A adoção digital de ferramentas voltadas para comunidades de energia ainda esbarra em um obstáculo que pouca gente fala abertamente: não basta a tecnologia ser boa, ela precisa ser compreendida por quem vai usá-la no dia a dia.
E esse gap entre o que a plataforma oferece e o que o usuário consegue aproveitar de verdade é exatamente o que o projeto COMMUNITAS está tentando resolver, com uma abordagem que mistura pesquisa de UX/UI e rastreamento ocular, o famoso eye tracking.
A iniciativa, financiada pela União Europeia por meio do programa Horizon Europe, parte de uma premissa simples e direta: uma ferramenta digital só gera impacto real quando o usuário entende o que ela faz, o que precisa fornecer e o que fazer com o resultado.
Parece óbvio, mas na prática é justamente aí que muitas soluções tecnológicas travam. O COMMUNITAS está desenvolvendo uma plataforma aberta do tipo balcão único, ou one-stop-shop, para planejamento, participação e otimização de energia comunitária.
O grande diferencial é que essa plataforma reúne, em um único ambiente digital, recursos de conhecimento, planejamento de investimentos, resposta à demanda e funções de monitoramento. E é aí que o COMMUNITAS vem mostrando que investir em usabilidade não é detalhe estético, é condição básica para que inovações em energia cheguem além dos especialistas e funcionem para cidadãos, gestores locais e municípios que estão no centro da transição energética. 👇
O que o COMMUNITAS está fazendo de diferente
O projeto não se limitou a desenvolver uma plataforma bonita e funcional no papel. A equipe foi além e estruturou um processo de validação com usuários reais, aplicando métodos que normalmente você vê em grandes empresas de tecnologia. A abordagem combina tarefas de usabilidade moderadas, eye tracking, questionários curtos e entrevistas reflexivas.
Durante uma sessão de teste, os usuários realizam tarefas realistas na plataforma central do COMMUNITAS e em ferramentas selecionadas, enquanto um rastreador ocular baseado em tela registra fixações e caminhos de leitura, os chamados scanpaths. Isso tudo aplicado a um contexto bastante específico: plataformas digitais voltadas para o gerenciamento e a participação em comunidades de energia, que são grupos de cidadãos, municípios ou organizações que compartilham recursos energéticos renováveis de forma colaborativa.
O uso do eye tracking nesse contexto é especialmente interessante porque ele vai além do que o usuário diz durante um teste. Os mapas de calor mostram quais regiões da interface atraem atenção, enquanto os gráficos de olhar revelam a sequência da atenção durante uma tarefa. Esses dados visuais, quando combinados com as ações e os feedbacks dos usuários, formam um panorama muito mais honesto sobre como a interface está funcionando, ou deixando de funcionar.
Vale destacar que a equipe da ASM Research Solutions Strategy, responsável por essa validação, toma o cuidado de não tratar os dados de olhar como uma explicação isolada. O erro comum de muitos projetos é justamente esse: olhar só para o mapa de calor sem cruzar com o comportamento real do usuário. O método aqui é rigoroso, mas sempre traduzido em recomendações práticas e prontas para entrar no ciclo de desenvolvimento.
Por que a usabilidade é decisiva para a transição energética
A transição energética não é só uma questão de infraestrutura física, como painéis solares, redes inteligentes e baterias de armazenamento. Ela depende, cada vez mais, de que as pessoas comuns consigam participar ativamente desse processo, tomando decisões informadas sobre consumo, compartilhamento de energia e gestão coletiva de recursos. E, para isso acontecer em escala, as ferramentas digitais que suportam esse ecossistema precisam ser acessíveis de verdade, não apenas tecnicamente disponíveis.
É aqui que a adoção digital vira um gargalo crítico. Plataformas mal projetadas criam fricção logo nos primeiros passos da jornada do usuário: no cadastro, na leitura dos dados, na interpretação dos gráficos, na compreensão dos benefícios que a participação na comunidade gera. Quando essa fricção é grande demais, o usuário abandona a ferramenta, mesmo que ela tenha potencial real de impacto.
O trabalho de UX/UI feito pelo COMMUNITAS parte exatamente desse diagnóstico. A primeira rodada de validação confirmou que as ferramentas atendem a uma necessidade real: elas ajudam os usuários a sair do interesse geral por comunidades de energia e chegar à ação prática. E os problemas de adoção identificados não eram técnicos no sentido de bugs ou lentidão. Eram problemas de comunicação visual, de hierarquia da informação e de linguagem utilizada nos menus e fluxos de navegação.
O que o eye tracking revelou sobre as ferramentas do COMMUNITAS
A plataforma do COMMUNITAS reúne várias ferramentas que, juntas, formam um caminho coerente do aprendizado até a operação. Vale entender o papel de cada uma:
- Base de conhecimento: apoia a orientação com informações legais, técnicas e administrativas.
- Consultor de investimentos: ajuda os usuários a explorar possíveis cenários de investimento.
- Ferramenta de resposta à demanda: introduz flexibilidade e participação nos mercados de energia.
- OPTIMEMS: oferece monitoramento e otimização baseados em dashboards.
O eye tracking adicionou uma camada crucial de entendimento, mostrando onde esse caminho precisa de sinalização mais clara. Na plataforma principal, por exemplo, os usuários até reconhecem o valor geral, mas ainda hesitam quando os pontos de entrada não são explícitos. Uma área visível do tipo comece por aqui para cada ferramenta, explicando propósito, dados necessários e resultados esperados, reduziria a incerteza e encurtaria o tempo até o primeiro sucesso.
Na base de conhecimento, os dados de atenção reforçaram a necessidade de uma busca mais forte, rótulos de tópicos mais claros e uma estrutura específica por país. Isso faz total sentido, porque energia comunitária é sempre local: incentivos, terminologia e etapas administrativas variam de país para país e precisam ser fáceis de encontrar.
Já o consultor de investimentos é especialmente importante porque transforma curiosidade em planejamento. O eye tracking consegue mostrar se os usuários percebem explicações, dicas e orientações de preenchimento antes de iniciar uma simulação. Quando o olhar fica indo e voltando repetidamente entre os campos e as dicas de ajuda, a interface está sinalizando que a escrita, o agrupamento ou os exemplos precisam melhorar.
Na ferramenta de resposta à demanda, a confiança depende do feedback. Cálculos mais longos precisam comunicar progresso, conclusão e próximos passos com clareza. Caso contrário, o usuário assume que o sistema travou ou não é confiável. E, para o OPTIMEMS, o desafio de design é sair da visibilidade dos dados para a visibilidade das decisões. Os dashboards não devem apenas exibir gráficos, eles devem ajudar o usuário a decidir o que comparar, ajustar, exportar ou fazer em seguida. 🎯
Do dado à ação: o roteiro de melhorias
Uma das partes mais interessantes do trabalho é que ele não parou no diagnóstico. A partir das evidências, a equipe montou um roteiro de melhorias bem prático, com prioridades claras:
- Fortalecer a confiança por meio de mecanismos de feedback, como indicadores de progresso, estados finais claros e mensagens de confirmação.
- Tornar a navegação mais autoexplicativa, com menus rotulados, padrões de interação consistentes e elementos clicáveis óbvios.
- Reduzir o esforço cognitivo usando linguagem simples, exemplos e validação em contexto.
- Melhorar a legibilidade com contraste adequado, tamanhos de fonte apropriados e espaçamento suficiente, pensando inclusive nos usuários mais velhos.
- Aprofundar a localização, estruturando o conteúdo em torno de regras nacionais, incentivos e práticas específicas de cada comunidade de energia.
Essas ações não estão separadas do desenvolvimento técnico do COMMUNITAS. Pelo contrário, elas ajudam a garantir que ferramentas tecnicamente avançadas possam ser adotadas por comunidades reais, com diferentes níveis de expertise.
O que outras iniciativas de energia podem aprender com isso
A experiência do COMMUNITAS traz aprendizados que vão muito além do projeto em si. Em toda a Europa, e no Brasil também, estão surgindo iniciativas de comunidades de energia que dependem de plataformas digitais para funcionar. Cooperativas de energia solar, consórcios municipais de gestão energética e programas de resposta à demanda, todos esses modelos precisam de interfaces que os cidadãos consigam usar sem precisar de treinamento especializado.
Investir em pesquisa de usuário desde as fases iniciais do desenvolvimento de uma plataforma não é um custo extra, é uma economia de longo prazo. Plataformas que chegam ao usuário final com problemas graves de usabilidade geram custos de suporte elevados, baixas taxas de retenção e, no caso das comunidades de energia, comprometem diretamente a eficiência coletiva do sistema.
O COMMUNITAS demonstra, na prática, como a pesquisa de UX/UI pode acelerar a adoção da inovação digital em energia. O eye tracking torna visíveis as barreiras ocultas de usabilidade, revelando controles que passam despercebidos, hierarquias de informação frágeis, orientações pouco claras e feedback insuficiente. Ao agir sobre essas descobertas, o projeto consegue tornar sua plataforma de balcão único mais intuitiva para cidadãos, gestores de comunidades de energia e atores locais.
Colocar o usuário no centro do desenvolvimento de ferramentas para a transição energética não é uma tendência de mercado, é uma necessidade estrutural. A adoção digital em larga escala só acontece quando a tecnologia respeita o contexto, o vocabulário e o nível de familiaridade de quem vai usá-la. E métodos como o eye tracking, quando bem aplicados dentro de um processo robusto de UX/UI, são exatamente o tipo de instrumento que transforma boas intenções em interfaces que funcionam de verdade para todo mundo. ⚡
