A Verizon acaba de dar um passo que poucos esperavam ver tão cedo no setor de telecomunicações.
A operadora americana colocou o Claude Code, ferramenta de codificação agêntica da Anthropic, nas mãos de 33 mil funcionários da área de tecnologia, transformando praticamente todo esse time em desenvolvedores de software do dia para a noite.
E não para por aí.
Enquanto isso acontece internamente, IA agentes já estão rodando na rede da Verizon 24 horas por dia, 7 dias por semana, detectando falhas, resolvendo problemas e fazendo mudanças de configuração de forma autônoma, tudo isso sem precisar que um humano aperte um botão.
O objetivo é ambicioso: alcançar o nível 4 de automação de rede, o mais alto da escala definida pelo TM Forum, onde decisões e ações acontecem em loops fechados, sem intervenção humana direta na execução.
Mas calma, os humanos não estão sendo deixados de lado nessa história. 😉
O que está mudando é o papel deles dentro desse novo modelo, e entender essa diferença é essencial para compreender o que a Verizon está construindo de verdade.
Neste artigo você vai ver como tudo isso se conecta, desde a democratização do desenvolvimento de software até a visão da operadora para o Open RAN e o 6G.
Claude Code nas mãos de 33 mil pessoas: o que isso muda na prática
Distribuir uma ferramenta de codificação agêntica para dezenas de milhares de funcionários não é uma decisão pequena, e a Verizon claramente não tomou isso de forma leviana. O começo foi modesto: em janeiro, menos de 500 funcionários usavam a ferramenta da Anthropic para desenvolver aplicações voltadas ao cliente. Foi quando Yago Tenorio, CTO da Verizon, percebeu que o potencial ia muito além disso. Em apenas seis semanas, o acesso foi liberado para todo o time de tecnologia.
O Claude Code funciona de um jeito diferente do que a maioria das pessoas imagina quando ouve falar em assistente de programação. Ele não apenas sugere linhas de código como um autocomplete glorificado. Ele age, executa, testa e itera de forma autônoma dentro de um ambiente controlado, funcionando como um agente que consegue pegar uma tarefa e levá-la até a conclusão. Tenorio resumiu bem essa mudança ao contar ao Light Reading que, cerca de uma década atrás, havia um sonho entre as operadoras de que todos pudessem ser desenvolvedores de software. Era difícil na época, mas agora, segundo ele, você pode imaginar, e o Claude consegue codificar para você.
O impacto mais imediato dessa decisão é a democratização do desenvolvimento de software dentro da empresa. Engenheiros de redes, analistas de sistemas, especialistas em infraestrutura e outros profissionais que nunca escreveram uma linha de código na vida agora conseguem construir scripts, automatizar tarefas repetitivas e criar aplicações internas usando linguagem natural para instruir o Claude Code. Tenorio descreveu o uso como abrangendo praticamente tudo: engenharia, modelagem, planejamento de capacidade, alocação de capital, previsões e automação. A ideia central, nas palavras dele, é transformar a expertise da equipe em software e remover complexidade ao desenvolver uma camada de abstração sobre o sistema operacional.
Mas o que acontece quando dezenas de milhares de pessoas começam a desenvolver software por conta própria? Não soa um pouco caótico? Tenorio reconhece a questão, mas chama isso de um bom problema. Segundo ele, de repente você transforma cada pessoa em um departamento de TI paralelo, e isso é um problema muito mais agradável do que conviver com a complexidade e os gargalos do desenvolvimento de software tradicional. Ele destacou ainda que as pessoas têm sido muito disciplinadas e que a operadora mantém barreiras de segurança claras e bem definidas para evitar que essa liberdade vire bagunça.
Vale notar que a Verizon não está casada com uma única ferramenta. A empresa também utiliza o Gemini, a solução de codificação do Google, e se mantém aberta a outras opções que possam surgir no mercado. Essa flexibilidade mostra uma estratégia madura, focada em resultados e não em fidelidade cega a um único fornecedor.
Da estratégia de Dan Schulman ao conceito de empresa AI-native
Toda essa transformação ganhou força a partir da chegada de Dan Schulman ao comando da operadora, em outubro do ano passado. O CEO está em uma missão clara: transformar a Verizon não apenas em uma empresa AI-first, mas em algo ainda mais profundo, uma empresa AI-native, onde a inteligência artificial não é um acessório, mas parte do tecido fundamental de como tudo funciona.
O uso massivo do Claude Code entre o time técnico é uma das faces mais visíveis dessa virada. Tenorio explicou que, desde a chegada de Schulman, a empresa passou a girar em torno de encantar o cliente, e que o trabalho em rede autônoma se encaixa perfeitamente nessa filosofia de colocar o consumidor no centro de tudo. Nas palavras dele, essa história contribui diretamente para a construção da nova Verizon.
IA agentes rodando na rede: como funciona a automação autônoma
Enquanto o Claude Code atua no lado do desenvolvimento, outra camada de IA agentes já está operando diretamente na infraestrutura de rede da Verizon, e essa parte da história é talvez ainda mais impressionante. Esses agentes monitoram continuamente o comportamento da rede, identificam anomalias e, quando detectam algo errado, conseguem criar subagentes para localizar exatamente qual domínio ou elemento da rede está causando o problema. O resultado prático é que a operadora consegue identificar e resolver falhas em menos de dois minutos.
Os números impressionam. No ano passado, a Verizon realizou mais de 70 milhões de mudanças de configuração de rede de forma autônoma por meio de suas plataformas de automação em loop fechado. Esse conceito é central para entender o nível de automação de rede que a empresa persegue. Em sistemas tradicionais, um alarme é gerado, um analista é notificado, ele analisa o problema, consulta um manual, executa os comandos e documenta a ação. Todo esse ciclo pode levar de minutos a horas. Em um loop fechado verdadeiro, o agente de IA detecta, analisa, decide, age e documenta, tudo em segundos, sem que nenhum humano precise estar presente durante a execução.
Tenorio afirmou que a operadora está implantando esses loops automatizados de forma lenta, porém segura, usando cada vez mais tokens a cada etapa. A meta é alcançar o nível 4 de automação de rede em um futuro próximo, abrangendo todos os domínios e casos de uso, conforme definido pelo TM Forum. Atualmente, a empresa trabalha para superar os níveis 2 e 3, classificados como autonomia condicional, e avançar rumo ao patamar mais alto da escala.
As duas peças que tornam tudo isso possível
Dois elementos sustentam essa estrutura. O primeiro é o que a Verizon chama de camada comum de dados, que reúne telemetria quase em tempo real sobre o desempenho da rede. Esse sistema oferece uma visão tão granular da experiência do cliente que chega a detalhar o que acontece andar por andar dentro de prédios. O segundo é um conjunto comum de habilidades, ferramentas e agentes. Tenorio explicou que a ideia é transferir o conhecimento e a expertise humana para habilidades e ferramentas que os agentes possam usar, permitindo que os aprendizados sejam compartilhados por toda a organização.
Com essas duas peças no lugar, implantar agentes sobre os diferentes domínios da rede se torna algo simples, porque os agentes são conectados à rede por meio do desenvolvimento de software específico para isso. E é exatamente aí que o uso massivo do Claude Code se conecta diretamente à ambição da operadora por redes autônomas.
Os humanos continuam no comando
Atingir o nível 4 de automação significa que decisões e ações em loop fechado, antes feitas por pessoas, passam a ser executadas pelos sistemas. Mas isso não quer dizer que os humanos deixarão de ser necessários. Pelo contrário. Segundo Tenorio, mesmo quando os agentes tomam decisões de forma autônoma, sempre haverá um humano garantindo que o resultado seja o correto.
Ele foi enfático ao definir o novo papel das pessoas nesse cenário. Os humanos são os donos dos agentes, definem as barreiras de segurança, os escopos e os frameworks, e, mais importante, são a fonte que treina os agentes com habilidades. Nas palavras dele, sempre existirão humanos, mas a função deles muda. Em vez de executar tarefas mecânicas e repetitivas, eles passam a criar, ensinar e treinar agentes. A rede autônoma tira o ser humano do loop de execução e cria um loop diferente, muito melhor.
Essa visão derruba a narrativa simplista de que a automação de rede baseada em IA elimina empregos. O que muda não é a necessidade de pessoas, mas a natureza do trabalho. Engenheiros deixam de passar o turno respondendo a alarmes e passam a trabalhar na definição de políticas, na curadoria dos modelos de IA e na antecipação de problemas estruturais que os agentes ainda não conseguem identificar sozinhos.
Open RAN, 6G e o papel estratégico da IA nessa equação
Existe um fio condutor que conecta toda essa movimentação ao posicionamento de longo prazo da Verizon, e ele passa diretamente pelo Open RAN. À primeira vista, ligar agentes de IA à automação de rede com a necessidade de Open RAN na futura arquitetura 6G pode parecer um exagero. Mas Tenorio conecta os pontos de forma clara: interfaces abertas permitem implantar redes autônomas e interconectar sistemas inteligentes em cima delas. Independentemente de quais modelos de linguagem venham a ser usados, o que realmente importa é ter interfaces padronizadas para sustentar aplicações agênticas que possam ser implantadas na rede de rádio.
Isso se torna fundamental para o que a Verizon chama de agentes de IA com consciência de contexto, que a operadora imagina rodando sobre as redes móveis do futuro. A ideia é que agentes ou sistemas de agentes estejam permanentemente cientes do ambiente ao redor e recebendo dados sem que o usuário precise alimentar manualmente o sistema.
Tenorio deu um exemplo bem pessoal e curioso. Ele construiu o próprio treinador de corrida usando a tecnologia da Anthropic e disse que nunca treinou tão bem, embora ainda precise enviar manualmente os dados de cada corrida. No futuro, ele imagina correr usando algum tipo de wearable que estará ciente do seu ritmo e da sua técnica de corrida, oferecendo orientações em tempo real. Esse tipo de aplicação, que alimenta dados de volta para a rede o tempo todo, pressionaria a capacidade de uplink e exigiria um gerenciamento de tráfego muito mais dinâmico, possível apenas com automação de rede avançada.
Embora o Open RAN não seja necessário para a automação de rede em si, ele é uma fundação arquitetônica inegociável para a visão de 6G da Verizon. Atualmente, quase metade da rede de acesso de rádio da operadora é baseada em Open RAN, fornecida pela Samsung rodando sobre hardware x86 da Intel, enquanto o restante, fornecido pela Ericsson, não é. Tenorio destacou a importância de o Open RAN amadurecer entre os diversos fornecedores antes da chegada do 6G, para que o hardware genérico de prateleira possa também sustentar essa nova geração. Ele chegou a mencionar que o poder de processamento do Granite Rapids, da Intel, deve ser suficiente para alimentar os primeiros anos do 6G.
O que esse movimento revela sobre o futuro das telecomunicações
A movimentação da Verizon não acontece num vácuo. Ela reflete uma transformação mais ampla em todo o setor de telecomunicações global, onde as operadoras deixam de ser apenas provedoras de conectividade e passam a se posicionar como empresas de tecnologia com capacidades avançadas de IA agentes e automação. Esse reposicionamento tem impacto direto na competitividade, nos custos operacionais e na agilidade para lançar novos serviços. Empresas que dominarem essa transição mais cedo terão uma vantagem estrutural significativa.
O fato de a Verizon ter escolhido o Claude Code da Anthropic como ferramenta central nessa jornada também diz muito sobre a maturidade que as ferramentas de IA agentes atingiram. Há dois anos, distribuir uma ferramenta de codificação agêntica para dezenas de milhares de funcionários seria considerado um experimento de alto risco. Hoje, é uma decisão estratégica de negócio com métricas claras de produtividade e retorno. Esse salto de percepção é um indicador poderoso de onde estamos na curva de adoção da IA em ambientes empresariais de grande escala.
O que fica claro ao analisar tudo isso é que a automação de rede com IA não é mais uma promessa futura para a Verizon. É uma realidade operacional em expansão, com agentes já trabalhando de forma autônoma, dezenas de milhares de funcionários habilitados com ferramentas agênticas e uma visão estratégica que conecta o presente ao futuro do Open RAN e do 6G. O ritmo dessa transformação é acelerado, e os próximos anos vão mostrar o quanto essa aposta vai redefinir os padrões do setor. 🚀
