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Wavemaker Partners não é exatamente o tipo de fundo que corre atrás do que está na moda.

Enquanto o mercado de venture capital despeja bilhões em robótica, tecnologia industrial, defesa e, claro, inteligência artificial, essa firma sediada em Singapura já estava investindo em deep tech muito antes disso virar tendência, e com uma filosofia bem diferente da maioria. A firma apoia startups de tecnologia em estágio inicial com foco em sustentabilidade na região da Ásia-Pacífico, e não tem o menor interesse em tecnologias populares onde um cheque pequeno praticamente garante um retorno grande. O que ela procura são ideias que ainda precisam ser construídas, provadas e defendidas. 🚀

A lógica central que guia cada decisão de investimento da Wavemaker é direta e vem do próprio cofundador, Paul Santos. Segundo ele, qualquer coisa de valor significativo no longo prazo precisa ser difícil. Não é que eles saiam por aí atrás da dificuldade só pela dificuldade, mas ela funciona como um sinal de que, se você conseguir resolver aquele problema, a recompensa pode ser enorme. Essa premissa, que pode soar simples à primeira vista, carrega um peso estratégico gigantesco quando você entende o tipo de tecnologia que essa firma está disposta a financiar.

Foi exatamente essa mentalidade que levou a Wavemaker a apostar na Neocrete, uma startup fundada na Nova Zelândia com uma proposta que, à primeira vista, pode parecer técnica demais para ganhar manchetes, mas que tem tudo para mudar a forma como o mundo constrói suas cidades. A empresa desenvolveu um aditivo ativador para concreto capaz de reduzir a necessidade de cimento, que é justamente o componente mais intensivo em emissões da mistura. Para quem não está familiarizado com o setor de construção civil, pode parecer um detalhe menor. Mas quando você olha os números por trás da indústria cimenteira, o tamanho real dessa solução começa a aparecer com muita clareza. 🌍

O cimento é responsável por 8% de todas as emissões de CO2 do planeta. Esse número coloca a produção de cimento entre os maiores vilões climáticos da indústria global. Muitas startups levantaram somas pesadas de capital tentando melhorar a pegada ambiental desse material tão presente no nosso dia a dia. Qualquer solução que consiga cortar esse número de forma acessível, escalável e tecnicamente viável entra diretamente na lista de tecnologias que realmente importam para a sustentabilidade global. E é justamente aí que a Neocrete encontrou seu espaço, não como uma ideia bonita em papel, mas como uma resposta concreta para um dos desafios mais urgentes do nosso tempo.

A rodada pré-Série A de US$ 3,5 milhões, na qual a Wavemaker entrou no mês passado, pode parecer pequena para os padrões do setor de venture capital, onde rodadas de dezenas ou centenas de milhões de dólares viram notícia com frequência. Mas é exatamente aí que está o ponto mais interessante dessa história. Como o próprio Santos coloca, ninguém acreditaria que você consegue construir uma tecnologia profunda com apenas alguns milhões de dólares, mas eles estão bem no limiar de provar que dá. É a chamada deep tech de capital eficiente.

Por que a deep tech de materiais importa tanto agora

Existe uma diferença fundamental entre investir em software e investir em deep tech de materiais. Enquanto aplicativos e plataformas digitais podem escalar rapidamente com poucos recursos físicos, tecnologias que envolvem novos materiais, processos químicos e engenharia de estruturas exigem ciclos de desenvolvimento mais longos, validação científica rigorosa e testes de campo extensivos antes de chegarem ao mercado. Isso afasta boa parte dos investidores, que preferem retornos mais rápidos. Mas também cria uma barreira de entrada altíssima para concorrentes, o que transforma essas tecnologias em ativos extremamente valiosos no longo prazo. A Wavemaker Partners entendeu isso antes da maioria.

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Santos gosta de contrastar essa abordagem com a do Vale do Silício, que costuma mirar em projetos ambiciosos e arriscados, como tentar inventar tipos totalmente novos de cimento. A Neocrete foi por um caminho diferente e mais inteligente: em vez de reinventar o material, focou em um ingrediente que é bem menos custoso. O que torna a tecnologia dela realmente novidadeira é que o aditivo em pó seco pode ser misturado com materiais relativamente baratos e de baixa performance, como cinza vulcânica e cinza volante, que é um resíduo das usinas de carvão, fazendo com que esses materiais passem a se comportar como cimento.

O resultado é um concreto resistente que exige até 50% menos cimento. E aqui está o pulo do gato: os fabricantes de concreto não precisam alterar drasticamente suas plantas de produção, o que torna essa opção muito mais barata do que outras soluções de cimento verde que dependem de instalações ou equipamentos caros, como sistemas de captura de carbono no próprio local. Reduzir a quantidade de clínquer no concreto final sem comprometer a resistência é um desafio técnico genuíno, e é exatamente esse tipo de desafio que a Neocrete enfrenta de frente com sua solução.

O que torna a aposta ainda mais estratégica é o momento em que ela acontece. A indústria da construção civil está sob pressão crescente de reguladores, investidores e consumidores para adotar práticas mais sustentáveis. A União Europeia, por exemplo, implementou neste ano um imposto baseado em emissões sobre cimento, aço e outros materiais intensivos em carbono que são importados. Empresas que não conseguirem adaptar seus processos construtivos correm o risco de ficar de fora de grandes contratos nos próximos anos. Uma tecnologia como a da Neocrete chega num momento em que a demanda por soluções reais, e não apenas promessas de sustentabilidade, está maior do que nunca. 🏗️

O modelo de investimento da Wavemaker e o que ele diz sobre o futuro

A Wavemaker Partners nasceu há 15 anos das mãos de Paul Santos e do empreendedor e investidor Eric Manlunas. Antes de se mudar para Singapura, onde o governo estava investindo pesado no então nascente ecossistema local de startups, Santos já tinha acumulado horas de estrada como empreendedor e investidor anjo nas Filipinas, seu país natal. Os dois estavam comprometidos em apoiar empreendedores com uma lente social ou de sustentabilidade, e foram direto aos setores onde sabiam que conseguiriam enxergar oportunidades ignoradas ou subvalorizadas: deep tech e enterprise tech.

Santos costuma dizer que a maioria das pessoas na região da Ásia-Pacífico não quer assumir riscos tecnológicos, prefere apenas fazer inovação de modelo de negócio. É justamente essa disposição de encarar o risco técnico que diferencia a Wavemaker de fundos generalistas que entram e saem de tendências com muita velocidade e pouca consistência.

Um bom exemplo dessa filosofia no portfólio de enterprise tech é a Growsari, das Filipinas. A empresa ajuda mais de um milhão de sari-saris, que são as lojinhas de bairro do país, a comprar estoque direto dos fabricantes, além de dar suporte em funções de gestão como logística e pagamento de contas. A companhia, hoje com dez anos, foi pioneira em oferecer esse tipo de serviço para negócios pequenos e informais. O conceito fez todo sentido para Santos, que começou a carreira em produtos de consumo na Procter & Gamble. A Wavemaker investiu apenas um ano depois de a Growsari nascer.

Enquanto empresas parecidas em mercados maiores, como Índia e Indonésia, levantaram muito dinheiro porque os investidores enxergaram a oportunidade de escala, e acabaram focando demais em crescer, a Growsari focou nas suas margens. Agora ela está expandindo para esses mercados maiores. Como resume Santos, esse é um negócio que recompensa a eficiência de capital: existe margem, desde que você saiba como fazer. 💡

Colocando diversão na captação de recursos

A jornada de captação da Wavemaker também conta muito sobre a firma. O primeiro fundo levantou US$ 6 milhões, a maior parte vinda de amigos e familiares. O segundo fundo captou dez vezes mais capital e atraiu nomes de peso como a Temasek e a International Finance Corp., que voltaram a investir nos fundos seguintes. O terceiro, o quarto e o quinto fundo passaram, cada um, da marca dos US$ 100 milhões, e a Temasek marcou presença em todos eles.

Santos é honesto sobre a dificuldade desse caminho. Quando você investe no tipo de coisa que a Wavemaker investe, algo que não é popular porque não se parece com o que os outros já viram por aí, você precisa brigar para provar que merece o dinheiro. Ainda assim, ele se mantém otimista, porque mesmo nos momentos em que captar foi complicado, tanto a firma quanto suas startups conseguiram levantar recursos.

A firma inclusive já saiu completamente do seu primeiro fundo, devolveu o dinheiro aos investidores e agora trabalha nas saídas do segundo fundo. A filosofia por trás disso é simples: se você tem uma empresa valiosa, alguém vai querer comprá-la. Por isso o foco está em levar as empresas até uma certa escala, entregando um certo tipo de valor, com a confiança de que os compradores vão aparecer.

Wavemaker Impact e o foco no clima

A equipe da Wavemaker também ajudou a lançar um estúdio de venture voltado para o clima, chamado Wavemaker Impact, que hoje gerencia seu próprio fundo sob o nome 100×100. Já a Wavemaker Partners optou por continuar focada em um conjunto mais amplo de empresas de tecnologia de impacto, sendo o clima um dos temas centrais dessa estratégia.

Desenvolver cimento verde e de emissão líquida zero, por exemplo, é peça-chave da transição para uma economia de baixo carbono, exatamente porque o material está em todo lugar e responde por aqueles 8% das emissões de CO2. Além disso, ele tem altíssima demanda por parte de empresas de construção e edificação. Quando você soma esse cenário ao aumento da pressão regulatória, o potencial de crescimento da Neocrete começa a fazer muito sentido dentro de um horizonte de cinco a dez anos. Não é um retorno rápido, mas é um retorno com fundamentos sólidos.

O investimento na Neocrete veio através do quinto fundo de venture da Wavemaker, ao lado da Icehouse Ventures e do programa Catalytic Capital for Climate and Health, da Temasek Trust. Vale lembrar que a firma já tinha investido na Neocrete lá em 2023. Essa nova rodada vai permitir que a startup atinja um marco fundamental, que é passar nos testes de laboratório internos dos clientes, além de expandir seus projetos-piloto. A empresa já garantiu um teste com uma fabricante de concreto usinado em Brunei.

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Segundo Santos, uma vez cruzado esse marco, os pedidos dos clientes começam a chegar e a empresa fica bem posicionada para levantar uma rodada grande e partir para contratos de produção. É a lógica da deep tech de capital eficiente funcionando na prática.

O que a Neocrete representa para a construção sustentável

A proposta da Neocrete vai além de simplesmente vender um produto novo para construtoras. A startup está essencialmente oferecendo uma forma de as empresas de construção civil continuarem usando o concreto como material principal, que é praticamente insubstituível em termos de custo, disponibilidade e performance estrutural, enquanto reduzem drasticamente o impacto ambiental de cada obra. Isso é muito mais fácil de adotar do que substituições radicais de materiais que exigem mudanças profundas em processos, equipamentos e treinamentos. A compatibilidade com o que já existe no mercado é um dos maiores diferenciais competitivos da tecnologia desenvolvida pela empresa.

A empresa está trabalhando com a Readymix Brunei, uma fabricante de concreto local, na sua primeira aplicação comercial, que faz parte da reconstrução do maior porto do reino de Brunei. Para projetos dessa escala, como portos, pontes, edifícios comerciais e infraestrutura urbana, reduzir pela metade o uso de cimento se traduz em toneladas de carbono que deixam de ser emitidas. Em termos de sustentabilidade, é o tipo de impacto que políticas públicas levam décadas para alcançar via regulação, mas que uma tecnologia comercialmente viável pode entregar em escala muito mais rápida.

O próprio Santos reconhece que a proposta soa quase boa demais para ser verdade: um concreto mais verde, melhor e mais barato que o tradicional. E ele faz questão de destacar que a equipe de 15 pessoas da Neocrete, em Auckland, não estava no radar de ninguém diante de times mais bem financiados e de pedigree mais prestigiado em hubs de tecnologia maiores. Para ele, o verdadeiro espírito do venture é justamente esse: assumir um risco que outras pessoas não estão dispostas a assumir.

A Wavemaker Partners e a Neocrete juntas representam um modelo de inovação que o mundo precisa ver com mais frequência: capital paciente, tecnologia sólida e um problema real que afeta bilhões de pessoas. O desafio climático não vai ser resolvido apenas com painéis solares e carros elétricos. Ele vai exigir soluções para setores que raramente aparecem nas manchetes de tecnologia, como a construção civil, e é justamente nesses cantos menos iluminados que a deep tech tem mais espaço para fazer a diferença. 🌱

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