Por que o mercado cripto está obcecado com agentes de IA
Os pagamentos em cripto sempre foram uma dor de cabeça para qualquer pessoa comum. Frases de recuperação de 12 palavras, taxas de gas, endereços errados que fazem seu dinheiro sumir para sempre… parece que o sistema foi projetado para frustrar quem tenta usá-lo. Qualquer pessoa que já tentou fazer uma simples transferência sabe do que estamos falando: a experiência é, no mínimo, intimidadora. E isso afastou muita gente que poderia ter se beneficiado da tecnologia ao longo dos últimos 15 anos.
Mas e se o problema nunca tivesse sido o cripto em si, e sim o fato de que ele foi construído para o usuário errado? Essa é uma pergunta que parece simples, mas que está sacudindo as fundações de como o setor pensa sobre adoção, usabilidade e o futuro das transações digitais.
A nova narrativa que ganhou força em 2025 é direta: cripto não foi feito para humanos, foi feito para máquinas. E as máquinas em questão são os agentes de IA, softwares autônomos que executam tarefas, tomam decisões e, cada vez mais, movimentam dinheiro sem precisar de nenhuma intervenção humana no meio do caminho. Esses sistemas conseguem interpretar contexto, executar lógica complexa e agir em frações de segundo, algo que nenhum humano consegue replicar com a mesma consistência ou escala. São bots incansáveis que não se importam com interfaces feias, não perdem seed phrases e não precisam de ninguém para explicar a diferença entre Base, Polygon e Optimism.
Brian Armstrong, cofundador e CEO da Coinbase, tem sido uma das vozes mais altas defendendo essa ideia. Para ele, em breve haverá mais agentes de IA do que humanos fazendo transações na internet. Como ele mesmo escreveu no X: esses agentes não conseguem abrir uma conta bancária, mas conseguem ter uma carteira cripto sem o menor problema 🤖. Segundo Armstrong, a Coinbase adotou uma mentalidade AI-first em toda a empresa. Isso não é ficção científica: é uma mudança de paradigma que já está acontecendo em ambientes de produção reais, com empresas construindo infraestrutura exatamente para esse cenário.
A McKinsey projeta que agentes de IA podem intermediar entre 3 e 5 trilhões de dólares em comércio de consumo até 2030. Para ter uma ideia do tamanho disso: o valor total do mercado cripto hoje gira em torno de 2,4 trilhões. Ou seja, o volume potencial movimentado por agentes pode superar tudo que o setor construiu em mais de uma década. É muita coisa em jogo, e todo mundo está correndo para se posicionar 🚀.
Matt Huang, sócio-gestor da Paradigm, a maior firma de venture capital focada em cripto, resume bem a mudança de mentalidade: agora é preciso pensar agent-first e assumir que a maioria dos seus clientes serão agentes, não pessoas. A Paradigm, inclusive, já colocou essa ideia em prática com o lançamento da Tempo, uma startup focada em pagamentos que levantou uma rodada Série A de 500 milhões de dólares com avaliação de 5 bilhões. A Tempo foi criada em parceria com a Stripe e conta com apoio da Visa para processar também pagamentos em moeda fiduciária.
Por que o blockchain é a infraestrutura ideal para agentes de IA
Quando um agente de IA precisa movimentar valor, ele não pode esperar dois dias úteis para uma transferência bancária compensar. Ele não pode ligar para o suporte do banco para desbloquear uma conta. E, definitivamente, ele não pode passar por um processo de KYC que exige documentos físicos e selfies. O sistema financeiro tradicional foi arquitetado para humanos, com todas as fricções, burocracia e intermediários que isso implica.
O blockchain, por outro lado, opera de forma diferente: é programável, sem permissão, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, e finaliza transações em segundos ou minutos, dependendo da rede. Esse conjunto de características não é apenas conveniente para agentes autônomos, é essencial para que eles funcionem de verdade.
A lógica é bastante clara quando você para para pensar. Um agente de IA que precisa pagar por poder computacional, contratar outro agente para executar uma subtarefa, ou liquidar um contrato baseado em resultado precisa de um sistema que responda à lógica, não à burocracia. Os smart contracts no blockchain fazem exatamente isso: executam automaticamente quando condições pré-definidas são atendidas, sem precisar de aprovação humana, sem risco de o banco recusar a transação por algum critério opaco. É como dar a um agente de IA um cofre programável ao invés de uma conta corrente com gerente e horário de atendimento.
Outro ponto que raramente é discutido com a devida profundidade é a questão da identidade e da custódia. Agentes de IA podem ter carteiras cripto próprias, assinar transações com chaves criptográficas e interagir com protocolos descentralizados de forma totalmente autônoma. Isso significa que um agente pode ser, ao mesmo tempo, o executor de uma tarefa e o responsável financeiro por ela, sem depender de um humano como intermediário legal ou operacional. Essa autonomia financeira é algo que o sistema bancário simplesmente não foi desenhado para suportar, e é aí que o blockchain aparece não como alternativa, mas como única solução viável.
O que está sendo construído agora: o padrão x402 e o ecossistema emergente
O ecossistema que está sendo montado ao redor dessa ideia é vasto e está evoluindo rápido. Grande parte dos pagamentos em cripto feitos por agentes de IA hoje passa pelo x402, um padrão aberto desenvolvido pela Coinbase que oferece aos provedores de serviços online uma forma de cobrar agentes diretamente.
Até pouco tempo atrás, mesmo tarefas simples como buscar uma previsão do tempo ou alugar poder computacional exigiam que desenvolvedores se cadastrassem em serviços um por um, inserissem um cartão de crédito e gerassem uma chave de API, uma espécie de senha que permite que um software acesse outro serviço. Construa qualquer coisa minimamente ambiciosa e o setup vira rapidamente uma bagunça de contas, assinaturas e chaves. A maioria das empresas hoje possui mais de 600 APIs individuais.
O x402 oferece um modelo mais simples de pagamento por uso. Quando um agente solicita um serviço, o servidor pode responder com um preço, e o agente pode pagá-lo automaticamente em cripto a partir de uma carteira atribuída pelo seu desenvolvedor. Isso importa não apenas porque viabiliza precificação por uso, mas porque começa a substituir toda aquela bagunça de chaves de API. Como explica Erik Reppel, criador do x402 e chefe de engenharia da Coinbase Developer Platform: com o x402, sua carteira se torna a chave de API universal que permite acessar qualquer serviço habilitado pelo padrão.
Desde o lançamento do x402 em maio de 2025, assistentes de IA já realizaram cerca de 107 milhões de transações através do padrão, totalizando aproximadamente 30 milhões de dólares em volume legítimo, segundo dados da provedora Artemis. A maioria dessas transações é minúscula, entre 20 e 40 centavos de dólar. Lucas Shin, analista da Artemis, reconhece que ainda estamos no início. O volume de transações, ele argumenta, é quase irrelevante neste momento. O indicador mais revelador é quais ecossistemas estão de fato construindo e quantos comerciantes estão dispostos a vender através do x402. Esse número já está em torno de 3.900, incluindo Amazon Web Services, a plataforma de desenvolvimento blockchain Alchemy e a provedora de dados Messari.
Quem está correndo para se posicionar
Inúmeras empresas de cripto estão se reinventando para essa nova classe de usuários. A MoonPay, que ajuda pessoas e agora cada vez mais softwares a comprar e vender cripto usando métodos de pagamento tradicionais, reformulou completamente sua estratégia de IA depois que o OpenClaw, o assistente de IA open source que interage diretamente com arquivos e aplicações do usuário, decolou nos últimos meses.
Kevin Arifin, líder de produto da MoonPay, resumiu bem a aposta da empresa: não é preciso dobrar os investimentos em uma interface de usuário bonita porque os agentes se tornam a interface. Recentemente, a MoonPay, que está em negociações para levantar capital da empresa controladora da Bolsa de Nova York com avaliação de 5 bilhões de dólares, lançou o Open Wallet Standard, projetado para ajudar agentes de IA a gerenciar fundos e executar transações em múltiplos blockchains.
Do lado de Solana, Rishin Sharma, líder de produto e crescimento de IA na Solana Foundation, conta que praticamente qualquer time de engenharia hoje, incluindo o dele, usa ferramentas de IA no dia a dia. Na equipe dele, a IA gera mais de 70% do código que escrevem. Provedores de serviços que antes construíram seus negócios em torno de APIs tradicionais estão começando a fazer uma pergunta diferente: não como conquistar os próximos cem desenvolvedores, mas como se posicionar para os próximos cem agentes.
Justin Sun, o bilionário fundador do blockchain Tron e grande investidor nos projetos cripto de Trump, já está chamando tudo isso de Web 4.0, como se a Web 3.0 tivesse de fato sido construída 😅.
Stablecoins como trilho de pagamento nativo para máquinas
Existe uma forma interessante de enxergar tudo isso que vai além da narrativa de investimento ou especulação. O cripto, especialmente as stablecoins como USDC e USDT, está se posicionando como a camada monetária nativa da internet inteligente.
A maioria dos players no cripto vê stablecoins, dólares digitais programáveis, como o trilho de pagamento mais natural para agentes de IA. A economia dos cartões de crédito simplesmente não faz sentido em transações abaixo de um dólar: processadoras costumam cobrar não apenas uma taxa percentual, mas também uma taxa fixa por transação, frequentemente em torno de 30 centavos. Isso significa que um pagamento medido em centavos pode ser completamente engolido pelos custos de processamento.
É por isso que empresas como a Circle, a segunda maior emissora de stablecoins, também estão construindo sistemas de pagamento sob medida para o comércio entre máquinas. No início deste mês, a empresa lançou o que chamou de nanopayments, permitindo que agentes enviem pagamentos minúsculos e sem taxa em USDC, tão pequenos quanto uma fração de centavo, através da nova blockchain Arc e de algumas outras em modo de teste. Mas a ameaça às redes oligopólicas como Visa e Mastercard vai além dos micropagamentos: agentes de IA usando stablecoins podem exercer uma pressão imensa sobre as taxas cobradas em transações de qualquer valor 💰.
Stablecoins eliminam o problema da volatilidade que sempre assombrou o cripto em casos de uso cotidianos. Um agente que precisa pagar por um serviço não pode correr o risco de o valor do pagamento cair 15% enquanto a transação está sendo processada. Com stablecoins atreladas ao dólar ou a outras moedas fiduciárias estáveis, esse problema desaparece, e o que sobra é toda a vantagem da infraestrutura blockchain: velocidade, programabilidade, sem permissão e sem fronteiras.
Agentes que já operam como mini-negócios
Jesse Pollak, criador da Base, a blockchain incubada pela Coinbase que sustentou a maior parte da atividade de pagamentos agênticos em cripto até agora, diz que o time está pensando de forma holística em toda a stack, desde a fundação central em termos de escala e descentralização, passando pelas ferramentas e modelo de contas que ficam por cima, até a interface que os agentes estão realmente usando para interagir com produtos.
E já existem exemplos concretos disso funcionando na prática. Pollak aponta para agentes que já operam como mini-negócios. Um agente chamado Felix, criado pelo empreendedor Nat Eliason, gerou mais de 163 mil dólares nos últimos 30 dias operando uma app store para outros agentes de IA e vendendo um guia em PDF de autoria própria chamado How to Hire an AI. Claro que ele também tem um token cripto, embora seu valor de mercado seja de apenas 1,5 milhão de dólares. É um exemplo pequeno, mas que ilustra bem o tipo de economia que está se formando quando agentes autônomos podem transacionar livremente 🔗.
Os céticos e os riscos do hype
Nem todo mundo está convencido de que essa narrativa vai se concretizar tão rápido quanto os entusiastas gostariam. Haseeb Qureshi, sócio-gestor da firma de venture capital cripto Dragonfly, é um dos mais vocais em pedir cautela.
Para ele, muita gente está exagerando o grau em que isso já está acontecendo. A realidade, segundo Qureshi, é que tudo aqui é basicamente um brinquedo neste momento. Agentes podem até gerar um novo fluxo de pagamentos pequenos e constantes por dados, computação e outros serviços, mas seria necessário um número enorme deles para ter relevância em escala macro. Humanos, afinal, ainda controlam o dinheiro e continuam sendo a principal fonte de demanda.
A preocupação de Qureshi é que o setor esteja fazendo o que costuma fazer: confundir uma nova tendência com uma revolução. Muita gente no cripto é péssima investidora porque compra a própria narrativa imediatamente, diz ele. Ele aponta para manias passadas em torno da internet das coisas e do metaverso, quando os entusiastas se convenceram de que tudo aconteceria da noite para o dia e que o cripto estaria no centro de tudo. Cripto vai importar, ele reconhece. Vai ser parte da história. Mas não é a história toda, e não vai acontecer instantaneamente.
O sistema financeiro tradicional não vai ficar parado
Fora do universo cripto, a ideia de que o comércio agêntico vai ajudar o cripto a deixar os incumbentes do sistema financeiro tradicional para trás não é exatamente consenso.
Trace Cohen, sócio-gestor da Six Point Ventures, que investe em empresas de IA vertical e software, diz que a noção comum no X de que Visa, Mastercard e o resto da velha guarda não vão importar na era dos agentes de IA é absurda. Não vai acontecer assim, afirma. Não importa quão antiga seja, a tecnologia deles funciona. As redes de cartões ainda controlam os trilhos, e a história sugere que elas têm muito mais chances de adquirir ou absorver novos negócios promissores do que de serem substituídas por eles. Stablecoins, no entanto, podem servir melhor mercados no exterior, onde muitos bancos são menores, menos confiáveis e menos integrados.
Olivia Chow, diretora da Zero Knowledge Consulting e consultora de empresas de pagamentos, vai além. Segundo ela, o que Visa e Mastercard fazem muito bem é definir as regras: todos os caminhos que podem dar errado, quem é responsável em cada situação e quais são os requisitos para participar de suas redes e ter essa cobertura. Stablecoins ainda precisam resolver o equivalente dessa camada: gerenciamento de fraude, gerenciamento de risco e o que acontece quando algo dá errado para uma pessoa comum que não está simplesmente dizendo que se importa mais com autocustódia e aceita os riscos. Até lá, não veremos adoção mainstream.
E como as redes de cartões já estão trabalhando para suportar transações agênticas, o comércio por IA pode não ameaçar seus negócios tanto quanto expandir suas operações. Se acertarem, segundo Chow, não canibaliza o que já fazem. Se algo muda, aumenta o poder dessas redes e fortalece sua posição no mercado, porque agora não seriam apenas processadoras de pagamentos, mas também estariam no lado da descoberta.
Tokenização de ativos e a grande transferência de riqueza
Pagamentos são apenas parte da história. À medida que mais ativos tradicionais migram para blockchains, como o fundo de títulos do Tesouro BUIDL de 2 bilhões de dólares da BlackRock e o fundo de títulos governamentais FOBXX de 1 bilhão de dólares da Franklin Templeton, as peças para um novo tipo de gestão de portfólio estão silenciosamente se encaixando.
Um índice de ações, no fim das contas, é apenas uma cesta baseada em regras. Uma vez que ações, títulos e fundos existam em formato tokenizado, fica mais fácil imaginar agentes de IA não apenas fazendo pagamentos, mas mantendo ativos, rebalanceando portfólios e movendo dinheiro entre mercados sem jamais tocar em uma conta de corretora tradicional.
Essa perspectiva chega justamente quando estamos caminhando para uma das maiores transferências de riqueza da história. Estima-se que cerca de 84 trilhões de dólares passarão dos Baby Boomers para seus herdeiros ao longo das próximas duas décadas. Muitos desses herdeiros são investidores que cresceram com o Robinhood, já possuem carteiras cripto e estão dispostos a apostar em praticamente qualquer coisa, de eleições a onde Taylor Swift e Travis Kelce vão se casar.
Ao mesmo tempo, o próprio setor de consultoria financeira está envelhecendo. Existem cerca de 330 mil consultores financeiros nos Estados Unidos, com uma idade média de 56 anos. Quase 40% deles devem se aposentar na próxima década, segundo a Cerulli Associates, o que abrirá uma lacuna significativa na gestão do dinheiro dos investidores comuns. É uma janela de oportunidade que combina perfeitamente com agentes de IA capazes de gerenciar portfólios de forma autônoma.
O que isso significa na prática
Para quem acompanha o setor, a mudança mais significativa não é técnica, é conceitual. Durante anos, a narrativa dominante foi a de que o cripto precisava se tornar mais simples para que o usuário comum pudesse adotá-lo em massa. Carteiras mais intuitivas, onboarding mais fácil, menos jargão. Tudo isso ainda importa, mas o horizonte que está se abrindo agora sugere que a adoção em escala pode vir por um caminho completamente diferente: não por humanos aprendendo a usar cripto, mas por agentes de IA usando cripto de forma invisível, em segundo plano, enquanto os humanos simplesmente colhem os resultados.
Pense em como funciona hoje quando você usa um serviço de streaming que roda em servidores na nuvem. Você não vê as transações entre o serviço e o provedor de infraestrutura, não aprova cada cobrança individualmente, não precisa entender nada sobre o modelo de precificação por hora de computação. Você simplesmente usa o serviço. É exatamente esse o futuro que está sendo desenhado para o cripto na era dos agentes: pagamentos acontecendo nos bastidores, liquidados em blockchain, sem que o usuário final precise saber ou se importar com os detalhes técnicos.
Isso não elimina a importância de entender a tecnologia, especialmente para quem está construindo sobre ela ou tomando decisões de negócio baseadas nela. Mas muda radicalmente onde está a fricção e quem precisa gerenciá-la. Se os agentes absorvem a complexidade técnica das transações em blockchain, o que sobra para o humano é o resultado: serviços mais rápidos, mais baratos, mais automatizados.
Joseph Chalom, CEO da Sharplink, empresa de tesouraria Ethereum, e ex-líder de estratégia de ativos digitais da BlackRock, acredita que este ciclo é diferente dos anteriores. Para ele, a combinação de inovações cripto como stablecoins, ativos tokenizados e infraestrutura de carteiras pervasiva com uma IA que conhece as preferências e objetivos dos usuários e a transferência geracional de riqueza é extremamente poderosa. Uma vez que investidores percebam o que estão perdendo, vai ser difícil voltar atrás.
Talvez esse tenha sido o destino do cripto desde o começo: não substituir o banco na vida do consumidor, mas se tornar a infraestrutura invisível de base para a economia digital que está chegando 🌐.
