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Uma startup de tecnologia criada por um garoto de 15 anos parece roteiro de filme. Mas foi bem assim com Sandul Gangodagamage. Segundo o ASU News, ele lia todos os dias, na escola, revistas de tecnologia sobre empresas como Apple e Google, até decidir abrir a própria: a Legion Platforms. Anos depois, já como aluno da Arizona State University, foi no Demo Day que o negócio deu um salto de verdade.

O evento completa agora uma década. E a história de Sandul está longe de ser a única por lá. Ao longo desses dez anos, a competição de pitch da ASU virou ponto de encontro de jovens empreendedores que chegam com uma ideia ainda crua ou com um produto já rodando. Uns buscam investimento. Outros, mentoria. Alguns só precisam de um empurrão para subir no palco pela primeira vez.

Aqui, a ideia é olhar para esse modelo com olhos brasileiros. O que essas trajetórias ensinam sobre como tirar uma startup do papel? E o que o empreendedorismo no Brasil pode aproveitar de um formato que aposta em constância, conversa com o cliente e apoio de quem já percorreu o caminho? Vamos por partes.

O que é o Demo Day da ASU e por que ele chegou a 10 anos

O Demo Day nasceu em 2016 como uma competição de pitch realizada duas vezes por ano. Ele faz parte do Venture Devils, programa ligado ao J. Orin Edson Entrepreneurship + Innovation Institute, o instituto de empreendedorismo e inovação da universidade. De acordo com o ASU News, o programa atende estudantes da ASU e das faculdades comunitárias de Maricopa, oferecendo comunidade, mentoria, treinamentos e oportunidades de financiamento.

A dinâmica do Demo Day é simples. Os estudantes apresentam seus negócios para investidores e líderes do mercado. Em troca, disputam dinheiro para tocar o projeto e ganham acesso a orientação de gente experiente.

Os números da década chamam atenção. Segundo a reportagem do ASU News, foram 833 prêmios concedidos a empreendimentos, somando mais de US$ 4,5 milhões. O veículo também conta que, além do investimento da própria universidade, outros doadores contribuíram para as premiações ao longo desses anos. Ou seja, o evento conseguiu reunir apoio para além da estrutura acadêmica.

Só que o segredo não está apenas no dinheiro. Para Brent Sebold, diretor de empreendedorismo e inovação na escola de engenharia da ASU e cofundador do Venture Devils, o grande trunfo é o ritmo previsível. Como o evento acontece sempre na mesma cadência, fundadores e apoiadores conseguem se organizar e participar ano após ano. Ele ainda destacou ao veículo que a equipe atual segue aprimorando o modelo a cada edição.

Parece detalhe. Não é. Quem empreende sabe que um calendário confiável ajuda a planejar metas, protótipos e até a coragem de se inscrever de novo depois de uma tentativa que não deu certo.

Jovens empreendedores que começam cedo

Sandul é o exemplo mais vistoso dessa década. Hoje ele está no último ano da graduação, com dupla formação em ciência da computação e direito empresarial. Segundo o ASU News, ele levou o primeiro lugar em quatro edições do Demo Day, com duas startups diferentes, e somou US$ 60 mil em financiamento. Também venceu a Inferno Invitational Startup Cup, que rendeu um prêmio único de US$ 100 mil.

O produto principal dele, a Legion Platforms, é uma plataforma de jogos multiplayer pensada para quem tem internet lenta. A reportagem informa que ela reúne 17 milhões de usuários pelo mundo. Pelos jogos, as pessoas aprendem habilidades como matemática e ciências, e ainda podem criar seus próprios games com as ferramentas da plataforma.

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Repare no foco. Em vez de disputar espaço com quem atende usuários de conexão rápida, a empresa mira um problema concreto, a conexão ruim, e constrói o produto em torno dele. É um bom lembrete para quem desenvolve produtos digitais: as limitações do seu público também são oportunidades de design.

Sandul participa do Demo Day todos os anos desde o primeiro ano de faculdade. E, na estreia, já ganhou. Ele contou ao veículo que subiu ao palco, apresentou pela primeira vez e sentiu a plateia e os jurados do lado dele.

Para quem ainda está em dúvida se deve tentar, ele devolve uma pergunta que vale guardar: e se você não falhar? Pode soar como frase de efeito, mas carrega uma verdade incômoda. Muita gente desiste antes de começar só por imaginar o pior cenário. Se você gosta de acompanhar trajetórias de fundadores, vale ler também sobre Ethan Shaotran e sua startup de tecnologia voltada à defesa.

Como tirar uma startup do papel: as lições práticas

Nem toda história do Demo Day começa com um adolescente obcecado por tecnologia. Algumas nascem dentro de casa, numa conversa de família. E é justamente aí que aparecem as lições mais úteis para quem está no começo.

A trajetória de Carsyn Schuch, contada pelo ASU News, funciona quase como um manual. Ela se formou em gestão de engenharia em maio deste ano e, ainda no segundo ano da faculdade, entrou numa disciplina de empreendedorismo para engenheiros que pedia aos alunos um produto para apresentar. Esse trabalho acabou mudando a carreira dela.

Vale olhar cada etapa com calma, porque elas servem tanto para um produto físico quanto para um app ou um software.

Comece por um problema real

Carsyn queria criar algo que ajudasse pessoas de verdade. A inspiração veio da mãe, que lembrou de lençóis de berço com velcro desenhados pela avó quando Carsyn era bebê. Segundo a reportagem, a mãe dizia que eles tinham sido uma salvação e sugeriu que a filha seguisse por um caminho parecido. A criação original da avó, hoje com 85 anos, deu origem à Lazy Daisy Bed Sheets.

O produto é um lençol com velcro pensado para idosos e pessoas com deficiência que têm dificuldade para colocar o lençol de elástico e levantar colchões pesados. Nada de tecnologia mirabolante. Só uma dor antiga, conhecida, que alguém resolveu levar a sério.

Esse é o primeiro filtro de qualquer negócio. Antes de pensar em app, plataforma ou inteligência artificial, pergunte: quem sofre com isso hoje? Uma startup de tecnologia que nasce de um incômodo real tende a ter mais facilidade para encontrar quem queira usar e pagar pelo que ela oferece.

Converse com o cliente antes de escalar

O mentor de Carsyn, Wayne Smith, incentivou que ela estudasse segmentos de clientes e fizesse descoberta de clientes. Na prática, isso significa sair da mesa e conversar com quem usaria o produto. Foi nesse processo que ela confirmou que os idosos, em especial, tinham dificuldade com o lençol de elástico.

Mas a surpresa veio de outro lado. Segundo o ASU News, equipes de residências para idosos e de hospitais enfrentavam o mesmo problema, que chegava a causar lesões nas costas. A conversa revelou um possível público além do consumidor final.

Esse tipo de descoberta raramente aparece numa planilha. Ela surge no contato direto. Imagine, só como exemplo, um aplicativo de agendamento criado para salões de beleza que, depois de algumas entrevistas, percebe que pequenas clínicas têm uma dor parecida. Sem ouvir ninguém, essa porta talvez nunca se abrisse.

Mentoria muda o jogo

Carsyn se reunia regularmente com o mentor para trabalhar o pitch deck e ensaiar a apresentação. Ela contou ao veículo que essa rotina deu uma noção real de como seria a vida nos negócios. Não era só teoria de sala de aula.

Sandul fala algo parecido. Para ele, o programa ensina desde como se inscrever até como montar um pitch capaz de vencer, que ele considera a parte mais difícil. A orientação de quem já passou por aquilo encurta caminhos que, sozinho, você poderia levar muito tempo para descobrir.

A frequência importa. Uma conversa solta ajuda pouco. Encontros regulares criam compromisso, permitem testar ajustes e deixam a evolução visível. Se você tem acesso a um mentor, combine uma cadência e cumpra.

O pitch é uma habilidade que se treina

Ninguém nasce sabendo apresentar um negócio. Carsyn ficou muito nervosa no primeiro Demo Day. Chegou cedo para assistir aos outros pitches e, segundo a reportagem, sentiu a famosa síndrome do impostor, intimidada por tantos produtos que achou incríveis.

Esse sentimento aparece com frequência em quem está começando. A boa notícia é que a prática costuma ajudar. Ensaiar várias vezes, cronometrar a fala e apresentar para amigos antes do dia oficial faz diferença na segurança de quem sobe ao palco.

Se quiser se aprofundar no tema, vale ler sobre o que o Venture Atlanta ensina sobre pitch de startup.

Não faça isso sozinho

Lauren Dunning, diretora de relacionamento com estudantes no instituto de inovação da ASU, explica o sucesso do evento de um jeito bem humano. Segundo ela, o Demo Day encontra o fundador onde ele estiver, seja só com a ideia, seja com o produto pronto.

Ela também descreve o evento como um momento em que o estudante percebe que não está sozinho na jornada. E isso pesa. Empreender cedo pode ser solitário, principalmente quando os amigos seguem caminhos mais tradicionais.

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O que o empreendedorismo no Brasil pode aprender com esse modelo

O Brasil já tem muitas peças parecidas. Núcleos de empreendedorismo em universidades, incubadoras, programas de aceleração e competições de ideias existem em diferentes regiões. O que o caso da ASU destaca é a combinação disso tudo com regularidade. Um evento que acontece sempre, no mesmo ritmo, vira referência e ajuda a criar uma cultura em volta dele.

Outro ponto que merece atenção é o tipo de dinheiro. Dunning destacou ao ASU News que Sandul conseguiu seguir construindo o que já fazia no ensino médio com recursos não diluitivos da universidade. Em outras palavras, ele recebeu apoio sem precisar entregar parte da empresa. Para fundadores muito jovens, isso dá fôlego para testar, errar e ajustar sem a pressão de um investidor logo no início. Quem quer entender as opções disponíveis por aqui pode conferir o conteúdo sobre financiamento para startups de clima e tecnologia no Brasil.

E quem está longe dos grandes polos? Dá para adaptar. Imagine uma faculdade do interior que organiza sua própria rodada de pitches a cada semestre, mesmo com prêmios modestos. Grupos de ex-alunos podem oferecer mentoria online. Empresas da região podem patrocinar pequenas premiações. Para ver como outros ecossistemas se movimentam, vale conhecer a história de fundadores de startups em Tampa.

O caminho fica mais curto com apoio

Dez anos de Demo Day deixam uma mensagem clara. Começar cedo ajuda, mas não basta. As histórias contadas pelo ASU News juntam um problema real, conversa com quem vai usar o produto e gente experiente por perto.

Sandul transformou um interesse da pré-adolescência numa plataforma com milhões de usuários. Carsyn transformou uma lembrança de família num produto para idosos e pessoas com deficiência, com potencial de interessar também residências para idosos e hospitais. Os caminhos foram diferentes, mas os dois passaram por pontos parecidos: ouvir, ajustar, ensaiar e apresentar.

E o ciclo continua. Segundo o veículo, a próxima edição está marcada para 14 de novembro, no campus SkySong da ASU.

Para o empreendedorismo no Brasil, a lição é que constância pesa tanto quanto talento. Quem cria espaços regulares para jovens empreendedores mostrarem suas ideias está plantando negócios que podem crescer lá na frente.

Se você tem uma ideia guardada, escolha hoje o problema que ela resolve e marque uma conversa com alguém que convive com ele. É um primeiro passo pequeno, mas é por ele que muitas boas startups começam.

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