O Burning Man sempre foi aquele evento que parece existir fora do tempo e do espaço.
Todo ano, setenta mil pessoas se deslocam para o deserto de Black Rock, em Nevada, para deixar os problemas do mundo lá fora e montar uma cidade temporária que funciona na base da troca, da criatividade e de uma economia completamente diferente do que estamos acostumados. Não existe dinheiro circulando por ali, não existe propaganda, não existe consumo no sentido que conhecemos. O que existe é uma comunidade inteira construída sobre princípios que desafiam boa parte daquilo que o mundo moderno representa, e isso por si só já seria suficiente para tornar o evento fascinante.
Mas tem um paradoxo interessante acontecendo ali que poucos param para pensar. A cidade temporária no deserto já foi um oásis para quem queria fugir do mundo tech que estava colonizando San Francisco. Quarenta anos depois, porém, o Burning Man virou cada vez mais o lar dessa mesma turma de tecnologia que os frequentadores originais queriam deixar para trás. Hoje o evento opera com um orçamento de mais de 60 milhões de dólares por ano. Neste ano, inclusive, o lar espiritual do festival foi construído por um ex-CEO de tecnologia que largou o emprego para tocar o projeto.
E a dependência das parcerias tecnológicas só cresce, especialmente quando o assunto é energia solar e sustentabilidade. A meta não é pequena não: emissão líquida zero até 2030 🌱
Um problema de poluição que ninguém enxerga
Embora seja celebrado como o maior festival do tipo não deixe rastros do mundo, o Burning Man tem um problema de poluição. E não é só o lixo abandonado no deserto ou nas cidades vizinhas. Black Rock City tem uma pegada de carbono enorme. No seu pico diário, a cidade emite tanto dióxido de carbono por metro quadrado quanto o centro de Londres ou da Cidade do México.
Uma cidade temporária no meio do nada, montada e desmontada em questão de semanas, com geradores a diesel rugindo em cada esquina, com dezenas de milhares de carros chegando pela estrada e com instalações artísticas gigantescas que consomem energia o dia inteiro. O impacto ambiental real do evento é uma conta que a organização leva muito a sério, mesmo que a maioria dos participantes não perceba o tamanho do esforço que acontece nos bastidores.
É como George Reed III, diretor de regeneração do Burning Man, resume: é igual a qualquer outro MOOP, só que invisível. MOOP, ou matter out of place, é a gíria interna do festival para lixo ou sujeira jogada fora do lugar. A ideia de que a poluição de carbono é um tipo de lixo que você não consegue ver diz muito sobre a mentalidade da comunidade.
A Burning Man Project, a organização sem fins lucrativos que viabiliza o evento, está tentando reagir. Ela lançou grandes projetos de sustentabilidade para reduzir a dependência de geradores a diesel. Já houve avanços nessa área, com relatos de que mais pessoas estão migrando para a energia solar do que nunca, mas ainda falta um bom caminho até bater a meta de emissão líquida zero em 2030.
O paradoxo da decommodificação
O Burning Man funciona sobre dez princípios centrais, que vão da inclusão radical ao não deixar rastro. Apesar de tratar todos com o mesmo peso, o princípio da decommodificação é levado extremamente a sério. O evento opera numa economia de presentes, e a única coisa que você pode comprar com dinheiro real é gelo. Até o atendimento de saúde, num hospital bem equipado, é gratuito.
A própria organização define a decommodificação assim: para preservar o espírito da doação, a comunidade busca criar ambientes sociais que não sejam mediados por patrocínios comerciais, transações ou publicidade. Eles se colocam prontos para proteger a cultura desse tipo de exploração e resistem à substituição da experiência participativa pelo consumo.
Só que os princípios podem estar gravados na pedra, mas o Burning Man está mudando, para melhor ou para pior, e não são só os participantes. Onde os frequentadores estão comprometidos com a decommodificação, é difícil tocar um evento de 60 milhões de dólares sem um pouquinho de capitalismo envolvido. Para atingir suas metas de sustentabilidade, a organização passou a contratar justamente muitas das empresas de tecnologia daquele tipo do qual seus participantes estão tirando férias. 🔆
Um campo de testes para o futuro
Os fornecedores de tecnologia não seguem os mesmos padrões da economia de presentes. Eles recebem pagamento ou verbas pelos serviços, embora o Burning Man afirme que costumam ser pagos abaixo do valor de mercado e doam boa parte do próprio tempo. A organização tem sido seletiva com quem contrata, tentando escolher apenas empresas que acredita estarem alinhadas com os outros princípios centrais.
Ao mesmo tempo, ela pede que as empresas cubram seus logotipos nos equipamentos e não divulga os nomes das startups com quem trabalha na página de sustentabilidade do site. Segundo Reed, isso é um esforço para manter o espaço decommodificado para os participantes, mesmo que essas parcerias sejam importantes para manter a organização no rumo das metas ambientais.
É principalmente uma questão cultural, explica Reed, e eles não querem que Black Rock City vire tipo uma feira de negócios. A ideia é que o lugar seja de verdade um campo de testes de pesquisa e desenvolvimento para o futuro. E essa lógica muda completamente a dinâmica das parcerias tecnológicas, porque em vez de patrocínio tradicional, as colaborações funcionam mais como projetos de missão compartilhada.
ElectricFish e o teste em condições extremas
Um dos líderes de empresa que topa seguir as diretrizes de decommodificação é Anurag Kamal, CEO e cofundador da ElectricFish, uma startup de carregamento rápido para veículos elétricos. A empresa fabrica estações de recarga de rápida instalação que também conseguem devolver energia para a rede. A startup da Bay Area está no segundo ano de trabalho com o Burning Man, sendo o ano passado apenas de testes e este ano fornecendo recarga apenas para os veículos da organização.
Kamal diz que não se incomoda em ter que cobrir o logotipo. Para ele, a experiência é uma ótima oportunidade de testar a tecnologia nas condições hostis do deserto de Black Rock e, com isso, melhorar o produto. Segundo ele, se um dia chegarem à ubiquidade, alimentando a rede com um monte de carregadores espalhados, aí sim vão conversar com a organização e dizer que não querem mais esconder os logos. Mas por enquanto o objetivo é se adequar ao ethos, testar e fazer parte da comunidade.
LOKL Energy e a poeira que vira condutor
Para Louis Lalonde, CEO da LOKL Energy, se adaptar à cultura do Burning Man é fácil porque combina com as próprias prioridades de sustentabilidade dele. A empresa é uma pequena startup de energia eólica sediada em Austin, no Texas. Seus geradores portáteis usam turbinas eólicas além de painéis solares para captar energia de forma contínua, mesmo quando não tem sol. No festival, a tecnologia foi usada para alimentar ar-condicionado e refrigeração para os recepcionistas na entrada do evento.
Lalonde afirma que a sustentabilidade está no coração da LOKL Energy e que o princípio de não deixar rastro foi parte fundamental do design dos geradores. Assim como Kamal, ele vê a chance de testar a tecnologia num ambiente único. E a poeira do deserto de Black Rock não é um incômodo qualquer. Seu alto teor alcalino pode atuar como condutor quando molhado, o que é problemático para equipamentos que captam e armazenam eletricidade. Lalonde enxerga essas condições poeirentas e hostis como uma oportunidade empolgante. Ele adoraria ver o que acontece. 🔋
Uma nova missão nascida no deserto
Encontrar empresas capazes de se adequar à cultura do Burning Man não tem sido difícil. Para algumas, a organização só precisou olhar para o próprio quintal.
A Overdrive Energy Solutions praticamente nasceu no Burning Man em 2017. Hoje é uma das maiores parceiras de tecnologia do evento. A combinação de software e hardware de energia limpa da empresa permite que a organização opere de forma mais eficiente, dando uma visão em tempo real de quanta energia cada bateria está consumindo e prevendo, com base no uso, quando alguma precisa de recarga.
Enquanto outros lidam com a introdução de energia mais limpa, a Overdrive resolve um problema menos comentado: a superestimativa de quanta energia o Burning Man realmente precisa. Isso economiza uma quantia considerável nas contas de energia da organização.
O CEO e fundador da Overdrive, Neel Vasavada, se define primeiro como um Burner. Ele frequenta Black Rock City há anos e, em 2017, quis parar de usar gerador a gás para alimentar o ar-condicionado do próprio pod. Começou a montar uma versão rudimentar do sistema de monitoramento da Overdrive, e a tecnologia rapidamente cresceu do próprio abrigo para um camp inteiro de cerca de cem pessoas, chamando depois a atenção do Burning Man. Hoje a empresa trabalha em alguns dos maiores eventos de música, tendo acabado de atuar no Outside Lands e seguindo para o Portola logo depois da queima.
Segundo Vasavada, isso diz muito sobre o que a organização fez, permitindo que eles cruzassem a fronteira de participante para fornecedor. É isso que ele considera realmente incrível na organização e o motivo pelo qual sentem tanta conexão com ela. 🌞
Solarpunks: o silêncio no meio do barulho
Nas bordas de Black Rock City, uma história parecida acontece. Dirigindo até a estação de recarga na ponta da cidade, você passa por vários dos grandes camps de som, quase todos rodando geradores a diesel. Quando o grave alto não está batendo na playa, o zumbido incessante dos geradores se destaca. Mas ao redor da estrutura da Solarpunks reina um silêncio notável, quebrado apenas por conversas animadas de gente carregando bicicletas elétricas.
Christina Chu, Cory Johnson e Karin Campbell frequentam o Burning Man há anos. Eles não têm formação em tecnologia como Vasavada, mas agora comandam o maior conjunto de painéis solares que o evento já viu. A Solarpunks oferece recarga gratuita para veículos elétricos e bicicletas por meio de painéis de rápida instalação, tudo como um presente para a playa. O grupo começou com um camp 100% movido a energia solar, de cerca de cinquenta pessoas, em 2022. Johnson diz que foi o projeto mais difícil que já fizeram no festival.
Eles bateram na rocha e não conseguiam furar. Não tinham estrutura de sombra e pareciam uma zona de desastre, tudo muito tenso, conta Chu. Mas a energia nunca caiu, e eles ainda conseguiram doar energia para vizinhos e artistas diferentes.
Neste ano, a Solarpunks se expandiu bastante, fornecendo 1,1 megawatt de eletricidade para um quarteirão inteiro de Black Rock City, incluindo um dos maiores theme camps do Burning Man, o Discosmos. O grupo também eletrifica seis obras de arte na deep playa. E foi além do festival: levou parte dos equipamentos para atuar no socorro durante os incêndios de Los Angeles no ano passado.
Para o time, a missão da Solarpunks é inspirada no próprio Burning Man, e o futuro deles no evento é definido por quanto conseguem retribuir. Cada um teve a própria jornada com o festival numa vida que amam, diz Johnson. A Solarpunks foi o desejo de ter um camp e construir uma comunidade de amigos e pessoas alinhadas, com experiências compartilhadas, mas de um jeito que trouxesse um pouco de propósito, algo como uma nova missão. 🏜️
A estrada longa até 2030
A meta de emissão líquida zero até 2030 é ambiciosa a ponto de parecer quase irreal quando você considera o tamanho do desafio logístico. Setenta mil pessoas chegando de carro, avião e ônibus a um deserto no meio do nada, carregando toneladas de materiais e gerando resíduos em escala industrial durante uma semana inteira.
O que a organização pode controlar de forma mais direta é o que acontece dentro de Black Rock City, e é aí que as iniciativas de energia solar e as parcerias tecnológicas fazem mais diferença. A eletrificação progressiva da infraestrutura do evento, a substituição de geradores a diesel por sistemas híbridos, o incentivo para que os grandes camps adotem fontes renováveis e a gestão mais eficiente de energia, tudo somado já representa uma redução mensurável no impacto ambiental total. Mas ainda está longe de zero, e o relógio não para.
O que torna essa jornada interessante de acompanhar é que o Burning Man funciona como um espelho acelerado de problemas que cidades reais também enfrentam. Como descarbonizar uma infraestrutura energética existente sem parar as operações? Como convencer uma comunidade diversa a adotar novas tecnologias que mudam hábitos estabelecidos? Como equilibrar custo, performance e impacto ambiental em condições adversas? As respostas que surgem no deserto de Nevada têm potencial de informar soluções para contextos bem maiores, e esse talvez seja o argumento mais forte para continuar investindo nessas parcerias silenciosas, independentemente de qualquer paradoxo filosófico entre a decommodificação e a chegada da tecnologia limpa à playa.
