Bernie Sanders e AOC querem pausar a construção de novos datacenters de IA nos Estados Unidos
A inteligência artificial virou o centro de uma das discussões mais quentes do momento nos Estados Unidos.
E não estamos falando só de tecnologia, inovação ou disputa de mercado.
O debate agora envolve contas de energia disparando, rios e aquíferos sendo drenados e comunidades inteiras sentindo no bolso o peso de uma infraestrutura que cresce em ritmo frenético.
No meio desse cenário, dois dos nomes mais conhecidos da ala progressista americana entraram em campo com uma proposta que está dividindo opiniões:
Bernie Sanders, senador independente de Vermont, e Alexandria Ocasio-Cortez, representante democrata por Nova York, apresentaram um projeto de lei para colocar uma pausa na construção de novos datacenters de IA nos Estados Unidos. 🚨
A ideia é simples na forma, mas complexa nas consequências.
Uma moratória temporária que daria ao governo federal tempo suficiente para criar regras claras sobre como essa indústria deve operar — sem devastar o meio ambiente, sem empurrar os custos para a população e sem deixar que os benefícios fiquem concentrados nas mãos de poucos.
Segundo Sanders, em comunicado enviado por e-mail, a IA e a robótica estão criando a revolução tecnológica mais ampla da história da humanidade, e o Congresso está muito atrás do que deveria em termos de compreender a natureza dessa revolução e seus impactos.
Parece radical?
Alguns meses atrás, o próprio Sanders admitiu que a proposta era tratada como uma ideia fringe, fora do mainstream, quase ludita. Hoje, o cenário é bem diferente. 👇
O que o projeto de lei propõe na prática
O projeto de lei apresentado por Sanders no Senado prevê que a moratória entre em vigor imediatamente após a aprovação. A pausa se manteria até que leis específicas fossem promulgadas para conter os efeitos nocivos dos datacenters. Isso inclui reduzir seus impactos climáticos e ambientais, garantir que não provoquem aumento nos custos de serviços públicos de energia, prevenir a perda de empregos por automação e assegurar que a riqueza gerada pelas empresas de IA seja compartilhada com a população americana.
Ocasio-Cortez ficou responsável por apresentar um projeto complementar na Câmara dos Representantes.
O texto do projeto é abrangente e toca em pontos que vão muito além da questão energética. Ele aborda o impacto da inteligência artificial sobre a economia, o bem-estar social, a democracia, a guerra e até a educação das crianças. É uma sinalização clara de que os legisladores progressistas enxergam a regulação da infraestrutura física da IA como inseparável da regulação da própria tecnologia.
O que mudou para a moratória ganhar força
Nos últimos dois anos, o crescimento dos datacenters voltados para inteligência artificial foi tão acelerado que começou a deixar rastros visíveis e concretos no cotidiano das pessoas. Não é mais uma questão abstrata de impacto ambiental ou relatório técnico que circula entre especialistas. É a conta de luz que sobe, é a pressão sobre as redes elétricas locais, é a água que deixa de estar disponível para outros usos porque está sendo consumida em larga escala para resfriar servidores que rodam modelos de linguagem cada vez mais pesados.
Esse conjunto de efeitos práticos fez com que o tema saísse dos círculos de ativismo climático e chegasse às mesas de jantar, às câmaras municipais e, agora, ao Congresso americano com uma força que não tinha antes.
A movimentação não ficou restrita a Washington. Desde agosto de 2025, cidades e condados em diversos estados americanos começaram a aprovar suas próprias proibições temporárias à construção de datacenters. Missouri, Indiana, Geórgia e Carolina do Norte são alguns dos lugares onde isso já aconteceu. Segundo o grupo de fiscalização Good Jobs First, pelo menos 11 estados estão agora considerando políticas similares.
Em dezembro de 2025, mais de 200 grupos de advocacy, liderados pela organização ambiental Food and Water Watch, enviaram uma carta aos líderes da Câmara e do Senado pedindo uma moratória federal sobre datacenters. As preocupações citadas incluíam os impactos sobre as contas de eletricidade e sobre a crise climática. Sanders foi o primeiro parlamentar a apoiar publicamente essa demanda, e desde então ela ganhou adesão de outros legisladores progressistas, como Maxwell Frost, representante da Flórida, e Pramila Jayapal, representante de Washington.
A opinião pública está mudando
Os dados de pesquisa mostram que os americanos estão cada vez mais preocupados com os impactos da inteligência artificial. Uma pesquisa do Pew Research Center de junho de 2025 revelou que metade dos adultos nos EUA está mais preocupada do que empolgada com o uso crescente da IA no dia a dia. Em dezembro do mesmo ano, outra pesquisa apontou que 60% dos americanos acreditam que o setor deveria ser melhor regulado para limitar seus efeitos negativos potenciais sobre a sociedade.
Os custos de energia são um ponto especialmente sensível. Quando uma pesquisa de fevereiro de 2026 pediu aos participantes que selecionassem o tema mais preocupante em comparações aleatórias envolvendo questões relacionadas a datacenters, os custos de serviços públicos de energia foram escolhidos 64% das vezes e o consumo de energia, 59% das vezes.
Ou seja, a população está sentindo no bolso e não está contente com o que vê. Essa percepção popular é um dos motores políticos mais importantes por trás da proposta de Sanders e AOC.
Energia e sustentabilidade: os números que preocupam
Quando se fala em sustentabilidade no contexto dos datacenters de inteligência artificial, os números são difíceis de ignorar. Só para treinar um modelo de linguagem de grande escala, como os que estão por trás de ferramentas amplamente usadas hoje, o consumo de energia pode chegar a níveis equivalentes ao de centenas de residências durante um ano inteiro. E isso é apenas o treinamento. A inferência, que é quando o modelo responde às suas perguntas no dia a dia, também consome energia de forma contínua e crescente.
Um relatório de outubro, publicado pelo Center for Biological Diversity, estimou que se as tendências atuais continuarem, os datacenters podem responder por quase metade de todas as emissões americanas do setor elétrico dentro das metas climáticas nacionais vigentes. É um número que coloca o setor tecnológico em rota de colisão direta com os compromissos ambientais do país.
A demanda por eletricidade dos datacenters também já está elevando os preços da energia em algumas regiões. Uma análise da Bloomberg revelou que áreas com concentrações especialmente altas de datacenters viram os custos de energia disparar até 267% nos últimos cinco anos. Esse tipo de dado transforma o debate de algo teórico em algo muito concreto para quem mora nessas regiões.
A água é outro recurso que entrou nessa equação de forma bastante séria. Os sistemas de resfriamento dos datacenters, especialmente os que operam com processadores de alto desempenho como as GPUs usadas para IA, dependem de grandes volumes de água para manter a temperatura sob controle. Em regiões que já enfrentam estresse hídrico, como partes do Sudoeste americano, a instalação de novos datacenters tem gerado conflitos diretos com comunidades locais e agricultores que dependem dos mesmos aquíferos. 🌱
O projeto de lei apresentado por Sanders e AOC leva esses pontos em consideração de forma explícita. A proposta prevê não apenas a pausa temporária na construção de novos datacenters, mas também a criação de padrões federais de eficiência energética e hídrica para o setor, além de exigências de transparência sobre de onde vem a energia consumida e como os impactos ambientais são mitigados.
A resposta do governo Trump e da indústria
Do lado das grandes empresas de tecnologia, a reação à proposta de moratória foi, como era de se esperar, bastante negativa. Os argumentos mais comuns giram em torno da competitividade americana frente à China, do risco de desacelerar a inovação em um momento considerado crítico para o desenvolvimento da inteligência artificial, e da alegação de que as próprias empresas já estão investindo em fontes renováveis e em eficiência energética sem precisar de imposição regulatória.
A administração Trump, por sua vez, tem trabalhado para promover o crescimento irrestrito da IA. Neste mês de março, o governo realizou um evento na Casa Branca com executivos de tecnologia, onde as empresas se comprometeram a proteger os americanos de aumentos nas contas de energia associados à demanda crescente de seus datacenters. O problema é que esses compromissos não têm força legal. São promessas voluntárias que ninguém é obrigado a cumprir.
E os americanos parecem saber disso. Uma pesquisa de março mostrou que a maioria da população está cética em relação a essas promessas feitas pelas empresas de tecnologia.
Há também o argumento econômico que circula bastante nos corredores do setor: a construção e operação de datacenters gera empregos, movimenta economias locais e atrai investimento. Isso é verdade, mas a questão que os críticos colocam é sobre a qualidade e a distribuição desses benefícios:
- Quantos desses empregos são locais e de longo prazo?
- Quem realmente se beneficia da valorização imobiliária que acompanha a chegada de um grande campus de servidores?
- Os custos de infraestrutura que ficam para o poder público e para os moradores, como são distribuídos?
São perguntas legítimas que a indústria ainda não respondeu de forma satisfatória, e que a proposta legislativa tenta ao menos colocar na pauta de forma oficial.
O que dizem os apoiadores da proposta
Mitch Jones, diretor-gerente de política e litígio da Food and Water Watch, elogiou a proposta e foi direto em sua avaliação. Segundo ele, líderes políticos e comunitários em todo o país foram pegos completamente desprevenidos por uma indústria agressiva e movida por lucro. Ele ainda destacou que ainda precisa ser determinado se, e não como, a indústria pode operar de maneira que proteja suficientemente as pessoas e a sociedade dos perigos inerentes que os datacenters trazem aonde quer que apareçam.
Camden Weber, especialista sênior em políticas do Center for Biological Diversity, foi ainda mais enfático. Para ele, o boom de datacenters da big tech é um desastre ecológico em formação que está sufocando bairros com fumaça de diesel, drenando água potável e elevando contas de eletricidade com projetos movidos a combustíveis fósseis.
Sanders, em pronunciamento no plenário do Senado na noite de terça-feira, reforçou a urgência da situação ao afirmar que não é possível ficar de braços cruzados e permitir que um punhado de oligarcas bilionários da big tech tome decisões que vão remodelar a economia, a democracia e o futuro da humanidade. Para ele, é necessário um debate público sério e supervisão democrática sobre essa questão enormemente consequente.
Moratória não é proibição: entendendo a diferença
Vale lembrar que a moratória proposta não é uma proibição permanente. É uma pausa. A diferença é enorme, e muitas vezes esse detalhe se perde no calor do debate. O objetivo declarado é criar um intervalo regulatório para que as agências federais possam estabelecer padrões mínimos de operação, consumo de energia e impacto ambiental antes que novos projetos sejam aprovados.
Na prática, seria algo parecido com o que acontece em outros setores industriais que passam por um crescimento acelerado e desordenado: primeiro vem a expansão, depois vem a regulação tentando correr atrás. A proposta de Sanders e AOC está tentando inverter essa ordem. 🔄
Apesar da relevância do debate, o próprio projeto reconhece que suas chances de aprovação no Senado são baixas, especialmente considerando que a administração Trump tem atuado para promover o crescimento desregulado da IA. Ainda assim, a proposta cumpre um papel político importante ao formalizar demandas que estão crescendo em diversas esferas da sociedade americana e ao forçar o tema para dentro do debate legislativo oficial.
O que está em jogo daqui pra frente
A discussão em torno dos datacenters de IA nos Estados Unidos não vai ficar restrita às fronteiras americanas por muito tempo. O Brasil, assim como outros países em desenvolvimento, está na rota de expansão das grandes empresas de tecnologia, que buscam diversificar sua infraestrutura e se aproximar de mercados emergentes. Isso significa que as questões levantadas por esse debate — sobre consumo de energia, uso de água, impacto em comunidades locais e distribuição de benefícios econômicos — são questões que vão chegar com força por aqui também, seja em um ano ou em cinco.
A forma como os Estados Unidos decidirem lidar com esse impasse vai criar precedentes importantes. Se a moratória avançar e resultar em uma estrutura regulatória mais robusta para o setor, isso pode influenciar políticas em outros países e até criar padrões mínimos que as empresas precisem seguir globalmente para operar. Se, por outro lado, o projeto for bloqueado e a expansão continuar no ritmo atual sem regulação significativa, o acúmulo de impactos pode forçar uma reação mais drástica no futuro, quando o espaço para ajustes graduais for menor.
O que fica claro nesse momento é que a inteligência artificial chegou a um ponto em que suas consequências físicas — concretas e mensuráveis — não podem mais ser tratadas como externalidades secundárias do progresso tecnológico. A infraestrutura que sustenta os modelos de IA tem peso, tem calor, consome água e luz, e está conectada a redes elétricas que também abastecem hospitais, escolas e casas.
Esse é o debate que Bernie Sanders e AOC colocaram na mesa, e independentemente do que você acha da proposta deles, é um debate que precisava acontecer. ⚡
