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Como os agentes de IA estão transformando o dia a dia nas empresas

Os agentes de IA evoluíram de forma impressionante nos últimos anos e já deixaram para trás aquela fase de assistentes virtuais que só respondiam perguntas genéricas. Agora, eles estão no coração das operações de grandes empresas, assumindo funções que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Estamos falando de delegar tarefas, monitorar sistemas complexos e até supervisionar outros agentes dentro de fluxos de trabalho inteiros. Essa realidade está mexendo com estruturas organizacionais que pareciam consolidadas há décadas, e o impacto já é sentido tanto por quem lidera equipes quanto por quem executa o trabalho no dia a dia.

Um caso que ilustra bem essa transformação acontece na Snowflake, uma das maiores plataformas de dados em nuvem dos Estados Unidos. Até pouco tempo atrás, os engenheiros da empresa passavam horas do expediente em atividades repetitivas e operacionais, como monitorar painéis de sistema para garantir que tudo estivesse rodando sem problemas e perseguir colegas de outros times para conseguir dados necessários para análises de tendências. Esse tipo de rotina consumia tempo e energia de profissionais altamente qualificados, que poderiam estar aplicando suas habilidades em problemas mais complexos e estratégicos para o negócio.

Qaiser Habib, líder de engenharia da Snowflake no Canadá, baseado em Toronto, conta que esse cenário mudou radicalmente com a adoção de inteligência artificial. Hoje, ele passa entre 20 e 30 horas por semana interagindo diretamente com cinco agentes de IA diferentes, cada um responsável por uma fatia específica do fluxo de trabalho. A Snowflake construiu agentes para revisar design de produtos e para auxiliar engenheiros de plantão durante incidentes e interrupções de sistema, entre outros usos. Os demais engenheiros do time também utilizam de três a quatro agentes no cotidiano, principalmente para conduzir projetos de codificação sob supervisão humana. O resultado prático é que a parte operacional roda de forma quase autônoma, liberando os profissionais para focar em decisões que realmente exigem criatividade, julgamento humano e visão de longo prazo.

A diferença entre chatbots e agentes de IA

Um ponto fundamental para entender essa transformação é a diferença entre os chatbots tradicionais e os agentes de IA que estão chegando ao ambiente corporativo. Chatbots respondem a comandos e prompts de forma reativa. Você faz uma pergunta, ele devolve uma resposta. Já os agentes de IA são projetados para planejar, raciocinar e executar tarefas em múltiplas etapas. Eles se adaptam a contextos dinâmicos, como metas de negócio que mudam ao longo do tempo, e conseguem acessar ferramentas de referência como calendários, transcrições de reuniões e bancos de dados internos para completar trabalhos com supervisão humana limitada.

Em alguns ambientes de trabalho, esses sistemas não estão apenas completando tarefas — eles estão atribuindo tarefas a trabalhadores humanos. À medida que a tecnologia melhora, agentes de IA também começam a gerenciar uns aos outros. Um agente pode gerar código, por exemplo, enquanto outro revisa esse código em busca de erros e corrige bugs antes que um humano aprove a versão final. Esses fluxos de trabalho de agente para agente ajudam as empresas a escalar mais rápido, mas também intensificam preocupações de que a IA está avançando para além da assistência, entrando no território da supervisão e, potencialmente, da substituição de empregos.

A Anthropic, criadora do assistente Claude, recentemente expandiu o acesso aos seus agentes de cooperação, permitindo que usuários sem conhecimento técnico concedam ao sistema permissão para acessar pastas específicas em seus computadores. Com isso, o Claude consegue ler, editar, criar e organizar arquivos de forma autônoma. Esse tipo de avanço mostra que a barreira de entrada para usar agentes de IA está caindo rapidamente, e não são apenas empresas de tecnologia que estão se beneficiando.

A automação está redesenhando funções e hierarquias

O que está acontecendo na Snowflake não é um caso isolado. Empresas de diversos setores estão experimentando automação baseada em agentes de IA para redesenhar processos internos, e os efeitos vão muito além de simples ganhos de produtividade. Algumas companhias já utilizam ferramentas de IA para acompanhar desempenho de funcionários, recomendar promoções, sugerir mudanças de cargo e até identificar posições que podem ser eliminadas. Quando um agente assume tarefas que antes eram distribuídas entre vários profissionais, toda a lógica de hierarquia e divisão de responsabilidades precisa ser repensada.

Cargos que existiam basicamente para coordenar o fluxo de informações entre departamentos, por exemplo, perdem relevância quando um agente consegue fazer essa ponte de forma instantânea e com menor margem de erro. Isso não significa que as pessoas se tornam descartáveis, mas sim que o papel delas dentro da organização muda significativamente, exigindo novas competências e uma mentalidade diferente sobre o que é trabalho de valor.

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Essa reorganização também afeta a forma como as equipes se comunicam e colaboram. Antes, um engenheiro precisava enviar mensagens, agendar reuniões e esperar respostas de outros departamentos para avançar em um projeto. Com agentes de IA atuando como intermediários inteligentes, boa parte dessa fricção desaparece. O agente busca o dado necessário, processa a informação e entrega o resultado em minutos, às vezes segundos. Isso muda completamente o ritmo de trabalho e cria uma dinâmica onde as decisões acontecem mais rápido, os ciclos de desenvolvimento encurtam e a expectativa de entrega sobe para todos os envolvidos.

O escritório mais enxuto e as demissões em massa

A mudança acontece em um momento em que empregos administrativos e de escritório continuam desaparecendo, principalmente nos Estados Unidos. Uma série de grandes empregadores anunciou demissões em massa recentemente, afetando sobretudo trabalhadores de nível inicial e de gerência intermediária. Executivos têm apontado a automação e a eficiência impulsionada pela IA como parte da justificativa para esses cortes.

Quando a Amazon anunciou em outubro que planejava eliminar cerca de 14 mil postos de trabalho, seus executivos citaram o potencial da IA para ajudar a empresa a operar com menos camadas hierárquicas e maior eficiência. UPS, Target e General Motors também anunciaram cortes profundos, e janeiro registrou mais demissões do que qualquer janeiro nos Estados Unidos desde 2009. Empresas como Pinterest e HP também mencionaram iniciativas de IA como parte do motivo.

O Goldman Sachs estimou que entre 6 e 7 por cento dos trabalhadores americanos podem perder seus empregos por conta da adoção de IA, com riscos mais elevados para programadores, contadores, auditores, assistentes jurídicos e administrativos e representantes de atendimento ao cliente. O banco ressaltou, porém, que os efeitos gerais sobre o emprego podem ser relativamente temporários à medida que novos cargos surgem para atender às demandas dessa nova era tecnológica.

A gerência intermediária sob pressão

Previsões iniciais sugeriam que a IA substituiria principalmente empregos técnicos de nível inicial, e alguns especialistas relacionam as altas taxas de desemprego entre recém-formados à adoção de inteligência artificial. Mas a disrupção mais significativa, segundo Roger Kirkness, fundador da empresa de software de IA Convictional, sediada em Toronto, está acontecendo na gerência intermediária.

As ferramentas da Convictional traduzem a estratégia definida pela liderança executiva em tarefas operacionais — um papel que antes era desempenhado por supervisores humanos. O sistema entrega atribuições diárias e feedback aos funcionários por meio de uma interface simples, parecida com uma caixa de entrada de e-mail.

Em empresas com mais de 50 pessoas, onde os CEOs não conseguem conversar com cada gerente individualmente, a plataforma da Convictional faz o trabalho de trazer à tona o contexto relevante da organização para a tomada de decisão da liderança, explicou Kirkness em entrevista à Al Jazeera.

Isso não significa que os humanos se tornaram irrelevantes. Mas existe uma pressão crescente para requalificação, e aqueles que se destacam em pensamento estratégico estão mais bem posicionados para se adaptar a ambientes de trabalho integrados com IA. Kirkness observou que as pessoas estão basicamente se tornando gestoras das funções que ocupavam anteriormente, porque a IA agora consegue executar muitas das tarefas que antes faziam parte de suas responsabilidades. Em vez de completar tarefas como codificar ou criar materiais de marketing, os humanos estão focando em estratégia de alto nível enquanto monitoram os sistemas de IA.

Porém, pesquisas recentes indicam que os cortes de emprego refletem mais a antecipação das empresas em relação ao potencial da IA do que a capacidade real da tecnologia de substituir trabalhadores humanos por completo. Uma pesquisa da Harvard Business Review realizada em dezembro com 1.006 executivos globais revelou que, embora a IA tenha desempenhado pouco papel direto na substituição de trabalhadores até agora, muitas empresas já cortaram vagas ou desaceleraram contratações em antecipação ao impacto prometido pela tecnologia.

A maioria dos CEOs diz que ainda está esperando o retorno da IA: 56 por cento não reportam benefícios em receita ou redução de custos até o momento, de acordo com a mais recente pesquisa Global CEO Survey da PwC, que entrevistou 4.454 executivos em 95 países e territórios.

Confiança e controle no ambiente de trabalho

Stefano Puntoni, cientista comportamental da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, descobriu que o uso de IA já está afetando os hábitos de comunicação no ambiente de trabalho. Sua pesquisa mostra que funcionários muitas vezes estão mais dispostos a delegar tarefas para a IA do que para colegas de equipe, o que pode ajudar a reduzir o esgotamento profissional. Não existe custo social nisso, segundo Puntoni. Ninguém se preocupa em sobrecarregar uma IA.

Ainda assim, Puntoni argumenta que a maior barreira para a adoção é psicológica, não técnica. Mesmo sistemas eficientes podem falhar se os trabalhadores não confiarem neles. A IA generativa, segundo o pesquisador, pode ameaçar o senso de competência, autonomia e conexão dos funcionários. Se os trabalhadores se sentirem ameaçados, eles podem querer que o sistema falhe. Em escala, isso garante o fracasso da implementação.

Em outras palavras, implantar IA principalmente como ferramenta de corte de custos pode ser um tiro no pé. Demissões apresentadas como ganhos de eficiência podem reduzir a cooperação e limitar os benefícios de produtividade que as empresas esperam alcançar com a tecnologia.

Kirkness concordou que a confiança é a verdadeira restrição. Para construir a confiança dos funcionários nas ferramentas que vende — e para evitar demissões — a Convictional adotou uma semana de trabalho de quatro dias, enquadrando a medida como uma forma de compartilhar os ganhos de produtividade gerados pela IA com os colaboradores. Demissões em massa em nome da automação destroem a confiança, destacou Kirkness.

O fator humano ainda faz diferença

Nos Estados Unidos, processos judiciais já começaram a contestar decisões corporativas impulsionadas por IA, particularmente em áreas como negação de pedidos de seguro e suposta discriminação em contratações habilitada por inteligência artificial. Alguns especialistas alertam que, à medida que os sistemas de IA se tornam mais autônomos, os humanos correm o risco de perder supervisão significativa — e que esses próprios agentes podem se tornar alvos de ataques cibernéticos. A regulamentação, no entanto, tem lutado para acompanhar o ritmo da inovação. Nem os Estados Unidos nem o Canadá possuem regras claramente definidas para governar agentes de IA.

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Líderes de negócios estão testando quais funções podem ser automatizadas e quais ainda exigem envolvimento humano contínuo. Para alguns trabalhadores, essa incerteza se tornou fonte de desconforto. Uma funcionária de uma multinacional, baseada em Vancouver, contou que às vezes se pergunta se o coach online usado para apoiar o desenvolvimento de funcionários é um sistema de IA ou um humano que depende tão fortemente de ferramentas de IA que a distinção se tornou borrada. Ela pediu anonimato por receio de repercussões profissionais.

Algumas organizações estão estabelecendo limites claros. A New Ground Wellness, uma empresa canadense de aconselhamento clínico e bem-estar, utiliza ferramentas de IA como chatbots em suas operações diárias. Porém, recusou recentemente uma proposta de 20 mil dólares canadenses — cerca de 14.600 dólares americanos — para implementar um sistema de IA agêntica que faria a triagem de clientes e os conectaria a terapeutas.

Após ouvir o feedback dos clientes que entravam em contato, a empresa concluiu que os ganhos de eficiência não compensariam o potencial dano à confiança. Essa decisão também reflete múltiplas pesquisas que mostram uma forte preferência entre consumidores ocidentais por atendimento humano. Lucinda Bibbs, cofundadora da New Ground Wellness, afirmou que a empresa está aberta a reconsiderar sistemas de IA no futuro, mas que neste momento preservar as conexões humanas continua sendo a maior prioridade.

O que isso significa para o futuro do trabalho

A grande pergunta que paira sobre toda essa movimentação é inevitável: o que acontece com o emprego quando agentes de IA assumem tantas funções? A resposta mais honesta é que estamos em um momento de transição, e os efeitos variam bastante dependendo do setor, do tipo de função e do nível de adoção tecnológica de cada empresa. O que já dá para observar é que as posições mais vulneráveis são aquelas centradas em tarefas repetitivas, previsíveis e baseadas em coleta e organização de informações. Por outro lado, funções que exigem pensamento crítico, criatividade, negociação e tomada de decisão em cenários ambíguos continuam sendo difíceis de automatizar com a tecnologia atual.

O mercado de trabalho está sendo redesenhado em tempo real, e isso cria tanto oportunidades quanto desafios. Novas funções estão surgindo para dar conta dessa nova realidade, como especialistas em orquestração de agentes, engenheiros de prompt avançado e profissionais dedicados a garantir que os sistemas de inteligência artificial operem dentro de parâmetros éticos e seguros. Ao mesmo tempo, profissionais que não se adaptarem a essa nova dinâmica podem encontrar dificuldades crescentes para se manter competitivos. Não se trata de alarmismo, mas de uma leitura realista do cenário que já está se consolidando em empresas de todos os tamanhos ao redor do mundo.

O caso da Snowflake, junto com os dados do Goldman Sachs, da PwC e da Harvard Business Review, mostra que a adoção de agentes de IA não é uma aposta futurista — é uma realidade operacional que já está gerando resultados concretos e provocando mudanças estruturais. A combinação de automação inteligente com profissionais focados em decisões estratégicas parece ser o modelo que mais faz sentido neste momento de transição. Empresas que encontrarem esse equilíbrio entre tecnologia e talento humano provavelmente vão sair na frente. E para quem trabalha com tecnologia ou acompanha esse mercado de perto, entender como esses agentes funcionam e onde eles se encaixam na cadeia de valor deixou de ser curiosidade e virou necessidade prática. O futuro do trabalho não está sendo escrito em algum laboratório distante — ele está sendo construído agora, nos escritórios e nas decisões cotidianas de quem já aprendeu a trabalhar lado a lado com a inteligência artificial. 🚀

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