A indústria automotiva chegou a um ponto de virada, segundo especialista em HMI
O design automotivo está passando por uma transformação que vai muito além da estética. Nos últimos anos, o digital tomou conta dos interiores dos veículos de um jeito que poucos imaginavam — telas por todo lado, interfaces touchscreen substituindo botões físicos e experiências cada vez mais conectadas. Quem entra em um carro moderno hoje se depara com um painel que parece mais com um cockpit de nave espacial do que com o interior tradicional que a gente conhecia há dez ou quinze anos. É impressionante, sem dúvida. Mas impressionante nem sempre significa funcional.
Tem um problema crescendo silenciosamente nessa evolução toda. À medida que as montadoras correram para digitalizar tudo o que estava ao alcance, uma lacuna foi se abrindo — discreta no começo, mas cada vez mais evidente para quem usa esses veículos no dia a dia. O software e o ambiente físico do carro nem sempre conversam bem entre si, e isso está criando uma experiência fragmentada para quem está atrás do volante. Você toca numa tela para ajustar o ar-condicionado, mas o feedback tátil não existe. Você tenta navegar num menu enquanto dirige e percebe que aquilo nunca foi pensado para esse contexto. O digital entrou, mas a integração ficou pra depois — e esse depois chegou.
Especialistas em HMI já estão acendendo o sinal de alerta: a indústria chegou a um momento decisivo, onde continuar empurrando digital sem pensar na integração com o hardware pode custar caro — e não só em dinheiro. Estamos falando de segurança, de distração ao volante, de satisfação do usuário e, no fim das contas, de reputação de marca. Montadoras que ignorarem esse ponto de virada podem ver seus clientes migrando para quem resolveu o problema de verdade.
É exatamente nesse cenário que surge o estúdio Östra, com uma proposta ambiciosa de unir UX, HMI e design de interiores sob o mesmo teto. 🚗 Fundado por Rob Dolton e Ben Guyer, veteranos de marcas como JLR, Lotus e Afry, o estúdio chega com uma missão clara: resolver uma das maiores dores do design automotivo moderno.
O que a digitalização fez com o interior dos carros
Quando as grandes montadoras começaram a substituir botões físicos por telas e interfaces digitais, a lógica parecia óbvia: mais flexibilidade, visual mais limpo, possibilidade de atualizar o sistema via software sem precisar trocar peças. E funcionou — pelo menos na parte de vender carro. Os consumidores adoraram a ideia de ter uma central multimídia enorme no painel, com gráficos bonitos e conectividade com o smartphone.
O problema é que essa corrida pelo digital foi, em grande parte, guiada pela estética e pelo marketing, e não por uma análise profunda de como as pessoas realmente interagem com o veículo enquanto dirigem. O aspecto visual e a novidade tecnológica ganharam prioridade sobre a usabilidade real, e durante um bom tempo o mercado seguiu nessa direção sem questionar muito.
O resultado prático disso aparece nas avaliações de usuários, em estudos de usabilidade e até em dados de segurança viária. Funções que antes eram executadas por toque direto num botão físico — com zero necessidade de olhar para o painel — passaram a exigir que o motorista navegue por menus, leia rótulos em tela e confirme ações com toques precisos numa superfície de vidro. Isso aumenta o tempo de distração, eleva a carga cognitiva e coloca em xeque toda a proposta de valor da digitalização.
Não adianta ter uma tela de 17 polegadas se o motorista precisa tirar o olho da estrada por três segundos para ligar o aquecedor do banco. Essa desconexão entre o que a tela oferece e o que o contexto de direção permite é o coração do problema que o design automotivo digital precisa enfrentar agora.
A tecnologia avançou rápido demais sem esperar pela disciplina de UX e HMI acompanharem no mesmo ritmo. E o gap entre o que as telas prometem e o que elas entregam na experiência real de uso ficou cada vez mais evidente. É nesse ponto que a conversa sobre integração entre software e hardware se torna não só relevante, mas urgente.
O caso do Lotus Eletre como exemplo visual
Um exemplo que ilustra bem essa tensão entre digital e físico é a tela slim do passageiro no Lotus Eletre, ladeada por tecido. Esse detalhe de design mostra uma tentativa de harmonizar a presença de uma tela com a materialidade do interior — o tecido ao redor suaviza a frieza do vidro e cria uma transição visual mais orgânica. É um indicativo de que algumas marcas já perceberam que jogar uma tela no painel sem pensar no entorno não funciona mais. A integração entre materiais físicos e superfícies digitais precisa ser pensada como um sistema, não como peças soltas coladas lado a lado.
UX e HMI: disciplinas que o automotivo não pode mais ignorar
Durante muito tempo, o design de interiores automotivos foi dominado por engenheiros mecânicos e designers industriais. A lógica era a do objeto físico — ergonomia, materiais, acabamento, posicionamento de controles. Com a digitalização, um novo player entrou em cena: o designer de interfaces e o especialista em experiência do usuário.
Mas em muitas montadoras, esses dois mundos ainda operam de forma separada, como departamentos que mal se falam. O time de UX cria a interface digital sem necessariamente entender as restrições físicas do cockpit. O time de design de interiores define o espaço sem considerar como o fluxo de interação digital vai se comportar naquele ambiente. O resultado é o que a gente vê nos carros de hoje: uma colcha de retalhos onde o digital e o físico não se complementam.
HMI — ou Human-Machine Interface — é exatamente a disciplina que deveria fazer essa ponte. Ela trata da forma como o ser humano interage com máquinas, considerando tanto os aspectos físicos quanto os digitais dessa relação. No contexto automotivo, isso significa pensar em como o motorista recebe informações, como ele executa comandos, qual é o nível de atenção exigido para cada interação e como minimizar a fricção em situações de uso real.
É uma área que mistura psicologia cognitiva, engenharia de sistemas, design visual e conhecimento profundo do contexto de uso — no caso, um ambiente em movimento, com demandas de atenção dividida e variáveis imprevisíveis como trânsito, clima e condições da via. A complexidade é enorme, e subestimar essa complexidade é o que tem levado muitas montadoras a entregar experiências digitais que parecem boas no showroom, mas frustram na estrada.
O que especialistas da área têm defendido com cada vez mais veemência é que UX e HMI precisam deixar de ser disciplinas de suporte e passar a ocupar um papel central no processo de desenvolvimento do veículo. Não dá mais para tratar a experiência do usuário como uma camada que se aplica por cima do produto pronto. Ela precisa estar presente desde as primeiras decisões de arquitetura do sistema, influenciando tanto o hardware quanto o software.
É essa mudança de mentalidade que o Östra representa — e que a indústria como um todo vai precisar adotar se quiser que o carro do futuro seja, de fato, melhor para quem dirige. 🎯
O Östra e a aposta na integração total
O estúdio Östra nasce com uma proposta que é, ao mesmo tempo, simples de explicar e complexa de executar: tratar UX, HMI e design de interiores como uma coisa só, não como três disciplinas separadas que se encontram apenas no final do processo. Rob Dolton e Ben Guyer carregam na bagagem anos de experiência em marcas que são referência no setor.
A JLR é reconhecida pela sua tradição em interiores sofisticados, onde materiais nobres e acabamento artesanal sempre tiveram papel de destaque. A Lotus, por outro lado, é conhecida pela engenharia orientada ao desempenho e à leveza, com uma filosofia que historicamente prioriza a essencialidade sobre o excesso. Já a Afry traz um histórico forte em consultoria de engenharia e design industrial, com atuação ampla em projetos de inovação tecnológica. Essa combinação de backgrounds cria um perfil raro no mercado: profissionais que entendem de física, de digital e de comportamento humano ao mesmo tempo.
A proposta do estúdio parte de um diagnóstico claro sobre o estado atual do design automotivo digital. Enquanto a maioria das empresas trata o interior do veículo como um conjunto de partes — o painel, a central multimídia, os controles, os assentos — o Östra quer encarar tudo isso como um sistema unificado de experiência. Isso significa que a decisão sobre onde posicionar uma tela não é só uma questão estética ou ergonômica, mas também influencia como o fluxo de navegação digital vai ser estruturado.
Da mesma forma, a lógica de um menu ou de uma notificação no sistema precisa considerar o que o motorista está fisicamente fazendo naquele momento e o que o ambiente ao redor exige de atenção dele. Não é suficiente criar uma interface bonita — ela precisa funcionar no contexto real de uso, com todas as suas limitações e demandas.
O que diferencia o Östra de outros estúdios
Essa visão holística é o que diferencia o Östra de um estúdio de UX convencional ou de uma consultoria de design de interiores tradicional. A aposta é que o mercado automotivo está maduro o suficiente para reconhecer que a fragmentação entre essas disciplinas é um problema real — e que existe demanda por quem consiga entregar integração de verdade.
Com o avanço dos veículos elétricos, que eliminam boa parte da mecânica tradicional e abrem muito mais liberdade para repensar o interior do carro do zero, o timing do Östra parece bastante estratégico. O carro elétrico é essencialmente uma plataforma tecnológica sobre rodas, e quem define a experiência dentro dele tem um poder enorme sobre como o usuário vai se relacionar com aquela marca. 🔋
O fato de que os veículos elétricos não precisam acomodar motores a combustão volumosos, túneis de transmissão ou escapamentos complexos libera espaço físico e liberdade projetual que simplesmente não existia antes. O interior pode ser repensado de forma radical, e nesse redesenho, quem dominar a intersecção entre o físico e o digital vai sair na frente.
O que muda para o motorista no fim das contas
No centro de toda essa discussão técnica sobre UX, HMI e integração de sistemas, existe uma pessoa: o motorista. E é para ela que qualquer evolução no design automotivo precisa fazer sentido de verdade. Não importa o quanto a interface seja visualmente impressionante ou tecnicamente sofisticada — se ela cria fricção, distração ou frustração no uso diário, ela falhou.
O usuário não quer saber se o sistema roda em um processador de última geração ou se a tela tem resolução 4K. Ele quer chegar no destino com segurança, conforto e sem a sensação de que passou os últimos quarenta minutos brigando com o carro para fazer coisas simples. Esse é um princípio básico de usabilidade que deveria guiar toda decisão de design, mas que nem sempre ganha a atenção que merece quando orçamentos de marketing e prazos de lançamento entram na equação.
Uma boa integração entre digital e físico no interior do veículo se traduz em coisas práticas e perceptíveis:
- Controles que fazem sentido onde estão e podem ser operados sem olhar para eles
- Feedback tátil ou sonoro que confirma ações sem precisar checar a tela
- Menus que seguem uma lógica intuitiva e não exigem memorização de sequências
- Informações apresentadas na hora certa e no lugar certo, sem sobrecarregar o motorista
- Transições suaves entre interações físicas e digitais, sem rupturas na experiência
É a diferença entre uma interface que respeita o contexto de uso — alta velocidade, atenção dividida, condições variáveis — e uma interface que foi projetada para impressionar em um showroom, mas não para funcionar bem na estrada.
O impacto na segurança e na percepção de marca
Existe também uma dimensão de segurança que não pode ser ignorada. Cada segundo que um motorista tira os olhos da estrada para interagir com uma tela é um segundo de risco. Estudos sobre distração ao volante mostram que interfaces mal projetadas contribuem diretamente para o aumento de situações perigosas no trânsito. Resolver o problema de integração entre digital e físico, portanto, não é só uma questão de conforto ou satisfação — é uma questão de preservar vidas.
Do ponto de vista de marca, a experiência dentro do veículo está se tornando um dos maiores diferenciadores competitivos do setor. Com a eletrificação nivelando muitas variáveis técnicas — autonomia, potência, eficiência — o que realmente separa uma marca da outra é como o motorista se sente usando o carro. E essa sensação é moldada, em grande parte, pela qualidade da interação entre o humano e a máquina.
Um ponto de virada que define o futuro do setor
Esse é o grande legado que iniciativas como o Östra podem deixar para a indústria: a consolidação de uma cultura de design automotivo que coloca a experiência humana no centro das decisões, desde o primeiro rascunho até o produto final que chega ao consumidor. Não é uma questão de preferência estética ou de tendência de mercado — é uma questão de responsabilidade com quem vai usar o veículo.
Nos próximos anos, a expectativa é que a convergência entre UX, HMI e design de interiores deixe de ser uma proposta de nicho e se torne um padrão da indústria. As montadoras que adotarem essa abordagem integrada mais cedo terão vantagem competitiva significativa, tanto na percepção do consumidor quanto na eficiência de seus processos de desenvolvimento. Afinal, projetar o digital e o físico juntos desde o início tende a reduzir retrabalho, acelerar ciclos de validação e entregar resultados mais coerentes.
Com o ritmo acelerado de inovação que o setor automotivo vive hoje, esse ponto de virada pode definir quem vai liderar o próximo capítulo do design digital nos carros. E pelo que o Östra está propondo, a resposta pode vir de quem entende que o futuro não é sobre mais telas — é sobre experiências melhores. 🚀
