Reino Unido revela as primeiras startups contempladas pelo fundo soberano de IA de £500 milhões
A inteligência artificial virou questão de estado no Reino Unido. E dessa vez, não é só discurso.
O governo britânico acaba de revelar o primeiro grupo de empresas contempladas pelo UK Sovereign AI Fund, um fundo de £500 milhões criado para segurar talentos no país e fortalecer a infraestrutura de IA em solo britânico. O anúncio foi feito pelo Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia, o DSIT, e marca o início prático de uma estratégia que vinha sendo desenhada há meses.
Esse movimento faz parte de um programa ainda maior, de £2,5 bilhões, que une inteligência artificial e computação quântica numa aposta clara do governo de que tecnologia é, sim, uma pauta de segurança nacional. O fundo foi oficialmente anunciado pela chanceler Rachel Reeves durante sua March Mais Lecture e chegou com a promessa de transformar a relação entre o Estado britânico e o ecossistema de startups de IA do país.
O problema que o fundo tenta resolver não é novo. Startups britânicas têm histórico forte em pesquisa, mas tropeçam na hora de escalar. A falta de capital em estágio de crescimento na Europa faz muita gente atravessar o Atlântico em busca de dinheiro e infraestrutura. O fundo chega como uma tentativa concreta de mudar esse cenário, oferecendo desde equity até acesso a supercomputadores para quem está construindo o futuro da IA.
Mas quem foram os escolhidos? E será que o apoio chegou para quem realmente precisa? 🧵 A seguir, a gente destrincha tudo.
Por que o Reino Unido decidiu criar um fundo soberano para IA
A decisão de criar um fundo soberano voltado especificamente para inteligência artificial não surgiu do nada. O Reino Unido vinha observando, nos últimos anos, um padrão bastante preocupante: empresas nascidas em universidades britânicas de ponta, como Oxford e Cambridge, desenvolviam tecnologias revolucionárias, atraíam olhares do mundo inteiro e, na hora de crescer de verdade, acabavam sendo adquiridas por gigantes americanas ou simplesmente migravam seus centros de operação para o Vale do Silício. Esse fenômeno, conhecido informalmente como brain drain, drenou não só talentos, mas também propriedade intelectual que poderia ter gerado empregos e receita fiscal no próprio país.
O Reino Unido tem uma história riquíssima em pesquisa de IA. É a casa da DeepMind, por exemplo, e de empresas como a Wayve, que desenvolve carros autônomos alimentados por modelos de mundo para IA física. A base científica existe. O que faltava era capital e infraestrutura para que essas empresas conseguissem crescer sem precisar sair do país.
O contexto geopolítico também pesou bastante nessa equação. Com os Estados Unidos e a China correndo em ritmo acelerado para dominar a infraestrutura de IA global, ficou evidente para os formuladores de política britânicos que ficar de fora dessa corrida não era uma opção. Governos ao redor do mundo estão cada vez mais enxergando a inteligência artificial como um componente central de segurança nacional, e querem capacidade soberana dentro de suas próprias fronteiras, incluindo modelos de base e data centers. Nesse sentido, o UK Sovereign AI Fund não é apenas uma iniciativa econômica. É uma declaração política de que o governo entende o papel estrutural que a IA vai desempenhar nas próximas décadas, tanto na economia quanto na segurança nacional.
Além disso, o ecossistema europeu de venture capital ainda enfrenta dificuldades históricas para sustentar rodadas maiores de financiamento. Enquanto uma startup americana pode levantar uma Série B ou C sem sair do estado da Califórnia, uma empresa britânica frequentemente precisa aceitar termos desfavoráveis ou buscar investidores estrangeiros que, muitas vezes, exigem relocação como condição para o aporte. O fundo soberano surge justamente para preencher essa lacuna, funcionando como um ancorante de capital que permite às startups crescerem com autonomia e sem precisar abrir mão do controle para investidores externos.
Como funciona o modelo de apoio do fundo
Uma das coisas mais interessantes sobre o UK Sovereign AI Fund é que ele não opera de uma única forma. O modelo de apoio combina diferentes mecanismos, o que dá flexibilidade para atender empresas em estágios variados de maturidade.
Das sete empresas anunciadas nesse primeiro grupo, apenas uma, a Callosum, recebeu investimento direto em equity. O valor exato não foi divulgado. As outras seis ganharam acesso à rede de supercomputadores AI Research Resource, conhecida como AIRR. Pode parecer pouco, mas para startups que trabalham com modelos de IA de grande escala, acesso a computação é frequentemente o maior gargalo para avançar na pesquisa e no desenvolvimento de produtos.
Martell Hardenberg, sócio da Antler cujo portfólio inclui a Prima Mente, uma das empresas que recebeu acesso ao supercomputador, descreveu o benefício como algo transformador. Segundo ele, isso acelera diretamente o roadmap de pesquisa de empresas cuja principal limitação é justamente a falta de poder computacional.
O DSIT também informou que o fundo reservou um direito de primeira recusa em investimentos futuros para algumas das empresas selecionadas. Ou seja, quando essas startups forem levantar novas rodadas, o governo terá a opção de participar antes de qualquer outro investidor. Além disso, o departamento revelou que está em conversas com outras 30 empresas sobre possíveis acessos à AIRR, indicando que essa primeira leva é apenas o começo de um programa mais amplo.
O processo de seleção das sete empresas seguiu um formato aberto e competitivo, com avaliações baseadas em relevância estratégica, qualidade técnica, potencial de escala e necessidades concretas de computação.
As sete startups escolhidas e o que cada uma faz
O primeiro grupo de empresas contempladas pelo fundo cobre áreas que vão de modelos biológicos de base até IA para defesa nacional, passando por infraestrutura de inferência soberana, IA agêntica e biologia de engenharia. Vamos conhecer cada uma delas.
Callosum
Fundada em 2024 e sediada em Londres, a Callosum foi criada por dois neurocientistas de Cambridge, Danyal Akarca e Jascha Achterberg. A empresa já levantou US$ 10,3 milhões de investidores como Plural Platform, Bare Metal Ventures, Entrepreneurs First e investidores-anjo.
O que a Callosum faz é bem ambicioso: ela está construindo infraestrutura de IA que permite que diferentes modelos trabalhem juntos e funcionem em hardware variado. O objetivo final é tornar a inteligência artificial mais acessível, eficiente e barata. E ela é a única empresa desse primeiro grupo a receber investimento direto em equity do fundo soberano, o que diz bastante sobre como o governo enxerga o potencial dessa tecnologia.
Prima Mente
Fundada em 2023 e também baseada em Londres, a Prima Mente foi criada por Hannah Madan, Ravi Solanki e Jonathan Wan. Até agora, levantou US$ 1,4 milhão com investidores como Beyond Capital, Bluebirds Capital, Episode 1 Ventures, Antler e Octopus Ventures.
A empresa está na interseção entre IA e neurociência. Sua plataforma usa mapeamento genômico e modelagem biológica para detectar sinais precoces de doenças neurológicas. O objetivo é ajudar pesquisadores médicos e administradores de saúde a entender e tratar melhor condições cerebrais.
Doubleword
Também em Londres, a Doubleword foi fundada em 2021 por Meryem Arik, Jamie Dborin e Fergus Finn. É uma das mais capitalizadas do grupo, com US$ 26,9 milhões levantados de nomes como Dawn Capital, K5 Global, Atomico e Octopus Ventures.
A empresa desenvolveu uma plataforma para tornar a inferência de IA, que é basicamente o processo de colocar a inteligência artificial para funcionar na prática, mais barata. Ela permite deployment automatizado de modelos e monitoramento de performance em diferentes stacks de hardware, sem depender de um único fornecedor de nuvem.
Cosine
Fundada em 2022 em Londres, a Cosine é obra de Yang Li, Alistair Pullen e Sam Stenner. Com US$ 6 milhões captados de Gaingels, Lakestar e Multimodal Ventures, a empresa, que é apoiada pela Y Combinator, criou um agente de IA chamado Genie para substituir desenvolvedores de software em startups que querem manter equipes enxutas. O Genie resolve bugs, constrói funcionalidades e refatora código, entre outras capacidades.
Cursive
A mais nova do grupo, a Cursive foi fundada em 2025 em Londres por Olivier Henaff e Talfan Evans. A empresa ainda opera em modo stealth e tem o apoio da SuperSeed. O que se sabe até agora é que ela está desenvolvendo tecnologia generativa projetada para construir modelos de base e infraestrutura generativa. Detalhes sobre valores levantados não foram divulgados.
Odyssey
Aqui entra um detalhe curioso: a Odyssey foi fundada em 2023 por dois britânicos, Oliver Cameron e Jeff Hawke, mas está sediada em Menlo Park, na Califórnia. É a única empresa do grupo baseada fora de Londres. Ela já levantou US$ 27 milhões de nomes de peso como AWS Startups, DCVC, EQT Ventures, Samsung Next e NVentures, o braço de venture capital da Nvidia.
A Odyssey é uma empresa de pesquisa em IA que desenvolve modelos de mundo com aplicações que vão de robótica a jogos, educação a defesa. Seu time inclui contratações vindas da DeepMind, OpenAI, ByteDance, Tesla, Waymo, Meta, Wayve e Luma. A ambição declarada é criar um momento equivalente ao do ChatGPT no seu canto da IA.
Twig Bio
Fechando a lista, a Twig Bio foi fundada em 2022 em Londres por James Allen, Satnam Surae e Russell Tucker. Com US$ 3,79 milhões levantados de investidores como Creative Destruction Lab, FoodHack, Zero Carbon Capital, Future Planet Capital, Gaingels e Seedcamp, a empresa usa automação e IA para produzir bioprodutos sustentáveis, como ácido palmítico, isopreno e acetona. Seu sistema combina três componentes: uma ferramenta biológica que cria os ingredientes base, robôs que manuseiam e analisam bactérias, e IA que avalia os resultados e sugere melhorias.
A concentração em Londres e o debate sobre diversidade geográfica
Um ponto que já gerou discussão é a concentração geográfica das empresas selecionadas. Das sete startups anunciadas, seis estão baseadas em Londres e uma na Califórnia. Nenhuma representa outras regiões do Reino Unido.
Jamie Hardesty, que lidera o desenvolvimento do ecossistema de tecnologia no Sunderland Software City, no Nordeste da Inglaterra, apontou que conhece perto de 100 empresas nativas de IA na sua região. Para ele, existe uma responsabilidade compartilhada em reconhecer que a capacidade soberana não vem apenas da concentração na capital.
Outro dado relevante: de acordo com dados do PitchBook, apenas duas das sete empresas têm cofundadoras mulheres. São números que levantam perguntas legítimas sobre quem está sendo efetivamente alcançado por esse tipo de programa. Se o objetivo do fundo é realmente construir soberania tecnológica, garantir que o apoio chegue além de Londres e que a diversidade de perfis seja contemplada pode ser tão estratégico quanto escolher as tecnologias certas.
O que esse movimento significa para o futuro da IA no Reino Unido
O lançamento do UK Sovereign AI Fund e a divulgação do primeiro grupo de beneficiados são, antes de tudo, um sinal. Um sinal de que o governo britânico está disposto a usar o peso do Estado para competir num jogo que, até agora, parecia reservado a poucos países com bolsos muito mais fundos. O programa de £2,5 bilhões que engloba tanto inteligência artificial quanto computação quântica posiciona o Reino Unido como um dos poucos países europeus com uma estratégia nacional de tecnologia realmente integrada, onde diferentes camadas da inovação são tratadas como partes de um mesmo ecossistema.
Para as startups que estão de fora dessa primeira leva, o recado também é importante. O fundo deixou claro que há um processo seletivo com critérios definidos, e que novas rodadas de financiamento estão previstas. Isso cria um horizonte de planejamento que o ecossistema britânico precisava muito. Saber que existe uma fonte de capital soberano disponível para empresas que trabalham com infraestrutura de IA muda o cálculo de muitos fundadores na hora de decidir onde registrar sua empresa, onde contratar e onde escalar. É um diferencial competitivo real em relação a outros países europeus que ainda não têm uma iniciativa equivalente em escala e clareza.
Do ponto de vista global, esse tipo de iniciativa também pode servir de referência. Outros países europeus que enfrentam desafios semelhantes de retenção de talentos e falta de capital de crescimento podem olhar para o modelo britânico como um ponto de partida para suas próprias estratégias. A combinação de investimento direto, acesso a infraestrutura computacional e direitos de primeira recusa em rodadas futuras cria um pacote bastante atrativo para fundadores que estão avaliando suas opções.
Claro que desafios existem. Fundos soberanos têm histórico misto quando o assunto é agilidade e capacidade de acompanhar o ritmo acelerado do setor de tecnologia. Processos burocráticos, critérios de elegibilidade rígidos demais ou governança pouco transparente podem transformar uma boa ideia em mais um programa governamental que promete mais do que entrega. O setor vai acompanhar de perto se o UK Sovereign AI Fund consegue manter a velocidade que o mercado de inteligência artificial exige, especialmente num momento em que novos modelos, novas arquiteturas e novas aplicações aparecem praticamente toda semana. O potencial está lá. Agora é execução. 🚀
