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Como as negociações entre Anthropic e o Pentágono desmoronaram — e a OpenAI entrou no jogo

O que deveria ser um marco na colaboração entre inteligência artificial e defesa nacional virou um dos episódios mais turbulentos da relação entre o Vale do Silício e o governo americano nos últimos anos. As negociações entre a Anthropic e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para um contrato de US$ 200 milhões simplesmente implodiu nos últimos minutos de um prazo apertado, deixando um rastro de acusações públicas, rivalidades pessoais e um processo judicial que pode redefinir os limites da IA no setor militar. E no meio de tudo isso, a OpenAI apareceu para fechar um acordo relâmpago com o Pentágono, levantando ainda mais polêmica. Vamos mergulhar nos bastidores dessa história. 👀

O memorando que mudou tudo: como o Pentágono abriu caminho para a IA militar

Tudo começou em 9 de janeiro, quando o secretário de Defesa Pete Hegseth publicou um memorando interno determinando que o Departamento de Defesa deveria acelerar a adoção de ferramentas de inteligência artificial em suas operações. O documento não era apenas mais uma diretriz burocrática — ele representava uma mudança concreta de postura do governo americano, que passou a enxergar a IA generativa como peça central na estratégia de defesa nacional.

O memorando era direto: a IA deveria ser amplamente integrada às operações militares, e as empresas de tecnologia deveriam oferecer suas ferramentas sem restrições. Para deixar a mensagem ainda mais clara, Hegseth espalhou pelos corredores do Pentágono pôsteres gerados por inteligência artificial com sua própria imagem e os dizeres I want you to use A.I. — uma referência óbvia ao clássico pôster de recrutamento do Tio Sam. A mensagem era impossível de ignorar.

Na prática, esse memorando significava que todas as empresas de IA que já participavam de um programa-piloto do Pentágono precisariam renegociar seus contratos. Anthropic, OpenAI, Google e xAI faziam parte desse programa, mas a Anthropic tinha uma posição de destaque. Era a única empresa que já havia implantado sua tecnologia para operar em sistemas classificados, e seu modelo Claude estava sendo amplamente utilizado por analistas de defesa. Isso colocou a Anthropic no centro das renegociações — e, consequentemente, no olho do furacão.

O contrato de US$ 200 milhões e as linhas vermelhas da Anthropic

O contrato proposto girava em torno de US$ 200 milhões e previa acesso privilegiado ao Claude para uso em análise de dados, logística militar e operações de inteligência. Do lado do Pentágono, a negociação era liderada por Emil Michael, o CTO do Departamento de Defesa. Michael é uma figura conhecida no ecossistema tech — ex-executivo de alto escalão do Uber, ele havia ingressado no Departamento de Defesa em maio como diretor de tecnologia, depois de ter trabalhado como assistente especial no Pentágono durante a administração Obama.

O problema central das negociações ficou evidente logo nas primeiras rodadas. O Departamento de Defesa exigia uso irrestrito da tecnologia da Anthropic, sem limitações impostas pela empresa. Isso incluía a possibilidade de usar o Claude para a coleta e análise de dados comerciais não classificados de cidadãos americanos — como dados de geolocalização e histórico de navegação na web — além de aplicações em sistemas de armas e vigilância.

A Anthropic tinha uma posição firme sobre isso. A empresa mantinha desde sua fundação uma política de uso aceitável que proibia explicitamente duas coisas: o uso de seus modelos para vigilância em massa de cidadãos americanos e a implantação em sistemas de armas autônomas sem supervisão humana. Para Dario Amodei, CEO da Anthropic, essas não eram apenas diretrizes corporativas negociáveis — eram linhas vermelhas que definiam a identidade da companhia.

O Departamento de Defesa, por sua vez, argumentava que nenhum contratante privado deveria ter o poder de decidir como suas ferramentas seriam utilizadas de forma legal pelo governo. Era um impasse filosófico que se traduzia em cláusulas contratuais impossíveis de conciliar.

A reunião no Pentágono que não aqueceu ninguém

Em 24 de fevereiro, Pete Hegseth convocou uma reunião presencial com Dario Amodei no Pentágono para tentar encontrar um caminho. Segundo pessoas familiarizadas com as discussões, o encontro durou menos de uma hora e os dois homens demonstraram pouca cordialidade. A atmosfera era tensa, e ficou claro que as diferenças iam além de cláusulas contratuais — havia uma divergência profunda sobre o papel da inteligência artificial na guerra e na segurança nacional.

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Ao final da conversa, Hegseth fez um ultimato: se a Anthropic não chegasse a um acordo com o Pentágono até 17h01 da sexta-feira seguinte, a empresa seria classificada como um risco à cadeia de suprimentos. Essa classificação, vale dizer, é algo historicamente reservado para empresas estrangeiras que o governo americano considera ameaças à segurança nacional — nunca havia sido utilizada contra uma empresa americana. Hegseth também mencionou a possibilidade de invocar o Defense Production Act para forçar a Anthropic a cooperar, embora essa ameaça tenha sido posteriormente abandonada.

A sexta-feira que ninguém vai esquecer: bastidores do colapso

As negociações entre a Anthropic e o Pentágono se arrastaram por semanas, com equipes jurídicas dos dois lados trocando versões do contrato quase diariamente. Segundo fontes próximas às conversas, o documento chegou a ter a grande maioria dos seus termos acordados. Pontos sobre infraestrutura técnica, níveis de acesso, cronograma de implementação e valores de pagamento estavam praticamente fechados. O impasse residia em uma área muito específica: a questão da vigilância legal de americanos.

Na quinta-feira anterior ao prazo, Dario Amodei dobrou a aposta na segurança de IA. Em um comunicado público, ele declarou que a Anthropic não poderia, em boa consciência, aceitar as exigências do Pentágono. Ele argumentou que, em um conjunto restrito de casos, a inteligência artificial pode minar, em vez de defender, valores democráticos, e que alguns usos simplesmente estavam fora do que a tecnologia atual consegue fazer de forma segura e confiável.

A resposta de Emil Michael veio naquela mesma noite e foi brutal. Nas redes sociais, Michael chamou Amodei de mentiroso e disse que ele tinha um complexo de Deus. Publicou que Amodei queria controlar pessoalmente o uso militar dos Estados Unidos e que estava disposto a colocar a segurança nacional do país em risco. O tom pessoal das acusações chocou muita gente no ecossistema de tecnologia e defesa.

Quando a sexta-feira chegou, os executivos da Anthropic ainda acreditavam que um acordo era possível. Segundo pessoas de ambos os lados da negociação, as duas partes estavam separadas por apenas algumas palavras na cláusula sobre vigilância. A Anthropic estava disposta a permitir que sua tecnologia fosse usada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) para material classificado coletado sob a Foreign Intelligence Surveillance Act (FISA). Mas a empresa queria uma promessa juridicamente vinculante do Pentágono de que sua tecnologia não seria usada para processar dados comerciais não classificados de cidadãos americanos — como informações de geolocalização e navegação na web.

O Pentágono, por sua vez, queria exatamente o oposto: que a Anthropic permitisse a coleta e análise desse tipo de dado comercial em massa.

Os minutos finais e a carta na manga de Emil Michael

Complicando ainda mais a situação, o presidente Donald Trump publicou um post nas redes sociais na sexta-feira de manhã informando Hegseth de que havia preparado uma mensagem depreciando a Anthropic e ordenando que todas as agências governamentais parassem de trabalhar com a empresa em até seis meses. Mesmo depois de Trump publicar essa mensagem às 15h47, os dois lados continuaram conversando.

Emil Michael estava em uma ligação com executivos da Anthropic quando pediu para falar diretamente com Dario Amodei para resolver a questão das palavras finais do contrato. A resposta que recebeu foi que Amodei estava em uma reunião com sua equipe executiva e precisava de mais tempo. Michael ficou insatisfeito com essa resposta.

E aqui entra o detalhe que muda tudo: Michael tinha uma carta na manga. Enquanto negociava com a Anthropic, ele vinha paralelamente trabalhando em um acordo alternativo com a OpenAI. No dia seguinte à reunião tensa entre Hegseth e Amodei no Pentágono, Sam Altman ligou para Michael para discutir um acordo para sua empresa. Em apenas um dia, os dois já tinham esboçado um rascunho de contrato. A OpenAI aceitou a exigência do Pentágono de que sua IA pudesse ser usada para todas as finalidades legais, mas também negociou o direito de implementar salvaguardas técnicas em seus sistemas para aderir aos seus princípios de segurança.

Quando o prazo de 17h01 da sexta-feira passou, o Departamento de Defesa não deu mais tempo à Anthropic. Às 17h14, Pete Hegseth anunciou que havia designado a Anthropic como um risco de segurança e que a empresa seria impedida de trabalhar com o governo dos Estados Unidos. Em suas palavras publicadas nas redes sociais: Os combatentes da América nunca serão reféns dos caprichos ideológicos das big techs.

A OpenAI entra em cena e a polêmica explode

Naquela mesma noite de sexta-feira, enquanto os advogados da Anthropic começavam a preparar um processo judicial contra o Pentágono, Sam Altman estava ao telefone com Emil Michael finalizando os detalhes do acordo da OpenAI com o Departamento de Defesa. Às 22h, Altman anunciou nas redes sociais que sua empresa havia fechado um acordo com o Pentágono para fornecer suas tecnologias de IA para sistemas classificados. Pete Hegseth repostou o anúncio de Altman pouco depois.

A rapidez com que tudo aconteceu gerou uma onda de críticas. No sábado, Altman convidou as pessoas a fazerem perguntas sobre o acordo no X (antigo Twitter), numa tentativa de conter a reação negativa. Muitos questionaram como a OpenAI poderia assinar um contrato com o Pentágono e ainda assim manter seus princípios de segurança. Outros perguntaram se o acordo realmente protegia os modelos de IA da empresa contra uso indevido.

A resposta de Altman foi pragmática: Não queremos a capacidade de opinar sobre uma ação militar específica e legal. Mas queremos muito a capacidade de usar nossa expertise para projetar um sistema seguro.

Para muitos observadores, essa resposta revelou a diferença fundamental entre as duas empresas. Enquanto a Anthropic traçou linhas vermelhas sobre o que sua tecnologia poderia ou não fazer, a OpenAI adotou uma postura mais flexível, aceitando que o governo determine os usos legais e reservando-se apenas o papel de implementar proteções técnicas.

Rivalidades pessoais que alimentaram o fogo

Não dá pra contar essa história sem falar das rivalidades pessoais que permearam cada etapa das negociações. Emil Michael, Dario Amodei e Sam Altman se conhecem há anos no circuito de negócios do Vale do Silício — e a relação entre eles nunca foi exatamente amigável.

Amodei e Altman, ambos com 40 anos, trabalharam juntos na OpenAI antes de Amodei sair em 2021 para fundar a Anthropic, levando consigo vários pesquisadores de ponta. A saída foi motivada por divergências profundas sobre a abordagem de segurança no desenvolvimento de modelos de linguagem. Desde então, os dois são rivais declarados, competindo tanto por talentos quanto por contratos no mercado de IA.

Michael, por sua vez, tem 53 anos e carrega a reputação de negociador agressivo — herança de seus tempos como vice-presidente sênior do Uber, onde esteve envolvido em controvérsias que marcaram a empresa durante sua fase mais turbulenta. Segundo pessoas com conhecimento das negociações, Michael nutria uma preferência clara por Altman, que vinha cortejando ativamente a administração Trump, em detrimento de Amodei, cujas posições sobre segurança e ética ele considerava obstáculos desnecessários.

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Essa mistura de filosofias diferentes sobre IA, egos inflados e desconfiança mútua transformou o que poderia ter sido uma negociação técnica e jurídica em um drama pessoal com consequências geopolíticas.

Processo judicial e o futuro da IA no setor de defesa

Na sexta-feira mesmo, poucas horas após o colapso das negociações, a Anthropic anunciou que processaria o Pentágono pela decisão de classificá-la como um risco à cadeia de suprimentos. A medida é historicamente sem precedentes. Essa designação sempre foi reservada para empresas estrangeiras que o governo americano considera ameaças à segurança nacional — como certas fabricantes chinesas de telecomunicações. Nunca havia sido aplicada a uma empresa americana.

O processo abriu um debate que transcende as partes envolvidas. A questão central é: empresas de tecnologia têm o direito de manter políticas de uso ético mesmo quando trabalham com o governo federal em contratos de defesa? Ou a segurança nacional justifica qualquer uso tecnológico que o governo considere legal?

O caso também reacendeu memórias do Project Maven do Google em 2018, quando funcionários da empresa se revoltaram contra o uso de IA para análise de imagens de drones militares. Naquela época, o Google recuou. Mas a Anthropic foi além ao levar a disputa para o campo jurídico, desafiando abertamente o poder do Pentágono de ditar os termos de uso da tecnologia.

Enquanto isso, agências de inteligência americanas, incluindo a CIA, que já utiliza a tecnologia da Anthropic, vêm pressionando ambos os lados para que cheguem a um acordo. Alguns funcionários do governo, tanto atuais quanto antigos, disseram que continuam esperançosos de que um caminho intermediário possa ser encontrado.

O que muda a partir de agora

Os desdobramentos dessa história ainda estão em andamento, mas os impactos já são visíveis em vários níveis. Dentro do Vale do Silício, o episódio reacendeu o debate sobre até onde as empresas de IA devem ir para atender demandas governamentais. No Congresso americano, parlamentares de ambos os partidos começaram a discutir a necessidade de uma legislação que defina limites claros para o uso de inteligência artificial em operações de defesa e vigilância.

No mercado, a Anthropic viu sua reputação crescer entre desenvolvedores e pesquisadores que valorizam a abordagem de segurança em primeiro lugar, enquanto a OpenAI passou a enfrentar questionamentos mais duros sobre sua disposição de flexibilizar princípios em troca de receita governamental. A OpenAI, vale lembrar, também enfrenta um processo movido pelo New York Times por violação de direitos autorais relacionados ao treinamento de seus modelos de IA — mais um front de batalha jurídica para a empresa de Altman.

Uma coisa fica clara nessa história toda: o colapso do contrato entre Anthropic e o Pentágono não foi apenas um negócio que deu errado. Foi um ponto de inflexão na forma como a sociedade pensa sobre o papel da inteligência artificial no poder militar, sobre os limites éticos da tecnologia e sobre quem, no fim das contas, tem a responsabilidade — e a coragem — de dizer não. 🔍

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