A Transformação Digital chegou num ponto que não tem mais volta, e quem ainda acha que é só sobre tecnologia nova está perdendo o ponto principal.
O que está acontecendo agora nas empresas é algo bem mais profundo: os processos que sustentam o dia a dia corporativo foram construídos com base nas limitações tecnológicas do passado, e a Inteligência Artificial está expondo esse problema com uma clareza que incomoda.
Pensa comigo: de que adianta acelerar com IA um processo que já nasce quebrado?
A resposta é simples, mas dolorosa para muita gente: não adianta nada, só piora.
E é exatamente aí que entra uma figura que ganhou um peso estratégico enorme nos últimos anos, o CIO.
Segundo o J.P. Morgan Business Leader Outlook 2026, 62% das médias empresas já usam ou planejam usar automação de processos com IA. Já o EY CEO Outlook 2026 revelou que 43% dos CEOs apontam a otimização de operações e melhoria de produtividade como prioridade número um de transformação, com inovação em produtos e processos logo em terceiro lugar.
Esses números dizem muito sobre o apetite do mercado, mas dizem ainda mais sobre os riscos quando a corrida começa antes do planejamento.
Neste artigo, você vai entender como os CIOs mais estratégicos estão liderando uma mudança que vai muito além de implementar ferramentas, e por que o trabalho começa muito antes de qualquer linha de código ou agente de IA entrar em cena. 🚀
O CIO Virou o Arquiteto da Mudança Real
Durante muitos anos, o papel do CIO foi encarado como algo mais operacional do que estratégico. Era o profissional responsável por manter os sistemas no ar, garantir a infraestrutura funcionando e, quando necessário, aprovar a compra de novos softwares. Mas esse cenário mudou radicalmente, e não foi de forma gradual. Foi uma virada de chave que aconteceu junto com a explosão da Inteligência Artificial no ambiente corporativo.
Hoje, o CIO é chamado para sentar na mesa onde as decisões de negócio são tomadas, e não apenas para dar suporte técnico a elas. Essa transição de papel é o que separa as empresas que estão colhendo resultados reais com IA das que ainda estão rodando projetos-piloto sem saída.
Maria Cardow, CIO da provedora de serviços de segurança gerenciada LevelBlue, resume bem essa lógica. Segundo ela, todo processo de negócio reflete as restrições que existiam quando foi criado, e essas restrições geralmente derivam das limitações tecnológicas da época. O resultado é que muitos processos corporativos até hoje envolvem fluxos de trabalho com ações manuais ou saltos desajeitados entre múltiplas aplicações para realizar tarefas essenciais.
É por isso que Cardow defende que é incrivelmente importante reavaliar os processos antes de tentar automatizar algo que provavelmente já é um processo ultrapassado e ineficaz.
O que torna esse novo papel tão complexo é que o CIO precisa equilibrar duas frentes ao mesmo tempo: a velocidade que o mercado exige na adoção de novas tecnologias e a necessidade de solidez nos processos internos antes de qualquer implementação. Não dá para simplesmente comprar uma plataforma de automação e esperar que ela resolva problemas que existem há anos na cultura e nos fluxos de trabalho da empresa.
Na prática, o time de TI de Cardow frequentemente descobre que processos corporativos passam por pelo menos uma dúzia de sistemas diferentes e que o número de premissas embutidas nos fluxos são dependências de tecnologias de duas gerações atrás. Isso reforça por que os CIOs devem conduzir suas organizações por uma fase de otimização antes de automatizar com IA.
Outro ponto que elevou o CIO ao centro das discussões estratégicas é a questão da governança de dados. Qualquer iniciativa séria de Inteligência Artificial depende de dados bem estruturados, limpos e acessíveis. E adivinha quem é o guardião dessa estrutura dentro das organizações? Exato, o CIO. Sem dados confiáveis, os modelos de IA entregam resultados inconsistentes, e toda a narrativa de transformação digital começa a desmoronar.
Cardow acrescenta que o CIO é um encaixe natural para esse trabalho, já que os líderes de TI têm responsabilidade sobre otimização desde praticamente o início da existência do cargo. A TI também traz objetividade ao processo, já que os trabalhadores muitas vezes estão confortáveis com o status quo e com as ferramentas que usam, enquanto CIOs e times de TI não possuem esse tipo de apego. 🧩
Otimização de Processos: O Trabalho que Acontece Antes da IA Entrar
A otimização de processos sempre foi uma prioridade dentro das empresas, mas ela ganhou uma dimensão completamente diferente com a chegada da IA. Antes, otimizar um processo significava, na maioria das vezes, reduzir etapas manuais, treinar melhor as equipes ou ajustar fluxos de aprovação. Hoje, o conceito vai muito mais fundo.
É preciso repensar a lógica por trás de cada processo, questionar se aquela sequência de atividades ainda faz sentido no contexto atual e identificar onde a automação pode, de fato, gerar valor real, e não apenas velocidade superficial. Esse trabalho exige uma combinação de visão tecnológica e entendimento profundo do negócio, e é por isso que o CIO precisa trabalhar lado a lado com as outras lideranças da empresa.
Na LevelBlue, por exemplo, toda vez que uma tecnologia está próxima de ter sua licença renovada, a equipe aproveita para revisar qualquer processo de negócio que dependa dela. O objetivo é determinar se o processo está maduro para otimização e transformação antes de renovar ou substituir a tecnologia existente, e antes de aplicar mais automação ou IA. Esse timing coloca Cardow, como CIO, numa posição central de liderança na otimização dos processos corporativos.
Um dos erros mais comuns que as empresas cometem nessa jornada é tentar automatizar processos que são, na sua essência, mal desenhados. Imagine um fluxo de aprovação de despesas que passa por cinco camadas de revisão manual, com retrabalho em pelo menos duas etapas. Se você automatiza isso com IA sem antes redesenhar o fluxo, você não está otimizando nada. Você está acelerando um problema.
Os CIOs que entendem isso de verdade começam qualquer projeto de automação com IA com uma fase robusta de mapeamento, onde cada etapa do processo é analisada, questionada e, se necessário, eliminada antes de qualquer implementação tecnológica começar. Esse rigor metodológico é o que diferencia um projeto que entrega ROI de um que vira só uma linha no relatório anual.
Há também uma dimensão humana nesse processo que não pode ser ignorada. A otimização de processos mediada por IA inevitavelmente muda a forma como as pessoas trabalham, e muitas vezes gera resistência. Os times sentem que suas funções estão sendo ameaçadas, que as decisões serão tomadas por máquinas e que o conhecimento que acumularam ao longo dos anos vai perder valor.
Cabe ao CIO, em parceria com as lideranças de RH e com a alta gestão, criar uma narrativa de transição que seja honesta, clara e que posicione a Inteligência Artificial como uma ferramenta de amplificação do trabalho humano, e não de substituição. Empresas que investem nessa comunicação interna colhem resultados muito melhores na adoção das novas tecnologias. 💡
A IA Agêntica Muda Tudo: Reimaginando Fluxos Completos
Se a automação de tarefas individuais já era desafiadora, a chegada da IA agêntica elevou a complexidade para outro patamar. Agora, não se trata mais de otimizar uma tarefa aqui, outra ali. O jogo mudou para a reimaginação de fluxos de trabalho inteiros, de ponta a ponta.
Doug Gilbert, CIO e Chief Digital Officer da Sutherland, uma empresa de serviços de transformação digital, explica essa mudança de forma direta. Segundo ele, durante ondas anteriores de automação, como quando o RPA (Robotic Process Automation) foi lançado pela primeira vez, os CIOs focavam em melhorar tarefas individuais. Agora, eles precisam otimizar processos e fluxos de trabalho inteiros para transformar faixas muito maiores das operações da organização.
Na visão de Gilbert, se você estiver olhando para a IA como um RPA mais complexo para resolver tarefas e atividades minúsculas, vai fracassar. É preciso olhar para como os humanos trabalham através de sistemas e tarefas diferentes, porque a automação de hoje precisa percorrer um fluxo de processo inteiro.
Um exemplo concreto disso é o Insurance AI Hub da Sutherland, um projeto lançado e concluído em 2025. Gilbert liderou a direção tecnológica geral e a arquitetura, supervisionando a implementação de um ecossistema completo de agentes de IA treinados por domínio para subscrição, adjudicação de sinistros e atendimento a segurados em múltiplas linhas de negócio. Tudo isso com fundações sólidas de dados mestres, governança embutida, observabilidade e controles com humanos no circuito desde o início.
O resultado? Uma IA agêntica em escala de produção que entrega até 30% de redução no tempo de ciclo de sinistros, menor vazamento financeiro, maior satisfação e conformidade mais robusta.
Outro exemplo é a plataforma de IA agêntica da Sutherland para credenciamento de provedores de saúde. Esse sistema multiagente reimagina um processo altamente complexo, regulado e multifuncional no nível macro, automatizando e contextualizando informações entre muitos processos previamente isolados, sistemas internos e fontes externas. O que costumava ser um processo lento, manual e que levava várias semanas se transformou em uma operação rápida, precisa e governada.
A IA agêntica, a capacidade dos LLMs de realmente tomar ação, está elevando significativamente o nível de exigência. CIOs não podem mais otimizar em silos ou colar inteligência em cima de processos quebrados.
Automação Inteligente: Quando a IA Finalmente Entra em Cena
Depois que os processos estão mapeados, redesenhados e validados, aí sim a automação com Inteligência Artificial entra com todo o seu potencial. E o que acontece nessa fase é bastante impressionante quando a fundação foi bem construída. Os ganhos de produtividade aparecem de forma rápida e mensurável, os times conseguem focar em atividades de maior valor estratégico e as decisões começam a ser tomadas com base em dados reais e atualizados, e não em intuições ou relatórios defasados.
É nesse momento que a transformação digital deixa de ser um conceito e se torna uma realidade sentida por toda a organização.
Um exemplo brilhante vem da Boston Consulting Group. Merim Becirovic, CIO, Managing Director e sócio da BCG, conta que os colaboradores da consultoria criam mais de 30 milhões de slides por ano, tornando isso um processo que consome um tempo enorme de trabalho. Em vez de focar em ganhos incrementais usando IA generativa para tarefas específicas, como elaborar o texto de slides individuais, os times da BCG reimaginaram todo o ciclo de vida de criação de apresentações.
O resultado foi o Deckster, uma ferramenta interna de IA que, usando a API da OpenAI junto com uma biblioteca curada de templates da BCG, produz slides completamente formatados e prontos para clientes em apenas três segundos, em vez dos 15 minutos que levava antes. Agora a BCG está trazendo capacidades de IA agêntica ao Deckster para otimizar e transformar o processo ainda mais.
Os casos de uso mais comuns que os CIOs estão priorizando em 2025 também envolvem automação de processos financeiros, como conciliação de pagamentos e detecção de anomalias, automação de atendimento ao cliente com agentes de IA conversacional, gestão inteligente de supply chain com previsão de demanda e otimização de estoque, e análise automatizada de contratos e documentos jurídicos.
Em todos esses cenários, o que torna a IA eficaz não é apenas a tecnologia em si, mas o fato de que ela está operando sobre processos que já foram limpos e bem definidos. A qualidade da entrada determina a qualidade da saída, e isso é uma verdade que não muda independente de qual modelo de IA você estiver usando.
Vale destacar também que a automação inteligente não é um projeto com data de fim. É uma jornada contínua de melhoria. Os modelos de IA precisam ser monitorados, ajustados e retreinados conforme o contexto do negócio evolui. Os processos que foram otimizados hoje podem precisar de uma nova rodada de revisão daqui a seis meses. E é por isso que as empresas mais maduras nessa jornada já estão criando estruturas internas de AI governance, com times dedicados a monitorar a performance dos modelos, garantir a conformidade regulatória e identificar novas oportunidades de aplicação. 🔍
Os Desafios que Estão no Caminho
As expectativas de transformação estão altas, mas os desafios que CIOs e seus colegas de C-suite enfrentam também são enormes.
Catherine Malkova, Vice-Presidente Sênior da Kyndryl Consult and Practices US, destaca que o foco agora está nos fluxos de trabalho do negócio, não apenas em pegar processos antigos e torná-los mais eficientes, mas em recriá-los do zero como um fluxo de trabalho agêntico com IA. É sobre construir uma empresa nativa em IA, e a agentificação dos fluxos de trabalho é o que vai impulsionar a próxima onda de adoção de IA.
O Kyndryl Readiness Report 2025 reforça o tamanho dessa transformação esperada: 87% dos 3.700 líderes de negócios entrevistados em 21 países disseram que a IA vai transformar completamente os papéis e responsabilidades profissionais em suas organizações ainda este ano.
A pesquisa da Kyndryl identifica cinco desafios específicos de prontidão:
- Construir fundações tecnológicas sólidas
- Gerenciar dados globais de forma eficiente
- Evoluir a força de trabalho
- Pressão para escalar pilotos de IA
- Alinhar lideranças em torno da mesma visão
Além disso, fluxos de trabalho rígidos, sistemas fragmentados, falta de confiança na IA, escassez de habilidades necessárias e resistência à mudança também representam barreiras significativas. Outros apontam a falta de boa documentação para muitos processos como mais um obstáculo, junto com preocupações sobre segurança de dados, privacidade e alucinações de IA.
Dom Profico, CTO da consultoria Bridgenext, que assessora CIOs, alerta que a própria ambição corporativa pode ser problemática. Executivos e times podem correr para adotar IA sem fazer o trabalho necessário para transformar os processos que a IA deveria ajudar a otimizar.
Segundo Profico, a IA torna a automação tão fácil que o risco de automatizar um processo ruim aumenta consideravelmente. E como todo mundo sente que está atrasado na era da IA, essa pressão aumenta a probabilidade de ir rápido demais.
As Habilidades que o CIO Precisa Dominar Agora
O cenário atual exige mais dos CIOs do que em qualquer outro momento da história do cargo. Não basta mais ser um bom gestor de tecnologia. É preciso dominar uma combinação de habilidades que vão do técnico ao estratégico.
Doug Gilbert lista as competências essenciais para o CIO da era da IA:
- Fluência profunda em plataformas de inteligência de processos e ferramentas de mineração de dados
- Expertise em estratégia de dados, especialmente gestão de dados mestres, linhagem e engenharia de contexto
- Governança de IA e gestão de riscos, particularmente em torno de agentes autônomos e accountability
- Liderança avançada de mudanças, desenhando novos modelos operacionais onde humanos e agentes colaboram de forma eficaz
- Habilidades de tradução de negócio, a capacidade de conectar decisões técnicas diretamente aos resultados financeiros e de experiência do cliente
Nas palavras de Gilbert, a profundidade técnica ainda é essencial, mas o verdadeiro diferencial hoje é a capacidade de pensar sistemicamente sobre fluxos de trabalho humano-mais-agente e de liderar na interseção de estratégia, tecnologia e risco.
Profico reforça que o pensamento sistêmico é uma habilidade indispensável para os CIOs, pois permite adotar uma abordagem holística de resolução de problemas, enxergando como as diferentes partes interagem dentro de um todo maior. Isso exige que os CIOs aprofundem e ampliem seu conhecimento sobre o negócio, sobre como o trabalho é executado e sobre o que realmente agrega valor.
Outro indicador importante é o crescimento dos investimentos em upskilling e capacitação de times técnicos dentro das empresas. Os CIOs estão percebendo que contratar talento externo para todas as necessidades de IA não é escalável, e que desenvolver competências internas é o caminho mais sustentável. Isso inclui desde treinar analistas de dados para trabalhar com ferramentas de IA generativa até capacitar líderes de negócio para interpretar e questionar os outputs dos modelos.
A inteligência artificial só entrega valor quando as pessoas que trabalham com ela entendem suas limitações, seus vieses e seu potencial real. 💡
O CIO como Instigador, Influenciador e Inovador
O cenário que se desenha para os próximos anos é de uma pressão crescente sobre os CIOs para que eles entreguem resultados concretos e mensuráveis com as iniciativas de IA e automação. Os conselhos de administração e os CEOs já não aceitam mais projetos de transformação que ficam no campo do abstrato. Eles querem ver impacto no EBITDA, redução de custos operacionais, melhoria na experiência do cliente e aumento de receita.
Becirovic, da BCG, tem uma visão muito clara sobre isso. Para ele, o que os CIOs fazem agora não é sobre enviar pessoas pelos diferentes sistemas. É sobre transformar a jornada e as experiências dentro dessa jornada. É sobre conectar os pontos e conectar os sistemas que criam essas experiências.
Essa é uma evolução natural para o CIO, segundo Becirovic. A tecnologia oferece uma lente para enxergar esse trabalho e dá acesso a produtos que permitem derrubar os silos organizacionais.
Gilbert vai na mesma direção ao afirmar que o CIO agora é dono da inteligência de processos de ponta a ponta, garantindo que os dados subjacentes estejam limpos e contextualizados, que a governança esteja embutida e que o processo otimizado realmente entregue resultados de negócio confiáveis. O CIO precisa sentar na mesa de estratégia e, em grande parte, conduzi-la daqui para frente.
E os CIOs que conseguirem traduzir o valor da tecnologia para essa linguagem de negócio serão os que terão mais autonomia, mais orçamento e mais influência para conduzir mudanças realmente significativas dentro das suas organizações.
Nas palavras de Becirovic, os CIOs de hoje e de amanhã precisam ser muito mais agressivos em buscar mudanças e impulsionar mudanças. O CIO precisa ser o instigador, influenciador, habilitador, colaborador e inovador para fazer isso acontecer. 🚀
A transformação digital não é sobre tecnologia. É sobre coragem para repensar a forma como uma empresa opera, com a tecnologia como grande aliada nesse caminho.
