foi quase decepcionante, no bom sentido, porque mostrou um líder ainda engajado e motivado com o próprio trabalho. Cook assumiu o cargo de CEO em 2011, treze anos após ter entrado na empresa vindo da Compaq, e desde então transformou a Apple em uma das empresas mais valiosas do mundo.
As especulações sobre a saída de Cook ganharam força em novembro do ano passado, quando o Financial Times publicou uma reportagem citando fontes anônimas que afirmavam que a Apple estaria se preparando para uma transição de liderança em breve. No entanto, Mark Gurman, da Bloomberg, um dos jornalistas mais respeitados quando o assunto é Apple, tratou de jogar água fria nessa história, dizendo que ficaria chocado se Cook deixasse o cargo no prazo sugerido pelo FT.
E os números reforçam por que Cook segue tão relevante à frente da empresa. Durante sua gestão como CEO, a receita da Apple quase quadruplicou, com a empresa lançando dezenas de novos modelos de iPhone, iPads atualizados, novas gerações do Apple Watch e dos AirPods. Só neste ano, a empresa já anunciou vários produtos novos e está se preparando para o que pode ser um de seus lançamentos mais ousados: o primeiro celular dobrável da Apple, que deve chegar ainda em 2025.
O ambiente da escola em Harlem ajudou muito a contextualizar essa energia. Ver jovens usando produtos Apple para criar, aprender e se expressar artisticamente claramente ainda move Cook. Ele interagiu com os alunos, demonstrou interesse genuíno pelo projeto com a Save the Music e usou aquele cenário para reforçar a ideia de que tecnologia bem aplicada pode mudar vidas. É o tipo de coisa que, segundo ele próprio, faz todo o trabalho valer a pena.
O recado sobre o uso excessivo de celular
A entrevista no Good Morning America foi curta, mas cobriu muitos assuntos. Um dos trechos mais interessantes foi quando o tema virou vício em celular. Cook não tentou esquivar e reconheceu que o uso excessivo de tecnologia é um problema real. Quando Strahan perguntou o que mais preocupa o CEO da Apple em relação ao impacto dos produtos da empresa na sociedade, a resposta foi bem direta.
Cook disse que não quer que as pessoas usem seus iPhones demais. Nas palavras dele: Eu não quero que as pessoas olhem mais para o smartphone do que para os olhos de outra pessoa, porque se elas estão apenas rolando infinitamente, essa não é a forma como você quer passar o seu dia. Saia e passe o tempo na natureza.
Esse tipo de declaração vindo do CEO de uma empresa que vende bilhões de iPhones por ano tem um peso considerável. Diversas pesquisas estimam que pessoas da maioria das gerações passam pelo menos 4 horas por dia no celular, enquanto millennials e a Geração Z chegam a gastar entre 5 e 6 horas diárias com a tela do smartphone. São números expressivos que mostram como o dispositivo se tornou parte central da rotina de praticamente todo mundo.
O que chama atenção nessa parte da conversa é a honestidade com que ele abordou o tema. Executivos de tecnologia costumam ser evasivos quando o assunto é o impacto negativo de seus produtos, mas Cook seguiu numa direção diferente. Ele falou sobre a importância de usar o celular de forma intencional, sobre criar momentos offline e sobre como a própria empresa tenta desenvolver recursos que incentivem pausas conscientes. A Apple oferece ferramentas como o Screen Time, que permite que usuários e pais monitorem e limitem o tempo de tela, como parte do compromisso da empresa em dar mais controle para quem usa seus dispositivos.
O contexto da escola em Harlem também ajudou a dar peso a essa conversa. Falar sobre vício em celular na presença de jovens estudantes, que convivem com esses desafios no dia a dia, deu um tom muito mais concreto ao assunto. Cook aproveitou o momento para reforçar que tecnologia precisa ser uma ferramenta a serviço das pessoas, e não o contrário. Uma visão que parece simples, mas que exige bastante coragem para ser dita em público por quem lidera uma das maiores empresas de tecnologia do planeta.
Inteligência artificial e privacidade: a estratégia da Apple
Um dos momentos mais importantes da entrevista foi quando Tim Cook comentou sobre inteligência artificial. Ele disse que a IA pode ser muito positiva, mas quando questionado se estava preocupado com a tecnologia, sua resposta foi equilibrada e pragmática.
Segundo Cook, a tecnologia não quer ser boa, e não quer ser má. Ela está nas mãos do usuário e nas mãos do inventor. Uma frase que resume bem a postura da Apple em relação ao tema: a empresa acredita que a responsabilidade sobre como a IA é usada precisa ser compartilhada entre quem cria e quem utiliza.
Strahan também quis saber quanto da vida privada dos usuários de iPhone alimenta a máquina de aprendizado de IA da Apple. A resposta de Cook foi técnica, mas acessível. Ele explicou que, como o smartphone é criptografado, a Apple não tem acesso direto ao conteúdo do dispositivo. E quando o aparelho não consegue responder a uma pergunta localmente, a solicitação é enviada para o que ele chamou de Private Cloud Compute, que nas palavras dele funciona como um grande dispositivo no céu que tem o mesmo tipo de segurança e arquitetura do seu telefone.
No site oficial, a Apple reforça essa mensagem afirmando que não utiliza dados pessoais privados dos usuários nem interações para treinar seus modelos de base. Essa postura ganha ainda mais peso num momento em que o debate sobre regulação de IA está esquentando em todo o mundo. Governos, especialistas e usuários estão cada vez mais atentos ao que as empresas de tecnologia fazem com os dados coletados.
A Apple está investindo menos que as rivais em IA?
Até agora, a Apple tem sido mais cautelosa na corrida da inteligência artificial em comparação com suas concorrentes. Enquanto Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft estão gastando juntas quase 700 bilhões de dólares em tecnologia de IA neste ano, a Apple está investindo algo em torno de 14 bilhões de dólares. Parece pouco perto dos rivais, mas essa estratégia pode ter um propósito muito claro.
A Apple tem historicamente apostado em entrar nos mercados depois de entender bem o cenário, em vez de sair na frente a qualquer custo. A empresa prefere lançar soluções mais polidas e integradas ao seu ecossistema do que competir por velocidade. Com o Apple Intelligence, a proposta é entregar funcionalidades de IA que funcionam de forma nativa e segura dentro dos dispositivos, sem depender de coleta massiva de dados. É uma aposta diferente, e muitos analistas acreditam que pode se pagar no longo prazo, principalmente se o cenário regulatório se tornar mais restritivo para modelos que dependem de dados de terceiros.
A Apple claramente quer estar do lado certo dessa conversa, e Cook parece entender muito bem que posicionar a empresa como guardiã da privacidade no universo da inteligência artificial é tanto uma decisão ética quanto uma vantagem competitiva enorme a longo prazo.
Política e tarifas: uma resposta calculada
A parte mais delicada da entrevista veio quando o assunto virou política e tarifas. Cook tem sido criticado por ter uma relação considerada muito próxima com o governo Trump. Entre os pontos levantados estão a doação de 1 milhão de dólares para a posse do presidente Donald Trump, a entrega de uma placa de ouro 24 quilates e a presença em uma exibição na Casa Branca do filme sobre Melania Trump.
Cook, no entanto, se definiu como alguém que não é político. Na entrevista, ele disse: Eu estou bem no meio, e me concentro em políticas públicas. Então, estou muito satisfeito que o presidente e a administração estejam acessíveis para conversar sobre políticas.
Um dos temas centrais nessa conversa foi justamente o impacto das tarifas comerciais. Trump tem imposto tarifas a diversas nações em diferentes graus durante seu segundo mandato, supostamente para pressionar empresas a trazerem suas fábricas de volta para os Estados Unidos. A Apple, que depende fortemente de sua cadeia de produção na Ásia, tem sido relativamente poupada nesse cenário. Em troca, a empresa prometeu investir 600 bilhões de dólares ao longo de quatro anos para ampliar a produção em solo americano.
Produção nos Estados Unidos: o que está por vir
Cook compartilhou detalhes concretos sobre os planos da Apple nos EUA. Ele revelou que o vidro usado na frente e na traseira do iPhone será produzido no estado de Kentucky até o final deste ano. Além disso, mencionou que 100 milhões de motores de chip serão fabricados no Arizona em 2025, e que 20 bilhões de semicondutores serão produzidos no país.
Para fechar esse assunto, Cook fez questão de reforçar o orgulho da empresa por suas raízes americanas: Somos uma empresa americana muito orgulhosa, e queremos fazer o máximo que pudermos aqui.
O que fica evidente nessa parte da entrevista é que Cook entende muito bem o jogo político e econômico em que a Apple está inserida. Ele sabe que declarações públicas do CEO de uma empresa desse porte têm peso e podem influenciar desde a percepção do mercado até as próprias negociações comerciais entre países. Por isso, cada palavra foi medida, mas sem parecer ensaiada. Um equilíbrio difícil de alcançar, e que diz muito sobre a experiência de quem passou quase três décadas navegando por esse tipo de ambiente.
O momento da Apple é de transformação
A entrevista de Tim Cook ao Good Morning America pode ter sido curta, mas disse muito sobre onde a Apple está e para onde pretende ir. A empresa celebra seus 50 anos em um momento de grandes mudanças no setor de tecnologia. Com um possível celular dobrável no horizonte, investimentos crescentes em inteligência artificial e uma estratégia de privacidade que se diferencia radicalmente das concorrentes, a Apple está jogando um jogo próprio.
Cook, aos 65 anos, segue firme no leme. Sem sinais de cansaço, sem planos de saída e com uma visão clara de que os próximos anos serão decisivos para o futuro da empresa. Para quem acompanha o mercado de tecnologia, essa entrevista serviu como um lembrete de que, apesar de toda a pressão externa, a Apple continua apostando em uma abordagem de longo prazo, onde privacidade, integração de ecossistema e cuidado com a experiência do usuário permanecem como pilares centrais.
E se depender de Tim Cook, essa história ainda tem muitos capítulos pela frente 🍎
