O que está por trás da tensão entre a Anthropic e o Pentágono
A Anthropic, criadora do assistente Claude, se posicionou de forma firme ao negar o uso de sua inteligência artificial para fins como vigilância em massa e desenvolvimento de armas totalmente autônomas. Essa decisão não foi bem recebida pelo Pentágono, que rapidamente classificou a empresa como um risco dentro da cadeia de suprimentos de defesa dos Estados Unidos. Na prática, isso significa que a Anthropic passou a ser vista como uma fornecedora não confiável aos olhos do Departamento de Defesa, o que pode ter consequências sérias para seus contratos e parcerias futuras com o governo americano.
A decisão do governo Trump de bloquear a Anthropic e designá-la como um supply chain risk aconteceu na sexta-feira, e poucas horas depois começaram as operações de combate no Irã. O governo dos Estados Unidos justificou os ataques afirmando que eram necessários para neutralizar ameaças iminentes dos programas nucleares e de mísseis iranianos. A coincidência de timing tornou tudo ainda mais delicado. Os ataques militares amplificaram o debate sobre o papel das empresas de tecnologia em operações de guerra e segurança nacional. De repente, a decisão da Anthropic de traçar uma linha ética ganhou um peso enorme, porque ficou evidente que as ferramentas de inteligência artificial estão cada vez mais próximas dos campos de batalha.
O que chamou atenção foi que a pressão não veio de concorrentes ou do mercado, mas diretamente de uma das maiores estruturas militares do planeta. A mensagem do Pentágono foi clara: empresas que não colaboram com as demandas de defesa podem ser tratadas como obstáculos. Isso abriu um precedente preocupante para todo o setor de tecnologia, já que outras empresas que desenvolvem modelos de linguagem e sistemas de IA podem enfrentar situações parecidas caso se recusem a atender solicitações semelhantes.
A onda de apoio que surpreendeu o Vale do Silício
O que ninguém esperava é que a resposta viria tão rápido e com tanta força. Em questão de dias, cartas abertas começaram a circular entre funcionários de empresas como Google, OpenAI e outras gigantes do setor, pedindo limites claros sobre como suas organizações colaboram com o governo americano em questões militares. O apoio à posição da Anthropic veio de dentro das próprias empresas que, em teoria, poderiam se beneficiar caso ela perdesse espaço no mercado. Isso mostra que a preocupação com o uso responsável de inteligência artificial transcende a competição comercial e toca em valores que muitos profissionais consideram inegociáveis.
O manifesto batizado de We Will Not Be Divided reuniu quase 900 assinaturas em tempo recorde. Na sexta-feira, o documento contava com poucas centenas de nomes, e até segunda-feira já somava quase 900, sendo cerca de 100 funcionários da OpenAI e perto de 800 do Google. O texto é direto ao ponto e afirma que o Departamento de Defesa está tentando dividir as empresas pelo medo de que uma concorrente vá ceder às pressões. A carta aponta que essa estratégia só funciona se ninguém souber onde os outros se posicionam, e que o objetivo do manifesto é justamente criar um entendimento compartilhado e solidariedade diante dessas pressões.
Além do We Will Not Be Divided, uma segunda carta aberta também ganhou tração. Centenas de profissionais de tecnologia assinaram um documento pedindo ao Departamento de Defesa que retire a designação da Anthropic como risco na cadeia de suprimentos. A lista de signatários inclui dezenas de funcionários da OpenAI, além de profissionais de empresas como Salesforce, Databricks, IBM e Cursor. Esse documento pede que o Congresso americano examine se o uso dessas autoridades extraordinárias contra uma empresa de tecnologia americana é apropriado, e defende que a Anthropic e outras empresas privadas não devem sofrer retaliação por se recusarem a ceder às demandas governamentais.
O mais interessante é que essa solidariedade não ficou restrita aos engenheiros e desenvolvedores. Pesquisadores de segurança de IA, designers de produto, gerentes de projeto e até profissionais de áreas administrativas se juntaram ao movimento. A mensagem coletiva é de que o apoio à Anthropic não se trata de defender uma empresa específica, mas sim de proteger um princípio que afeta toda a indústria: o direito de uma organização de tecnologia recusar demandas que conflitem com seus valores éticos sem sofrer retaliações institucionais.
O papel do Google e a sombra do Project Maven
Para o Google, essa nova onda de protestos reabre feridas antigas. De acordo com reportagem do New York Times, a empresa está em negociações com o Pentágono para levar seu modelo de IA Gemini a um sistema classificado do governo. Se isso se concretizar, seria um passo significativo que reacenderia uma briga interna que já dura anos dentro da empresa.
Mais de 100 funcionários do Google que trabalham diretamente com tecnologia de inteligência artificial teriam assinado uma carta à liderança da empresa na semana passada, expressando preocupações com o trabalho junto ao Departamento de Defesa. Eles pediram que o Google trace as mesmas linhas vermelhas que a Anthropic, ou seja, recusar o uso de sua IA para vigilância em massa ou armas autônomas.
Jeff Dean, cientista-chefe do Google, recebeu o memorando e aparentemente demonstrou simpatia com pelo menos parte das preocupações levantadas. Em uma publicação no X, Dean escreveu que a vigilância em massa viola a Quarta Emenda da Constituição americana e tem um efeito intimidador sobre a liberdade de expressão. Ele acrescentou que sistemas de vigilância são propensos a uso indevido para fins políticos ou discriminatórios.
Dean já viveu situações parecidas dentro do Google. Em 2018, a empresa enfrentou uma revolta interna por causa do Project Maven, um programa do Pentágono que utilizava inteligência artificial para analisar imagens capturadas por drones. Depois que milhares de funcionários protestaram, o Google deixou o contrato expirar sem renovação e, na sequência, estabeleceu seus famosos Princípios de IA, definindo como sua tecnologia poderia ser utilizada.
Mas a questão nunca se resolveu de fato. Em 2024, o Google demitiu mais de 50 funcionários após protestos relacionados ao Project Nimbus, um contrato conjunto de 1,2 bilhão de dólares com a Amazon para serviços ao governo israelense. Os executivos do Google sempre afirmaram que o contrato não violava os Princípios de IA da empresa. No entanto, documentos e reportagens mostraram que o acordo permitia fornecer a Israel ferramentas de IA que incluíam categorização de imagens, rastreamento de objetos e até provisões para fabricantes de armas estatais. Uma reportagem do New York Times de dezembro de 2024 revelou que, quatro meses antes de assinar o acordo Nimbus, funcionários da empresa já haviam alertado internamente que o contrato poderia prejudicar a reputação do Google e que os serviços do Google Cloud poderiam ser usados ou vinculados à facilitação de violações de direitos humanos.
Para complicar ainda mais, no início de 2025 o Google teria revisado seus Princípios de IA e removido a linguagem que proibia explicitamente a construção de armas e de tecnologia de vigilância. Essa mudança silenciosa reforçou as desconfianças internas e externas sobre a real disposição da empresa em manter limites éticos no uso de sua tecnologia.
A pressão do grupo No Tech For Apartheid e a questão dos contratos de nuvem
Na sexta-feira, o coletivo No Tech For Apartheid, conhecido por criticar contratos de computação em nuvem entre o governo dos Estados Unidos e as grandes empresas de tecnologia, publicou uma declaração conjunta com um título contundente: Amazon, Google e Microsoft devem rejeitar as demandas do Pentágono.
A coalizão pediu que as três líderes em infraestrutura de nuvem se recusem a aceitar termos do Departamento de Defesa que possibilitem vigilância em massa ou outros usos abusivos de inteligência artificial. O grupo também reivindicou maior transparência nos contratos envolvendo o Pentágono, o Departamento de Segurança Interna e o Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE.
O No Tech For Apartheid apontou diretamente para o Google, citando a possibilidade de um acordo com o Pentágono que poderia espelhar um contrato que já permite ao Departamento de Defesa utilizar o Grok, da xAI de Elon Musk, em ambientes classificados — até onde se sabe, sem nenhuma salvaguarda. A declaração alertou que as empresas estão à beira de aceitar termos contratuais semelhantes e que o Google está negociando para implantar o Gemini para usos classificados do Pentágono.
Enquanto Anthropic e OpenAI fizeram declarações públicas sobre suas negociações com o Departamento de Defesa e o status atual de seus contratos, a Alphabet, controladora do Google, se manteve em silêncio e não respondeu a múltiplos pedidos de comentário.
O contexto mais amplo: imigração, uso de IA e tensões no setor
A tensão entre o setor de tecnologia e o governo americano não surgiu do nada. Nos meses que antecederam a crise envolvendo a Anthropic, as relações já vinham se deteriorando por outros motivos. A crescente agressividade de agentes federais de imigração, incluindo a morte de dois cidadãos americanos em Minnesota no início do ano, intensificou as exigências dos trabalhadores de tecnologia por mais transparência sobre o que suas empresas fazem para o governo. Profissionais do setor passaram a questionar abertamente os contratos de computação em nuvem e de inteligência artificial fechados com agências governamentais, criando um clima de desconfiança que já estava efervescente antes mesmo da classificação da Anthropic como risco de segurança.
Esse cenário deixa claro que a questão vai muito além de uma empresa individual ou de um contrato específico. O que está em jogo é a própria relação entre as companhias que constroem as tecnologias mais avançadas do mundo e os governos que querem utilizá-las para projetar poder militar e controlar fronteiras. A cada semana que passa, novas revelações e novos episódios tornam essa relação mais complexa e mais carregada de consequências.
Por que esse debate importa para o futuro da inteligência artificial
Essa história vai muito além de uma disputa entre uma startup de IA e o Departamento de Defesa. Ela reacende questões fundamentais sobre quem controla as tecnologias mais poderosas do nosso tempo e quais devem ser os limites de sua aplicação. A inteligência artificial generativa avançou a um ponto em que seus modelos podem ser adaptados para finalidades que vão desde atendimento ao cliente até a identificação de alvos em cenários de combate. A linha entre uso civil e uso militar ficou tão fina que as decisões tomadas agora pelas empresas que lideram esse mercado vão definir o padrão para as próximas décadas.
Existe também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. O setor de defesa dos Estados Unidos movimenta centenas de bilhões de dólares por ano, e os contratos com empresas de tecnologia representam uma fatia cada vez maior desse investimento. Recusar esse dinheiro não é uma decisão trivial, especialmente para empresas que dependem de rodadas de investimento e precisam demonstrar crescimento constante. A Anthropic, ao abrir mão desse caminho, assumiu um risco financeiro real. E é justamente por isso que o apoio que ela recebeu de profissionais de outras empresas tem tanto significado — ele mostra que existe uma parcela significativa da indústria que valoriza princípios éticos acima de contratos lucrativos.
O cenário que se desenha agora é de uma tensão crescente entre governos que querem acesso irrestrito às capacidades mais avançadas de inteligência artificial e empresas que tentam manter algum controle sobre como suas tecnologias são usadas. Essa não é uma questão exclusiva dos Estados Unidos. Governos ao redor do mundo estão de olho nessa disputa, porque o resultado vai influenciar como a regulamentação de IA será construída globalmente. Se o Pentágono conseguir estabelecer que recusar demandas militares gera punições na cadeia de suprimentos, outras nações podem adotar estratégias semelhantes, criando um efeito dominó que reduziria drasticamente a autonomia das empresas de tecnologia.
O que esperar dos próximos capítulos
A mobilização em torno do caso da Anthropic ainda está em andamento e o número de signatários das cartas abertas continua crescendo. Historicamente, esse tipo de pressão interna dos funcionários tem produzido resultados concretos no setor de tecnologia. O caso do Project Maven, a revisão dos Princípios de IA do Google e as mudanças em políticas de uso de dados em outras empresas são exemplos de situações em que a voz dos trabalhadores forçou mudanças reais. O apoio coletivo a uma postura ética pode ser mais poderoso do que qualquer lobby corporativo, especialmente quando atinge massa crítica.
Por outro lado, o governo americano dificilmente vai recuar sem uma resposta. Já existem discussões no Congresso dos Estados Unidos sobre a possibilidade de criar legislação que obrigue empresas de inteligência artificial a cooperar com demandas de segurança nacional em determinadas circunstâncias. Se algo assim for aprovado, a decisão deixaria de estar nas mãos das empresas e passaria a ser uma questão legal. A Anthropic e outras empresas que compartilham dessa visão teriam que encontrar novos caminhos para defender seus princípios dentro de um arcabouço regulatório potencialmente desfavorável.
O que fica claro é que estamos vivendo um momento decisivo para a relação entre inteligência artificial e poder militar. As escolhas feitas agora — tanto pelas empresas quanto pelos governos e pelos profissionais que constroem essas tecnologias — vão moldar o futuro dessa indústria de maneiras que ainda não conseguimos prever completamente. E a mensagem que quase 900 trabalhadores de tecnologia enviaram ao assinar aquelas cartas é difícil de ignorar: a comunidade que constrói essas ferramentas quer ter voz sobre como elas são usadas 🔥
