Alphabet, a gigante por trás do Google, viu suas ações despencarem cerca de 4% na última quinta-feira depois que um relatório da Bloomberg trouxe à tona uma notícia que ninguém queria ouvir: o Gemini 3.5 Pro está atrasado.
E não estamos falando de um atraso de dias ou semanas.
De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, o modelo está meses atrás do cronograma interno da empresa, principalmente por causa de problemas no desempenho em geração de código, uma das áreas mais quentes da inteligência artificial agora.
Isso importa muito porque os concorrentes não estão esperando. Enquanto o Google tenta ajustar o seu modelo mais aguardado, OpenAI e Meta já chegaram com novidades fresquinhas que estão deixando as ofertas atuais do Google para trás nesse quesito.
A pergunta que fica no ar é simples: o Google vai conseguir recuperar o ritmo, ou esse atraso vai custar mais do que alguns pontos na bolsa? 🤔
O que está travando o Gemini 3.5 Pro
A geração de código virou um campo de batalha central na corrida pela inteligência artificial. Ferramentas que ajudam desenvolvedores a escrever, revisar e depurar código com mais velocidade e precisão estão entre os produtos mais procurados por empresas e profissionais de tecnologia no mundo inteiro. O Google sabia disso e colocou o Gemini 3.5 Pro como a resposta definitiva da Alphabet para esse movimento. O problema é que a resposta está demorando mais do que o planejado para chegar.
Segundo as fontes que conversaram com a Bloomberg, a empresa está enfrentando dificuldades para fazer com que o modelo alcance o nível de desempenho esperado justamente nas tarefas de programação. As capacidades de código, em particular, ficaram abaixo das expectativas internas, e isso aconteceu bem no momento em que rivais como OpenAI e Meta lançaram modelos novos que superam as ofertas atuais do Google na hora de gerar software. Quando se trata de inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento, cada semana de atraso representa um espaço enorme que os rivais ocupam com muito prazer.
Vale lembrar que o Gemini 3.5 Pro já havia sido anunciado em maio, durante a conferência anual de desenvolvedores Google I/O. Na época, a empresa afirmou que o modelo já estava sendo usado internamente, mas que não estaria pronto para uma distribuição mais ampla até o mês seguinte. Agora, com o cronograma escorregando por meses, aquele plano original parece bem distante.
A geração de código não é só uma funcionalidade a mais dentro de um modelo de linguagem. Ela representa uma fatia bilionária do mercado de IA, com empresas pagando por assinaturas premium, APIs e integrações diretamente nos ambientes de desenvolvimento. Se o Gemini 3.5 Pro não conseguir se posicionar como uma opção superior ou ao menos equivalente nesse cenário, a Alphabet corre o risco de ficar de fora de uma conversa que ela mesma poderia estar liderando.
O que o Google respondeu
Diante do burburinho, um porta-voz da Alphabet mandou um recado por e-mail para a CNBC tentando acalmar os ânimos. Segundo a empresa, ela está entregando rapidamente uma ampla gama de modelos enquanto os mantém altamente econômicos para os clientes.
O porta-voz completou dizendo que a companhia está atualmente testando o 3.5 Pro, uma versão aprimorada do modelo Flash e outros modelos junto a parceiros, além de estar engajada de forma produtiva com o governo dos Estados Unidos. Ou seja, o Google faz questão de reforçar que o trabalho continua a todo vapor nos bastidores, mesmo que o lançamento oficial ainda não tenha uma data confirmada.
Mercado reagiu rápido, e não foi bonito
Uma queda de 4% nas ações da Alphabet pode até parecer pequena se você olhar de forma isolada, mas quando se fala de uma empresa com o peso e a capitalização de mercado do Google, esse número representa bilhões de dólares evaporando em questão de horas. O mercado financeiro tem um jeito próprio de interpretar notícias de tecnologia, e quando o assunto é inteligência artificial, a tolerância para tropeços é praticamente zero. Os investidores que apostam na Alphabet como protagonista da corrida da IA não querem ouvir sobre atrasos, especialmente quando os concorrentes estão lançando modelos novos em um ritmo quase mensal.
A reação do mercado também reflete algo mais profundo: uma mudança na percepção sobre a capacidade do Google de liderar a próxima fase da inteligência artificial. Durante anos, o Google foi considerado a empresa com mais expertise técnica no campo, afinal, foi lá que muitas das pesquisas fundamentais sobre large language models foram desenvolvidas. Mas saber fazer pesquisa de ponta e saber transformar essa pesquisa em produto comercial competitivo são duas habilidades muito diferentes, e é exatamente nessa segunda que a empresa tem encontrado mais dificuldades ultimamente.
A concorrência não dá trégua
Para entender por que o atraso pesou tanto, basta olhar para o que os rivais andam aprontando. A geração de código se tornou um dos maiores casos de uso para provedores de modelos de IA como Anthropic e OpenAI, além de laboratórios chineses como a Z.ai, que oferecem variantes chamadas de open-weight, ou seja, modelos que os desenvolvedores podem acessar de graça dentro do ecossistema de código aberto. Isso significa que a pressão não vem só das grandes empresas americanas, mas também de players internacionais dispostos a distribuir tecnologia poderosa sem cobrar nada por ela.
A Meta entrou de cabeça nessa disputa ao apresentar recentemente o modelo Muse Spark 1.1, descrito pelo chefe de IA da companhia, Alexandr Wang, como o modelo mais forte da gigante das redes sociais para trabalho agêntico e de programação até agora. A escolha das palavras não foi por acaso: agentes de IA capazes de escrever e executar código de forma autônoma são vistos como a próxima grande fronteira do setor.
A OpenAI, por sua vez, lançou o modelo GPT-5.6 Sol, que segundo o CEO Sam Altman é 54% mais eficiente no consumo de tokens em tarefas de programação agêntica. Esse detalhe é importante porque mostra como os laboratórios de IA estão vendendo seus modelos de código não só pela capacidade bruta, mas também pelo custo-benefício. Quanto mais eficiente o modelo, mais barato fica para as empresas rodarem suas operações, e esse é justamente o tipo de argumento que conquista clientes corporativos.
O que está em jogo para o Google agora
A pressão sobre o Google vai muito além de um modelo específico. O que está em jogo é a relevância da Alphabet em um mercado que está se redesenhando em tempo real. A inteligência artificial está mudando a forma como as pessoas buscam informações, escrevem textos, desenvolvem software, analisam dados e tomam decisões. Cada um desses casos de uso representa uma oportunidade enorme, mas também uma ameaça direta ao modelo de negócio tradicional do Google, que é baseado em anúncios dentro da busca. Se as pessoas passam a usar ferramentas de IA conversacional ao invés do buscador, o Google precisa ser o provedor dessas ferramentas, ou vai perder espaço de forma muito mais acelerada do que qualquer queda pontual nas ações poderia indicar.
O Gemini 3.5 Pro era para ser uma resposta robusta a esse desafio. Um modelo capaz de competir de igual para igual em raciocínio, geração de código e tarefas complexas seria um argumento poderoso para manter empresas e desenvolvedores dentro do ecossistema do Google. Com o atraso, esse argumento fica enfraquecido por mais alguns meses, e no ritmo em que a inteligência artificial avança, meses podem significar uma eternidade.
Por outro lado, seria precipitado decretar o fim da competitividade do Google na corrida da IA. A Alphabet tem infraestrutura de nuvem, chips próprios com os TPUs, acesso a uma quantidade absurda de dados e um time de pesquisa que ainda está entre os mais respeitados do mundo. O problema não é falta de recurso ou talento técnico, é execução e velocidade de entrega. Se o Google conseguir resolver os gargalos de desempenho do Gemini 3.5 Pro e chegar ao mercado com um produto que realmente supere ou iguale a concorrência, o atraso vai ser rapidamente esquecido. Mas se o padrão de tropeços continuar, a conversa vai mudar de tom de forma muito mais definitiva. 🚀
