Investimento em startups de mining tech, como é chamada a tecnologia voltada à mineração, tem um endereço preferido. E ele fica bem longe de qualquer mina. Segundo levantamento divulgado pelo Mining.com, a Bay Area, região de São Francisco, na Califórnia, atraiu US$ 2,1 bilhões. Isso equivale a 35% de todo o dinheiro mapeado no estudo para empresas que criam soluções para o setor.
Agora olhe para o outro lado do mapa. A América Latina, onde Chile e Peru respondem por 35% do cobre produzido no mundo, ficou com cerca de 1% desse bolo, de acordo com a reportagem. O minério e muitos dos desafios do dia a dia da operação estão por aqui. O cheque, nem tanto.
Esse descompasso vai além de uma curiosidade de mercado. Ele mostra como os investidores escolhem onde apostar e o que ainda falta para quem empreende do lado de cá. A pergunta que guia este texto é simples: o que essa distância entre a mina e o capital ensina às startups brasileiras que buscam investidores?
O retrato do mercado em poucos números
O estudo foi feito por Alex Aguilar, consultor global de inovação em mineração da Mind the Bridge, e publicado em formato de infográfico pelo Mining.com. Ele mapeou 170 startups de mineração espalhadas por 22 países. Um detalhe salta aos olhos: 84 dessas empresas nasceram de 2020 para cá. Quase metade do grupo, portanto, tem pouco tempo de estrada.
Isso diz algo sobre o momento. Um setor com tanta empresa nova ainda está se organizando, testando modelos de negócio e descobrindo quais soluções de fato pegam. Para quem chega agora, o jogo não está fechado.
A concentração do dinheiro é o ponto mais marcante. Segundo o veículo, a Bay Area abriga 13 startups do setor. Santiago, no Chile, tem 10, e Perth, na Austrália, tem 9. Na contagem de empresas, as três cidades ficam próximas. Só que Santiago e Perth, juntas, somaram US$ 92 milhões, uma fração do que circulou na Califórnia.
Parte dessa diferença vem de poucos nomes muito grandes. De acordo com a reportagem, cinco empresas concentram US$ 2,8 bilhões em financiamento. A lista é puxada pela KoBold Metals, com US$ 1,2 bilhão, seguida pela Boston Metal, com US$ 485 milhões, e pela Mariana Minerals, com US$ 394 milhões.
Quando poucas empresas recebem tanto, os números totais ficam distorcidos. É como calcular a renda média de uma rua onde mora um bilionário: a conta sobe, mas não conta a história dos vizinhos. Vale ter isso em mente antes de tirar conclusões apressadas sobre qualquer região.
Onde o dinheiro realmente vai
Aqui está um dos aprendizados mais úteis para quem está montando um negócio. Segundo o Mining.com, a área de processamento e refino ficou com 38% dos recursos, cerca de US$ 2,2 bilhões. É a etapa que transforma minério bruto em material pronto para a indústria. Pelo volume de capital, dá para dizer que os investidores enxergam ali uma aposta atraente.
Do outro lado, o software para operação de mina reúne o maior número de startups do levantamento: 54 empresas. Mesmo assim, recebeu só 5% do investimento, de acordo com a reportagem.
Muita gente empreendendo. Pouco dinheiro entrando.
É o retrato de um nicho disputado, em que cada empresa briga por uma fatia pequena de atenção. Pense numa startup que criou um painel bonito para acompanhar caminhões e escavadeiras em tempo real. A ideia é boa, mas o investidor que recebe a apresentação talvez já tenha visto várias parecidas no mesmo mês. O que vai fazer essa empresa se destacar não é a tela, e sim a prova de que ela gera economia ou segurança de verdade.
A lição é direta. Estar num mercado lotado não significa estar onde o investidor quer apostar. Quem desenvolve software para mina não precisa largar tudo, mas precisa saber explicar por que sua solução é diferente e por que o retorno justifica o cheque.
As mineradoras como investidoras
Nesse universo, o dinheiro não vem só dos fundos de venture capital tradicionais. Segundo o veículo, as grandes mineradoras lideram a atividade de investimento. A Rio Tinto já apoiou 23 startups, e a BHP Ventures aparece logo atrás, com 17.
Faz sentido. Quem opera a mina sente a dor de perto: custo alto, segurança dos trabalhadores, eficiência, impacto ambiental. Apoiar startups é um jeito de testar soluções sem construir tudo dentro de casa. E, para a startup, ter uma mineradora por perto pode abrir portas que um fundo comum dificilmente abriria, como acesso a dados reais e a uma operação para testes.
Isso muda a estratégia de captação. Em vez de mirar só os fundos mais conhecidos, vale entender quem são os braços de investimento corporativo do setor, como eles escolhem projetos e o que esperam em troca. Muitas vezes, a relação começa com um projeto-piloto, não com uma rodada.
Imagine uma startup que propõe um teste pequeno, de poucas semanas, numa área específica de uma operação. Se o resultado for bom, ela ganha um caso para mostrar, um cliente em potencial e, quem sabe, um investidor que já conhece o produto por dentro. Um piloto bem executado pode pesar mais do que uma apresentação impecável.
Saídas, valuation e geografia
Outro dado curioso envolve as saídas, que acontecem quando os investidores vendem sua participação e realizam o retorno. Segundo o Mining.com, a Austrália registrou 33 saídas em mining tech com US$ 274 milhões captados em venture capital. O Canadá teve 25 saídas com US$ 910 milhões. Já os Estados Unidos somaram 13 saídas com US$ 3,5 bilhões.
Repare na proporção. Entre os três países, o que mais recebeu dinheiro foi o que menos registrou saídas. A Austrália, com bem menos capital, contabilizou mais vendas de participação.
Uma leitura possível é que cheques gigantes tendem a financiar apostas longas, caras e de tecnologia mais pesada, que levam tempo para amadurecer. O levantamento não explica o motivo, então essa é uma interpretação, não um fato. Mas ela ajuda a lembrar que volume de investimento e retorno são coisas diferentes.
Para quem está fora dos grandes polos, o recado é animador. Os números australianos mostram que dá para gerar saídas sem estar no epicentro do capital. O valuation alto chama atenção, mas o investidor quer mesmo saber como e quando vai recuperar o dinheiro.
O que startups brasileiras podem tirar disso
A reportagem não traz dados específicos sobre o Brasil, então nada de inventar ranking. O que dá para fazer é olhar o retrato da América Latina: segundo o veículo, a região abriga 29 startups do setor, mas atraiu apenas US$ 59 milhões. Há empresas, há minério, há problema para resolver. O que falta é conexão com o capital.
Algumas atitudes práticas podem ajudar a encurtar essa distância:
- Contar a história em linguagem de investidor global, ligando a tecnologia a minerais críticos e à transição energética.
- Mirar as áreas que concentram capital, como processamento e refino, ou deixar bem claro por que o seu nicho merece atenção.
- Tratar mineradoras como possíveis investidoras e primeiros clientes, não só como compradoras.
- Usar a proximidade com a operação real como vantagem diante de quem inova longe da mina.
O primeiro ponto pesa bastante. Investidores de fora costumam pensar em cadeias globais e em grandes temas. Se a sua solução ajuda a produzir com menos emissão ou a garantir metais usados em baterias, diga isso logo no começo da conversa. Esse movimento conversa com o que já acontece no financiamento para startups de clima e tecnologia no Brasil.
Também vale cuidar do básico. Material em inglês bem escrito, métricas claras e um problema explicado sem jargão fazem diferença para quem nunca acompanhou de perto uma operação de mineração. Parece detalhe, mas é muitas vezes o que separa uma resposta educada de uma segunda reunião.
O último ponto da lista talvez seja o mais valioso. Imagine uma startup que testa seu sensor dentro de uma mina de verdade, com poeira, chuva e turnos ininterruptos. Ela chega à conversa com aprendizados que uma equipe trabalhando só em laboratório levaria tempo para acumular. Esse tipo de vivência é típico do universo de deep tech, tema que aparece também na cobertura da Deep Tech Week em Washington.
A distância também é oportunidade
O contraste do começo continua valendo. Há muita startup surgindo perto das regiões mineradoras, em lugares como Santiago e Perth, e a América Latina reúne dezenas delas. O dinheiro, por enquanto, se concentra a milhares de quilômetros dali. Só que essa distância não precisa ser vista apenas como problema.
Quem conseguir atravessar essa ponte tende a sair na frente. Isso passa por relacionamento, por presença nos eventos certos e por uma narrativa que faça sentido para quem nunca pisou numa mina. Vale ver como outras startups têm feito isso em investimentos e inovação em networking.
Se você empreende nesse setor, os números do estudo servem como um bom ponto de partida para revisar o pitch e repensar onde mirar. E aqui no Método Viral a cobertura sobre captação, rodadas de investimento e ecossistema de startups segue de perto.
